Totentanz

3 Capítulo Dois


Bunker Beta, 12:00 AM

Estava tudo devastado. A ala A, reduzida a cinzas e fuligem. O papel de parede queimado e descascando, formando rolos secos no rodapé. Manchas de gasolina no assoalho e o cheiro de morte estava deixando Sin doente.

A garota perguntara porque estava tão quente na mata, ela sentira que havia algo errado com aquele mormaço. Isso era por que, sem outras escolhas, Sin ateou fogo na sala de arquivos. Um incêndio no bunker, uma vez que subterrâneo, aqueceria a terra em cima, deixando o ambiente seco e quente.

O risco da polícia achar os documentos que incriminavam Sin não podiam ser corridos, e, mesmo que ali estivessem todas as provas que ela precisava contra Carmine, ela não podia arriscar. Sua segurança era mais importante.

Ela não contava, é claro, com o gerador movido à gasolina no corredor.

É verdade, fora um deslize sério, um erro que ela jamais poderia cometer de novo — o que M diria? Ela fora treinada para ser profissional. Ele se sentiria envergonhado. Descontrole de fogo Sin, ele cuspiria no chão, você é uma vergonha. Não consegue nem controlar a própria gasolina. Você é um vexame. Você me desonra.

A menina está abismada. Ela passa os dedos pela madeira queimada e há horror em seus olhos. Não diz uma palavra. Sin a observa. A deixa ir na frente, explorar o lugar, a acompanha silenciosamente e de cabeça baixa. Segura as próprias mãos nas costas e engole em seco, enquanto seu ambiente de trabalho paira em poeira e buracos de balas.

Sin, porém, não se arrepende. Ela sabe que a queima foi necessária e que a garantiu um futuro longe das grades, pelo menos por enquanto; mas uma pergunta continua rondando seus pensamentos.

De onde veio esse fogo?

A sala de arquivos, o alvo do fogo, fica na última porta à esquerda, após o corredor de entrada da ala A. Sin se lembra claramente de alvejar apenas a sala de arquivos, mas agora toda a área antes do corredor e o corredor em si estavam queimados. Ela não entende como isso aconteceu.

Lhe parece estranho que, após cinco anos como incendiária, sem cometer um único erro, de repente uma chama se espalhe num rastro de um corredor. Sin sabia que era boa, sabia que não deixara gotas de gasolina ou pólvora enquanto passava e, era impossível que o fogo a tivesse seguido — ela não carregava nenhuma bebida alcoólica.

E se, durante a tomada do bunker, alguém molhou o corredor para fugir entre as chamas?

E foi então que uma ideia lhe ocorreu.

Estopim e Jockey.

Por isso ela não os viu fugindo após ou antes do ataque, enquanto espiava na Toca do Coelho; eles haviam escapado no momento em que acontecia.

O fogo era uma distração perfeita. Queimando os lugares certos na entrada de um corredor, era possível criar uma parede de fogo, era possível atravessar sem se queimar.

É claro que, Estopim já a tinha visto fazer isso antes, quando saiam para danificar a Cidade Alta. Quando iam quebrar estátuas, pichar monumentos e atear fogo em casas e carros, espalhando a insatisfação com aquele plano de corrupção que chamavam de Ordem Governamentista, e precisavam de uma saída estratégica caso a polícia resolvesse brincar.

Sin havia feito paredes de flama diversas vezes com Estopim, já que ele entrava em pânico e não sabia como agir — tinha pernas compridas demais e era desajeitado para correr -, ela tomava conta da situação quase sempre.

Mas Estopim não saberia recriar uma parede de flama mesmo se ela o instruísse; ele colocaria fogo nas próprias calças antes de acender um fósforo (ela se lembra de ocasiões que comprovam isso). Mas Jockey saberia. Se Estopim descrevesse o processo, Jockey o faria de olhos fechados.

Nesse caso, Sin ficava mais tranquila. Antes culpa de outra pessoa do que dela mesma. M não podia culpá-la por isso.

Não por isso .

A garota estava olhando para ela.

O olhar dela sempre deixava Sin desconfortável, como se fosse responsável por uma criança. Como se precisasse ser o exemplo ali.

"O que foi?"

A menina cruzou os braços.

"Não vai me explicar o que aconteceu aqui?" Pergunta Sam. Há um tom de seriedade em sua voz. Sin se pergunta se aquela fora uma boa ideia. Ela estava trazendo uma estranha para sua realidade, e para piorar, essa estranha era a irmã de Josh; se algo acontecesse com ela, Josh iria matá-la.

E foi então que Sin percebeu, aquele havia sido um erro terrível. Ela acabara de se tornar totalmente responsável por aquela garota, por que, se qualquer coisa acontecesse com ela, Sin estaria perdida. Josh não hesitaria em matá-la — e ainda poderia mover os pauzinhos para incriminá-la pelo Vírus, e por todos os outros crimes cometidos pelo Cartel 68. Onde ela estava com a cabeça quando pensou que seria uma boa ideia?

Ninguém jamais poderia saber que fora Sin quem entregaria a menina à Carmine. Esse segredo teria que morrer junto com ela.

Ela ainda encarava Sin. Sua postura estava reta e ela parecia muito mais adulta ali, dentro de uma jaqueta marrom — Sin não sabia direito o quê era jaqueta e o quê era cabelo, as cores eram muito parecidas naquele escuro.

Sin suspirou, a ânsia que sentia dentro de si só aumentava com o peso da responsabilidade. O pior de tudo era não poder voltar atrás e deixar a menina em casa, dar-lhe outra pancada na cabeça para ver se esquecia aquilo e ir atrás do que Carmine a ordenara. Mas, de qualquer jeito, a menina não a deixaria mais em paz após saber do irmão desaparecido.

Sin teria que continuar com o plano. Paradas no hall central, onde ficavam as mesas de trabalho, ela começou a procurar pelos arquivos que a voz lhe contou.

"Esse é o Bunker Beta. É aqui onde seu irmão trabalhava. Onde eu trabalhava", a voz de Sin morreu.

A garota parecia abismada. Girava o pescoço de um lado para o outro como se não acreditasse nas palavras de Sin. Até mesmo ela precisaria de um tempo para engolir a verdade após aquela mentira que Josh contou.

Não deixava, porém, de ser cômico. Faculdade de direito enquanto infligia a lei. Inteligente Josh.

Sin continuou:

"O que você vai ouvir aqui é coisa séria, você não pode contar para ninguém nem que sob ameaça, entendeu?"

Ela se certificou de parecer extremamente perigosa na última frase, chegou perto o bastante para ouvir a garota prendendo o fôlego e seus olhos se arregalando mais e mais até chegarem no limite. Ela balançou a cabeça repetidas vezes, assentindo.

Sin se afastou e mudou de mesa, vasculhando gavetas, pastas, livros, lixos, debaixo de cadeiras, mesas, tapetes. A garota lhe dava total atenção agora.

"Aqui residia o Cartel 68, era, por dizer, uma base. O Cartel era formado por oito pessoas: seis agentes em massa, um líder e um organizador. Seu irmão e eu eramos agentes em massa; trabalhávamos aqui. Nessa área."

A ruiva olhou em volta.

A voz havia mandado Sin revistar o bunker atrás de algo. Disse que a ficha estaria sobre uma das mesas, mas não disse que seriam as de trabalho. Sin tentou pensar, haviam várias mesas espalhadas pelo bunker, alas demais para se explorar, tomaria muito tempo. Ela precisava pensar.

A pessoa da voz provavelmente deixara o perfil no bunker após intrusão policial, e ela provavelmente teria reparado o fogo também, já que era a primeira coisa a se ver da entrada principal. A não ser que a pessoa tivesse tacado fogo ali para fazer Sin pensar que Estopim o fizera.

Não. Não podia ser, aquela queimada não era recente. As manchas de gasolina estavam secas na madeira por pelo menos um dia.

A garota está encarando Sin, calada. Esperando o resto da história.

"Duas noites atrás, houve uma revolta. Alguém ativou o vírus em nosso sistema, o que danificou todo o nosso trabalho e o projeto teve de ser interrompido. Horas depois, fomos atacados. Nosso líder e organizador foram presos. Seu irmão e os outros membros da equipe sumiram."

A menina parecia interessada.

"Um vírus?"

Sin estava jogando no chão o que havia em cima das mesas.

"Não é zumbi, se é o quê você está pensando. O Vírus J foi ativado nesse dia, seu irmão achava que ele já fora implantado há muito tempo. E, apesar de inteligente, nem Josh conseguiu desativar a tempo. Antes de fugir, ele me contou que havia um código que poderia abrir o vírus para que pudesse ser desligado. A última coisa que ele me disse foi para achar o código", Sin sentou-se. Estava cansada.

"O que você está procurando?"

Ela olhou para a garota. Parecia intrigada.

"O perfil. Disseram que estaria em uma das mesas mas eu não o encontro."

"Com o quê se parece?"

A garota se desencostou de uma mesa e começou a procurar, mesmo antes de Sin responder. Mesmo sem explicar o que era o perfil, ou pra quê servia. Observou-a por um tempo. Poderia ser impressão sua, mas aquela garota estava com boas intenções. Mesmo acompanhada de uma estranha, indo para um lugar que não sabia, sem saber o quão perigoso seria, em busca do irmão mentiroso.

Eram, definitivamente, boas intenções.

"Procure uma pasta com um número e um nome. Dentro deve haver a ficha dessa pessoa."

A garota assentiu que entendeu e começou a abrir gavetas. Ela tinha unhas arredondadas e não estavam pintadas. Suas mãos eram finas e pálidas, mas não tão delicadas quanto Sin esperava de uma garota como ela. Mãos de quem trabalha.

Ela constantemente afastava uma madeixa ruiva que insistia em cair sobre seu rosto e, quando se cansou e parou para prender o cabelo, Sin viu que ela tinha sardas na nuca também, não apenas nas maçãs do rosto.

Eram, de certa forma, adoráveis.

Sin pegou-se sorrindo levemente. Apagou esse sorriso o mais rápido que pôde.

"Qual seu nome, de novo?"

A garota parou e olhou para ela.

"Minha memória não é das melhores", desculpou-se.

A menina continuou olhando-a nos olhos.

"Sam."

Sin assentiu. Uma pequena ruga de sorriso apareceu em seu rosto, mas ela não a mostraria para Sam, então virou a cadeira e levantou-se para continuar a busca.

Tentando se concentrar novamente, Sin parou para pensar.

Se a voz fosse realmente inteligente, ela saberia que Sin ficaria incomodada com a queimada no corredor. Sabia que infligiria seu orgulho e a deixaria perturbada. Talvez, se fosse mais esperta do que Sin pensava, saberia que Estopim já tinha visto a parede de flamas.

Ela saberia sobre Estopim.

Estopim.

"A mesa de mapas!", Sin olhou para Sam. "O perfil está na mesa de mapas!"

Sin disparou pelo corredor norte, rumo à mesa de mapas e computadores. Era onde Estopim trabalhava e onde, as vezes, Jockey ia para jogar uma ou duas partidas de pôquer com ele e Josh.

A porta estava aberta. Sin entrou, Sam logo atrás. Ao entrar, deram de cara com sete monitores acessos, em tela azul. Os códigos do vírus ainda estavam abertos. Estopim estava tentando decifrá-los antes do ataque.

Sin se dirigiu ao meio da sala, na mesa central ficavam os mapas, do bunker, da mata, da cidade — a versão de ruas, férrea, de encanamento e divisão de bairros — e plantas de futuros projetos e atentados.

Aquela era a mesa de Estopim. Planos de carros que ele planejava importar e repassar estavam abertos em fichas na mesa. A organização deles no estacionamento em versão de planilha. O trabalho dele estava ali.

Observação, Carlos não estava. Aparentemente, durante o ataque, Estopim tomara o cuidado de voltar à sala de mapas e levar seu cacto de estimação junto.

"De quem era essa sala?" Pergunta Sam.

Sin estava passando os olhos pelos papéis na mesa, procurando o perfil.

"Estopim. Ele cuidava da parte de transporte e mapeamento dos atentados. Importava os carros necessários sem que ninguém soubesse de onde vinham ou como eram pagos. Ele também divulgava e espalhava a reputação nas ruas", Sin sorriu. Sempre gostara de Estopim. "Um verdadeiro gênio."

Sam estava observando os mapas.

"Você acha que ele morreu?"

Sin continuou sorrindo.

"Não. Estopim foi um dos primeiros membros do Cartel, logo após Piper criar toda a coisa. Conhece esse lugar como a palma de sua mão."

"Quem é Piper?"

"Nosso organizador."

"Interessante."

Sin ergueu seus olhos para Sam.

"É", ela trincou o maxilar. "Nem tanto."

Sam olhou para ela.

"O que você quer dizer com…"

Sam parou de falar por que os olhos de Sin se arregalaram e ela se afastou da mesa. Estava ali. Em cima da bancada de computadores de Estopim. A ficha.

O primeiro alvo.

Sin correu até lá e o abriu, louca de ansiedade. Mas quando leu o nome teve uma surpresa.

Ela sinceramente estava esperando que o primeiro perfil fosse de Estopim. Após toda aquela conexão com ele e o fogo no corredor, e também o fato do perfil estar na sala dele; mas estava no nome de outra pessoa.

Jockey.

Carro da Sin, 14:20 PM

O carro da Sin era algo para se pensar.

Sam não sabia o modelo ou o ano do carro, não havia nome atrás também, como se fosse um modelo único ou feito apenas para Sin. A lataria era preta e lustrosa e os bancos eram de couro. Era engraçado como o carro combinava perfeitamente com a dona, preto e couro.

Ela queria mais tempo para conhecer Sin. A garota tinha dito que precisariam fazer uma coisa antes de ir atrás do homem no documento, e enquanto dizia isso, entregava galões de gasolina para Sam guardar no porta-malas do carro — que era bem espaçoso, aliás. Enquanto Sam guardava a bagagem, Sin iria “ali e já voltava”.

Haviam, no mínimo, treze galões. Junto à eles estavam três latas pretas, facas e um revolver. Quando Sam o pegou nas mãos para ver de perto, Sin apareceu atrás de si e tomou a arma de sua mão. “Não brinque com isso.” ela disse. O cabelo molhado, roupas trocadas. A pele úmida. Ela havia tomado um banho? Incrível. Ela ganhava uma chuveirada enquanto Sam carregava galões.

Elas estavam na estrada agora.

No banco traseiro, jaquetas, embalagens de comida, mais facas e um bastão de baseball. Sam já estava familiarizada com o último.

"E então, quem é esse cara que estamos atrás?" Perguntou Sam, puxando assunto.

Sin ficava realmente séria quando dirigia. Quase sempre, seu maxilar estava trincado e ela mantinha as duas mãos altas no volante, como quem aposta uma corrida séria. As seis balas ainda estavam em seu colar, por cima da camiseta branca. Sam estava se controlando para não perguntar das balas.

"Jockey é um apostador" respondeu Sin. "Ele vai estar na Estação Gasolina agora."

Sam assentiu, um pouco decepcionada. Ela estava esperando uma descrição rápida do sujeito, como havia feito com Estopim.

"Só?"

Sin olhou para ela, uma sobrancelha arqueada.

"O que quer saber?"

Sam passou a língua pelos lábios e abriu a boca.

"Bem, eu esperava um pouco mais de informação. Como você fez com Escarpim."

"Estopim", ela corrigiu prontamente.

Sam sorriu.

Sin olhou de relance para a garota e abriu um meio sorriso. Ela parecia extremamente fresca, como se tivesse acabado de sair de um lago. Como se sua pele tivesse gosto de menta.

"Jockey ficava responsável pela parte monetária de jogos e rankings online com Josh; se seu irmão era o nerd, Jockey era o nerd profissional. Antes de entrar no Cartel 68, ele começou a ganhar dinheiro online com jogos e roubos, acessos de contas e htlms fraudados. Isso até Piper achá-lo apostando em um beco e fisgá-lo para o projeto. É extremamente competitivo e calculista."

—E por que temos que ir atrás dele?

Sin estava com os olhos fixos no para-brisa novamente.

"Por que Carmine acha que ele pode ter lançado o Vírus."

"Quem é Carmine?"

"Um italiano filho da puta."

A agora virou a cabeça para olhar para Sam. Estava sorrindo.

A diferença de sorrisos entre Sam e Sin era que Sam sorria com todos os dentes, sorria de verdade, sem segurar, enquanto Sim nem abria a boca. Mas tinha alguma coisa naquele sorriso que fazia Sam se sentir hipnotizada.

Ela puxava um canto da boca para cima, e, quando fazia isso, seu riso saia mais como um rosnado.

"O que você está fazendo?"

Sam parou. Ela estava tentando imitar o sorriso de Sin sem notar.

"Eu estava tirando um pedaço de carne do meu dente."

Sin continuou encarando-a de lado, a cabeça ligeiramente tombada para a direção de Sam, o sorriso de meia lua, o cabelo molhado pingando na nuca.

"Entendo", e virou seus olhos para o horizonte.

"Então, esse o que esse Carmine tem a ver com o vírus?", perguntou Sam, voltando à conversa.

Sin lambeu os lábios.

"Bem, Carmine é o líder do Cartel, então quando o vírus foi ativado, ele foi prejudicado. E preso", Sin sorriu. "É."

"E vocês usavam esse vírus pra quê?"

"Para roubar. Mas quando o ativaram na sede do Quartel, os dados que a polícia queria ficaram disponíveis. Foi só seguir os rastros até nos encontrarem."

"Então nós vamos atrás do Jockey para perguntá-lo se foi ele quem ativou?"

Sin riu. Um riso aberto dessa vez. Fora a primeira vez que ela rira daquele jeito.

Ela riu como Sam ria.

"Perguntar, sim."

Sam lembrou-se do bastão no banco de trás.

"Você não pretende matar o homem, certo?"

Elas se olharam. Havia uma pitada de humor no olhar de Sin.

"Não. De jeito nenhum."

Sam sorriu, aliviada.

Sin sorriu também, mas um tipo diferente de sorriso.



Estação Gasolina, entrada, 15:30 PM

A Estação Gasolina estava deserta, como sempre, exceto por um grupo de viciados jogando baralho. O homem que Sin queria estava entre eles.

Adam Wentz. Adam era um molestador, obcecado em encontros regulares com prostitutas e garotas na faixa de quinze anos. Ele as levava para um container nas docas e elas não eram mais vistas. Tudo o que restava no dia seguinte eram as roupas das meninas, flutuando na água.

Adam Wentz estava nas docas no dia em que aconteceu. Ele estava na primeira fila do julgamento, no dia seguinte. Ele estava na lista, hoje.

"É o seguinte ruivinha, eu preciso resolver um assunto antes de encontrarmos Jockey. Não vai demorar."

Sam olhava para ela. É claro que não era Jockey naquela estação. Ela não caçaria Jockey.

"Tudo bem. Onde vamos?"

Sin se debruçou sobre o banco e pegou seu bastão. Beatrice estava marcado na madeira, escrito com um canivete. Fruto de uma tarde interessante com uma bela italiana foragida, onde Sin encontrara a arma.

A garota não achou tão interessante assim.

"Você vai ficar aqui."

Sam murchou.

"Mas eu quero ir. O que você vai fazer com isso? Sin."

Sin olhou para ela nos olhos.

"Você vai ficar aqui. Não importa o que ouça, não importa o que veja, você precisa ficar aqui. Entendeu?"

"Por que eu não posso ir?", insistiu. "Eu não sou uma criança."

"Não se meta nos meus negócios garota", Sin ordenou. Sam engoliu em seco. Em seus olhos, Sin viu desacordo.

Ela saiu do carro com Beatrice e foi até o porta-malas. Um galão apenas.

Voltou à janela e olhou para a ruiva, Sam parecia estar mordendo a própria língua.

"Eu não demoro."



Estação Gasolina, 15:40 PM

Sin caminhou até o grupo de senhores que jogavam cartas carregando um galão de gasolina em uma mão e na outra o bastão, arrastando na terra atrás de suas botas.

Havia algo no jeito q ela andava que fazia Sam suar frio, como quem se aproximasse para saudar uma dívida. Como quem estava prestes a matar alguém.

E o jeito que ela havia falado também deixou Sam incomodada, “não se meta nos meus negócios, garota”. Bastava dizer que não queria que ela fosse junto, não precisava ser tão dura. Por que Sin insistia em chamá-la de garota? Ela sabia seu nome! Era tão hostil, como se não gostasse dela.

Sin se aproximou dos homens. Um deles levantou e sorriu, olhando a de cima a baixo descaradamente, e Sin estava contribuindo, estufara o peito como um pavão e até Sam, que estava no carro, longe o bastante para vê-los pequenos, percebeu como a menina chamava atenção em meio àqueles homens e poeira. Ela se sentia desconfortável.

Tudo bem, Sin estava sexy. O cabelo curto ainda úmido, penteado pra trás, e a blusa branca, com as mangas dobradas, transparente o bastante para ver seu umbigo — pelo visto não fora só o cabelo que ela havia molhado -, ela era o tipo de garota que aparece de vez em nunca num lugar como aquele. Sin, mesmo de longe, chamava atenção.

Sam realmente não queria imaginar o que aqueles homens estavam pensando. A ideia a deixava enjoada. O sorriso de Sin perante aquela situação a deixava enjoada.

Ela chacoalhou o galão de gasolina como se estivesse vazio e um dos senhores a acompanhou até uma bomba velha no meio da plataforma. Andavam devagar e a imagem dos dois no meio de toda aquela poeira e mormaço era embaçada. Sin tomou o gatilho da bomba da mão do homem e fez questão de enfiá-lo no buraco do galão, insinuando obscenidades. Ela se apoiava no bastão e se esticava como um gato se espreguiçando. Uma perna sustentava a maior parte do peso e a outra estava dobrada próxima do corpo, do jeito como ela estava inclinada, seu quadril parecia três vezes maior.

O homem sorria como uma criança.

Sam estava chocada.

Quando se levantou, Sin roçou o bastão na perna esquerda do homem e sorriu para ele. Foi o sorriso de meia lua. Foi absurdo o quão rápido eles se dirigiram para dentro da loja de conveniências. O bastão arrastando na terra enquanto andava.

O que Sam sentiu foi além de nojo. Ela estava abismada e um pouco impressionada, por que ela faria algo assim? Aquilo era uma parada para sexo? Ela deixara Sam esperando no carro só para fuder um cara qualquer no meio do nada?

Mas então um barulho de disparo ecoou. Sam se assustou, seu coração disparou e ela saltou no carro. Sin devia ter uma arma no bolso e…

Sin não estava de jaqueta. Não havia arma nenhuma em suas costas e ela não havia pegado nenhuma no porta-malas.

Ela fora atingida. Ela poderia estar morta nesse momento.

Sam entrou em desespero e desceu do carro. Ela abriu a porta e correu para a estação o mais rápido que pôde. Os homens que antes jogavam cartas estavam de pé, eram mais três, e se aproximavam da loja ao mesmo passo que Sam. Ela não queria entrar ali. Não queria ver o corpo de Sin no chão. Não queria ficar sozinha com quatro homens no meio do nada. Ela não queria estar sozinha.

Mas então algo inesperado aconteceu. Houve uma explosão.

A loja de conveniências explodiu, e Sam foi lançada para trás no impulso. Quando seu corpo bateu no chão, ela sentiu o corte na cabeça abrir e seus ouvidos apitarem. Tudo ficou embaçado e em sua boca, o gosto de cobre. Sua cabeça rodou e sua garganta fechou.

Viu o corpo turvo de Sin sair pelos fundos, limpando o bastão com um pano. Quando a viu, Sin largou o bastão no chão e correu até ela.

Sin estava viva. O alívio no peito de Sam foi massivo.

"Imbecil!" Ela gritou. "Eu mandei você ficar no carro!"

Sam estava vendo um enorme borrão de cabelos curtos xingá-la. Seus ouvidos estavam estourados e sua cabeça doía. Mas Sin estava viva!

"Ei. Ei, ei, ei. Garota! Olha pra mim!", Sin pegou Sam nos braços. "Ei!"

Ela estava tonta, havia sangue em suas mãos, e, quando sua cabeça parou de girar e sua audição se estabilizou, Sam se viu no colo de Sin, com a cabeça no peito da garota e a mão dela estancando sua ferida. Ela respirava rápido e seu cheiro era fresco. Ela estava quente.

Sentada, a primeira coisa que viu foi o sangue que agora havia em Sin. Sua camiseta branca agora tinha um aspecto vermelho e manchado.

"Ruiva, ei, acorde! Nós temos que sair daqui. Essa estação inteira vai explodir!"

Subindo um pouco mais havia o colar de Sin. O colar com as balas. Eram tão brilhantes.

Mas dessa vez, haviam sete balas.

"Eu não consigo carregar você! Vamos, levante!"

Sam se levantou, trôpega, e se apoiou nos ombros de Sin. Juntas, caminharam cambaleantes até o carro; Sin abriu a porta rapidamente e estava laçando o cinto ao redor de Sam quando foi puxada para trás. A cabeça de Sam tombou e ela sentiu os olhos embaçando. Sua cabeça sangrava e girava.

O baque do corpo da garota batendo no chão foi alto, como se ossos houvessem se partido. Ela batera a cabeça e estava resmungando e gemendo quando uma moto passou a sua frente, fazendo um barulho absurdo. Numa curva, o motoqueiro desceu. Vestia-se de couro por inteiro e na cabeça, um capacete encapado. O vidro era escuro. Ele era uma sombra.

O homem chutou Sin. E de novo. E mais outras vezes. A garota, tossindo, se virou de lado no chão molhado por gasolina e cuspiu sangue. O som fazia Sam querer vomitar e as lágrimas pingavam em seu colo. O galão que Sin havia enchido na bomba estava derramado na plataforma e a bomba havia ficado ligada, vazando no chão, seria questão de tempo até que ela explodisse por inteiro. Sin puxava o ar para dentro de si sem conseguir respirar e tentava se arrastar pelo asfalto da estação. Seu corpo estava machucado e ela sangrava.

Sam não conseguia se pôr de pé. Tudo ao seu redor girava e ela não conseguia parar de tremer. Nunca se odiou tanto por não conseguir levantar.

Se tivesse ficado no carro, como Sin mandara…

O homem chutou seu corpo e bateu nela até que a garota parasse de reagir aos golpes. Seu corpo jogado no chão, sem forças para reagir aos golpes, as expressões de dor em seu rosto sendo a única forma de ver que ainda estava viva. Foi questão de tempo até Sin formar poças de sangue e não se mexer mais.

Sam estava só metade consciente, sem forças para respirar, sem forças para ajudá-la. Sem forças para jogar qualquer coisa no agressor.

Ela só teve força para um único grito, foi nítido, alto e ela se arrependeu imediatamente:

"Pare!" ordenou.

E quando o homem virou-se e a viu, ela desejou ter ficado calada.