Todos os Erros do Mundo
15 Saudade
Notas iniciais
"Eu sei que a vida é curta e que todos nós somos frágeis feito papel, que dobra e rasga, mas quando a gente perde alguém, não quer nunca ouvir que é natural"
— Leonardo Ramos — Supercombo
A vista do topo da colina é mais bonita do que Regina conseguia se lembrar. O sol ainda está alto e uma árvore solitária faz uma grande sombra onde ela está sentada admirando a amplitude do campo a sua frente. Pega a taça de vinho tinto que lhe é estendida e encara o homem que a acompanha. Seus cabelos loiros estão dançando no ritmo do vento, suas roupas em tons pasteis, com algumas manchas escuras, faz parecer com que estivesse deixando o trabalho agora. Ele ergue sua taça para um brinde, que é imediatamente aceito por Regina.
— Ao quê exatamente estamos brindando?
— Ao amor. — Ele responde simplesmente, como se amor, em si, fosse a resposta para qualquer indagação.
Permanecem em silêncio por longos minutos. Regina deita a cabeça em seu ombro e recebe um cafuné calmo e delicado.
— Eu sinto sua falta. — Ela quebra o silêncio sem mudar de posição.
— Eu sei.
— Você sente a minha?
— Não preciso. Eu estou com você o tempo todo, mesmo que não me veja ou que não sinta a minha presença, eu estou com você.
— Te sinto em meu coração.
— Eu fico feliz que tenha seguido em frente. — O homem acaricia a bochecha de Regina fazendo-a lhe encarar.
— Às vezes eu ainda sinto como se estivesse nos traindo, mesmo sabendo que você me apoia.
— Você não está nos traindo. Nossa história foi linda, nosso amor foi verdadeiro, intenso e puro. Na verdade, ainda é. Mas eu sou o seu passado. Alguém que chegou na sua vida para melhorá-la naquele momento, para mostrar-lhe a força do amor e como ele é a magia mais poderosa de todas. — Envolve Regina em seus braços. — Tenho certeza que teríamos sido muito felizes, eu gostaria que tivéssemos tido a chance...
— Eu também. — Regina sussurra.
— Mas as coisas não acontecem como planejamos. Nós nascemos para nos amarmos, é fato, mas não para ficarmos juntos. Cabe a Emma ser parte fundamental do seu happy ending e eu estou feliz por isso. Não poderia ser alguém melhor.
— Você é a pessoa mais doce que eu conheci em toda a minha vida. — Regina senta o corpo de frente para o dele e enlaça seu pescoço em um abraço apertado.
— Acho que você precisa ir cuidar de uma coisa muito importante para nós dois. — Afasta-se apenas o suficiente para encontrar os brilhantes olhos escuros da morena.
— Eu gostaria de ficar mais um pouco.
— Eu sei, meu amor. Mas você precisa acordar agora. — Ele beija a testa de Regina, que copia o gesto. — Eu prometo voltar.
— Eu vou ficar esperando.
— Eu te amo!
— Eu também te amo, Daniel!
Regina acorda sentindo cheiro de fumaça, levanta-se rapidamente e o segue até o jardim. A cena com que se depara faz crescer dentro de si uma fúria que há muito não sentia. Há fogo em torno de sua macieira e as frutas estão apodrecidas, escuras e secas. Eleva a palma de uma mão em direção ao fogo e o suga. Sabe exatamente o que aquilo significa. É um aviso: Wicked Witch está declarando guerra. Volta para dentro de casa e liga para Snow:
— Preciso de faça uma coisa. É urgente. — Disse assim que Mary atendeu a chamada.
— Do que você precisa?
— De um exército. Encontre pessoas que possam nos ajudar e os leve para a biblioteca, mas com discrição.
***
Aos poucos e discretamente, todos os convocados por Snow adentram na biblioteca onde a princesa os aguarda. Enquanto Regina não chega, David explica quem é a pessoa que possivelmente lançou a maldição. Alguns minutos depois, Regina aparece no local envolta por sua fumaça roxa, assustando os presentes.
— Vejo que estão muito familiarizados com meu tipo de magia, isso me deixa mais tranquila. — A rainha ironiza observando a expressão de todos.
Rumple está sentado em uma cadeira no canto, afastado do restante. Snow e Charming estão no centro tentando tomar a liderança, como sempre fazem. Belle e Ruby estão sentadas em uma mesa de canto, pouco a frente de Gold. Archie, Blue e Tinker estão próximos a porta de entrada, com eles está um homem que a rainha não reconhece. Alto, loiro, com porte atlético e olhos azuis que correm por seu corpo, não o acha estranho, mas não se esforça muito para lembrar, apesar de sentir-se extremamente intrigada.
— Como vocês já devem saber, temos quase certeza de que quem os amaldiçoou dessa vez foi a Wicked Witch, embora eu sentiria prazer em fazê-lo. — Não é verdade, mas Regina não perderia a chance de mostrar que o título de Evil Queen ainda lhe serve bem. — Ela deu o primeiro ataque hoje pela manhã, agora seria a minha vez. Mas não sou paciente para esses joguinhos, quero acabar logo com isso e, por esse motivo, preciso do suporte de vocês. — Correu os olhos pelo cômodo. — Se é que podem fazer isso. — Balbuciou desgostosa pelo time que Snow reuniu.
— Isso vai depender de seus métodos. Não colaborarei com magia negra. — Blue desafia.
— Então pode ir embora, pois é a única que tenho. — Regina não se intimida com o olhar da fada e a observa girar a maçaneta.
— Espere, Blue. Considere que é por uma boa causa. Gostando ou não de Regina, ela é a única disposta a nos ajudar agora. — Aquelas palavras amargam a boca da princesa, pois a fazem lembrar que Emma, destinada a ser a savior de todo o reino, não cogitou, por um minuto sequer, ajudá-los nessa empreitada. E Regina, a pessoa a quem todos direcionam seus piores desejos, está ali, disposta a enfrentar alguém, teoricamente, mais forte do que ela, para salvar a cidade. Com isso, consegue dissuadir a fada, que aceita ficar e ouvir o plano da rainha antes de decidir ajudar ou não.
— Eu esperava contar com mais pessoas. — Regina fala olhando diretamente para Mary.
— Temos mais homens. Os de Robin. Eles estão na floresta, mas farão o que líder deles decidir.
Regina deduz que Robin seja o homem que acompanha a fada ranzinza, a exilada e o grilo. Ele aproxima-se dela e estende-lhe a mão.
— Robin de Locksley. — Regina apenas observa, sem corresponder ao gesto, fazendo-o recuar. — Tanto eu quanto os Homens Alegres ficaremos contentes em ajudar.
— O ladrão! — Regina desdenha.
— Pelo visto você não tem muitas opções. — Ele acena para os outros presentes.
— É "Vossa Majestade". — Regina revira os olhos obrigando-se a concordar com ele. — E eu agradeço a boa vontade. — Caminha até ter todos em seu campo de visão. — Eu nunca me encontrei com essa bruxa, não sei o que ela quer com Storybrooke tampouco tenho conhecimento de seus poderes. — Dirige-se para Belle. — Espero contar com você para descobrir isso. — Volta-se a todos. — Mas o meu plano é o seguinte...
***
Menos de uma hora após o fim da reunião, Leroy já corre pela cidade anunciando que a Evil Queen está convocando Wicked Witch para um duelo no campo próximo aos estábulos. Tudo já está combinado. Robin e os Homens Alegres ficarão entre as árvores na floresta, cercando o campo, sempre com flechas apontadas para a bruxa de Oz. Rumpelstiltskin ficará dentro dos estábulos, observando tudo pelas frestas da madeira, pronto para apoiar magicamente a rainha, caso seja necessário. Pouco atrás de onde Regina pretende posicionar a bruxa durante o duelo, também entre as árvores, estarão Blue, em sua forma de fada, e Ruby. Na mesma linha, porém do outro lado, estarão Snow e Charming com espadas em punho o tempo todo.
Enquanto o dia se arrasta até o horário combinado, Regina continua com Belle e Archie na biblioteca. Enquanto ela estuda a magia que colocará o restante da cidade para dormir durante o combate, os outros dois pesquisam sobre os poderes da rival da rainha.
— Você sabe pelo menos como ela é fisicamente? — Archie pergunta.
— Só o fato de ser verde não é referência suficiente para você? — Regina responde com a boca contorcida imaginando como pode ser alguém com tal aparência.
— Mas ela não deve ser verde aqui. — Ele argumenta.
— Não precisa ter medo de que eu lute com a pessoa errada. Esse feitiço evitará curiosos. Além disso, saberei que é ela assim que sentir sua magia.
Regina gostaria de enfrentar a bruxa sozinha e provar para todos que ela é forte o bastante para defender o que lhe pertence. No entanto, se Rumple, que a ensinou tudo, acredita que a outra tem mais chances, então tem. Não pode arriscar sua vida agora que encontrou motivos para, finalmente, vivê-la. Mas sabe que, apenas ir até lá, é demasiado arriscado. Suas chances de vencer são as mesma de ser derrotada. E ser derrotada em uma briga de bruxas significa morrer.
Caminha até uma parte mais afastada, entre prateleiras de livros, senta-se no chão, conjura papel e caneta e põe-se a escrever. Deseja ter condições para telefonar e ouvir a voz do filho e de Emma, mas sabe que, se fizer isso, pode desabar, e, mais do que nunca, precisa de toda a força que tem. Precisa de todas as emoções que conseguir acumular para serem descarregadas em forma de magia durante a luta.
Antes de ir para casa preparar-se, caminha até onde acredita ser o acampamento de Robin.
— Majestade! — O homem a cumprimenta com leve ironia na voz.
— Ladrão!
— A que devo a honra?
Regina estende-lhe um saco marrom amarrado com um cordão da mesma cor, mas com linhas douradas.
— Quero que o proteja durante o duelo. E se alguma coisa acontecer comigo hoje, quero que entregue isso para uma pessoa chamada Emma Swan. — O homem pega o pacote. — Tem um endereço aí dentro. — Ele assente. — Tenha cuidado, é muito frágil. Estou entregando a minha vida em suas mãos.
— Por que em minhas mãos? — Ele está visivelmente intrigado.
— Porque você é o que tem menos motivos para esmagá-lo.
— Esmagar o quê?
— O meu coração.
Robin congela. Os segundos que se seguem são angustiantes para Regina, que já imagina o homem abrindo o pacote e espremendo seu órgão vital como se estivesse amassando papel, mas ele não o faz.
— Ter "menos motivos" não é ter motivo algum. — O homem pondera.
— Eu vou confiar em você.
Regina não sabe explicar, tampouco entende a conexão que sentiu assim que fitou os olhos do homem pela primeira vez. Sente que já o conhece, que suas vidas já se cruzaram, mas quanto mais pensa sobre isso, mais confusa fica e sua cabeça passa a receber pontadas. Decide deixar isso de lado por ora e concentrar-se no que precisa fazer. O plano é capturar a bruxa. Não pode matá-la, pois só com ela viva conseguirá respostas sobre a maldição, e isso torna a sua missão ainda mais difícil.
***
A noite de terça é agitada em NY. A cidade parece nunca parar, 24h por dia em constante movimento, nunca dormindo. Emma sai para encontrar Gillian e Noah no restaurante da amiga. Não se veem desde a viagem de despedida de Will. Kate, Melissa e Eli não podem ir, mas Emma sabe que isso não fará da noite menos agradável, afinal, basta dois se unirem para a diversão estar garantida. O que preocupa Emma é o fato de Regina não ter atendido as duas vezes que ligou. Uma na hora do almoço e outra quando estava saindo de casa.
Quando chega ao Foster's vê que Noah já está na mesa reservada para eles, e acompanhado, mas tem certeza de que aquela mulher não é Gillian. Ao se aproximar reconhece Ria, irmã de Will. Sente-se um pouco desconfortável ao lembrar-se das investidas da jogadora em Regina na noite que passaram em Tessália.
— Emma! — Noah levanta-se para cumprimentá-la. — Olha quem eu consegui arrastar com a gente. — Passa o braço pelos ombros de Ria, que está de pé diante dele.
— Hey! Espero não tê-los feito esperar muito. — Emma abraça o amigo e cumprimenta a mulher apenas com um aceno.
— Não. Gillian ainda não se deu ao trabalho de vir até nós. Que tipo de chef é essa que não cumprimenta os clientes? — Noah brinca quando vê Gillian se aproximar.
— Meus clientes favoritos chegaram! — Senta-se na mesa. — E Regina?
— Ela está em uma viagem de trabalho. — Ao ouvir o nome da esposa, toda a preocupação volta a lhe atormentar. Confere o celular, mas Regina não havia retornado suas ligações.
— É uma pena! Ela amaria o que eu preparei para vocês hoje.
— Isso quer dizer que é algo bem saudável. Você me decepciona, Gil. — Noah provoca e Gillian atira em seu rosto uma das rosas que enfeita a mesa.
Quando o jantar é servido, Gillian se junta ao trio e comem conversando animadamente. A entrada é salada vermelha, com melancias e rabanetes. O prato principal é lagosta com manteiga trufada. De sobremesa, para alegria de todos, sorvete com frutas. Emma tem certeza que Regina se deliciaria com o jantar e sente a falta da morena a cada movimento do garfo em direção à boca.
Não consegue mais se concentrar na conversa, seu peito fica cada vez mais apertado. Liga mais duas vezes para Regina e não é atendida. Seu coração começa a receber pontadas e sente que pode infartar a qualquer momento. Tem certeza que algo está acontecendo com sua morena e, não suportando mais a dor, cai inconsciente.
***
Todos tomaram suas posições antes mesmo do sol se pôr. Próximo do horário, Regina lança o feitiço que faz a cidade adormecer e caminha sozinha até o local. Após mais de uma hora esperando, começa a duvidar que a bruxa vá aparecer. Cogita a possibilidade de ela ter ficado sabendo do plano e até mesmo de ter um informante entre os seus aliados, até que ouve uma risada alta e estridente. Olha para todos os lados e não encontra a autora. Gira em torno do próprio corpo e quando volta para a posição inicial é surpreendida por uma ruiva muito próxima a ela. Próxima demais. Por instinto, aparata-se para uma distância segura.
— Te assustei? — A voz da mulher é desagradavelmente aguda para os ouvidos da rainha.
— Confesso que esperava algo mais... verde. — Regina a observa atenta da cabeça aos pés.
— Rude como eu imaginei. — Wicked Witch cospe as palavras.
— Quem é você? — Regina estende as mãos em posição de defesa.
— Regina, Regina... Você, com essa pose de que sabe de tudo, não faz ideia de nada.
— O que você quer com a minha cidade? — Regina tenta fugir das provocações para conseguir arrancar alguma informação útil, embora a vontade que tem é de começar a lutar imediatamente.
— Eu quero tudo que é seu, Regina. A cidade, a coroa, os súditos, até os inimigos. — A expressão da bruxa é impassível e ela fala com uma naturalidade que assusta todos que estão atocaiados.
— Eles não são de grande valia. — Regina tenta barganhar. — Você tem um nome?
— Zelena. — Sua expressão ilumina-se e ela tem, em seu íntimo, confiança de que Regina se lembre de tudo.
— Isso deveria significar alguma coisa para mim?
— Na verdade deveria sim. Temos algo em comum: Cora. — Ao pronunciar o nome da Rainha de Copas, a ruiva curva a boca em nojo.
— Como você conhece Cora?
— Do mesmo jeito que você. Ela também é minha mãe, sis. — Zelena sorri ao notar a expressão assustada de Regina.
— Eu sou filha única. — A morena tenta um tom indiferente, mas tem certeza de que não saiu como desejava.
— Cora me teve antes de se envolver com a realeza. Ela me abandonou para que você pudesse ser rainha. — Zelena caminha na direção de Regina, que se afasta no mesmo ritmo. A intenção da rinha é levar a bruxa até o ponto combinado. — Tudo que você tem era para ser meu. Então eu vim tomar-lhe.
— Se você tivesse sido criada por Cora, desejaria ter sido abandonada. Tenha certeza disso.
Regina não espera que essas palavras doam tanto na bruxa e acaba surpreendida ao ser arremessada próxima aos estábulos.
— Você não merece a vida que teve.
— Nisso nós concordamos. — Regina atira uma bola de fogo antes mesmo de se levantar e, quando o faz, lança uma maior, acertando Zelena, que é arremessada há metros de distância. — E, caso ainda não tenha reparado, fogo é o meu elemento. — Frisa o pronome possessivo referindo-se ao ataque à sua macieira.
As duas travam um impasse com suas energias. Tudo que é possível enxergar sãos feixes de luzes verdes de um lado e vermelhas de outro. Diante disso, Ruby, que após saber do relacionamento de Emma e Regina decidiu que faria de tudo para proteger a rainha, transforma-se em lobo. O movimento distrai Regina que acaba sendo atingida por Zelena, que, habilmente, se põe sobre ela e cravou-lhe a mão no peito. Ao não encontrar o que busca, enfurece:
— Onde está? — Grita a centímetros de Regina.
Assim, tão próxima, Regina consegue notar as semelhanças entre Zelena e Cora. Mais do que fisicamente, o vazio que a bruxa mostra no olhar é exatamente igual ao vazio que Regina enxergou em Cora a vida inteira. Não há sinal de qualquer tipo de benevolência ali. Apenas um buraco negro que Regina teme ser capaz de sugar sua alma caso o encare por mais tempo. O choque do primeiro momento, passa. Não há dúvidas de que a bruxa é mesmo sua irmã.
— Nossa mãe me ensinou algo: Nunca leve seu coração a uma briga de bruxas. Você saberia se ela não tivesse te abandonado.
Regina invade o peito da ruiva e arranca seu coração quase completamente negro. Com a mão livre, a lança até o ponto marcado antecipadamente com seus aliados. Zelena invoca seus fiéis macacos voadores, mas não há tempo para mais nada. Blue utiliza pó de fada para conter a magia da bruxa e Ruby a captura. Quando os macacos aproximam-se, os homens alegres, Snow, Charming e Regina passam a enfrentá-los. Um dos homens de Robin é capturado por uma das criaturas e levado floresta adentro. Após destruírem os macacos que ficaram, seguem para a floresta. Exceto Regina, que vai até a bruxa, que agora está presa pela magia de Rumpelstiltskin.
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