Notas iniciais
Boa noite, queridxs. Fiquei muito feliz em saber que vocês lerão sim minha one ♥ Eu planejava escrever logo, mas optei por fazer assim que terminar a fic, o que não demora muito. Obrigada por continuarem acompanhando. Vocês são incríveis!

"Animal arisco domesticado esquece o risco (...) Eu sei quantas tristezas eu tive, mas mesmo assim se vive morrendo aos poucos por amor. Eu sei, o coração perdoa, mas não esquece à toa o que eu não me esqueci"

— Erasmo Carlos e Roberto Carlos

A noite de Regina novamente é agitada, com mais pesadelos ainda menos compreensíveis. Assim que o sol nasce vai até o lago e senta-se em um banco próximo da margem e põe-se a observar os marrecos que nele brincam e caçam peixes. Sua expressão é péssima, cansada, com olheiras escuras e corpo dolorido. Fecha os olhos e sente o vento balançar seus cabelos e adentrar suas narinas refrescando-a por dentro.

Regina está nos estábulos da propriedade onde cresceu, ouve cochichos e gritos, mas não consegue enxergar nada além do breu, de repente surge uma luz ao fundo e diante dela encontra Daniel. Corre até o homem e o abraça. Seus lábios se encontram em sofreguidão. Quando separam-se, Regina abre os olhos e o homem que está diante dela não é mais seu first love, e sim Leopold. Está agora na sacada de seu quarto no castelo em uma noite silenciosa. Aperta os olhos desejando desaparecer dos braços do marido e quando os abre encontra as esmeraldas de Emma. Olha ao redor e reconhece a rua principal de Storybrooke. É uma manhã gelada e sombria. Volta a pousar os olhos na mulher, mas não a reconhece por completo. É Emma, são os olhos dela, mas estão vazios. Busca sua mão e sente os dedos ficarem úmidos, os encara e vê um líquido vermelho e ralo. Desce os olhos pelo corpo da mulher e nota um enorme buraco em seu peito onde devia estar seu coração. Atrás de Emma, visualiza Zelena esmagando o órgão vital da loira que cai diante da rainha.

Há alguns quilômetros dali a manhã de Emma também segue preguiçosa. Precisou comparecer a um encontro com um cliente bem cedo, mas após isso não tem muito o que fazer. Caminha até um café e espera por Ria, que treina ali perto. Desde o desmaio, elas ficaram mais próximas. Agora Emma consegue enxergar mais do que a mulher que paquerou sua esposa no dia em que se conheceram. Consegue entender a devoção de Will para com a irmã. De fato é uma jogadora excepcional, uma mulher forte e gentil ao mesmo tempo e tem muitas semelhanças com Will, como o cuidado e a proteção com os amigos.
— Emma!
— Hey! — Levanta-se e abraça a jogadora. — Espero não ter te atrapalhado.
— Claro que não, meus horários são bem flexíveis. — Sentam-se uma de frente para a outra. — Já pediu?
— Estava te esperando. Mas já sei o que vou pedir.
— Chocolate com canela. — Ria passa a língua pelos lábios. — Eu também vou querer um. Foi a melhor coisa que já me apresentaram.
— Eu tinha certeza que você gostaria. Já a Regina, detesta.
— Lá vamos nós de novo. — Ria apoia o cotovelo na mesa.
Dentre todas as conversas que têm, a maioria delas é sobre Regina e o quanto a morena se afastou inclusive do próprio filho. Ria defende que em uma viagem de trabalho ela pode não ter muito tempo para telefonar ou enviar mensagens, mas Emma sabe o real destino da esposa e suas intenções. Ela teme que com a magia recuperada, a rainha se negue a abandoná-la novamente. Imagina que deve ser realmente difícil levar uma vida sem magia quando se é acostumada com ela e a usa em abundância durante toda a vida, e que, após voltar a sentir o gosto, não queira mais abrir mão como um viciado em recaídas. Seu medo é a dependência que já notou em Regina quando se trata disso, a vê como uma viciada em magia e poder e, sendo assim, pode lhes escolher acima de tudo.
— Me desculpa. É difícil ficar sem pensar ou sem falar sobre ela. — Emma abaixa a cabeça e brinca com os dedos.
— Tudo bem. Vocês estão em um momento complicado. Eu entendo.
— Não, é sério, me desculpe?! Eu já te enchi muito com o assunto Regina. Vamos falar sobre você. — Nesse momento o celular de Emma toca. Ela mostra a tela para Ria e recebe uma risada em resposta. — Bom... acho que "lá vamos nós de novo" sim. — Atende a chamada. — Alô?!
— Oi. — Regina tem a voz baixa e embargada.
— Aconteceu alguma coisa? — Emma aumenta o volume para ouvir melhor.
— Nada que eu já não tenha acontecido antes. — Regina tenta firmar a voz. — Tudo bem?
— Tudo sim. Você quer conversar sobre o que está acontecendo?
— Não. Só precisava falar com você? — Funga contendo o choro. — O que está fazendo?
— Estou em um café com a Ria.
— Só vocês?
— Sim. Tive um encontro com um cliente perto de onde ela treina e aproveitamos para tomar um café.
— Pensei que você não gostasse dela. — A voz de Regina ganha um tom conhecido por Emma: ciúmes.
— Eu me enganei quanto a isso. — Emma tenta responder sem deixar claro que estão falando da mulher a sua frente. A sensação de saber que Regina está enciumada a aquece, mas sabe, também, que é uma situação delicada, pois Regina, em Storybrooke, com sua magia de volta, é capaz de coisas impronunciáveis.
— Eu vou desligar.
— Não, Regina. Espere. — Mas já é tarde demais, Regina encerra a ligação e desliga o celular.
— Tudo bem? — Ria pergunta apreensiva ao notar a expressão tensa de Emma.
— Não sei. Ela parece chateada.
— Não tenho nada a ver com isso, tenho?
— Não. Ela já ligou assim, mas não quis falar sobre. — Decide contar apenas meia verdade. Não precisa de Ria, que claramente já demonstrou interesse, achando que tem alguma chance.

***

Regina vai até a floresta em busca de Robin e o encontra eviscerando um coelho.
— Você sabe que temos um mercado, lanchonetes e até um restaurante legal, não sabe? — Regina aproxima-se lentamente pelas costas do homem.
— Quase que eu cacei você com esse susto. — Robin solta a faca e aproxima o rosto para receber o beijo da rainha e lhe retribuir.
— Que cheiro horrível. — Regina tapa o nariz com a gola do sobretudo.
— Não desdenhe do meu almoço. — Ele enxerga a sombra de um choro recente. — O que aconteceu?
— Nada.
— E desde quando a Evil Queen chora por nada? — Limpa as mãos em um pedaço de pano que Regina acredita estar mais sujo que a própria floresta. — Vamos sentar ali. — Aponta para um tronco de árvore caído e vão até ele.
— Eu tenho uma pessoa que está chateada comigo, e com razão, mas que agora parece íntima demais de alguém que não é nada confiável e...
— A rainha está com ciúmes! — Robin interrompe exclamando.
— Não me interrompa, ladrão. — Regina finge estar brava e o homem estende os braços em rendição. — Mas sim, eu estou com ciúmes.
Regina tem ciência de sua possessividade em relação a tudo, sempre foi assim. Com pessoas, com objetos, com poder, com tudo. Não suporta a ideia de alguém se aproximando daquilo que lhe pertence ou deveria pertencer. Mas sabe, também, que Emma não é sua propriedade e que jamais trairia sua confiança, mas sente o chão desaparecer apenas com a possibilidade da loira se interessar por outra pessoa ou conhecer alguém melhor que ela, e só então percebe que todo mundo é.
— E o que você ainda está fazendo aqui?
— Como assim? — Regina franze a testa pensando se entendeu direito.
— Você tem que ir lá e mostrar que a Emma é sua. — Robin ergue o braço da rainha apertando um suposto bíceps. — Quem pode contra a Evil Queen?
— Ela, definitivamente, não pode. — Regina empolga-se e ergue o outro braço. — Espera! Quem disse que é a Emma?
— Eu joguei verde e você se entregou. — Ele ganha um fraco murro no ombro. — Sabe quantas vezes e como você fala dela? Qualquer idiota notaria.
— Eu estou perdida. — Regina abaixa a cabeça encarando os pés. De todas as pessoas do mundo, se apaixonar pela savior, filha de sua maior inimiga, possuidora de uma bondade e luz sem igual, é a pior ironia que poderia acontecer em sua vida.
— O que está esperando para ir atrás do seu rei? — Robin levanta-se e puxa Regina com ele.
— Meu rei era o avô dela. — Faz uma careta. — Vou é atrás da minha princesa. — Pula no homem abraçando-o sem se importar com os respingos de vísceras do animal. — Você é a melhor alma gêmea do mundo.
Regina corre para fora da floresta com uma ideia em mente. Robin está certo, se quer Emma, precisa lutar por ela, precisa merecê-la. Sabe que não pode abandonar Storybrooke a própria sorte, afinal, durante o ano perdido muita coisa aconteceu e eles podem estar em perigo sem saber, mesmo com Wicked With presa, mas também não pode pedir que Emma vá para a cidade, não é justo. A loira fez a escolha dela e Regina deve respeitar. Mas talvez, só talvez, Emma aceite o convite que pretende fazer.

***

Emma está em seu escritório ouvindo algumas ligações de telefones que grampeou na última semana, quando recebe uma mensagem de Regina.
"Tem uma passagem em seu nome para Boston no voo de 7:00 PM e uma reserva às 9:00 PM no Barcelona Wine Bar. Não responda essa mensagem, apenas vá ou não. Eu entenderei o recado".
Confere o relógio e já são 4:00 PM. Não há a menor possibilidade de perder a chance de encontrar sua rainha, então, tranca tudo as pressas e dirige em alta velocidade até em casa, ciente de que receberá algumas multas por isso. Já Regina não está tão segura de que a loira vá aparecer, mas isso não a impede de reservar, também, um quarto em um hotel conceituado. Se Emma não for, saberá que o súbito ato de heroísmo custou a sua felicidade. Mas se ela for, fará de tudo para convencê-la a esperar, a ter paciência e a acreditar que é capaz de lidar com a maldição e voltar para sua família. Quando pensa quem realmente são, considera o casal mais improvável do mundo, até mesmo do mundo dos contos de fadas. Evil Queen e a filha de Snow Withe juntas é inimaginável, mas a rainha parou de se importar com rótulos há muito tempo. Ela é apenas uma mulher que quer dividir a vida com outra. E, pensando bem, talvez seja, na realidade, o casal mais provável de todos. Afinal, já se conheceram dividindo um filho e se odiando de uma maneira que só poderia mesmo ser amor e desejo enrustido.
Regina pede para que Ruby redobre os cuidados com a vigilância de Zelena e que tome conta da cidade, pois recusa-se a ir até David e ter de lhe explicar seus planos. Uma coisa é trabalharem juntos contra o vigésimo vilão que tenta contra suas vidas, outra é confidenciar ao sogro a noite que pretende ter.
Com um vestido preto colado ao corpo acentuando suas curvas e um decote quadrado, saltos vermelhos assim como o batom que marca seus lábios carnudos, e um pequeno acessório no cabelo que assemelha-se a uma coroa prateada, Regina chega ao restaurante. Poucos minutos depois Emma adentra o local. A loira usa um vestido branco com alças finas que deixam metade de suas coxas expostas. Quando se avistam, os batimentos cardíacos aceleram-se. As mãos de Regina suam frio e as pernas de Emma fraquejam. Ela caminha com dificuldade até a mesa onde Regina afasta a cadeira para que se sente.
— Gostei da coroa. — Emma sorri para a visão endeusada a sua frente. Imagina como seria ver Regina em verdadeiros trajes reais.
— Eu quero que você me conheça.
A intenção de Regina é mostrar-se de alma desnuda para Emma. Ela poderia ir até lá com um buquê de flores, prometer ser a esposa perfeita e ajoelhar-se diante da detetive pedindo que a aceite em sua vida para sempre, mas essa não é Regina. Regina é uma rainha que não implora por ninguém, que devastou vilarejos, que baseou sua vida em ódio e vingança, que arrancou corações controlando e matando inocentes, que amaldiçoou um reino inteiro e que ainda não se arrepende completamente. Mas é também alguém que está reaprendendo a amar, que está tentando se redimir com as pessoas a quem sempre causou dor, que quer ser uma boa mãe e, finalmente, encontrar a felicidade. "Você nunca vai ser feliz, você não sabe como".
Durante o jantar conversam sobre Henry, sobre o trabalho de Emma, sobre as novidades de NY e dos amigos. Regina opta por não falar sobre Storybrooke e Emma também não pergunta. Após, Regina caminha com Emma até uma praça e compra sorvete para a loira e uma maçã do amor para si. A noite está clara e decidem sentar em um banco que proporciona visão de parte da cidade. Boston é linda, iluminada e muito movimentada a qualquer hora do dia, mas ali, naquele canto, estão sozinhas com suas angústias e anseios.
— Você disse que quer que eu te conheça. — Emma quebra o silêncio.
— Quero me apresentar. — O nervosismo da morena é palpável, mas está decidida a ir até o fim. Deseja Emma como há muito não deseja alguém e sabe que ela está disposta a continuar, mas isso não justo com a loira nem suficiente para a morena. Os sentimentos de Emma pela Regina nova-iorquina não bastam. A rainha precisa sentir-se inteiramente amada, precisa que Emma a conheça verdadeiramente e ainda a queira em sua vida, precisa que a loira saiba onde está se metendo. — Sei que ouviu muitas coisas a meu respeito e que leu também, quando era criança. — Revira os olhos fazendo a outra sorrir. — Mas você não conhece a minha história, não sabe quem eu sou, pelo menos não a minha versão. — Estende a fruta caramelizada e lhe dá uma mordida — Eu gosto de maçã. — Brinca tentando diminuir a tensão. Emma finge surpresa e a morena arqueia a sobrancelha. — Mas você não sabe porquê eu gosto tanto. — Recrimina divertida e a esposa volta a dedicar toda sua atenção no que ela diz. — A minha macieira me acompanha desde a infância. Quando me casei, pedi ao rei que a levasse para o castelo comigo. Ela era a minha melhor amiga, a minha companhia, porque tínhamos duas coisas em comum. Primeiro, não pertencíamos àquele lugar. Segundo, estávamos presas nele. Éramos duas prisioneiras "very important person" — Faz aspas com os dedos. — Quando você a serrou, foi como se me arrancasse um membro.
— Eu sinto muito. — Emma se entristece e segura a mão de Regina.
— Eu mereci. — Solta o ar em uma risada triste. — Eu fui obrigada a me casar depois que Cora assassinou meu noivo diante dos meus olhos. Eu culpei, e ainda culpo, confesso, sua mãe por toda dor que eu senti e pela miséria da minha vida. Mas eu também causei muito sofrimento a ela. Dediquei a minha vida a isso. — Suspira pesadamente contendo o choro e a raiva que tenta escapar. — Sou a responsável pela morte do seu avô. — Emma engole seco constatando que, de fato, nada sabe sobre a rainha. — Eu induzi o Genie Lamp a matá-lo... Sidney. — Acrescenta notando a confusão no rosto da loira.
— Pensei que ele fosse seu espelho.
— Também. Eu o usei para causar ciúmes no rei, que acabou me trancando no quarto, o que até facilitou meu plano de fazê-lo matá-lo. — Regina espera que Emma diga algo, mas a loira mantém-se em silêncio apenas observando-a. — Eu matei mais pessoas do que consigo contar, direta e indiretamente. Fiz tantas coisas terríveis, que não é possível nem mesmo listar, simplesmente por não conseguir entender e aceitar que uma criança de 10 anos não tinha a menor chance contra a persuasão de Cora. Matei todas essas pessoas em nome de um homem que não faria mal a ninguém, nunca!
— Daniel. — Emma deduz e recebe a confirmação com um aceno de cabeça.
— E mesmo ciente disso eu ainda preciso lutar contra meus instintos sempre que vejo sua mãe, sempre que percebo os olhares enojados de todos, como se eu fosse o lixo que passa tempo demais dentro de casa e impregna um odor insuportável. Eu sinto vontade de assassinar todas aquelas pessoas e incinerar a cidade porque eu me sinto injustiçada, mesmo quando a injusta sempre fui eu. Eu desejo tanto o mal. Ele está dentro de mim e é muito difícil controlá-lo. Eu sou uma pessoa horrível, Emma, mas agora estou reaprendendo a ter sentimentos bons. Ainda não sei lidar com eles e também não consigo me fazer aberta e disponível o suficiente. — Puxa o ar buscando coragem para o que está prestes a dizer. — A verdade é que eu tenho medo. Medo de me entregar, de me envolver e perder como eu sempre perco, pois eu sinto que se eu cair mais uma vez, não serei capaz de levantar. Então, como autodefesa, passei a manter-me o mais distante possível de qualquer pessoa. — Uma lágrima solitária e grossa escorre pela bochecha da rainha até cair em seu colo. — Mas eu estou disposta agora. Essa sou eu, isso é o que eu sinto, e se você me quiser assim, eu lutarei pela nossa família com todas as minhas forças.
A expressão de Emma é impassível e Regina nada consegue ler. Poucas foram as vezes em que a rainha viu os olhos da loira tão nublados ao ponto de não permitirem que ela entre e os desvende. Sente que é a sua vez de aceitar as consequências de seus atos e que o preço a pagar é tudo que construiu no último ano. Sua vida de escuridão custa-lhe Emma e é importante saber perder. "Vilões não têm finais felizes".

Notas finais
Críticas positivas, ideias, conselhos etc e tal são sempre bem vindos!