Tomboy Potter

1 Capítulo 1


Lílian continuou penteando seu cabelo no banheiro vazio, um pouco sonolenta.

— Por que você está com sono? – indagou-se em voz alta, ouvindo sua voz infantil ressoar pelo banheiro deserto. Ela pousou a escova na pia e riu um pouco, passando o gel, com o cabelo já repartido. Ela fala muito sozinha. Arrumou seu uniforme e colocou suas coisas em sua bolsa, guardando em seu armário em seguida, como fazia todas as manhãs que acordava uma hora antes de todas as garotas de seu dormitório. Colocou as mãos nos bolsos das calças e saiu do banheiro, já assistindo os primeiros a despertar na manhã.

“Nerds primeiro”, pensa Lily, voltando para seu dormitório. Todas as meninas já estão acordadas, resmungando, arrastando-se em direção do banheiro. Parecem olhar Lily com um misto de inveja e raiva matinal. Ela ergue as sobrancelhas rapidamente e pega seu material, reprimindo um sorriso. Ela adora aquele gostinho de vitória, por mais pequeno que fosse. “É, Becca, se você não tivesse bebido e rebolado a noite inteira na rola do seu namorado, tenho certeza que não estaria tão cansada e provavelmente não pronta para o teste de hoje”, ela dá uma olhada em Becca, apenas de sutiã, e abaixa os olhos, saindo do dormitório, descendo para a Sala Comunal, por mais que esteja vazia, às vezes há alguns cadáveres pelo sofá.

— Minha cabeça...— gemeu o Capitão do Time da Grifinória, visivelmente de ressaca no sofá, com alguns outros jogadores pelo chão. A Potter olhou brevemente e saiu pelo quadro, descendo as escadas pela Hogwarts quase silenciosa. Ela ama a escola nesse exato momento, onde não há muitas pessoas circulando e o sol está começando a bater pelas janelas, dando uma iluminação amarelada a tudo.

Lílian se senta no centro da mesa para o café, e ela adora como sempre está ali para a primeira rodada da mesa. Acena docilmente para um colega do Clube de Xadrez na mesa da Corvinal e para uma outra colega, da Lufa Lufa, que participa de seu pequeno Clube de Leitura. Chá, muito quente, ela quer sentir o choque.

O receio de colocar os lábios na xícara...

Quando todos realmente descem para o café, Lily assiste o Sol se firmar no céu enquanto traga um cigarro, lentamente, sentada no banco do pátio. Ela fecha os olhos e o sol parece lhe acariciar a face. Lily assiste os grupos de amigos passarem e sente indiferença. Não quer amigos, já passou dessa fase de necessidade, foram sete longos anos.

Mais um trago e ela mira uma loura aparecer no pátio com suas amigas, rindo de algo enquanto rouba o cigarro da chinesa, tentando tragar e parecer descolada, mas ela visivelmente não sabe fumar. Parece sentir os olhos de Lily e os acha, fazendo os olhos verdes baterem nos castanho esverdeado.

Lily desvia o olhar e joga o cigarro fora, dando as costas, indo para sua primeira aula.

A primeira a chegar na sala, como de costume. Sempre na carteira perto da janela, poupa uma de suas orelhas de ter que ouvir certas conversas das pessoas ao seu redor. Com o tempo, Lily aprendeu que por mais que quisesse, não conseguiria amigos naquele lugar, e nem estava disposta a adaptar-se a eles. Aos poucos, todos os seus primos foram concluindo Hogwarts a ponto de sobrar apenas ela, Hugo, Roxanne e Louis.

Hugo só tinha olhos para sua namorada, Alice. Roxanne estava muito ocupada não fazendo nada de útil e Louis era sua última opção, mas não muito.

Assim como ela, Louis era seu outro extremo na mesma avenida, sendo o único homem gay de Hogwarts. Pelo menos o mais afetado, já que segundo ele:

— Esse lugar está infestado de viados, acredite. – afirma ele toda vez que os dois se sentam para conversar.

Separados se sentem mal, juntos pior ainda. Se olham, desafiando Hogwarts apenas com a existência, e uma tristeza cruel se deita sobre os dois: É uma luta tão solitária que ver um outro igual é desgastante e penoso.

Lílian passou sete anos apenas com colegas e podendo contar apenas com Albus enquanto ele frequentou o Castelo, sendo Louis seu último amigo. Seus pais insistiram em tirá-la de Hogwarts após notarem a hostilidade do colégio com o assunto, mas Lily vê a saída como uma desistência: Ela odeia Hogwarts, mas não pode sair dali. Sua existência é uma resistência e deixará um caminho mais limpo para as outras lésbicas que aparecerem depois dela.

Lésbica.

Lily olha-se no espelho e sussurra essa palavra. Admira uma garota ao longe e murmura para si mesma, num riso contido. Lê um livro e lembra da palavra, confortável. Sente o odor de um garoto e vira o rosto em repulsa, e lembra-se da palavra, como uma justificativa.

Ela ama a palavra lésbica. Ela ama que saibam que ela é lésbica, por mais medo que sinta. Ela sente pavor dos olhares curiosos como se ela fosse um bicho de circo, mas ergue a cabeça. Detesta os cochichos, mas estufa o peito. Teme a hostilidade, mas mantem-se firme. Ela precisa afirmar e reafirmar sua identidade, por uma questão de sobrevivência.

Negava-se a seguir um estereótipo como Louis, que era o queridinho das meninas, por mais que elas o tratassem como se fosse um acessório com pênis. Ela não queria ser a lésbica amigona dos garotos que os ajudaria a falar coisas escrotas sobre mulheres.

Só de pensar naquilo tinha vontade de vomitar. Preferia ser renegada tanto pelas garotas (pelo medo), quanto pelos garotos (pela repulsa). Sabia que eles achavam que ela só precisava achar “o homem certo” para endireitar. E que as garotas provavelmente achavam que ela pode ataca-las a qualquer segundo.

Louis aceita ser um segredo, mas Lily prefere a morte a ficar à mercê das “curiosas”. Não sabe se existem lésbicas em Hogwarts, ficaria muito feliz em tirá-las do armário, mas jamais encontra-las lá dentro.

— Nem todo mundo é filha de Harry Potter, sabe? – disse Louis a acompanhando em direção das Masmorras para a aula de Poções. – Não é tão simples assim sair do armário. Ainda mais nesse inferno que chamam de escola. Não é assim.

— Mas nós somos um exemplo!— retrucou Lily. Louis gargalhou escandalosamente, irritando alguns garotos, o que fez Lily se enfurecer.

— Lílian, você é tão mimada que chega a ser cômico você ser ao mesmo tempo o estereotipo perfeito da sapatona brava – a ruiva manteve-se séria quando parou diante da porta da sala e virou-se para o primo, que arrumava o cabelo louro. – Acalme sua periquita e pare de julgar os outros.

Era impossível, mas ela se esforçava.

Lily deitou sua cabeça sob os braços e aguardou em silêncio a professora entrar, ignorando o Capitão da Grifinória chamando-a pelo pejorativo apelido que tem desde o quarto ano, quando cortara o cabelo, Tomboy Potter. Ela, no mínimo, poderia mandar uma carta a James citando a proeza criativa do Capitão, o que, no mínimo, renderia uma expulsão imediata do garoto no time assim que o mesmo brotasse aqui.

Entretanto ela decide ignorá-lo, erguendo a cabeça, fingindo ser surda. A professora de Estudo dos Trouxas entra na sala já anunciando que aquela era a antepenúltima aula. O sorriso da Potter se espalha pelo rosto: ser lembrada que estava no último ano e que faltava apenas duas semanas para o fim daquele inferno na terra era muito prazeroso. Miranda Salinger bateu na porta da sala, risonha e atrasada, com suas amigas atrás dela, também risonhas.

Lily girou os olhos e fez uma leve expressão de desprezo quando a professora as deixou entrar. Sentiu o perfume da garota atrasada tocar seu nariz e arrumou-se na cadeira, tentando ouvir a professora com a Salinger fazendo todo o barulho possível ao abrir uma simples bolsa.

Limpou a garganta e inclinou-se, irritada.

— Merlin...— murmurou Miranda, olhando Lily com deboche, fazendo mais barulho ainda ao colocar suas coisas na mesa.

— Professora, a senhora poderia repetir? Está muito barulho, não consegui ouvir direito. – relatou Lílian após levantar a mão. A loura maneou a cabeça negativamente, rindo, como se Lílian fosse extremamente exagerada. A doce Professora Khaled assentiu, sorridente.

— Sim, claro... Bem, para concluir nossa matéria, eu gostaria que vocês criassem uma crônica, poema sobre algum tema do mundo trouxa, qualquer um. E, claro, esta criação tem que ter uma raiz inspiratória em algum poeta ou escritor trouxa. Não quero ninguém aparecendo aqui com um versinho de três linhas, eu quero uma analise descritiva do autor escolhido, interpretação de pelo menos três textos do mesmo... – Lily empolgou-se com o trabalho enquanto o anotava, desprezando os alunos que reclamavam da tarefa.

A literatura trouxa era algo incrível, não a surpreendia que aquele bando de burros já estivessem com dificuldade de fazer algo tão simples.

Roeu suas unhas já curtas, pensando em que poeta selecionaria. Fred II era especialista em Maya Angelou, talvez devesse falar com ele. Ou com Rose, que admirava James Baldwin. O que escreveria não a apavorava, já que havia herdado o talento da escrita de sua mãe. Assim que a aula acabou, Lily enfiou suas coisas na mochila, ansiosa para mandar uma carta para Fred II, pedindo livros.

— Será que você não poderia me indicar uns poetas, sei lá...? – Lílian virou-se lentamente, notando que Salinger estava dirigindo a palavra a ela em especifico. – É que eu sei que você gosta dessas coisas e tal...

A Potter continuou mortalmente séria, o que incomodou Miranda.

— Você pode falar não se quiser. – a loura sorriu brevemente, sem graça.

— Eu posso indicar alguns. – finalmente responder Lily, voltando a seu material.

— Merlin, muito obrigada mesmo. Sério. Pode ser amanhã na aula de História? É a próxima aula da Corvinal com a Grifinória, certo? Acho que sim, enfim... Obrigada mesmo! – Miranda apertou brevemente o braço de Lily antes de sair, mesmo com a garota de costas para ela. A Potter congelou com o contato e só respirou quando a voz de Miranda para com suas amigas estava ressoando do lado de fora da sala de aula vazia. Colocou a mão no peito, ofegante.

Será que...

— Meu Merlin do céu, vocês lésbicas tem sérios problemas em se apaixonar até por respiração alheia! – indignou-se Louis durante o almoço. – A menina só encostou em você, calma!

— Qualquer pessoa do sexo feminino desse colégio tem medo de encostar em mim, Louis! – Lily abaixou a voz, não conseguindo olhar para a mesa da Corvinal. – Ela sempre estudou aqui, entrou no Estudo dos Trouxas no sexto ano por conta dos N.I.E.M’s... Isso é tudo que me lembro dela. Olhe para ela, seu gaydar apita?

Louis girou os olhos e virou-se furtivamente em direção da mesa da Corvinal, mirando seus olhos em Miranda.

— Não sei... Não sei... – ele deu de ombros. – Você sabe que na minha cabeça todo mundo é gay.

— Preciso ver as unhas dela. – disse Lily, concentrada em encarar seu pudim.

— Meu anjo, isso não quer dizer nada. Digo, você tem essas unhas lindas e curtas, mas não deda ninguém. – sorriu Louis, recebendo um olhar sério de Lily. – Desculpe, eu não podia perder a piada.

— Talvez ela use um anel de coquinho. – Lily estralou o dedo.

— Veja se ela escuta muitas artistas femininas.

— Ela namorou algum garoto? – questionou Lily.

— Não me lembro dela com ninguém, na verdade eu não lembro dessa garota em especifico. Vai ser difícil arrancar algo dela com essa cara de barbie.

— Droga...

— Você está muito interessada pra quem disse que despreza todos os estudantes de Hogwarts e quer que exploda os habitantes de armários. – debochou Louis, roubando um pedaço do pudim de Lily. Ela refletiu o que seu primo dissera em silêncio, começando a almoçar. Era tão raro qualquer sinal de que algo romântico apareceria em sua vida que um ventinho fora da curva já era capaz de tirar Lílian de órbita.

Voltou a focar nos relatos de Louis sobre seu ultimo encontro, impedindo seus olhos de vigiar a loura do outro lado do Salão.

Notas finais
São mais dois ou três capítulos no máximo, já fazia muito tempo que eu queria escrever algo sobre a Lily, já tinha iniciado duas historias sobre ela mas simplesmente não consigo desenvolver... Então essa veio num surto criativo.

Espero que gostem!