Notas iniciais
Obrigada por estarem acompanhando, pela paciência e pelos comentários. Espero que continuem. Vocês são muito gentis e queridos. Espero não decepcionar. Boa leitura.

"No need to step back. Don't be scared, I got you, you know that I'm here when you're sad"

(Não há necessidade de voltar atrás. Não tenha medo, eu tenho você, você sabe que eu estou aqui quando você está triste)

— Sam Smith

Que domingo é o dia internacional do ócio, todo mundo concorda, mas quando há feriado na segunda-feira, o dia ganha doses de energia. Regina arrastou Emma para o shopping para uma tarde de compras e cuidados com a beleza. Emma odeia tudo isso, mas quem consegue dizer não a Regina? Nas contas da loira, elas estavam entrando na octogésima terceira loja e Regina não havia gostado de nada.
— Amor, o que achou desse?
Regina sai do provador usando um vestido preto colado ao corpo, acentuando as curvas, com o comprimento até metade das coxas e um generoso decote coração. Emma, mesmo depois de anos de casada e acostumada com a elegância e sensualidade da esposa, ainda fica sem palavras diante da beleza latina da editora.
— Que preto, definitivamente, é sua cor.
Os olhos gulosos de Emma percorrem o corpo a sua frente. A loira sente a boca salivar e suas mão coçam com a vontade que tem de agarrar a mulher ali mesmo, mas se controla. Sabe que a morena tem muitos planos para aquela tarde e não quer atrapalhar, para que voltem logo para casa e ela possa matar seus desejos.
Regina compra alguns vestidos, sapatos de salto e uma bota, bolsas, um óculos escuro recém lançado e looks de saias com camisas sociais. Emma compra uma calça, um cinto, uma bota e, claro, uma jaqueta. Tudo por insistência da esposa, caso contrário, sairia dali sem um pirulito sequer. Com as sacolas em mãos, elas seguem para o salão de beleza.
— Não quero cortar o meu cabelo. — Emma diz, parecendo uma criança, para uma Regina impressionada com tamanha birra.
— Tudo bem, querida. Não precisa cortar. Mas deixa eles cuidarem desses fios dourados lindos, okay?! — Fala pacientemente com a esposa.
— Se eles são lindos, por que precisam de cuidados? — Emma pergunta finalizando com um bico que a morena jura nunca ter visto nem em Henry.
— Para continuarem lindos. — Beija a mão da loira e acena para o cabeleireiro que as chama para serem atendidas.
— O que você vai fazer, morena?
— Vou cortar, hidratar e fazer algumas mechas azuis.
— O que? — Emma arregala os olhos. Nunca imaginou a impecável Sra. Mills com tinta no cabelo.
— Brincadeira. Tenho uma reputação a zelar. — Pisca para a esposa provocando-a por já ter usado mechas rosas.
Quando chegam em casa encontram um bilhete de Henry, contendo o exagero herdado de Emma, dizendo que havia ligado trinta vezes para as mães e que passará a tarde voluntariando em um abrigo de animais.
— Amor, — Emma chama com a voz arrastada. — você ficaria bem sexy com mechas azuis.
Regina percebe a intenção daquele sorriso cafajeste e entra no clima.
— Você acha mesmo? Porque se for verdade, eu posso voltar lá agora e fazer isso. — Aproxima-se e enlaça o pescoço da esposa com os dois braços.
— Não. Eu te quero aqui. — A detetive passa a língua pelo pescoço macio e moreno que tanto a seduz. — Você poderia colocar aquele vestido preto, o que acha?
— Agora?
— Sim. — Emma tem a voz carregada de tesão. — Quando te vi nele, só pensei em quanto seria prazeroso tirá-lo.
Elas aproveitam a casa vazia para fazer amor pelo resto da tarde. Na cama, no sofá, na cozinha, no chuveiro e até no corredor. Elas simplesmente não conseguem tirar as mãos e a boca do corpo da outra. No início da noite, já exaustas, depois do banho, se deitam na cama, cada uma com seu roupão, na tentativa de que, tendo os corpos cobertos, consigam pensar em outra coisa a não ser em percorrer, com a boca, as curvas que possuem em mais momentos de prazer.
— Eu passaria a vida toda assim. — Emma fala envolvendo a mulher em seus braços, enquanto se ajeita em uma conchinha confortável.
— Eu sei. Você é uma safada. — Regina brinca com a ponta dos dedos em um braço de Emma que a envolve pela cintura.
— Você é gostosa demais. Não pode pedir para que eu resista.
— Eu nunca pediria algo assim.
— Vai me querer para sempre, mesmo com todas as minhas pirraças, a pouca idade mental, meus medos e exageros? — Emma pergunta em tom quase infantil, com o rosto afundado nos cabelos negros curtos. Ela faz perguntas do tipo com frequência, como se tivesse a necessidade de ouvir que a mulher nunca irá deixá-la.
— Mesmo que eu tentasse, nunca conseguiria te olhar sem te desejar e sem sentir o corpo transbordar de amor, porque você nasceu para mim e o meu destino é você.
Regina gira o corpo colocando-as de frente e inicia um beijo quente, calmo e apaixonado, mas são interrompidas por batidas na porta:
— Você atende. — A morena fala entre resmungos de insatisfação para uma Emma tão contrariada quanto.
Quando abre a porta, se depara Mary e David:
— Oi, Emma. — O príncipe fala quase cometendo a gafe de chamá-la de filha. — Nós viemos te convidar para jantar hoje. Ainda não retribuímos aquele japonês delicioso.
— Hey! Eu agradeço, mas não posso aceitar. Hoje vou a um barzinho com minha morena e alguns amigos.
O tratamento que Emma dá para Regina não passa despercebido por David e Snow, que se encaram por alguns segundos compartilhando a hesitação em seguir adiante.
— É uma pena. Fica para a próxima. — Mary não esconde o desapontamento, o que aciona o instinto de Emma em fazer com que todos sintam-se acolhidos.
— Vocês podem ir com a gente. O pessoal é divertido e o lugar é tranquilo.
— Seria ótimo. — David aceita imediatamente, contrariando a recusa da esposa.

***

O bar é espaçoso e decorado rusticamente, tem mesas de madeira de demolição coladas nas paredes, ao fundo tem um balcão em formato de "L" com bancos altos e um bartender preparando bebidas em meio a malabarismos com as garrafas, e também há uma pista de dança no lado esquerdo. Regina rapidamente encontra os amigos sentados em uma mesa próxima ao balcão. Caminha animada até eles, cantando a música que estava tocando, apontando para o grupo, quando chega até a mesa, bate nela com as duas mãos fazendo uma pose sexy levemente curvada para frente e todos cantam juntos, exceto Snow e Charming. Quando a música termina, os cumprimenta e senta pedindo que os amigos se apertem um pouco para que caibam todos.
— Esses são Mary Margaret e David Nolan. — Regina apontou para o casal, que está um pouco assustado com a animação da ex-prefeita. Nunca a viram daquela maneira, tão descontraída e sorridente. — Esses são Eli, Gillian, Melissa, Noah, Will e Kate.
Eli é alto, por volta de 1,80m, branco com cabelos castanhos cacheados e baba rala. Gillian é bronzeada, sorridente e ruiva. Melissa tem o corte de cabelo semelhante ao de Snow, um pouco maior, e faz questão de bagunça-los, ganhando um ar moleque. Noah é o mais jovem da turma, nerd e parceiro filosófico de Regina, quando muito bêbados. Will é alto, loiro, tem olhos escuros e queixo tão perfeito que parece esculpido. Kate é morena, tem os olhos verdes e, como Mel, mantém os cachos bagunçados, parecendo mais jovem do que realmente é, e tem charmosas sardas no nariz e nas bochechas. O grupo é receptivo e engraçado e logo envolvem Mary e David em uma conversa animada sobre a cidade. Quando determinada música começa a tocar, o sexteto, que falava ao mesmo tempo, interrompe a conversa para gritar animados para Emma e Regina, que vão em direção a pista e começam a dançar abraçadas, cantando uma para a outra como se nada nem ninguém existisse além delas.

If you ever need me
(Se você precisar de mim)

Just tell me, and I'll be there
(Só me diga, e eu vou estar aí)

'Cause I was built for you
(Porque eu fui feito para você)

Yes, I was built to carry all your feelings
(Sim, eu fui feito para conduzir todos os seus sentimentos)

Emma aperta a cintura de Regina em um abraço, sem perder o ritmo.

'Cause I won't let them know
(Porque eu não vou deixá-los saber)

I won't let you go, baby
(Eu não vou deixar você ir, querida)

I don't care what your past is
(Eu não me importo com o que o seu passado é)

I don't need no answers
(Eu não preciso de nenhuma resposta)

Just have faith in me
(Basta ter fé em mim)

Elas cantam olhando-se nos olhos, como uma promessa. Quem as conhece pode jurar que Emma sempre estará lá para Regina, assim como a morena acredita em Emma acima de tudo. Quem testemunha aquele amor não duvida por um segundo que irão envelhecer juntas e cada dia mais apaixonadas. São o casal referência dos amigos. Todos suspiram ao vê-las dançar, ansiando por um dia encontrarem alguém que transmita tanto sentimento quanto os olhos de Regina e que os iluminem tanto quanto o sorriso de Emma naquele momento.
Quando a música termina, a detetive roça os lábios nos da morena, que abre um grande sorriso, e morde com delicadeza para logo selar os lábios. Uma música mais animada começa a tocar e Eli, Melissa, Noah e Kate correm para a pista. Emma deixa a esposa com os amigos, vai até o balcão, onde agora estão Gillian e Will, pega uma bebida e volta para a mesa.
— Vocês estão gostando? — Pergunta para Mary e David.
— Estamos. — Respondem juntos. — Vocês vêm aqui com frequência? — Mary indaga curiosa por já ter reparado que as mulheres parecem conhecer todos que estão lá.
— Muito. Quase todos os dias depois do trabalho, Regina e eu nos encontramos aqui. É perto da editora e do meu escritório. É como um point dos amigos. — Emma responde entre cumprimentos e acenos para pessoas que passam perto da mesa. Ela vê o vidro com a bebida que Mary a ofereceu no dia anterior. David percebe a atenção da loira e tenta, mais uma vez, colocar o plano em ação.
— Você devia experimentar.
— A poção da memória? — Pergunta humorada com tom de deboche.
— Você já bebeu de tudo hoje, vai arregar agora? — O príncipe apela para a natureza da filha de querer provar que é capaz de tudo.
— Não me provoca que eu bebo e não deixo nada para você. — Estende seu copo com uma bebida avermelhada que David não faz ideia do que é.
— Duvido. — Pela expressão de Emma, o homem soube que havia acertado o alvo. Depois de ser desafiada, Emma beberia até o dobro daquilo sem ao menos saber do se trata.
Quando ela pega o frasco, Mary segura sua mão. Precisa explicar primeiro como tudo vai funcionar, caso contrário, como Gold alertou, não surtiria efeito.
— Primeiro você precisa saber que isso trará a tona memórias que estão enterradas em você e poderá mudar sua vida par sempre. Tem certeza de que é isso que quer?
David teme que aquilo faça a filha desistir e sente vontade de repreender a esposa, mas sabe que é necessário que Emma saiba tudo, embora esteja estampado no rosto da filha que ela não está levando aquilo a sério. E realmente não está. O que ela quer é beber aquilo para provar ao homem que não foge de desafios, e espera que, ao menos, a bebida seja forte para compensar toda a ladainha rezada que casal.
— Tenho. — Abre o frasco e bebe em um único gole. Assim que passa por sua garganta, sente fincadas na cabeça causando intensa dor aguda, que nasce na região frontal e vai até a nuca. Pressiona as têmporas com força. Após alguns segundos, arregala os olhos e encara as duas pessoas a sua frente sem conseguir pronunciar uma palavra. As lembranças estão voltando rápido demais e ela não consegue organizar os pensamentos. Seus olhos estão pousados no casal, vê que suas bocas estão se mexendo, consegue ouvir o som de suas vozes, mas nada entende. A música alta passa a incomodá-la, a cabeça roda e o estômago revira. Levanta fraca, cambaleia até a porta e sai do bar. Se afasta até que a música se torne apenas um zumbido e vomita. Senta-se no chão, abraça as pernas, deita a cabeça nos joelhos e aperta a cabeça com força, implorando para que tudo aquilo não passe de um pesadelo. "Isso não é real. Não é real. Não pode ser real". Mas pode. Pode tanto, que é. Tudo é uma mentira. A vida ao lado do seu filho, sua família adotiva, suas viagens, seu casamento com Regina... "Regina". A mulher que acredita amar e com quem planejava passar o resto de sua vida, a pessoa mais gentil e carinhosa que conhece, é a responsável pela devastação e miséria de um reino inteiro, especialmente pelo sofrimento daqueles que deveriam ser os mais importantes para Emma, seus pais. Mas isso não é nem de longe o pior. O que está, de fato, rasgando-lhe o peito é saber que Regina, sua Regina, a odeia, e que todas as vezes em que disse o contrário, era mentira. Era apenas uma maldição falando. Mais uma vez ela sente a vida escorrer por entre os dedos e tudo murcha dentro dela.
Por impulso, levanta e põe-se a andar de volta ao bar para encontrar Regina, mas, antes que pudesse chegar até a porta, encontra quem menos queria ver no momento: Snow e Charming.
— Emma, filha, está tudo bem? — A princesa tenta abraça-la, mas Emma se afasta. — Ei, vai ficar tudo bem, filha. Fala com a gente. — Snow insiste em uma aproximação, o que faz com que Emma recue dois passos. David também tenta, mas é impedido pela mão da detetive em seu peito. Com esse gesto, ela vê a aliança de casamento brilhando em seu dedo. O símbolo de uma união feliz, que poderia ser eterna, mas que está sendo tirada dela, como tudo de bom que já teve na vida. Sem pensar, apenas seguindo seus instintos, ela circula os pais e entra no bar, vasculha o lugar com os olhos até encontrar Regina próxima ao balcão dançando com Will, e vai até lá em passos rápidos. Puxa a esposa pela mão até o banheiro e fixa seu olhar, agora escurecido de raiva e confusão, nos olhos castanho escuros de Regina e, antes que morena possa dizer algo, a prende contra a parede e avança em seus lábios. O beijo é forte, urgente e longo. Emma se afasta somente quando a morena se debate precisando de ar e, enquanto Regina enche o pulmão, Emma a toma pelo rosto, sem deixar cair o olhar daquelas íris escuras, e fala de forma possessiva:
— Você é minha!

Notas finais
Sugestões, críticas positivas, beijo, abraço e um "xero" no cangote são bem vindos.