Todos os Erros do Mundo
17 Linda Rosa
Notas iniciais
"Agora sei, não mais reclama, pois dores são incapazes e pobres desses rapazes que tentam lhe fazer feliz"
— Gugu Peixoto e Luis Kiari
De repente, tudo fez sentido. A conexão que sentiu ter com aquele homem assim que pousou seus olhos nas íris azuis, a confiança cega em entregar-lhe seu coração, tudo está explicado. Ele é sua alma gêmea que o pó de fada lhe mostrou anos atrás, quando ainda estava com o rei. Pega o cantil de sua mão e experimenta um gole. Faz uma careta assim que sente o gosto.
— Isso é álcool puro? — Tenta sorrir, mas sua boca ainda se contorce.
— Mais ou menos. — O homem abre um pequeno sorriso acanhado. — Acredito que não seja uma bebida apropriada para uma rainha.
— Definitivamente não é. — Regina permite que seus olhos corram pelo corpo dele. É, sem dúvidas, um dos homens mais atraentes que conhece e sente um formigamento no peito.
— Qual bebida é digna de vossa majestade?
— Sidra. — Arqueia a sobrancelha como se fosse obrigação do homem saber disso.
— Então eu fico te devendo uma sidra.
— Nesse caso, acho que eu fico te devendo uma. A minha é a melhor que você provará na vida. — Ela entrega o cantil ao homem e põe-se a caminhar para fora da floresta.
— E quando brindaremos?
— Não faltarão oportunidades. — Regina fala virando-se para ele. — Aliás, obrigada por cuidar disso para mim. — Aponta para o peito indicando o coração. — Eu não poderia escolher guardião melhor.
***
Quando Regina chega à cela de Zelena, encontra David e Ruby com expressões cansadas e a bruxa deitada como se estivesse em uma cadeira de praia tomando sol. Regina cogita que ela é maluca e está delirando.
— Pensei que não viria falar comigo, sis.
— Não me chame assim! — Regina a corta e dirige-se a David. — Aconteceu alguma coisa?
— Ela conseguiu fugir, mas graças à Ruby a pegamos. — Regina olha para a loba em agradecimento.
— Eu não iria sair da cidade. Preciso estar aqui para te ver cair. — Zelena senta-se e encara Regina com os olhos faiscantes.
— Poupe-nos do trabalho e nos diga o que quer com essa maldição. Quem é o alvo dessa vez?
— Ainda tem dúvidas, sis? Claro que o alvo é você. — A bruxa levanta-se e fica a centímetros da rainha.
— Eu sequer estava na Enchanted Florest no último ano e nós nunca nos conhecemos. Se você não colaborar, terei que fazer do jeito difícil.
— E como seria o jeito difícil, sis? — Zelena é debochada e David pode notar as semelhanças de personalidade entre as irmãs.
— O jeito Evil Queen. — Regina agarra a bruxa pela gola e a joga na cama. — Há algo que eu não saiba sobre essa maldição?
— Claro que não. Afinal, ela é sua.
— Eu ainda não entendi o que você quer com isso. Não pode ser só o meu reinado. Isso não pode ser baseado somente em inveja — Regina força a memória, mas tem certeza de que não conhece a bruxa e que nunca lhe atacou diretamente, mesmo nos tempos de Evil Queen.
— Tudo que você tem deveria ser meu. — Zelena volta a encarar Regina de pé. — A vida que você teve deveria ser minha. Cora te escolheu, Rumple te escolheu... Não acha que isso seja justo, acha?
— Então você gostaria de ser usada no meu lugar? Era só ter dito naquela época. Eu não me oporia a poupar-me da vida que tive. Sabe que Cora matou o homem que eu amo? Sabe que fui obrigada a me casar com quem mal conhecia? Sabe que sou odiada por todas as pessoas que já passaram pela minha vida? É isso que você quer? Parece masoquismo.
— Você é ingrata! — Zelena cospe as palavras. — Você é uma rainha, Regina, e não dá valor a isso. Preferia ser mulher de um tratador de cavalos. Que tipo de pessoa opta por isso?
— Então você conhece minha história? — Regina finca as unhas nas próprias mãos para conter a vontade que sente de estrangular a bruxa. O desdém com que ela fala de Daniel desperta-lhe instintos assassinos que há muito não sentia.
— Acho que melhor do que você mesma. — Zelena senta-se cruzando as pernas parecendo novamente estar de férias. — Soube que tem um filho.
Regina treme diante da referência. Sabe que essa conversa é um jogo onde a primeira a apresentar fraqueza, perde.
— Um que me odeia e fugiu de mim? Tenho. — Blefa.
— Você é tão miserável assim? — Zelena tem decepção na voz.
— Acho que a vida já se encarregou de tirar tudo de mim. Não sobrou nada para você. Chegou tarde. — A rainha sente que a bruxa está prestes a ceder.
— Ainda tem uma coisa que posso tirar de você. — Espera por uma resposta de Regina, quando não vem, segue. — O trono.
— Acho que você precisa pesquisar um pouco sobre o sistema de governo dos Estados Unidos, sis. — Regina faz uso de toda sua ironia. — Não existem reis e rainhas aqui. — Zelena contorce a boca, as narinas inflam, cerra os olhos e empurra a rainha até a parede. Nesse momento Regina sabe que venceu.
— Então suspeito que terei que nos levar de volta.
— Não há como desfazer a maldição. Sabe disso.
— Você desfez uma vez. — Zelena sente que está perdendo e tenta recuperar a compostura afastando-se da rainha.
— Ela já estava quebrada. — É a vez de Regina atacar colando-a na parede. — Se eu sou o alvo só eu posso quebrá-la e como você sabe... ninguém me ama! — Regina recua dois passos e arqueia a sobrancelha como um xeque-mate. — Isso significa que você passará o resto da sua vida engaiolada.
Regina sai da cela sendo seguida por David e Ruby. Ao fechar a porta, Regina escora-se nela e finalmente leva ar aos pulmões.
— Achei que ninguém conseguiria ser mais fria do que essa aí, mas você conseguiu, prefeita. Parabéns! — Ruby toca o ombro da rainha ao notar que ela está inundando em emoções.
— Aprendi algumas coisas com Cora.
— Se ela fugiu uma vez, pode conseguir novamente. O que faremos? — David interrompe.
— Posso lançar um feitiço na cela.
— Mas aí ninguém entra e ela morre de fome.
— Está preocupada com a verdinha? — Regina cruza os braços. Ruby fica sem resposta e faz careta movimentando os lábios. — O que você sugere?
— Eu posso ficar de olho nela. — A loba propõe.
— Se deixar o loro bater asas, eu faço churrasco de cachorro e distribuo na porta do Granny's.
Ruby cruza os braços emburrada diante da porta enquanto Regina e David se afastam no corredor.
— Sabe que não é verdade, não é? — O homem puxa assunto assim que chegam a rua.
— O que?
— Sobre ninguém te amar. Já temos três pessoas na lista.
— Não quero falar sobre isso agora, David. Tenho um assunto mais importante a tratar e antes que pergunte, não é da sua conta.
Regina aparata-se até o convento e é recebida com desconfiança por Blue, que a encaminha em silêncio até o dormitório de Tinker.
— O que você está fazendo aqui? — Tinker, que está sentada lendo um livro, não se dá ao trabalho de olhar para a rainha.
— Preciso conversar com você. — Regina tenta um tom amigável.
— Duvido muito que tenhamos assuntos em comum...
— Encontrei o homem com a tatuagem de leão. — Regina fala por cima da fada.
Tinker fecha o livro em um impulso e ajeita a postura dando espaço para Regina sentar-se.
— Como é?
— Lembra do Robin Hood? O líder dos ladrões?! Ele é o homem da tatuagem que o pó de fada mostrou.
A fada esquece todo o ressentimento que ainda guarda pela rainha e a abraça sorrindo.
— Isso é ótimo, Regina. Você falou com ele?
— Sim. — Regina sai do abraço e segura a mão de Tinker. — Não sobre isso, mas conversamos. Combinamos de beber.
— Então você finalmente dará uma chance ao amor?
— É justamente sobre isso que quero falar. — Regina deita-se na cama e Tinker a acompanha. — Sei o que o pó de fada significa, mas eu tenho sentimentos por outra pessoa. — Regina pensa em Emma e no quanto está sendo difícil estar longe.
— Mas ele é sua alma gêmea, Regina.
— Eu sei. — Suspira alto. — Mas talvez alma gêmea e true love sejam duas coisas diferentes.
Ficam alguns minutos em silêncio, perdidas em conspirações.
— O que você sentiu quando estava com ele? — A fada retoma o assunto.
— Me senti confortável. Eu estava segura, entende? Como se eu nunca mais fosse ficar sozinha.
— Ainda assim você não acha que ele seja seu true love? — Tinker pergunta um pouco embasbacada.
— Acho que amor é outra coisa. Acho que não tem a ver com estabilidade emocional, ao contrário. Amor te desestabiliza, te tira de órbita e te leva para um mundo totalmente desconhecido e perigoso, onde um passo em falso pode significar seu fim. O amor trás paz sim, é claro, mas também atormenta. É como estar em queda livre e nunca, nunca, chegar ao chão. — Uma lágrima solitária escorre pelo rosto da rainha sem que ela perceba. — No amor a saudade se torna uma dor física que remédio ou poção alguma alivia. E ainda assim, é a melhor sensação do mundo saber que seu coração tem um porto seguro. Acho que Cora estava certa, afinal. Amor é fraqueza, mas uma fraqueza necessária. Uma fraqueza que, ironicamente, te deixa mais forte e resistente. Uma fraqueza que, uma vez que experimenta, não consegue mais viver sem.
Quando Regina termina, encara a fada e percebe que ambas estão chorando. Tinker seca as próprias lágrimas e as da rainha e a envolve em um abraço ainda deitadas.
— Acho que você encontrou seu true love sozinha.
— Mas e o pó?
— Dane-se o pó. — Ambas riem da reação da fada e alguns minutos depois ainda estão rindo sem saber exatamente do quê.
***
Os dias que se seguem são tranquilos. Ruby e Dr. Whale revezam na guarda de Zelena, que pouco fala e se alimenta cada vez menos. Snow e Regina não se encontraram depois da conversa no Granny's e sentem que é melhor assim. A rainha não está tendo muito contato com Emma também. Belle e Archie tentam encontrar algo que possa enfraquecer a maldição para que Regina a quebre de uma maneira que não envolva beijo de amor verdadeiro, mas ainda não tiveram sucesso. Rumple e Regina sabem que é uma busca infeliz, mas ao menos isso mantém as esperanças dos habitantes acesa. Regina e Robin passam a maior parte do tempo juntos. Enquanto ele a ensina a manusear arco e flecha, a rainha usa sua magia para criar cópias dos soldados negros para que possam se divertir destruindo-os. Após o jantar, geralmente ficam no chão da sala de Regina bebendo sidra, na qual o ladrão está viciado, e conversando sobre as aventuras que já haviam enfrentado.
— Quero te falar uma coisa, mas você tem que prometer que não vai rir. — Regina enche o copo de ambos. Robin começa a rir imediatamente. — Eu ainda nem falei e você já está rindo.
— Okay. Okay. Tentarei me conter. — Respira interrompendo a risada.
— Você é minha alma gêmea. — Eles se encaram em silêncio, apenas apreciando o brilho no olhar do outro.
— Você já está bêbada? — Robin pergunta divertido, mas sem desviar o olhar.
— Um pouco. — Regina morde o lábio. — Mas é verdade. Muitos anos atrás eu usei pó de fada para saber quem é a minha alma gêmea. Ele me levou até uma taberna e me mostrou você. Mostrou a sua tatuagem, na verdade. — Toca o pulso do homem.
— Almas gêmeas tipo um casal? — Ele pisca um olho e faz um bico simulando um beijo.
— Não. — Regina não segura a risada. — Não sei, na verdade. Acho que alma gêmea tipo alguém com quem se tem uma conexão natural e descomplicada, que tem opiniões e valores semelhantes, que não julga. Acho que somos compatíveis, mas não sexualmente, e sim espiritualmente. Entende?
— Eu não me oporia se fosse sexualmente. — Robin sorri sacana.
— Safado! — Regina lhe dá um tapa na perna.
— Eu entendi o que você quis dizer. Acho que faz muito sentido. — Deposita a taça no chão ao seu lado e pega as duas mãos da rainha. — Eu senti algo muito forte desde a primeira vez que nos vimos, quando fez pouco caso de mim. — Finge um bico triste. — Confesso que inicialmente tive atração física, mas quem é que pode me julgar por isso? — Aponta para o corpo da rainha divertidamente, que cora, mas o acompanha na risada. — Mas depois percebi que é bem mais intenso. Acho que isso explica muita coisa. Somos irmãos de alma, apesar do pouco tempo, você é a melhor amiga que eu tenho ou já tive. Eu confiaria a minha vida a você. — Recebe um sorriso cúmplice da rainha.
— Tenho outra coisa para revelar. Na verdade para pedir.
— Qualquer coisa.
— Você pode me dar uma fecha sua? — Regina faz carinha de pidona e une as mãos fingindo estar implorando.
— O que você fará com uma flecha se tem todo esse poder que a transforma em pó ao estalar os dedos. — Ele toma o último gole.
— Tem uma pessoa que gosta de você. Digo, da lenda que corre por esse mundo. — Mescla risada e careta. — Faz algum tempo que não falo com ela e queria ter algo especial.
— Você sabe que tudo aquilo é ladainha, não sabe? — Ele ergue as duas sobrancelhas tentando imitar as expressões de deboche que Regina faz rotineiramente.
— Sei. Ainda assim você é o Robin Hood, o príncipe dos ladrões.
Quando o homem sai, depois de dar a flecha mais bem feita que tem, Regina corre para o quarto e liga para Emma.
— Alô. — A voz da loira está seca.
— Oi. — A rainha sabe que a esposa tem motivos para estar assim, já que a ignorou nos últimos dias. A conversa com Snow ainda martela em sua mente e é difícil concentrar-se em outra coisa quando fala com a loira, por isso tentou evitá-la ao máximo. — Tudo bem?
— Sim.
— Comigo também está tudo bem, obrigada por se importar. — Regina provoca, mas só recebe um suspiro cansado como resposta. — Tenho uma coisa para você.
— O que? — Emma mantém-se distante.
— Podemos nos falar por vídeo?
— Eu estou cansada, Regina. Tenho que acordar mais cedo do que o comum amanhã. Preciso dormir.
— Vai ser rapidinho. — Regina insiste e não acredita no que faz. "Quando foi que uma rainha passou a ter que implorar por atenção?"
— Okay.
Regina imediatamente faz a chamada de vídeo deixando a flecha em destaque.
— O que é isso? — Emma ameaça sorrir, mas contém-se.
— A melhor flecha do príncipe dos ladrões. — Regina abre um enorme sorriso e Emma rende-se.
— Você não vai me comprar com isso.
— Você adorou. Confessa!
— Adorei mesmo. Ele te deu? — Emma aumenta o sorriso.
— Sim. Eu disse que queria te dar algo especial e ele me deu.
— É o presente mais incrível que já ganhei. — Emma aperta o rosto com a própria mão, animada.
— Talvez você o deteste quando conhecê-lo, mas é bom te ver assim por um tempo. — Regina fica em silêncio por longos segundos, observando o rosto da loira. Seus traços são perfeitos, sua bochecha é rosada e o canto da boca está sujo com algo que suspeita ser chocolate. — Eu estou com saudade.
— Eu também. — Ambas coram. — Tem previsão de quando volta?
— Não. — O sorriso de Emma desaparece diante da resposta.
— Sabe se volta? — Frisa o "se".
— Você tem dúvidas?
— Às vezes.
— Estarei de volta antes do que imagina. — Regina suspira triste por saber que está chateando a esposa. Sua vontade é pegar a estrada imediatamente, jogar-se nos braços da loira e nunca mais soltá-la, mas o compromisso que assumiu com a cidade quando voltou a mantém refém. Sabe que não pode ir embora antes de fazer o que prometeu a si mesma, antes de quebrar a maldição. E isso a consome todas as noites enquanto busca em vão o corpo de Emma na cama. — Vou te deixar dormir. Dê um beijo em Henry.
— Boa noite, rainha. Obrigada pela flecha. — Emma manda um beijo no ar para Regina, que retribui, e a ligação é encerrada.
Fale com o autor