Todos os Erros do Mundo

16 O Mundo é Um Moinho


Notas iniciais
Boa madrugada, queridinhxs. O capítulo está curto, mas eu passei o dia com uma ressaca que só magia pode resolver. Faz tempo que quero escrever one shot de uma coisa que me passou pela cabeça durante a cena em que Emma pesa seu coração no submundo provando seu amor verdadeiro (avá) por Hook. Se eu escrever, vocês vão ler? Responderei os comentários assim que eu tiver condições. Tentei responder mais cedo, mas estava tão acabada que temi transparecer mau humor e vocês são tão amorzinhos rs. Boa leitura!

"Ouça-me bem, amor, preste atenção, o mundo é um moinho, vai triturar teus sonhos tão mesquinhos, vai reduzir as ilusões a pó"

— Cartola

Zelena é levada para a ala psiquiátrica do hospital ainda sob efeito do pó de fada. Como ele é temporário, Gold acrescenta o bracelete que contém sua magia para garantir que não fuja. Todos concordam em deixar o interrogatório para o dia seguinte. Ruby propõe um brinde no Granny's, mas Regina recusa. Tudo que ela quer é tomar banho e dormir pelas próximas décadas. Quando chega em casa e confere o celular, percebe algumas chamadas de Emma e outras de Noah. Retorna para a esposa imediatamente, mas não é atendida. Então liga para o amigo.
— Hey, chica!
— Noah?! Aconteceu alguma coisa? Recebi várias chamadas suas e de Emma. — O peito da morena está apertado e o vazio que passou a sentir assim que saiu de NY parece crescer.
— Emma teve um desmaio, mas já está bem. Estamos na sua casa cuidando dela.
Regina sente o desespero tomar seu corpo. Emma não tem desmaios, sequer fica resfriada. É a pessoa mais forte e resistente que conhece.
— Estamos?
— Gillian, Ria e eu.
— Passa para ela.
Regina sabe que está sendo bem cuidada, pois Gillian é a mãezona do grupo e Noah não mede as palavras. Se disse que Emma está bem, então está. Mas precisa ouvi-la dizer isso.
— Oi. — Emma fala timidamente.
— Oi. — A timidez também ganha espaço em Regina. Mesmo juntas há mais de um ano, tecnicamente, e teoricamente há mais de uma década, desde que lembraram-se de tudo, parece que voltaram para o início de namoro, quando finalmente pararam de se provocar o tempo todo e assumiram o sentimento. Regina percebe que é exatamente nesse ponto que estão, mas dessa vez verdadeiramente. — Você está bem?
— Estou. Foi só um desmaio.
— Um desmaio nunca é só um desmaio.
— Eu estava com uma sensação ruim, como se algo estivesse acontecendo com você, como se corresse perigo. Você está bem? — Emma tem certeza que algo aconteceu, pois a ligação entre elas é muito forte. Lembra-se de todas as vezes em que teve aquela sensação, estava sempre certa. Assim como Regina.
— Mais ou menos. Levei uma surra. — Regina solta o ar em uma risada.
— Como assim uma surra? — Emma senta-se na cama chamando a atenção de Noah e Gillian, que conversavam distraidamente.
— Não foi grande coisa. Relaxa. O importante é que eu consegui capturar a bruxa que amaldiçoou Storybrooke.
— E quem é ela?
— Wicked Witch.
— Sério que ela existe? — Emma franze as sobrancelhas e ri da figura que imagina. — É verde?
— Até quando vai ficar chocada com a nossa existência, Swan? — Regina tira a bota e se deita na cama alongando os músculos. — Você está falando isso na frente de alguém?
— Ninguém entenderia, tranquilize-se. — Emma volta a se deitar. — Isso significa que você já pode voltar?
— Não, Swan. Ainda não quebrei a maldição, apenas peguei quem a lançou. Vou interrogá-la com seu pai amanhã...
— Podemos fazer uma chamada de vídeo? — Emma interrompe Regina enquanto Noah e Gillian saem do quarto fechando a porta. — Estou sozinha agora. — Fala já fazendo a chamada. Quando vê o rosto da rainha com expressão cansada e os cabelos despenteados, suspira. — Você está linda.
— Eu estou destruída. — Regina revira os olhos, mas cora. — Não te contei a melhor parte. Ou a pior. Com certeza a pior.
— Algo pode ser pior do que enfrentar uma pessoa verde?
— Quem é ela é pior do que enfrentar uma legião de Senhores das Trevas. Está preparada?
— Diga logo, estou curiosa.
Regina cerra os olhos fingindo estar brava com a impaciência da esposa.
— Ela é filha de Cora.
As sobrancelhas de Emma se erguem acompanhando os olhos que se arregalam e sua boca se abre automaticamente.
— A Wicked Witch é sua irmã?
— Bizarro, não é? — A rainha contorce a boca.
— Que família é essa, Regina? Filha da Queen of Hearts, irmã da Wicked Witch, madrasta da Snow White.
— Avó da savior... — Regina provoca ao mesmo tempo em que faz uma careta. Emma fica alguns segundos quieta, digerindo aquela informação. Nunca havia refletido sobre sua árvore genealógica.
— Nunca mais repita isso. — Acompanha Regina na expressão de nojo.
— Eu vou descansar agora. Estou um pouco dolorida...
— Eu sinto muito por te deixar enfrentar isso sozinha. — Emma volta a interromper. — Eu finquei o pé que não queria mais mudar a minha vida que não pensei nos riscos que você correria sozinha. — Seus olhos enchem de lágrimas ao constatar que seu egoísmo poderia ter matado Regina.
— Não sinta. Eu estou bem e tive ajuda. Seus pais, a lobinha, as fadas, Rumple e até um bando de ladrões.
— Ladrões? — Emma não se lembra de assaltos em Storybrooke.
— Vieram com essa maldição. Robin Hood e seus Homens Alegres. — Debocha do apelido do grupo.
— Você conheceu Robin Hood? — A animação de Emma faz com que eleve a voz sendo recriminada por Regina. — Desculpa. — Sussurra. — Eu adoro ele.
— Você nem o conhece. — Regina desdenha.
— Eu conheço a lenda.
— Você sabe que esses contos são todos errados. — Regina boceja. — Eu vou dormir, Emma. Durma também e se cuida.
— Espero que amanheça sem dores. Beijos, majestade.
Regina ganha expressão convencida diante do título, o que faz Emma sorrir, e encerra a chamada.

***

A noite foi agitada para Regina. Teve vários pesadelos com a mãe e com a recém descoberta irmã. Emma e Henry faziam parte de alguns, assim como Snow e até mesmo o rei. Senta-se em uma mesa no Granny's e pede um café. Tenta encontrar uma lógica para aqueles sonhos e alguma ligação entre eles, mas todo seu esforço é em vão.
— Parece que alguém não dormiu bem. — Snow senta-se com David na mesma mesa que a rainha.
— Eu não lembro de ter te convidado. — Regina encara o casal com a expressão fechada.
— Definitivamente alguém não dormiu bem. — David fala enquanto Ruby deixa o café de Regina, com um pedaço de torta de maçã como agradecimento por estar salvando a cidade, e volta ao balcão. — Você falou com Emma?
— Falei ontem a noite. Ela está bem. — Responde a contra gosto.
— E Henry?
— Também.
Ao lembrar-se da reação dos dois quando falou sobre a aliança e em como uma das suas maiores diversões antes de ir para NY era implicar com a enteada, decide usá-los para animar o seu dia. Tira o celular da bolsa e busca por uma foto.
— Nós temos um porco e ele finalmente aprendeu a usar esse negócio. Veja a felicidade deles. — Vira o celular para que o casal possa enxergar enquanto seus olhos pulam de Snow para David e vice-versa. Pelo movimento dos lábios capta o momento em que David lê a placa com o sobrenome da família.
— Você está fazendo isso para nos provocar, não está? — Snow a encara séria.
— Claro que estou. Caso contrário eu não compartilharia esse momento com vocês. — Regina revira os olhos e beberica seu café.
— Não. Não me refiro a isso. O que eu quero saber é... — Puxa o ar. — Por que está com Emma mesmo lembrando de tudo? Você a ama?
Regina é pega de surpresa. Não sabe o que responder. A pergunta ecoa em sua mente enquanto Snow a encara desafiando-a. “Você a ama?”. Ela não tem condições de responder. Se a pergunta fosse se atravessaria um oceano a nado para salvar-lhe a vida, a resposta seria “sempre”. Se perguntasse qual as chances de se atirar em um precipício para que ela fosse feliz, a resposta seria “todas”. Se perguntasse se daria a sua vida pela de Emma, a resposta seria “sim”. No entanto, pronunciar a palavra ”amor” é exigir muito de quem já sofreu demais por ele. Ela não está preparada para assumir aquele sentimento. Ainda precisa se iludir um pouco mais de que tudo aquilo é casual, apenas mais uma aventura, apenas mais um caso secreto.
— Minhas razões não te dizem respeito. — Responde simplesmente.
— Ela é minha filha, Regina. — O rosto de Snow ganha tom avermelhado enquanto é tomada pela fúria. Não que aprove o relacionamento e a tal família "Swan Mills", mas imaginar que a rainha está brincando com os sentimentos de Emma a faz querer arrancar-lhe o coração.
— E minha esposa. — Regina eleva o tom para alcançar o da princesa.
— Chega! As pessoas estão olhando. É só o que falta toda a cidade ficar sabendo disso. — David tenta apartar, mas só intensifica a raiva que ambas sentem e seguem a discussão.
— Disso? O meu casamento não é "isso" e vocês, se quiserem fazer parte da vida de Emma e de Henry, terão que aceitá-lo.
— Você está indo longe demais dessa vez, Regina. Eu não vou permitir que faça minha filha de fantoche como fez com todos nessa cidade por 30 anos. Ela te ama!
A declaração pega os três de surpresa. Snow não percebeu o que estava prestes a dizer, sequer estava raciocinando, apenas disse. David leva a mão na boca e olha ao redor para certificar-se de que ninguém ouviu. Regina petrifica. Tudo nela está congelado. Seus movimentos, seus lábios friccionados, seu olhar. David cogita a possibilidade de ela nem estar respirando. As palavras de Snow ecoam em sua cabeça. Quando Emma quis que continuassem, Regina não focou nisso. Para ela, a razão de Emma era o desejo de manter sua vida exatamente como estava, pois era, talvez, pela primeira vez, feliz. Achou que Emma queria estabilidade. Além disso, Regina considerou também que Henry era um bom motivo. Juntas não precisariam dividir Henry em duas casas novamente, alterar sua rotina e nem explicar o motivo da separação. Porém, nunca pensou que Emma a ama verdadeiramente. Parece tudo muito surreal. Regina navega por seus defeitos e erros, pelas escolhas que fez durante toda sua vida, e não encontra um mísero motivo para ter o amor de Emma.
— Ela disse isso? — Pergunta em um fio de voz.
— Não.
— Então acho que você está impressionada demais, imaginando coisas.
— Ela te pediu uma chance, não pediu? — Regina confirma com a cabeça. — Ela não está aqui por um motivo e ele não é a raiva que sente por contos de fadas, mas a felicidade que tem em sua vida "real". — Faz aspas com as mãos. — Ela não quer perdê-la.
— Por que está me dizendo isso? — Regina balança a cabeça espantando o eco da declaração. — Você deveria estar tentando me convencer do contrário para que eu a deixe.
— Eu não posso mais comprometer a felicidade da minha filha. — Os olhos da princesa ficam marejados e David a envolve. — Se eu detesto essa ideia? É claro que sim. Se eu pudesse mudar, mudaria? Óbvio. Mas eu não posso continuar agindo assim, isso só afastou Emma. Ela está nos odiando.
— Ela não odeia vocês. Essa é a minha função. — Regina sente o nariz arder com a proximidade do choro.
— Acho que esse é um efeito que você causa em minha família. Todos acabam te amando, eu fui a primeira. — Os olhos de Regina se abrem mais em surpresa juntamente com sua boca. David faz uma expressão semelhante e encara a esposa. — O maior mal que você me fez não foi tentar me matar durante anos, me amaldiçoar ou me forçar a abandonar minha filha. O que realmente me doeu quando mandou aquele caçador me matar, foi saber que você não me amava como eu amava você. E todas as vezes em que eu te dei mais uma chance, não era para se redimir ou para que eu tivesse paz, era mais uma chance para que você me amasse como eu sempre quis. — Snow não consegue mais conter e as lágrimas rolam por suas bochechas. — Eu tinha tanto orgulho de dizer que você era a minha mãe e que era...
— A mais bonita de todas. — Regina completa lembrando de quando Snow ainda era uma criança e gostava de observar Regina se arrumando.
— Eu não posso proibir a minha filha de te amar se eu mesma nunca deixei de fazê-lo. — Snow enxuga o rosto, desvencilha-se do marido e sai da lanchonete sendo seguida por David.

O sol mal nasce e uma Snow criança, ainda de camisola, corre pelo castelo, entra em um cômodo sem bater e se joga na cama entre dois corpos ainda entregues ao sono.
— Acorde! — Cutucou a bochecha do homem. — Acorde! — Cutucou a da mulher. — Hoje é um dia especial.
— É? Por que? — O rei se vira na cama para ficar de frente para a menina.
— Você não pode ter se esquecido. — Faz um bico triste.
Regina abre os olhos preguiçosamente e se espreguiça:
— E essa invasão na minha cama?
— Vamos tomar café no jardim. É assim que quero começar o meu aniversário. — Snow senta-se com as pernas cruzadas olhando de uma para o outro com um enorme sorriso.
— Hoje é seu aniversário? Mesmo? — O rei finge não se lembrar e ganha uma cotovelada de leve na perna. — Você estava se lembrando, Regina?
— Claro que sim. Eu sou uma ótima mãe. — Puxa Snow pelo braço fazendo-a deitar-se novamente entre ela e o marido, que as abraça. — Feliz aniversário, princesa. Eu tenho um presente para você.
— E o que é?
Regina se levanta e vai até o cômodo anexado. Volta com uma grande caixa com laço vermelho. Senta-se na beirada do marido e entrega o embrulho. Snow o abre e tira de lá um conjunto de couro preto — calças e corsets — com uma bota marrom terra.
— Exatamente igual ao seu. — Animada, a criança pula em seus braços não se importando se machucaria o pai. — Você é sim a melhor mãe do mundo. Eu te amo! Será que vou ficar parecida com você?
— Não precisa ficar parecida comigo, você é linda. — Regina segura o queixo da menor e lhe dá um beijo na ponta do nariz.
— Mas você é a mais bonita de todas.

— Eu nem sempre te odiei. — Regina sussurra, mas Snow já não está ali para ouvi-la.

***

Regina caminha pela floresta tentando digerir toda a conversa com Snow, desde quando disse que Emma a ama até o momento em que declarou os próprios sentimentos. Não percebe quando alguém se aproxima e a toca no ombro, no susto lança uma rajada de vento. Quando se vira, vê Robin caído alguns metros de distância.
— Me desculpe. Eu estava distraída. — Corre para ajudá-lo e vê o pacote que lhe entregou no dia anterior.
— Tudo bem. — O homem passa a mão pelas roubas livrando-se de folhas secas. — Está indo atrás disso? — Exibe o saco.
— Sim. Estou. — Regina o pega e retira seu coração de dentro. Com calma, coloca-o no devido lugar.
— Como você vive sem ele? — Robin tem a testa franzida em confusão e Regina o acha cativante.
— Magia! — Responde simplesmente, com um sorriso no rosto que se estica até o homem.
— Parabéns! Você foi incrível ontem. — Apanha um cantil que está amarrado a sua cintura. — À vitória da rainha! — Arregaça as mangas da camisa, dá um gole e estende para Regina. Quando ela está prestes a pegar, nota algo no pulso no homem. Uma tatuagem de leão. Sua respiração falha e seu coração salta perante o homem a quem é destinada.

Notas finais
O capítulo tem um total de zero acontecimentos, eu sei, mas acho importante tudo que foi dito. É aquilo de sempre, queridxs, críticas positivas, ideias e afagos são bem vindos.