Tomboy Potter
2 Capítulo 2
— Isso está tão bom. – Ginny abocanhou outro pedaço de bolinho e Lily sorriu, segurando a bancada, confiante. Todos estavam ali, só faltava James, mas ela não queria todos a olhando como se ela fosse um presidente prestes a fazer um pronunciamento. Abaixou a cabeça enquanto o pai mordia mais um pedaço do bolinho e Albus limpava o suor da testa, mastigando lentamente.
— Opa! – James apareceu na cozinha e empurrou Albus para conseguir pegar um bolinho. Ginny virou-se para ele bruscamente, como se fosse impedir algo, mas o irmão mais velho de Lily já havia mordido e mastigado, cuspindo na mão em seguida. – Merlin, por que vocês estão comendo veneno? – esganiçou, enojado.
Lily abriu a boca em choque quando seus familiares começaram a cuspir o bolinho, menos seu pai.
— Eu... – ele pareceu desistir e cuspiu também.
— Obrigada James! – a mãe deu um tapa na cabeça do jovem.
— Por que você está cozinhando? Quer matar todo mundo? – questionou James, jogando o blinho no lixo.
— Eu gostei, só ficou um pouco...
— Ficou um pouco horrível demais! – atropelou James, tentando beber a água da torneira.
— Lily, ignore seu irmão, James, saia daqui.
— É uma reunião de família e eu tenho que sair? – rebateu o pai, com a camiseta molhada.
— Não é uma reunião... – cortou Lily.
— Isso parece uma reunião... – Lily arregalou os olhos para Albus, o calando.
— Você quer nos dizer algo? Foi por isso que nos reuniu aqui? – Ginny semicerrou os olhos, sugestiva. O pai levantou os olhos para a filha, ainda brincando com um bolinho sob a bancada. A ruiva passou a mão pelos cabelos recém-cortados e olhou seus familiares, nervosa.
—
Lílian passou as mãos no cabelo curto, fitando a parede após despertar. É assombrada por aquele sonho desde que simplesmente mudou de assunto, em vez de contar a seus pais a verdade: a notícia de que eles tinham uma filha lésbica acabou surgindo pela boca grande de Hugo, que a viu beijando uma garota durante as férias do sexto ano.
Levantou-se pronta para a rotina de sempre, silenciosa.
Primeira aula vaga, então Lily dedicou-se a terminar sua leitura dos diários de Sylvia Plath, um pouco irritada com o mal humor da autora. Acendeu um cigarro e observou Miranda Salinger ao longe, não conseguindo se concentrar. Fechou os olhos com força e foi agraciada pelo sol da manhã, tendo uma imersão no que estava lendo.
Estava ficando tão sonolenta que acabou cochilando uns dez minutos no sol, acordando assustada e um pouco atrasada para a aula de História da Magia. Sentou-se no lugar de sempre, irritada com a existência de seus colegas de classe mesmo que ninguém tivesse feito algo. Alguém cutucou seu ombro e Lily virou-se, dando de cara com o sorriso de Miranda.
— Meus poetas...? – perguntou ela, sorridente.
— Ah sim... Bem... – Lily ficou de lado, evitando olhar Miranda, ela era bonita o suficiente para incomodar. – Sei lá, eu pensei em Sylvia Plath. Ela é delicada, mas mórbida, os poemas dela normalmente tem muito peso... Se quiser algo mais alegre pode ficar com o mais famoso do Victor Hugo, o autor de Os Miseráveis, se não me falha a me...
— Você gosta de poesia? – interrompeu Salinger, parando de anotar o que Lily estava falando. A ruiva molhou os lábios, olhando Miranda, não entendendo o porque daquela indagação. Os olhos da garota eram grandes e o sorriso dela era tão aberto que Lily queria muito saber como era beijá-la. Não havia sequer malicia, só... Curiosidade.
— Sim, eu gosto. – afirmou a Potter, seca. – Bem, são esses o que pensei.
— E você, vai ficar com qual?
— Tenho pensado em John Clare. – mentiu descaradamente, ela pensara em William Blake, mas ela queria um poema realmente poderoso.
— Nunca ouvi falar de John Clare, pode me falar um poema dele? – Lily irritou-se um pouco por Miranda não ter leitura corporal ao ver Lily tentar virar-se para frente a cada sentença ou simplesmente ignorar o fato da garota realmente não querer conversar.
— Não me lembro do poema inteiro, mas meu preferido é algo como... – Lily fitou o nada, sentindo o ‘Eu Sou’ de John Clare deitar-se melancolicamente sobre ela. – Sou o consumidor das minhas próprias mágoas. Elas ascendem e desaparecem em chão estéril, como sombras em dores delirantes de um amor sufocado... E ainda assim eu sou, eu vivo.
Miranda ficou em silêncio, fitando-a e Lily virou-se para a frente, constrangida.
Eu devia só ter falado o título, pensou, agradecendo o professor mentalmente por iniciar a aula. Virou-se para pegar algo em sua bolsa e sentiu os olhos de Miranda acompanharem. Endureceu-se tanto na cadeira que as horas começaram a passar lentamente, para contrariar Lílian. Finalmente foram liberados e ela já havia guardado seu material, pronta para voar dali.
— Obrigada pelo poema. – Salinger tocou seu braço antes da garota levantar e Lily prendeu a respiração, tensa. Teve que assisti-la guardar o material, sorrindo para ela. – Eu acho que vou ficar com Victor Hugo, não sou muito melancólica.
Lily assentiu, forçando um sorriso.
— Olha, você não quer tomar um café?
— Café? – o cérebro de Lílian estava tão tenso que ela parecia não conseguir simular a imagem de uma xícara de café.
— É, eu meio que sei onde é a cozinha. – ela colocou a mochila nas costas. – Vamos? Ou você tem alguma aula agora?
— Eu... – Lílian tocou a alça de sua bolsa, desacreditada. – Não... Não tenho.
— Ok, então vamos lá. – Lily começou a segui-la, com o coração quase abrindo um buraco no peito e atingindo a parede do outro lado do corredor. – Eu sempre tive vontade de falar com você, mas... Não se ofenda, você parece ser tão brava!
Miranda riu, mas Lily permaneceu séria.
— Desculpe... – pediu a Salinger, constrangida.
— Não... Não me ofendeu. – sorriu Lily, sem graça. – Já me disseram isso antes.
— Você também tem um olhar bem intimidador.
— Parece que você me observou bastante. – Lílian passou a mão na boca, querendo chorar de constrangimento ao ter deixado aquele comentário escapar. Não teve coragem de olhar Miranda, mas sentiu que a garota ficou sem graça. Começaram a descer as escadas e a loura ainda tentava se recuperar.
— Bem, eu observei. – finalmente disse, tomando alguns passos a frente de Lily. A ruiva engoliu seco, segurando o corremão. – É difícil não notar você.
Ela está flertando comigo???, urrou Lily internamente, tendo um surto estratosférico mesmo com o rosto pacifico. As duas caminharam em silêncio até o último andar, Miranda olhou Lily rapidamente, o que foi um sinal para que a garota aguardasse no último degrau. A Potter observou a Salinger ir e sumir através do quadro de frutas. Ficou em silêncio, pensando na possibilidade de sair correndo. Eis o ditado que sapatão só sofre, pensou Lily, não acreditando que só teria o famigerado ‘caso de colegial’ no último minuto do segundo tempo.
— Aqui! – sorriu ela, voltando com duas xícaras de café. A ruiva sorriu, pegando uma e as duas se sentaram no último degrau. – Eu descobri a cozinha quando namorei um lufano.
Lílian fitou a parede, já exausta. Ótimo, mais uma amiga hétero, pensou.
— Não vai perguntar porque terminamos? As pessoas costumam fazer isso. – Lily deu de ombros.
— Por que terminaram? – Eu na verdade não faço a menor questão de saber, pensou Lily. Mirando sorriu enormemente.
— Eu não gostava dele. – ela deu de ombros. – Pareceu certo namorar, já que todas as minhas amigas estavam fazendo isso.
Lily segurou o riso.
— Partindo desse principio eu também devia ter namorado.
— Você nunca...?
— Namorei?
— Sim.
— Não.
— Nunca, nunca?
— Nem cheguei perto.
Mirando tomou mais um gole.
— Não é toda essa propaganda, mas... É engraçado a sensação de querer cuidar de alguém e saber que tem alguém disponível para você, a hora que você quiser, seja para te ouvir ou... Bem, você sabe.
Lílian fitou os próprios pés, sorrindo.
— Namorar me parece estranho. – confessou ela. – Nunca fui carinhosa, na verdade receber um cafuné já me deixa desconfortável... Às vezes acho que sou fria demais para algo do tipo.
— É porque você não gosta de ninguém e convenhamos, a ideia de receber um cafuné de um estranho não é atrativa. Só que receber de quem você gosta... Bem, me parece uma ótima ideia. Você já gostou de alguém?
Lily molhou os lábios, sentindo a xícara esquentar seus joelhos.
— Não sei.
— Como assim?
— Eu não sei se eu me apaixonei ou só fiquei ferida pela rejeição. Ou pior, fiquei apaixonada pela ideia de me apaixonar pela pessoa.
Miranda ergueu as sobrancelhas.
— Complexo.
— Sim. – riu Lily.
— Mas você foi rejeitada?
— Na verdade ela só estava testando. Não me testando, em especifico. Mas se testando... – Lily passou a mão nos cabelos, lembrando-se de Joan e sentia-se mal ao notar que jamais conseguiria sentir apenas ódio ou carinho pela mesma. – Quanto mais tempo passa eu vejo que ela só estava, sabe... “Vou te beijar e ver se sinto algo”. Só que com várias pessoas, eu sinto pena e raiva.
— Talvez ela não perceba que está fazendo isso. – Lily olhou Miranda, séria. – Digo, não é todo mundo que tem essa leitura que você fez. Outra pessoa veria como curtir a solterisse, enjoou-se de você ou... Ela é simplesmente uma filha da puta quebradora de corações.
Lílian riu , apertando a xícara.
— Talvez eu tenha romantizado a situação, eu tenho a tendência de fazer isso. Ela me faz lembrar uma parte de uma música trouxa da Sharon Van Etten... É algo como: “steals love so he can feel alive”.
— Então essa garota quebrou seu coração? – Miranda terminou o café e pousou a xícara no chão. Lílian também finalizou, a imitando. Levantou-se, colocando a mochila no chão.
— Ela não chegou nem perto, mas só de ter aberto a primeira porta das mil muralhas ao redor dele e ela não ter aproveitado a chance já me deixou irritada. – Mirando sorriu lentamente, se levantando. – E você? Quebrou o coração do lufano?
— Todo mundo já quebrou um coração. – Miranda pegou sua bolsa e apontou a varinha para as xícaras, as fazendo sumir. – Você não quer me mostrar alguns dos seus poemas preferidos?
Lílian olhou a garota, pela primeira vez, sorrindo genuinamente.
—
— Você realmente gosta de poesia. – sorriu Miranda, passando as folhas do terceiro caderno de compilados de Lílian. Ela apenas tragou seu cigarro pendendo no canto da boca e pegou um dos cadernos, sabendo que nele teria algo de Sylvia Plath para mostrar a ela, apesar de não gostar muito da poesia da mesma, sente que não tem a profundidade precisa para compreender o que Sylvia quer dizer nas entrelinhas.
— Fui apunhalado mil vezes até ser...
—...Doloroso não ser mais apunhalado. — completou Lily, sorrindo para Miranda. – Nizar Qabbani.
Miranda virou mais uma página.
— Eu nunca dei muita atenção a poesia.
— Nem eu, até ler um poema que me deixou estagnada, até lê-lo eu não sabia que era possível colocar tanto em poucas palavras.
— De quem era o poema?
— Fernando Pessoa, ele é português. – Lílian desfez sua gravata e colocou ao redor do pescoço, sentindo os olhos de Miranda sob seus dedos. A garota notou que estava sendo observada e voltou aos cadernos, virando as páginas lentamente. – No começo, eu só lia seus poemas, não conseguia sentir afeto por nenhum outro. Mas então eu notei que estava lendo errado, eu queria coisas óbvias e nunca prestava atenção. Um poema, na maioria das vezes, te lê.
— Esses cadernos pretos sãos os...
— Poetas bruxos.
— Certo. – Miranda pegou o chocolate oferecido por Lily. – Sempre achei poesia adulto demais.
— Eu sempre achei chato e pedante. – as duas riram.
Lílian observou o jardim e os grupos de amigos espalhados por eles e olhou Miranda por um segundo, voltando a olhar o jardim em seguida. Sentiu uma espécie de felicidade quase inocente: era a primeira vez que se sentava com alguém, assim, que não fossem seus primos ou colegas do clube de leitura. Tocou os lábios, reprimindo um sorriso, e não atreveu-se a olhar Miranda quando a ouviu declamar:
— A Rosa frágil tem o espinho por defesa, a humilde Ovelha exibe o chifre ameaçador; porém ao branco Lírio é suficiente o Amor... Não há espinho ou ameaça a turvar-lhe a beleza. — ela olhou Miranda, vermelha. Mas a loura apenas sorriu, confiante. – The Lily, William Blake.
A Salinger manteve-se em silêncio, enquanto Lílian torcia os dedos, assistindo a si mesmo fatalmente caindo no buraco escuro da atração. O sinal ressoou pelo Castelo e as duas pegaram os cadernos as pressas enquanto o jardim se esvaziava. Assim que Lily conseguiu colocar-se de pé, ela deu de cara com Miranda, que era consideráveis centímetros mais alta.
— Eu posso? – Lily manteve-se em silêncio até a Salinger pousar seus lábios nos de Lílian gentilmente, quase a matando do coração. O beijo só teve inicio ao se encaixarem e a saliva dar apenas uma amostra, e Lílian soube que ela era maldosa, pois não houve nem meio, muito menos fim. Ela fitou os olhos azuis assim que elas se distanciaram e Miranda sorriu, tocando os lábios. – É diferente.
É melhor, definiu Lily.
— Uau, eu não sabia que os lábios macios citados em canções eram reais. – riu ela. – Uau.
Lílian riu também, como se tivesse beijado pela primeira vez. O único garoto que beijara na vida era sua única comparação e beijar uma mulher era manter-se para sempre num plano de delicadeza.
Miranda deu-lhe as costas, seguindo o fluxo para a aula e Lily estapeou a testa num impulso, enfurecida:
Minha raiva é uma faixada!, lamentou, apaixonada.
Leonard Cohen — Lover, Lover, Lover
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