Torta de limão
4 Capítulo 4: Revelações e Confissões
Notas iniciais
Sofia deixou a cafeteria às pressas. Por um instante, cogitou se Fernando estaria a caminho do Centro, mas decidiu tomar o sentido oposto. Subiu as ladeiras de Santa Teresa até o hostel Casa das Luzes, onde conseguiu um táxi. Durante o trajeto pela Avenida Beira Mar, seus olhos alternavam entre a paisagem e o manuscrito em seu colo. O impulso de devolvê-lo lutava contra uma curiosidade magnética; o que a prendia, porém, era a frase repetida obsessivamente em quase todas as margens: "eu detesto essa história".
Com receio de que ele notasse a ausência da obra e tentasse contatá-la, Sofia desligou o celular. Enquanto o táxi percorria a orla da Zona Sul, ela mergulhou na leitura, desbravando personagens densos e nuances que jamais esperaria encontrar em um texto de Fernando. Cada capítulo era um misto de descoberta e angústia. Ao alcançar a Avenida Niemeyer, ela se perdeu por um instante na imensidão cinzenta do mar antes de finalmente chegar em casa, no Joá.
Já no refúgio de seu quarto, a curiosidade subiu de nível. Sofia pegou o tablet e acessou a plataforma onde publicava seus próprios textos. Pesquisou pelo título e pelo pseudônimo, mas não obteve sucesso. No Google, os resultados eram aleatórios e frustrantes.
— Oi... não vi você chegar. Te liguei várias vezes, mas só dava caixa.
Pandora abriu a porta com cautela, desculpando-se pela invasão. Explicou que chamara pela irmã várias vezes sem obter resposta. Sofia desviou o olhar do manuscrito para a irmã, que a fitava com olhos azuis curiosos e um sorriso enigmático.
— Quando é que a senhorita vai me apresentar seu livro? — perguntou Pandora, em tom de cobrança carinhosa. — Nem o título nem o enredo você compartilhou comigo. Eu me sinto excluída!
— Quando eu concluir a história, eu aviso — respondeu Sofia com um sorriso contido, enquanto deslizava o dedo pela tela do tablet, tentando disfarçar o volume físico escondido sob as almofadas.
Pandora torceu o nariz e sentou-se no parapeito da janela, observando Sofia mergulhada em pesquisas frenéticas no tablet.
— Buscando referências para a sua história? — perguntou Pandora, curiosa.
— Não exatamente — Sofia respondeu sem desviar os olhos da tela. — Estou tentando desvendar um mistério.
— Posso ajudar?
Sofia hesitou por um momento, então virou-se para a irmã.
— "Pan", você, como autora de tantos livros... o que te motivaria a detonar um escritor iniciante?
— Nossa, que pergunta difícil! — Pandora franziu a testa. — Eu não tenho esse hábito, você sabe.
— Tomadachi... — Sofia sorriu fraco, usando o pseudônimo da irmã. — Realmente, esse comportamento iria contra toda a sua filosofia de escrita.
— Deixa-me pensar... — Pandora ponderou. — Talvez se eu achasse a história um clichê absoluto, mais do mesmo. Ou se eu fosse uma autora vaidosa e quisesse derrubar alguém com potencial ou ousadia. São motivos feios, mas reais.
Sofia suspirou, sentindo o peso das palavras da irmã.
— É exatamente o que está acontecendo comigo. Publiquei meu primeiro capítulo e fui massacrada.
— Oh, meu amor! — Pandora saltou da janela e envolveu a irmã em um abraço. — É por isso que você não quer que eu leia?
— Não é só isso... — Sofia sentiu os olhos marejarem. — Eu escrevo há tempo, Pan. Já abandonei várias histórias por achar que eram chatas, por me perder no enredo. Mas desta vez foi diferente. Foi pessoal.
— Não chora... Ou melhor, chora sim. Alivia a tensão — Pandora a confortou, mas seus olhos foram atraídos pelo volume físico escondido sobre a cama. — Onde você conseguiu esse rascunho?
Antes que Sofia pudesse impedir, Pandora pegou o material. Ela folheou as páginas devagar, lendo trechos de cenas densas e melancólicas. De repente, ela parou. Seus olhos azuis se estreitaram ao ler a folha de rosto. Não havia nome completo, apenas um título e, logo abaixo, um pseudônimo que fez o ar faltar no quarto.
— "O Peso do Silêncio"... — Pandora leu em voz alta, a voz falhando. — E assinado por... "Venenosis"?
Sofia, que bebia seu suco de acerola, quase engasgou.
— Venenosis? Que nome pretensioso.
— Pretensioso, sim, mas famoso no fórum literário que eu participo — disse Pandora, a voz agora carregada de seriedade. — Ele era o nosso "mestre dos magos" da crítica. Surgia, destruía um autor e desaparecia. Até que sumiu de vez, logo após o rascunho de seu próprio livro ser detonado por lá.
Sofia largou o copo, o som do vidro contra a mesa ecoando no quarto.
— Eu não sabia que ele é seu conhecido. Então, ele fazia parte do grupo de "elite" que analisa histórias com potencial para serem publicadas por alguma editora. O mesmo grupo que você participa até hoje?
Pandora assentiu lentamente, cruzando os braços.
— Sim. E é por isso que ele se isolou. Ele passou anos apontando o dedo para os outros, mas não suportou o peso de ser o alvo. É a definição clássica de um hipócrita. Mas, Sofia... o que esse manuscrito está fazendo com você?
Sofia pegou o tablet, os dedos ainda tremendo levemente.
— "Venenosis" é o Fernando, o crítico que está me perseguindo desde o primeiro capítulo. O mesmo homem que, em um acesso de raiva, esqueceu isso aqui na cafeteria hoje à tarde.
Um silêncio pesado caiu sobre o quarto, dissipando o resto da leveza do sol de dezembro. Pandora olhou da irmã para o volume espiralado e, em seguida, de volta para Sofia. Um sorriso perigoso, quase predatório, começou a se formar em seus lábios.
— Bem, maninha... — Pandora disse, com uma voz baixa e cortante. — Parece que o jogo virou. O grande "Venenosis" cometeu um erro fatal. Ele deixou a alma dele em suas mãos
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