Torta de limão
3 Capítulo 3: A Esfinge e o Crítico:: O Encontro...
Notas iniciais
Sofia sentiu o corpo estranho, uma sensação sufocante que enrijecia seus músculos ao encarar aquela tela. O texto de Fernando parecia mais longo do que seus próprios capítulos recém-publicados. Um misto de ódio e tristeza a invadiu, mas ela respirou fundo, tentando ressignificar a situação: "É apenas a opinião dele, nada mais", repetia para si mesma. A vontade súbita de responder em um nível rasteiro foi contida; naquele instante, Sofia selou um pacto decisivo de equilíbrio consigo mesma.
As interações continuaram, alimentadas pelo silêncio estratégico da moça. Do outro lado da tela, Fernando descobriu que Sofia era inteligente, espirituosa e incrivelmente persistente. Ao vê-la publicar o terceiro capítulo, ele percebeu que ela não se deixava abater; pelo contrário, usava as críticas como combustível. Sem admitir, Fernando sentia-se cada vez mais atraído por aquela energia que o confrontava sem medo.
Em um dia comum, Sofia recebeu o comentário de um novo leitor elogiando sua temática, apesar dos deslizes típicos de iniciante. Logo abaixo daquele comentário compreensível, Fernando surgiu, tecendo uma pequena lista de "sugestões" para tornar a história minimamente interessante.
Desta vez, Sofia decidiu agir. Acessou o site de leituras em busca de aliados ou, quem sabe, de algum "puxa-saco" de Fernando que pudesse lhe dar informações. Após algumas tentativas frustradas, encontrou Ágatha, uma leitora fiel das obras do autor "venenoso". Após uma conversa educada e sincera, Sofia conseguiu o que queria: Ágatha, talvez cansada da arrogância do ídolo, forneceu o número de contato pessoal do crítico.
Sem pestanejar, Sofia discou.
Quando ouviu o primeiro "Alô!" do outro lado, suas pernas congelaram e o ar pareceu faltar. O nó na garganta só se desfez quando ela forçou as palavras para se apresentar. Sem rodeios, ela o convidou para um café.
Ao ouvir o nome dela, Fernando hesitou. Encontrar-se pessoalmente com sua "vítima" seria... estranho.
— Não tenho tempo disponível para isso — respondeu ele, de imediato.
Sofia não recuou. Se não podia ser um café, que fosse uma chamada de vídeo. Fernando, tentando criar distância, revelou que morava em Petrópolis, na Região Serrana. Para sua surpresa, Sofia concordou em subir a serra, sugerindo um encontro próximo ao Palácio de Cristal ou à Casa de Santos Dumont. Acuado, ele alegou que precisava se dedicar integralmente aos estudos acadêmicos. Mas Sofia estava decidida: colocou-se à disposição para encontrá-lo em qualquer lugar, na hora que ele escolhesse..
Em seu apartamento, o jovem escritor caminhava de um lado para o outro. Sentia-se acuado, mas, ao mesmo tempo, magneticamente atraído pela ideia daquele encontro. Cedendo à curiosidade, ele finalmente aceitou. O restante do dia arrastou-se, tornando-se longo e tenso para ambos.
Na manhã seguinte, Fernando saiu mais cedo do que planejara. Organizou na mochila o essencial: um livro de capa dura, um manuscrito com capa transparente com acabamento simples em espiral, óculos, celular e as chaves. Algumas horas depois, já acomodado na cafeteria escolhida — um refúgio charmoso em Santa Teresa —, ele colocou o manuscrito na cadeira ao lado, cobrindo-o com a mochila em um gesto de proteção.
O tilintar do sino da porta anunciou uma nova cliente. Uma moça cruzou a entrada com o celular ao ouvido. No mesmo instante, o aparelho de Fernando vibrou sobre a mesa, atraindo olhares curiosos das mesas vizinhas. Ele atendeu, erguendo a mão para sinalizar sua posição para a "vítima literária".
Sofia era ainda mais vibrante do que ele imaginara. O olhar penetrante, como o de uma leoa em guarda, contrastava com a doçura inesperada de seu sorriso. Fernando sentiu um baque de admiração. Os cabelos castanhos emolduravam um rosto delicado e expressivo, e havia em sua voz uma intensidade que, logo de cara, começou a desarmá-lo.
— Então você é o famoso Fernando? — perguntou ela, com um sorriso travesso ao se aproximar.
— E você é a famosa Sofia? — ele respondeu, esforçando-se para imitar o tom dela e esconder o nervosismo.
Sofia sentou-se e, sem consultar o cardápio, fez o pedido ao garçom: um café forte para o convidado e um milkshake de chocolate para ela. A conversa, para surpresa de Fernando, fluiu sem os tropeços que ele previra. Falaram sobre literatura, cinema e a vida caótica do Rio. Pela primeira vez em muito tempo, ele se sentiu genuinamente à vontade.
Sofia, mantendo a harmonia, lembrou-se subitamente das palavras do Tio Carlos sobre as fadas e as poções de amor. Ela sabia que o afeto real amadurece na coragem de enfrentar verdades duras. Então, em um movimento súbito, disparou a pergunta que ecoava em sua mente:
— Por que você é tão cruel nas suas resenhas?
Fernando hesitou por um segundo, buscando o escudo de seu sarcasmo habitual, antes de soltar uma resposta digna de um vilão educado:
— Porque as pessoas precisam ouvir a verdade, Sofia. A maioria dos escritores é complacente demais com a própria mediocridade.
Sofia balançou a cabeça, o olhar fixo e sereno.
— Existe uma diferença abissal entre ser honesto e ser cruel — sentenciou ela. — Acredito que você usa a crítica como uma armadura. Desde que divulguei meu primeiro capítulo, você não parou de me perseguir. Hoje é dia 28 de dezembro, Fernando. Diga-me: o que eu te fiz? O que você alimenta em seu íntimo ou deseja destruir nos outros?
Fernando sentiu o rosto arder. Sofia notou de imediato o rubor que subia pelo pescoço do escritor, desfazendo sua postura gélida. O olhar dela era como uma gota de soda cáustica: silencioso, corrosivo e impossível de ignorar. Ele se sentiu desmascarado.
O silêncio dela era uma sentença. Enquanto os segundos passavam, Fernando mergulhava em um dilema mitológico particular; para ele, Sofia tornara-se a Esfinge, e ele era um Édipo acuado diante do "decifra-me ou devoro-te".
Ele esquadrinhou a cafeteria, buscando uma saída. O som do bonde de Santa Teresa, ecoando ao longe, parecia marcar o ritmo acelerado de seu coração. O mestre das palavras estava, subitamente, mudo. Vestindo sua arrogância como uma armadura amassada pela última vez, ele se levantou bruscamente.
— Obrigado pelo café, Sofia. Mas acho que você confunde crítica literária com análise psicológica.
Ele agarrou a mochila, mas, na pressa de fugir daquele olhar de leoa, seus dedos ágeis falharam. Sofia não o impediu. Observou-o atravessar a porta e misturar-se aos turistas nas ladeiras de paralelepípedo. Só então notou que, sobre a cadeira de palha, repousava um volume espiralado que ele, no afã da fuga, esquecera de guardar.
Ao abrir a primeira página, Sofia não encontrou uma resenha impiedosa. Encontrou um manuscrito. O título, escrito à mão com uma caligrafia nervosa, dizia: "O peso do silêncio". Abaixo, o nome do autor não era Fernando, mas um pseudônimo que ela conhecia bem de outros fóruns literários.
Sofia deslizou os dedos pelo papel, sentindo a textura da vulnerabilidade dele. Fernando não era apenas um carrasco; era um prisioneiro da própria obra inacabada. E agora, ela tinha a chave da cela..
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