Todos os Erros do Mundo
10 Serra do Luar
Notas iniciais
"Tudo é uma questão de manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo"
— Walter Franco
Elas não pensam em nada durante o beijo, apenas deliciam-se com a perfeita sincronia. As línguas se reconhecem e sabem qual caminho seguir, mesmo assim, há sensações novas. O beijo perde intensidade até findar-se em selinhos. Quando as bocas se separam, os olhos de Emma estão brilhando tanto, que o sol sentiria-se envergonhado se pudesse vê-los. Seus lábios se abrem em um sorriso e sua pele está arrepiada. A expressão de Regina é misteriosa. Emma não consegue lê-la e fica tensa, mas quando nota o canto da boca de Regina curva-se minimamente, sente-se aceita e a puxa para mais um beijo. Mas dessa vez muitos pensamentos as rondam. Emma sente-se em paz, como se as coisas estivessem voltando para os devidos lugares, de onde nunca deveriam ter saído. Já Regina, sente-se atormentada. Sente, pela primeira vez em décadas, que está exatamente onde deveria, mas, também, que render-se pode significar sua derrocada. Quer abraçar Emma com mais força ao mesmo tempo em que quer desaparecer. Deseja, profundamente, que sua magia volte para aparatar-se imediatamente, pois não encontra força suficiente em seus braços e pernas para afastar Swan.
Despertam ao ouvir os gritos de Melissa perguntado se haviam se perdido na pequena horta, mas que abaixa o tom, até calar-se de vez, ao ver que interrompeu o beijo das amigas:
— Podem continuar. — Cobre os olhos teatralmente. — Eu nunca estive aqui, foi apenas ilusão. Voltem ao que estavam fazendo. — Sai tão repentina quanto chegou.
Regina, finalmente, consegue se afastar e ensaia seguir a trilha que levava de volta para a casa, mas para ao sentir o toque de Emma em seu braço.
— Regina, nós precisamos conversar. — Sua voz sai demonstrando mais insegurança do que imagina sentir.
— Eu sei. — Regina sabe tanto quanto não quer que essa conversa aconteça e pretende adiá-la o máximo possível. — Mas não agora. — Pega as pimentas e entra na casa, com Emma logo atrás.
— Não! — Melissa choraminga. — Vocês pararam de namorar por minha causa?! — Abusa da ironia e incentiva os outros a acompanharem sua expressão de pesar.
— Deixe de ser idiota. — Regina retruca, mas não deixa de rir. Em um ranking de pessoa mais implicante, Melissa ocupa o glorioso segundo lugar e Regina lidera com folga.
Quando o almoço fica pronto, todos atacam as panelas desesperados. Fazia, pelo menos, 20h que não comiam nada, mas isso não os impede de conversar. Primeiro combinam a viagem para espalhar as cinzas de Will em seu lugar favorito, o que rende algumas lágrimas, mas logo são substituídas por risadas ao relembrarem todas as viagens que cada um realizou com ele. Emma é a única que se mantém calada, embora por dentro esteja uma confusão. Pensa em Will e sua leveza despretensiosa, mas pensa também em Regina e no quanto precisam conversar. Elas se consolaram, dormiram abraçadas, se beijaram, ainda usam aliança e Regina a apresentou como sua esposa para a tal Clarice, o que deixa Emma confiante. Entretanto, Regina se desculpou pela noite, dando a entender que lhe desagradou dormir em seu peito, e não economizou no deboche ao pronunciar o título "savior" mais cedo. E isso destrói toda a confiança da loira.
— Bom... Eu vou buscar Will. — Noah anuncia referindo-se às cinzas do amigo, trazendo Emma para a realidade, e os sorrisos morrem no rosto de todos.
***
— Nós roubamos mesmo as cinzas de Will? — Gillian pergunta apavorada.
— Roubamos! — Eli, que está ao seu lado, responde tão apavorado quanto.
Estão em um voo de NY para Tessália, na Grécia. Regina está sentada com Noah, Emma é acompanhada por Melissa, enquanto Kate viaja ao lado de Ria. O lugar favorito de Will é Meteora, um conjunto de montanhas de rochas maciças esculpidas pelo tempo e que sustentam monastérios ortodoxos com obras de artes de acesso dificílimo. É um lugar único, lindo por si só, mas que agrega vistas lindas de paisagens naturais extensas. Ninguém sabe exatamente o porquê daquele ser o local que Will considerava ser o mais especial, mas assim que pousam e são guiados até a base das montanhas, essas dúvidas desaparecem. A paz emana livremente das rochas, possuindo os visitantes.
— Acho que é uma boa escolha. — Noah fala direcionando-se ao pote onde estavam as cinzas do amigo.
Ria, a irmã de Will, foi cúmplice do grupo quando decidiram roubar as cinzas. Ela não gostou da ideia de que o irmão passaria a eternidade dentro de um pote. Sendo, para ela, a pessoa mais incrível do mundo, acha que Will merece sentir novamente o frescor grego que tanto lhe tranquilizava.
— Vamos? — Ria pergunta sem se interessar pela resposta do grupo. Põe-se a subir a primeira montanha.
— Não tem um jeito mais fácil de chegar ao topo? — Eli pergunta antes mesmo de dar o primeiro passo.
— Tem. Mas era assim que Will fazia. — Ria é seca.
Depois de, no mínimo, duas horas de caminhada, a passos de formiga, Noah se atira no chão a frente do grupo implorando por um descanso. Recusa-se a se levantar até que todos concordam com a pausa.
— Está ansiosa? — Regina puxa assunto com Ria, que subiu o tempo todo em silêncio.
— Um pouco. Estou feliz pela decisão que tomamos. Tenho certeza de que, se ele tivesse tido a chance, escolheria esse lugar. Mas é difícil pensar que essas são as últimas horas que passarei ao lado do meu irmão... Fisicamente, entende?! — Regina apenas assente. Seu nariz arde com o choro tentando chegar aos seus olhos, mas o impede. — Você é a Regina, né?
— Sou. Acho que nunca nos conhecemos pessoalmente.
— Eu me lembraria.
Regina pode enxergar, com clareza, a dor que transborda a alma da mulher que, ao contrário do irmão, tem a pele morena e cabelos escuros ondulados que caem sobre seus ombros e é jogadora de tênis. Elas apenas ouviram falar uma da outra, poucas vezes, mas aquela é a primeira vez que conversam de fato.
— Will é seu maior fã, fala de você com tanto orgulho. Eu sempre quis te conhecer, mas se soubesse que seria nessa situação, nunca desejaria isso. — Regina é a primeira a conseguir tirar um sorriso de Ria desde que recebeu a notícia da morte do irmão.
— Então, é um desprazer conhecê-la. — Ria ainda sorri divertida e estende a mão para Regina.
— O desprazer é todo meu. — A morena responde com um sorriso semelhante.
Após mais duas horas de caminhada, chegam ao monastério que Will preferia. Acompanham, nunca abandonando as cinzas, um guia por todas as salas de exposições, que explica cada uma das obras de artes. Próximo ao monastério há uma pousada, eles deixam as malas lá e seguem para um restaurante.
— Will não quis vir? — Regina pergunta se aproximando de Ria, que está escorada no balcão com alguns copos vazios a sua frente.
— Não! Ele está só o pó. — Regina tenta conter-se, mas seu sorriso vai alargando-se aos poucos até se transformar em uma gargalhada e Ria a acompanha.
— Isso foi cruel.
— É um comentário que ele faria. — Justifica-se erguendo a mão na defensiva.
— Com certeza. — A rainha tenta se controlar, mas o álcool não ajuda e apenas olhar Ria a faz voltar a rir. — Acho melhor voltarmos para a pousada e dormir, a despedida de Will será pela manhã.
— Está me convidando para dormir com você, Sra Mills? — A jogadora envolve o pescoço de Regina e joga seu peso sobre ela.
— Não. Antes disso você precisa me levar para jantar. — Regina entra na brincadeira e as duas seguem para a pousada sob o olhar de Emma.
Regina finalmente pode concordar com o que Will sempre falava, sua irmã é incrível. Passam um bom tempo conversando no banco do jardim que fica de frente para os quartos. Embora seja muito amiga dos outros cinco, nesse momento, sente-se mais confortável com Ria. Nota que com a atleta permite-se ser totalmente autêntica, pois, ao se conhecerem, com todas as suas memórias de volta, está inteira, conversando e agindo de forma sincera, sem fingimento e omissões. Sente-se leve, a mesma leveza que Will proporcionava.
— Agora eu vou mesmo me deitar.
— Isso ainda não é um convite, é? — Ria tomba sua cabeça até encostar no ombro da rainha.
— Não. — Regina ri da insistência.
— A toda perfeita Regina Mills não gostou de mim? — Ria faz uma expressão de piedade, mas não comove a rainha. — O que te impede? — Curva os lábios, propositalmente, brincando com a ex-prefeita.
— Eu sou casada! — Regina responde beijando a testa da mulher e segue para o quarto.
Emma, que, coincidentemente, chega acompanhada de Kate no momento em que a ex-prefeita dispensa a jogadora, abre um meio sorriso e vai até o quarto que divide com Regina. A morena não deu qualquer justificativa para alugar um único quarto, mas Emma suspeita que seja para não alertar os amigos de que algo acontece entre elas, mesmo que eles nunca cogitassem algo relacionado a contos de fadas, achar que as duas estão em crise não ajudaria em nada a enfrentarem o momento. Mas o sorriso morre no rosto da loira assim que abre a porta. Regina está estendendo um lençol no chão, onde alguns cobertores imitam um colchão.
— Pode ficar com a cama. Eu durmo aí. Já dormi em lugares piores.
Regina assente com a cabeça, mas não deixa de ajeitar o lençol; coloca dois travesseiros sobre ele e estende outras duas mantas. Quando a cama improvisada parece, minimamente, confortável, vai até a cama de casal e se deita desligando o abajur.
***
O grupo acorda cedo e segue uma trilha estreita até o ponto mais alto da montanha. Todos concordam que a vista é exuberante e que não há lugar melhor para deixar que Will parta.
Melissa segura o pote com as cinzas fortemente, temendo que escorregue de suas mãos:
— O que fazemos agora?
— Pensamos em coisas boas, em momentos felizes ao lado dele. — Kate toma a frente e destampa o pote, apanhando um pouco das cinzas e permitindo que o vento as carregue. — Eu te amo, Will.
Todos fazem o mesmo. Eles já passaram por muitas coisas juntos, inclusive situações tristes, mas nenhuma dor pode ser comparada a essa. Ninguém tenta ser forte, rendem-se ao choro abraçados, encarando o mar abaixo deles, para onde as cinzas voaram. Todos se negam a acreditar que a história de Will termina ali. Sem coragem de sair, sentam-se espalhados, cada um com suas lágrimas e seus lamentos.
— Reparou que estamos nos referindo ao Will no presente, como se ele ainda estivesse aqui?
— Talvez esteja. — Regina está escorada em uma árvore afastada, por puro costume, já que em toda sua vida manteve-se o mais distante possível de qualquer pessoa, quando é surpreendida por Emma.
— Você acredita nisso?
— Você ainda duvida de alguma coisa, savior?
Não! Emma não duvida de nada desde que descobriu a magia, e que moral teria a filha de Snow White e Prince Charming?!
— Não me chame assim. — Emma nunca gostou dessa denominação, mas saindo da boca de Regina, o título é ainda mais desprezível. — Podemos conversar agora?
— Swan, eu não creio que seja o momento...
— Você não pode fugir para sempre. — Emma a interrompe. — Mesmo que você me odeie, precisamos conversar...
— Eu não odeio você. — É a vez de Regina interromper. — Sobre o que quer conversar?
— Sobre nós. — Emma se surpreende com a firmeza da própria voz e nota que Regina se move desconfortável.
— O que há para ser conversado?
— Tudo. O nosso casamento e... — Emma torna a ser interrompida pela morena.
— Você quer o divórcio? — Regina se esforça para manter a expressão neutra e seus músculos chegam a ficar doloridos.
A pergunta pega Emma de surpresa. Não pensou que Regina seria tão direta.
— Não. — Tem certeza de que não é isso que quer, mas sua convicção acaba aí. Não tem certeza de nada mais.
— Então o que quer? — A rainha se mantém impassível.
— Eu não sei. — Emma deixa cair o olhar e brinca com os dedos em ansiedade. A voz do seu amigo recém morto invade seus ouvidos: "nunca ouse se arrepender do que já te fez bem; nunca entregue os pontos deixando nas mãos do destino, ele não existe; e não tenha medo de se jogar, mesmo quando não enxergar o chão, ninguém além de você sabe do que é capaz e o que te faz feliz". Ela havia revivido esse momento no noite anterior, quando brindaram, e percebe, em um estalo, que Will lhe deixou um último conselho. — Eu sei o que me faz bem, por isso não me arrependo do último ano, porque tudo nele me fez feliz e eu já disse que não o trocaria por nada.
— Swan, acho que você está me olhando, mas não está me vendo. — A falta de expressão no rosto de Regina está deixando Emma nervosa e irritada. — Sou eu, Regina!
— Eu sei que é você, Regina. — A loira perde toda a compostura e passa a agitar as mãos enquanto fala cada vez mais rápido. — Estou te olhando e estou te vendo. Você é Regina Mills, que virou rainha, depois virou prefeita, depois virou editora e agora é tudo isso...
— Chega, Swan! Essa conversa não está nos levando a lugar algum. Me deixe em paz. — Regina volta a interromper, abandonando a neutralidade para esboçar toda a sua impaciência. Põe-se a observar a paisagem
— Você gostou? — Emma ignora a ordem da rainha.
— Gostei de que, Swan? — Regina desiste de esquivar-se da conversa.
— Do beijo? — Foi a vez da rainha se surpreender com a pergunta tão objetiva.
— Isso importa? — Abaixa a cabeça tentando esconder a tristeza que tomou seu rosto antes que tivesse tempo de domá-la. Em sua linha de raciocínio, é impensável que Emma queira algo com ela, a não ser sua cabeça em uma bandeja. Sendo assim, nem sob tortura confessaria que não só gostou, como seria capaz de se perder em seus lábios.
— Claro que importa. — Emma espera por uma resposta, mas quando não vem, puxa o ar e salta, mesmo não enxergando o chão, exatamente como Will aconselhou. — Porque se a resposta for sim, eu gostaria de te beijar de novo.
As sobrancelhas de Regina se erguem em surpresa e ela fricciona os lábios para conter qualquer reação involuntária. Emma toca seu rosto com as duas mãos, fazendo carinho em suas bochechas. Se aproxima devagar, dando tempo suficiente para que Regina se afaste, caso queira, mas quando ela se mantém estática, beija-lhe os lábios. O beijo é ainda mais calmo que o primeiro, mas também mais curto. Quando se separam, Emma faz a pergunta que a perturba desde que recuperou suas memórias:
— Então continuamos?
— Não! — Regina é rápida em sua resposta e essa única e minúscula palavra despedaça o que sobrava do coração da loira. — Não podemos continuar porque não somos as mesmas pessoas.
— Não somos, você tem razão. Eu, com as minhas memórias reais, sou bem mais complicada, mais fechada e desconfiada, enquanto você é rude e impermeável demais para o meu gosto. Mas agora eu sei que a minha essência não mudou durante esse ano, então a sua também não. Isso significa que o que aconteceu foi real, éramos nós.
— Éramos o resultado de uma maldição. — Regina pondera depois de alguns longos segundos absorvendo tudo que a outra disse.
— Existe maldição do amor? — Uma Regina, absolutamente confusa, nega com a cabeça. — Então não foi isso. Portanto, eu vou repetir a pergunta: continuamos?
Regina não consegue acreditar no que Emma está propondo e acredita menos ainda que está feliz por isso. No entanto, a insegurança a impede de responder. "E se for uma brincadeira de Emma? E se ela estiver gozando de mim? E se ela arrepender-se?", tantos "e se" afligem a rainha, até que se lembra de algo que faz com que a confusão pare e o tempo congele: Daniel. "Ame outra vez", foi a última coisa que ouviu de seu grande amor, quando ele acordou em Storybrooke. Um pedido suplicante. Então, deixa o medo de lado, por ora, e finalmente responde:
— Não, mas talvez possamos recomeçar. — Emma sorri largo voltando a unir seus lábios aos de Regina, que sussurra contra eles. — Com calma.
Emma se recompõe envergonhada, mas sem deixar o sorriso se desfazer.
— A Evil Queen e a Savior? Sério? — Regina ironiza divertida.
— Que seja! — Emma sacode os ombros pouco se importando com os títulos e segura a mão de Regina entre seus dedos. — Escorar aí nessa árvore com você é ir com calma?
— É!
Emma se ajeita ao lado de Regina, que deita a cabeça em seu ombro, e, com as mãos ainda entrelaçadas, se perdem em sensações aproveitando a companhia uma da outra e o alivio de sentir dissipar-se a angústia que as possuía há alguns dias.
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