Torta de limão

2 Capítulo 2: Improvisos, pedidos e etc...


Notas iniciais
Oi, pessoal! Acabei postando antes do combinado. Acho que consegui acertar a ordem das postagens rsrs.

Entre abraços e brindes, sob o estrondo dos fogos de artifício que coloriam o céu em uma dança sincronizada, Sofia ergueu sua taça. O tilintar do garfo contra o cristal chamou a atenção de todos, sinalizando o momento mais aguardado da noite: o amigo oculto.


Contudo, antes que ela pudesse dar o primeiro passo em direção à árvore decorada em tons dourados, um coro uníssono vindo dos primos mais novos interrompeu o protocolo:


— Cadê o Papai Noel?


Cristiano, primo de Sofia, assumiu o papel de "ajudante de duende" e subiu as escadas às pressas em busca do bom velhinho. No andar de cima, em um dos quartos, o Tio Carlos Wagner — o escalado para a missão — dormia de boca aberta enquanto um filme natalino passava esquecido na TV. Cristiano chamou pelo pai diversas vezes, mas obteve apenas um ronco profundo como resposta.


Ao retornar à sala, Cristiano sinalizou o fracasso da missão para a mãe, Ártemis. Com o jogo de cintura de quem conhece a peça que tem em casa, ela rapidamente fingiu ler uma mensagem no celular para entreter os pequenos:


— "Queridas crianças, irei me atrasar alguns minutos", — anunciou ela, em voz alta. — "São muitos presentes e pequeninos para visitar. Aproveitem a noite e... ho! ho! ho!".


Assim que as crianças se dispersaram, Tia Ártemis subiu ao quarto e chamou por Carlos a plenos pulmões. O homem saltou da cama como se a alma estivesse deixando o corpo, sendo recebido pelo olhar enfurecido da esposa, uma fantasia amarrotada e a barba postiça completamente desalinhada. Atordoado, Carlos desejou um "Feliz Natal" trêmulo à esposa, sentou-se na borda da cama e ficou a postos com o celular, aguardando o sinal combinado.


No andar de baixo, a matriarca Dona Salete assumia o controle. Com frases carregadas de otimismo — e um exagero dramático que despertava o ciúme imediato de netos e sobrinhos —, ela deu início à distribuição. Diante dos protestos de "marmelada!" ou "só pode ser fulano!", a senhora, dotada de sabedoria e uma pitada de irreverência, apenas gargalhou e apontou para a base da árvore.

Dona Salete não havia sorteado apenas um nome. Ao redor do pinheiro, dezenas de pequenas caixas exibiam os nomes de cada familiar e amigo presente, e até mesmo dos ausentes, todas com a assinatura singela da avó. Era o caos organizado de uma família que, ao contrário de Fernando, não conhecia o silêncio


As trocas de presentes seguiam entre risadas e relatos emocionados. A magia do Natal cumpria seu papel, até que Pandora, irmã de Sofia, aproximou-se discretamente. Avisou que o celular de Sofia havia escorregado da mesa devido à vibração insistente. Ao verificar a tela, Sofia suspirou. Não era uma emergência familiar, mas as notificações entregavam o "ataque" de Fernando. Ela inspirou lentamente, segurando o ar antes de soltá-lo em um sussurro:


— Hoje não, Fernando... hoje não.


— Pela sua cara, posso presumir que levou um "perdido" do namorado — uma voz masculina interrompeu seus pensamentos.


Era Paulinho, filho de amigos próximos da família. Ele segurava um copo de suco de tomate e exibia um porte atlético que preenchia bem a camisa social. Sofia o analisou de cima a baixo. O rapaz, de olhos castanhos claros e um sorriso que beirava o malicioso, explicou que o suco vermelho era sua forma de celebrar as cores do Natal. Ele a convidou para se servirem da ceia, com um olhar que sugeria segundas intenções.


Sofia arqueou as sobrancelhas, mantendo a distância.


— Meu estado atual já é tão vermelho quanto meu vestido, Paulinho — respondeu, esquivando-se do convite com educação, mas sem dar abertura.


Paulinho suspirou, ajeitando a bermuda e aceitando a derrota. Seu desânimo só aumentou ao notar o olhar fuzilante de Marcelo, padrinho de Sofia, que o vigiava de longe. Naquela noite, parecia que apenas a ave natalina seria, de fato, apreciada.


— Ho! Ho! Ho! — O grito alegre ecoou pela sala.

Tio Carlos descia as escadas com um sorriso farto, carregando um saco vermelho que quicava nos degraus. As crianças, em êxtase, cercaram o bom velhinho, oferecendo-lhe leite e biscoitos. Cada presente entregue — bonecas, carrinhos, jogos — era recebido como um selo de aprovação pelo bom comportamento do ano.


Ao final, a pequena Alice, sempre curiosa, questionou:


— Papai Noel, qual o nome das suas renas? E onde elas estão?


O Noel alisou a barba de algodão e, sem hesitar, respondeu:


— Minhas amadas renas se chamam Dó, Ré, Mi, Fá, Sol, Lá e Si!


Alice estreitou o olhar, confusa com os nomes musicais, enquanto o Papai Noel se despedia a passos largos, alegando ter muitas casas para visitar. Na varanda do casarão, antes de sumir na noite, ele encontrou Sofia encostada em uma pilastra.


— Algum pedido especial, minha jovem? — perguntou ele, saindo um pouco do personagem para um tom mais doce.


Sofia sorriu e segurou as mãos enluvadas do tio.


— Queria que Fernando se tornasse uma pessoa melhor.


O Papai Noel fez uma careta engraçada e acariciou o rosto dela.


— Nem eu, nem o gênio da lâmpada, temos o poder de mudar o coração de alguém, Sofia. Mas vou levar seu recado às fadas. Elas têm poções de amor, e nada melhor do que umas boas doses de afeto para amansar um coração amargo.


Sofia sorriu, sentindo um leve conforto, enquanto via o "bom velhinho" desaparecer na escuridão do jardim.


O sol já ia alto quando Sofia despertou, confrontando a realidade de um relógio que marcava quase meio-dia. O "bom dia" trocado entre bocejos na cozinha revelava que as celebrações natalinas haviam avançado madrugada adentro. Na piscina, o som dos primos mergulhando era o único remédio contra o calor escaldante do Rio. Sofia serviu-se de um copo de suco de acerola e uma fatia de bolo de frutas, buscando o frescor que a manhã já não oferecia.


Com o celular em mãos, ela finalmente encarou a enxurrada de notificações. Fernando não havia poupado caracteres: "Não prometo acompanhar sua história sem dissecar cada erro", dizia uma das mensagens. "Muitos têm vontade, mas poucos têm o talento necessário", sentenciava outra. Era como se ele a estivesse caçando, um leão faminto esperando o menor deslize da presa. Sofia leu tudo em silêncio, mas, em um ato de rebeldia silenciosa, não respondeu.


Em vez disso, caminhou até o jardim arborizado e acomodou-se em um dos balanços de madeira. Enquanto embalava o corpo lentamente, abriu o bloco de notas. Revisou o capítulo dois com um olhar novo, alterando diálogos e polindo parágrafos antes de clicar em "publicar".


Sofia deslizou os pés sobre a grama verde, sentindo o frescor da terra úmida sob o calor do meio-dia. A notificação vibrou quase instantaneamente, como se Fernando estivesse de vigia. Ela não abriu o arquivo de imediato. Ficou observando a foto de perfil dele: um homem que escondia o rosto atrás de um livro de capa dura, deixando transparecer apenas olhos excessivamente críticos.


— Você não vai estragar o resto do meu Natal — sussurrou para o jardim.


Mas a curiosidade era um bicho faminto. Ao abrir a mensagem, deparou-se com um texto quilométrico. No entanto, algo havia mudado. Entre as correções ácidas sobre "coerência narrativa" e "pontuação criativa", ela encontrou uma linha que a fez paralisar o balanço:

"Sua descrição do Papai Noel roncando foi... passável. Menos clichê do que o esperado. Mantenha esse tom, se for capaz."