Notas iniciais
Boa noite! Espero que ainda tenha leitores acordados, pois estou ansiosa pelo feedback. Eu me divirto muito com os comentários de vocês, há muita coisa engraçada, sagaz, suposições boas e sempre me emociono. Vocês são gentis, carinhosos e a melhor inspiração que eu poderia ter. Muito obrigada! Boa leitura!

"Do you remember how we used to talk? We'd stay on the phone at night till dawn. Do you remember all the things we said like 'I love you so I'll never let you go'"

(Você se lembra como costumávamos conversar? Ficávamos falando ao telefone à noite até amanhecer. Você se lembra de todas as coisas que nós dissemos como 'eu te amo e nunca vou deixar você ir')

— Michael Jackson

Antes de voltarem para NY, Eli quis alugar uma lancha de porte médio, luxuosa, para que fizessem um passeio pelas águas que agora são a moradia do amigo. Sabem que Will estará sempre entre eles, pois jamais se esquecerão do homem íntegro e leal que era, assim como de seu sorriso encantador, seu cabelo hidratado e bem penteado, sua molecagem, seu jeito único de ajudar os amigos. Todos têm a mesma sensação de que é injusto o mundo perder uma pessoa como ele, as pessoas perderem a chance de conhecer alguém tão incrível, e eles perderem uma das bases de suas vidas. Mas também acham que, talvez, o mundo não seja bom o suficiente para ele. Will era espiritualizado, bondoso, intenso e tinha muito mais a oferecer ao mundo do que o mundo a lhe oferecer. Era hora de alçar novos voos, conquistar outras terras e outros corações. Nenhum deles possui crença religiosa e nunca acreditaram em vida após a morte, mas uma alma tão bela e límpida não pode simplesmente deixar de existir de uma hora para outra, não pode apenas desaparecer. E ali, naquelas águas, eles sentiam que viviam a última aventura de corpo presente — as cinzas que o mar consumiu — e que dali para frente Will estaria apenas em seus corações. A tarde é de muita conversa e risadas, embora o choro seja inevitável, não é um choro triste e inconformado. É um choro saudoso. Quando o sol começa a se pôr, todos concordam em mergulhar para um último abraço coletivo no amigo e passam algumas horas não querendo largá-lo.
— Não vai dar mais um mergulho? — Emma, que é uma das últimas a sair do mar, pergunta para Regina que está deitada na lancha, onde os últimos raios de sol ainda iluminam.
— Não. Quero apenas respirar o ar desse lugar, decorar a temperatura e como o vento sopra, qual a sensação de tê-lo no rosto, para que possa sempre visitar Will em meus pensamentos e em meu coração. — Regina tem a voz embargada e os óculos escuros escondem as lágrimas que ameaçam se formar.
— Eu nunca pensei que te veria assim.
— Assim como?
— De biquíni.
Regina usa um biquíni preto, tomara que caia, com um pequeno babado na calcinha. Ele valoriza suas curvas e o tom de pele da rainha é ainda mais bonito quando a luz solar, já alaranjada, passeia por ela.
— Você já me viu assim muitas vezes.
— Eu sei, mas na época eu não sabia sua nobreza. — Emma finge reverência com um sorriso dúbio. Regina enxerga pureza e ao mesmo tempo, desejo.
— Gosta do que vê? — Sua voz sai mais provocante do que gostaria. Sua intenção não é mesmo provocar, apenas está curiosa e gosta da ideia de Emma desejá-la.
— Muito. — Ambas coram e desviam o olhar tímidas.
— Então é uma pena que eu vá me vestir agora, acontece que já estou sentindo o ar esfriar.
Algumas horas depois eles já estão no voo com destino a NY. Regina senta-se com Noah e dorme com a cabeça apoiada no ombro do rapaz. Gillian e Emma estão nas poltronas de trás conversando baixo, seguidas por Eli e Kate, e, na sequência, Melissa e Ria. Todos estão esgotados. Foi uma viagem de dois dias carregada de fortes emoções para um lugar muito distante. Tudo que desejam é dormir pelos próximos anos, sem qualquer preocupação e realidade. Mas as coisas nunca acontecem como se deseja, Emma e Regina têm todas as provas disso. Chegam em NY no início da manhã e seguem cada um para sua casa, exceto Eli, que precisa pegar Teddy com o vizinho de Gillian, que se dispôs a cuidar da cachorrinha.

***

Com apenas cinco horas de sono, Regina é acordada com barulho de vidro quebrando. Henry está tentando fazer algo que jura ser brownie, mas a morena, ao aproximar-se, duvida muito que aquela massa seja comestível.
— Oi, querido. Não te vi chegar. — Regina abraça o filho.
— Eu não queria te acordar, mas estava com saudade de vocês e de casa também. — Ele volta sua atenção à tigela com a massa. — Como foi lá?
— Bonito. Triste, mas bonito. Acho que ele ficaria orgulhoso.
— Tenho certeza que sim. — O sorriso de Henry é triste. Ele gostava muito de Will, como um tio, e imaginar que nunca mais irá vê-lo faz seu coração apertar-se como nunca pensou que fosse possível.
Após Henry negar ajuda para preparar o lanche, Regina vai até o chuveiro do quarto do garoto e toma banho. Fica alguns minutos apenas sentindo a água escorrer por seu pescoço e ombros, tirando toda a tensão que se acumulou naquela semana. Enrola-se na toalha e, emocionalmente exausta, senta-se na cama do filho deixando o corpo cair para trás.
— Podia ter tomado banho no nosso banheiro. — Emma aparece se escorando no batente da porta.
— Eu não queria te acordar. — Regina volta a ficar sentada e encara a mulher com expressão cansada.
— Também não precisava dormir no sofá. — Emma sente-se rejeitada mesmo após a conversa que tiveram, como se Regina tivesse concordado em tentar, mas não estivesse se esforçando.
— Eu sei. — E sabe, de fato, que não haveria inconveniente algum dividir a cama com a loira, afinal, fizeram isso no último ano inteiro. Elas nunca haviam dormido separadas desde que chegaram em NY e aquela já era a terceira noite em que preferiu distância. Mas tudo ainda é muito novo, muito inusitado, mesmo que se sinta confortável e em casa quando está nos braços de Emma, é extremamente insegura. Acostumada a ser rejeitada, Regina tem dificuldade em confiar nos sentimentos da mulher. — Vou me vestir e falar com seus pais.
— Por que? — Emma ainda tem esperança de que Regina mude de ideia e não queira voltar para Storybrooke, pois isso, para ela, está fora de cogitação. E sente-se perdida só de imaginar Regina indo embora, deixando-a para trás.
— Quero o contato de Belle. Preciso saber mais sobre o que está acontecendo, seus pais são inúteis. Eu sou a única pessoa capaz de lançar essa maldição sem Rumple. — Suspira levantando-se e sai do quarto. — Minhas suspeitas voltam a ele.
— Você acha que ele seria capaz? — Emma a segue dando continuidade ao assunto mesmo que sem muito interesse, apenas deseja saber quão longe Regina está disposta a ir para manter seu trono.
— De lançar, não. Ele não lançaria nem se quisesse. É necessário sacrificar aquilo que mais ama e Rumple não ama ninguém o suficiente.
— Belle?
— Uma iludida. Rumple não pode amar ninguém mais do que o poder.
— É o que falam de você também.
Emma fala magoada por Regina, em momento algum, lhe dar a devida atenção ou o mínimo de carinho. Não há resquícios da mulher que se permitiu ser beijada e que lhes deu uma nova oportunidade. Já Regina, absorve as palavras de Emma como lanças afiadas atiradas em direção ao seu coração.
— Mas eu lancei, não lancei? — Regina não tenta esconder como a frase de Emma a atingiu. Sua voz sai baixa e tremida, fazendo com que Emma se arrependa do que disse. Mas é tarde demais. Regina já havia se vestido e saído do apartamento.

***

— Você acha mesmo que Rumple sabe sobre isso? — Snow encara Regina com a boca aberta em choque.
— Você duvida? Além de não ser confiável, ninguém, além de mim, é capaz de lançar a maldição sem Rumple. E só o fato de, possivelmente, ele ter dado a alguém, prova sua canalhice, porque é a minha maldição. Ele não tinha o direito. — Regina caminha pela sala com as mão serradas tentando conter a irritação.
— Por que ninguém é tão poderoso quanto você. — David ironiza.
— Até que se prove o contrário. — Regina retruca parando diante do príncipe com os olhos faiscando, mas no segundo seguinte se vira para a mulher. — Vamos, Snow, me dê logo o contato de Belle.
— Posso ligar se você quiser. — Snow caminha até sua bolsa e tira uma agenda.
— Não vou conversar com ela na sua frente. Me dê o número que eu vou embora.
— E o que, sobre isso, não pode ser conversado na nossa frente? — David volta a provocar a rainha.
— Eu não confio no sigilo da sua esposa. — Regina, cansada de esperar, tira a agenda das mãos de Snow e arranca a página onde tem o número do celular de Belle. — E controle seu tom, pois mesmo sem minha magia, eu sou capaz de arrancar o seu coração e transformar em pó. — Essa ideia, apesar de inesperada, agradou os ouvidos de Regina assim que terminou de proferi-la. Sente-se tola por ter passado tanto tempo tentando matar a princesa quando tudo que precisava fazer era arrancar o coração do príncipe e matá-lo diante de seus olhos. Olho por olho, dente por dente.
Sai do apartamento batendo a porta, deixando o casal assustado e cheio de dúvidas.
— Devíamos visitar Emma. Ela pode estar precisando de consolo depois de tudo que aconteceu. — Snow decide e põe-se a preparar uma sobremesa para levar para a filha.

***

Emma come sem entusiasmo a torta de chocolate que Snow a levou. Não que esteja ruim, mas seu estômago parece ter diminuído nos últimos dias. Poucas coisas tiram o apetite da loira, ela sequer sabe dizer o que exatamente a incomoda a essa ponto dessa vez, acha que pode ser o conjunto de tragédias consecutivas. Começando por recuperar as memórias — sim, isso é considerado, por ela, o início de sua ruína -, passando pela perda do amigo até a frieza com que Regina a vem tratando desde que voltaram para casa.
— Você está passando por uma fase ruim, mas as coisas vão melhorar, eu prometo. Elas sempre melhoram. Você é essencialmente boa, só faz o bem, o mundo vai retribuir tudo isso... — Snow desata a discursar sobre a importância de manter-se bom e nunca perder a esperança. Emma suspeita que a convivência com Regina a tornou menos paciente, pois já não aguenta mais ouvir tudo aquilo. Snow só se cala quando vê Regina entrar na cozinha e passar analisando o conteúdo da recipiente sobre a bancada.
— Trouxe torta de chocolate, aceita? — Snow tenta ser simpática para não ser expulsa novamente dali. Quer conseguir passar mais tempo com a filha.
— Não. Prefiro de maçã.
Regina sorri esnobe para a enteada e concentra-se nas reações de Emma ao ouvir o restante do discurso. Nota que ela sente-se desconfortável, como se fosse um sacrifício estar ali naquele momento. "Quando não é um sacrifício estar com o modelo de true love?" Não deixa de pensar em como eles são tediosos e que, se isso é viver um happy ending, prefere não ter um. Ao menos as confusões em que se mete servem para mostrar que ainda está viva.
Quando termina seu monólogo ao qual ninguém prestou atenção, Snow vira-se para Regina:
— E então, Regina, falou com Belle?
— Sim. — A rainha arrepende-se de ter ficado ali parada, pois só o som da voz da princesa pronunciando seu nome, lhe embrulha o estômago.
— Viu que não estamos escondendo nada? — Pergunta em tom boçal.
— Não? Então quando pretendiam me contar que as pessoas estão desaparecendo? — Regina desafia com o olhar.
— Não acho que isso tenha relação com a maldição ou com quem a lançou. Da outra vez, em 28 anos, nada disso aconteceu.
— Quando é que você vai entender que por mais que a maldição seja a mesma, a intenção não é e muito menos quem a lançou. As coisas aconteceram daquele jeito porque eu quis, agora os eventos são as vontades de outra pessoa. — Regina caminha até o balcão, ficando de frente para Mary, ao lado de Emma, e bate as mãos nele com força, completamente irritada com a ignorância de Mary.
David se une a Mary e passam a atacar Regina com questionamentos sobre maldição, magia, trevas e tudo que sempre odiaram e, por isso, não possuem o menor conhecimento, esgotando a paciência de Regina, que revira os olhos e ignora todas as perguntas. Emma solta a colher no prato, ainda com torta, bufa e enterra o rosto das mãos. Charming percebe e encerra a discussão voltando sua atenção para a filha:
— Emma, está tudo bem? Está sentindo alguma coisa?
— Estou sim. Estou me sentindo farta de toda essa história. Foi para isso que vieram aqui? — O rosto pálido de Emma ganha tons vermelhos devido ao estresse.
— Não, filha. Não foi por isso, mas também é um assunto importante que precisa ser resolvido logo. — Snow responde considerando o estado da filha exagerado e encara Regina, esperando por respostas, mas a rainha a ignora completamente.
— Tudo bem. Não falaremos sobre isso agora. — Regina fala terna, pousando seu olhar nas esmeraldas da loira, e passa a acariciar a mão de Emma sobre a bancada e entrelaçam os dedos.
Regina havia entendido há um bom tempo que Emma não está interessada nos acontecimentos de Storybrooke nem disposta a ajudar. Não a julga, pois a vida que tem em NY é imensamente mais feliz do que a vida naquela cidadezinha mágica do Maine. Para quem cresceu nesse mundo, conviver com bruxas e monstros é como um pesadelo. Jamais o fariam por espontânea vontade. Então ela apenas cede à vontade da loira de não falar sobre isso, ao menos, por ora. Não se reprime e mantém o carinho com o polegar, tentando transmitir um pouco de conforto. Nota, também, o olhar perplexo do casal para aquele toque. Cogita, em um primeiro momento, afastar-se, mas desiste ao ver a expressão de Emma suavizar, constatando que aquilo lhe faz bem. Sem desvencilhar os dedos, passa o braço direito pelas costas de Emma, até conseguir unir sua outra mão às mãos entrelaçadas, e a abraça, inclinando levemente o corpo para baixo, beija-lhe o rosto e descansa o rosto no ombro de Emma, deixando suas bochechas roçarem.
— Acho que já está na hora de vocês irem. — Regina fala olhando de Snow para Charming sem piscar.
Absortos demais com a cena que presenciam, levantam-se e saem sem relutância.
— Obrigada. — Emma quebra o silêncio alguns minutos depois, ainda na mesma posição.
— Não por isso. É um prazer expulsar os dois idiotas.
Mesmo a ofensa sendo direcionada aos seus pais, Emma não se incomoda, acha graça e se junta à Regina na risada. Ela gosta e se importa com Mary e David, mas a implicância que Regina tem com eles é mais sedutora do que a mágoa dos pais pela rainha.
— Não era exatamente por isso.
— Pelo quê? — Regina sai do abraço e senta-se ao lado de Emma.
— Por ter tido esse cuidado comigo, de não dar continuidade a algo que estava me incomodando. — Seu rosto corou em antecipação. — E pelo carinho.
— Eu não estou ajudando, né? — Regina refere-se ao seu comportamento desde a conversa que tiveram. Emma apenas sorri abatida. Regina molha os lábios com a língua e aproximasse da loira, sem qualquer outro toque, beija-lhe a boca. É apenas um selinho de poucos segundos, embora seu corpo queira mais, mas torce para ser o bastante para que Emma entenda que está tentando.
O coração de Emma falha ao toque inesperado. Entende o recado da rainha e, apenas com a troca de olhares, combinam o que farão a seguir. Levantam-se, Regina coloca alguns brownies em um prato, seguem para a sala e ligam a TV para assistirem um filme. Regina escolhe The Devil Inside, mas Emma passa o filme todo reclamando que a narrativa é pouco convincente e que o enredo possui falhas.
— Essa mulher não está possuída, ela tem demência, isso é tão claro. Há muito não fazem terror bons. — Resmunga tirando a concentração de Regina.
— Amor, assim eu não consigo ouvir. Vamos prestar atenção. — Regina faz bico e encara a TV séria, com os braços cruzados.
Ao ouvir como a morena a chamou, mesmo sem perceber, Emma passa os braços por sua cintura e deita o corpo, fazendo Regina deitar-se também. Aconchegam-se em uma conchinha confortável e continuam assistindo ao filme. Regina treme insegura, mas quando Emma a abraça com mais força e lhe dá um beijo na cabeça, respira algumas vezes para se acalmar e relaxa nos braços da loira. A sensação é de que nada aconteceu, ainda são apenas a detetive Swan e a editora Mills e contos de fadas continuam sendo apenas contos de fadas, nada real, nada que possa atrapalhar a paz que compartilham.

Notas finais
E então? Críticas positivas, ideias, conselhos e qualquer outra coisa que queiram dizer, sou toda ouvidos. É sempre bem vindo. Beijos!