Notas iniciais
Oi, oi, gente! Como prometido, seguimos no prazo de duas semanas pra postar. Estamos de volta no futuro (mas não por muito tempo)! Esperamos que gostem!

No total, Aaron dormiu três horas seguidas antes de se revirar na cama e seus olhos se recusarem a fechar. Toda a conversa que tivera com o irmão no laboratório era repassada diversas vezes em sua mente, deixando seu peito pesado e os músculos tensos.

Não gostava de mentir para Nathan, o fazia sentir-se como sua mãe. Infelizmente, a necessidade de fazer algo certo às vezes lhe forçava a seguir por caminhos que não costumavam agradá-lo, mas que seguia mesmo assim. Algumas coisas simplesmente eram maiores que outras.

— Eileen, desbloqueia meu celular – resmungou com a voz rouca do sono mal dormido.

A IA não respondeu nada. O quarto apenas foi preenchido pelo barulho quase silencioso do celular reiniciando. Sem nenhuma pressa, ignorou todas as mensagens enviadas nas últimas horas e aperto o nome de Scott. Escreveu algo como “Venha para minha casa” sem grandes especificações, sabendo que ele entenderia, e largou o celular ao seu lado, na cama.

Dava para ouvir do outro lado da parede o irmão esbarrando em alguns objetos e dando alguns pulos que certamente eram mais engraçados vistos do lado de fora. Ele estava jogando.

Nathan era meio frustrado por nunca ter sido deixado instalar o chip de realidade virtual. Pedira um em seu aniversário de 16 anos e recebeu um “não” nem um pouco ressentido. Aaron detestava ser o irmão chato, então prometeu que até pagaria pela cirurgia quando completasse 21 anos. Estava apenas esperando pelo momento em que o garoto se tornasse mais adulto e não o quisesse mais.

A cirurgia era simples. No máximo uma hora para colocar um chip no pulso da mão não dominante, para evitar desconfortos. Uma pequena parte do aço ficava para fora, tão lisa quanto a própria pele, para que pudesse ser codificado no jogo e assim o introduzisse na realidade deste. Antes de liberar o paciente, o médico passava um tipo de verniz que impedia de ficar grudando em qualquer ímã por aí. Aaron nunca quis saber o nome daquilo. Gastara uma fortuna, na época, para cinco anos depois resolver tirar o chip.

— Peça pro Scott me encontrar no laboratório. Ele sabe qual.

Aaron desligou o celular novamente antes de pôr os tênis. Não queria ser interrompido.

Ele estava esperando-o no sofá de couro preto sintético enquanto uma pílula de cafeína dissolvia na boca. O tempo todo perguntava se o irmão continuava no quarto; a resposta era sempre a mesma.

Um barulho agudo e monótono anunciou que o reconhecimento facial identificara Scott e já o deixava entrar, com seus passos pesados e assobiando uma música qualquer.

Seu amigo era uma figura interessante. Um homem grande em todos os sentidos e se assemelhava a um saco de músculos bastante simpático. O braço esquerdo era fechado com tatuagens e o outro... não existia. O perdeu entre as engrenagens de uma máquina com defeito. Então, Aaron lhe fez um braço biônico de pasta nuclear, e alguns filamentos de ouro e titânio para permitir certa flexibilidade. No fim, Scott não quis colocar o revestimento de pele por cima.

— O que vamos aprontar hoje? – perguntou, deslizando a mão pela cabeça raspada. O que não tinha de cabelo em cima, tinha no bigode cheio e estranhamente modelado.

— Quero iniciar o teste experimental – Scott continuou calado, sem entender exatamente. – Comigo.

As sobrancelhas se arquearam à medida que a boca se abria.

— Não vai ser um experimento, idiota. Vai ser pra valer!

Não houve resposta. Aaron se levantou e seguiu para o elevador, esperando que Scott estivesse atrás. Não era um assunto para qualquer ouvido. Quando viu Nathan em seu escritório, percebeu que, se continuassem naquele ritmo, seu irmão descobriria que Aaron não estava ignorando os papéis de Eileen de fato.

A verdade é que, alguns anos depois de se formar, contou tudo para Scott enquanto se encontravam levemente alterados por conta da bebida. Não costumava ser tão aberto, mas Scott era seu amigo de infância. Assim, começaram o projeto, da forma mais silenciosa possível.

O elevador de vidro não parou no laboratório da parte superficial do subsolo e continuou descendo mais. As portas se abriram, dando vista a um espaço com os mesmos limites da casa. As luzes eram tão brancas quanto as paredes, e haviam pelo menos dez máquinas de médio e grande porte espalhadas, além do grande centrífugo que circundava o local. E, bem, tinha o closet.

— Já estamos há três anos nisso. Precisamos começar por algum lugar.

— Não se começa nada pelo final.

Nós vamos.

Aaron o encarou e a discussão terminou ali. Não tinha o que fazer, apenas aceitar. Por mais grato que fosse pela ajuda ao projeto, o dono ainda era ele. Tanto da máquina quanto do dinheiro.

— Quero que façamos um teste com partículas antes – disso, Scott não abriria mão. Era o físico da história, afinal.

Chocando absolutamente ninguém, o teste 141 foi um sucesso, o que serviu para incentivar ainda mais Aaron. A máquina era diferente, algo mais estilizado e feito para evitar que, num primeiro olhar, soubessem do que se tratava. Ela era o closet. Apenas uma porta branca separava o pequeno cômodo do restante do laboratório. Não podia arriscar que tudo ficasse tão visível para que Nathan não acabasse encontrando.

Aaron sentiu o estômago formigar enquanto vestia o traje. Scott o fizera pensando em astronautas, mas, no fim, era um macacão branco menos pesado e mais maleável, com uma gola metálica apertada que mantinha a pressão sanguínea normal.

Quando saiu do banheiro, encontrou o amigo encarando com um sorriso a alavanca azul perto do closet. Acoplado na parede havia uma tela com temporizadores e espaços em branco que anunciariam seus sinais vitais, além da porcentagem e velocidade atingidos a cava puxada na alavanca.

— Dá pra acreditar? – riu. – Antigamente o mundo não conseguia atingir a velocidade da luz, e agora... Só precisamos puxar 80% dessa alavanca.

Isso também foi uma surpresa para si. Enquanto construía a máquina, acreditava que, para funcionar, precisariam utilizá-la em toda sua potência. Não foi isso que aconteceu, o que era ótimo. Mas Aaron era engenheiro robótico, afinal. Nenhuma máquina se portava assim. Se ela tinha capacidade de chegar a 100%, ela chegaria a isso e de forma muito mais potente. E lá estava a grande máquina do tempo, supostamente atingindo tudo o que poderia atingir em 80% da sua capacidade.

— O que acontece se formos até o final? – apontou com o queixo para a alavanca.

Scott deu de ombros.

— A máquina deve pifar. Não existe nada mais rápido que a luz – então, ele pareceu entender, porque enfatizou todas as palavras seguintes. – E é por isso que não dá para voltar no tempo, lembra?

Aaron acenou com a cabeça lentamente, mantendo os olhos fixos na alavanca. Ia contra toda sua formação. Não pela primeira vez, queria que Eileen Muller estivesse ali.

— Cara, eu não estou te dando aulas de física à toa – resmungou. – Pra você viajar para o futuro, precisa atingir a velocidade da luz. Pra voltar para o passado, precisa ultrapassar isso. E, adivinha: Não dá!

Ele não respondeu, colocando um protetor na cabeça de titânio, um pouco mais leve que o normal.

— Escolhe um número de 1 a 50.

— Dezenove. Por quê?

— Quero que chegue em 100%.

Scott arregalou os olhos e permaneceu assim pelos próximos segundos, que pareciam não ter fim.

— Você me ouviu?

— Sim, e não consigo aceitar que uma máquina não atinja a capacidade máxima. Quero que vá até 100%.

— Você vai morrer, idiota!

Aaron suspirou, aproximando-se do amigo. Não gostava nem um pouco do que diria a seguir, mas diria mesmo assim. Havia pouquíssimas coisas que não faria pela ciência.

— Eu não conseguiria nada disso sem você – apoiou a mão enluvada no ombro dele. – Mas a máquina é minha. Coloca em 100%.

De novo, a discussão se encerrou ali. Não porque Scott concordada; apenas não podia discutir mais. Era verdade. Ele era apenas o Físico instrutor que queria dar um soco em Aaron, mas não podia. Os dois concordaram em deixar dois destinos, apenas para o caso de viagem ao passado dar errado. Discou na tela 2142 e o ano que indiretamente escolhera: 2019.

— Quer se despedir do Nathan?

Negou com a cabeça. Esperava voltar vivo e exatamente para aquele tempo. Não era uma viagem de longa data. Ainda com o estômago agitado, o engenheiro entrou na máquina que o próprio construiu, sendo recebido com um balcão cheio de botões e uma câmera digital que fazia com que ambos se vissem, além de uma tela menor entre os botões, como a que tinha do lado de fora.

Na maior das mentiras, disse que estava pronto. Aos poucos, a luz branca diminuiu e só conseguia enxergar o brilho dos botões. Scott estava falando as porcentagens e conseguia ouvi-lo ao longe até que chegasse no 100%. Então, quase sentiu o corpo se estilhaçando por baixo do traje, sendo arremessado contra as paredes... E parou. Com um cheiro horrível de queimado.

Embora nenhum dos materiais utilizados fosse inflamável, se retirou da máquina, encontrando-se no subsolo de um lugar que não conhecia e não lhe dava nenhuma dica de passado ou futuro.

As dicas começaram quando pegou um elevador e parou por acidente no terceiro andar, porque não conseguiu parar antes. Olhou para a janela de vidro no corredor, dando de cara com carros que buzinavam e soltavam uma fumaceira absurda. Não havia dúvidas.

Estava em 2019. Sem poder voltar.

Notas finais
E é isso, galera! Esperamos muito que tenham gostado! Se gostaram, comentem, pois isso incentiva muito quem está do lado de cá escrevendo! Obrigada por terem lido! Até mais!