Todos os Erros do Mundo
6 Falando de Amor
Notas iniciais
"Se eu pudesse, por um dia, esse amor, essa alegria, eu te juro, te daria"
— Tom Jobim
Emma senta-se no sofá, depois de ter abandonado Snow e Charming no bar e arrastado Regina para casa, ainda atordoada com suas memórias. Tudo está confuso. As memórias reais se mesclam com as falsas e ela não pode dizer que tem certeza de coisa alguma. Regina está no banho e Emma sabe que será questionada por seu comportamento, mas não está pronta para ter essa conversa. Caminha até o quarto e senta-se na cama, mas logo percebe que essa não é a melhor ideia. O quarto tem o cheiro de Regina, e agora faz sentido que a morena cheire maçã. Há fotos na mesinha da cabeceira, em uma, Emma sorri largamente e Regina está montada em suas costas, com os braços presos em seu pescoço, em outra, elas e Henry estão sentados no gramado de um parque, fazendo piquenique. Ela volta para a sala tentando fugir dos registros de uma vida falsa, mas é atingida por outra enxurrada. Quantos momentos em família foram vividos ali? Brincadeiras, sessão de filmes, conversas, jantares naquela pequena mesa de centro... Ela não consegue mensurar o quanto foi feliz e as lágrimas se tornam incontroláveis.
Ela até se questiona brevemente o que os pais estão fazendo em NY e como conseguiram voltar para esse mundo, mas não se esforça em encontrar respostas. Não se importa com o que pode ter acontecido a eles nesse último ano. Se importa com o que aconteceu a ela e também com o que não aconteceu durante toda sua vida, mas que era real até poucas horas atrás. E se importa com o que acontecerá quando Regina e Henry também lembrarem. A incerteza do futuro lhe atormenta. Seca as lágrimas para que não precise explicá-las, vai até a cozinha e toma um comprimido para dormir e volta ao sofá, deitando-se.
— Querida, o que aconteceu? — Regina a surpreende ao entrar na sala sem fazer barulho. Sua expressão preocupada, mas terna, faz com que Emma sinta o choro querer voltar, mas o prende o mais rápido possível fazendo a garganta doer. — Você parecia bem e de repente me arrastou para casa deixando Mary e David para trás. Você não é assim, meu amor.
— Eu só estou cansada. — Fala já sabendo que nunca convenceria a morena, então busca algo para acrescentar. — Tinha muita gente te olhando dançar, fiquei com ciúmes. — Emma odeia mentiras e não se lembra de já ter mentido para a sua esposa, mas apega-se a essa resposta como a única coisa que, talvez, possa desviar a atenção de Regina, afinal, Emma é mesmo ciumenta. E funciona.
— Não me interesso por nenhum olhar que não seja o seu. — Regina sorri sentando-se na ponta do sofá e acaricia a mão da loira. — Vem, vamos dormir.
— Já vou. Pode ir na frente. Preciso de um banho. — Regina assente dando um beijo na testa de Emma e segue para o quarto.
A loira tira os sapatos e se encolhe no sofá. Não tem condições de entrar naquele quarto e dormir tranquilamente. Começa a pensar que foi besteira levar Regina até o banheiro e beija-la. Ela tem certeza de que a primeira coisa que a rainha fará quando souber a verdade, é arrancar seu coração e transformar em pó por tal atrevimento. Nem ela entende porquê fez aquilo e também não entende porque, mesmo sabendo de tudo, o que sente por Regina não mudou um pouco que seja. Ela está confusa, claro, mas não é como se o amor houvesse diminuído, porque aquela mulher com quem ela viveu no último ano, e por mais de uma década — segundo suas lembranças falsas -, não é a Evil Queen, é apenas Regina. A sua Regina.
Emma acorda com o sol batendo em seu rosto, abre os olhos vagarosamente, se acostumando aos poucos com a claridade, e percebe que Regina também está no sofá, aconchegada em seu peito. Seu primeiro instinto é abraça-la com mais intensidade e lhe beijar o topo da cabeça, mas é só sentir o cheiro delicioso da esposa que tudo que aconteceu na noite anterior vem a tona. Ela sente que deve se desvencilhar de Regina e tentar manter-se o mais longe possível. Não porque quer, mas porque sabe que é totalmente injusto aproveitar-se da situação. Regina não sabe quem ela é, e se soubesse, teme que jamais aceitaria um contato mais íntimo com a loira, imagina ser a mulher dela. Sente o corpo de Regina espreguiçar-se e volta a fechar os olhos fingindo que está dormindo. Ainda não tem coragem de encarar a rainha. Sente os lábios de Regina tocar os seus em um leve beijo e a ouve afastar-se. Abre os olhos com medo de ser pega e, quando constata estar mesmo sozinha, suspira pesado e fixa a olhar no teto, como se ele a dissesse o que deve fazer. Fica assim por muitos minutos até ser interrompida por Henry que, com o notebook nos braços, senta-se diante dela e começa a ler:
— "Ela me encarava com aquela expressão debochada de sempre, cheia de si, como se não houvesse nada no mundo mais certo do que ela própria, e, céus, como isso mexia comigo. Quanto mais eu tentava me convencer de que a odiava, mais a amava. Quanto maior a distância que eu tentava nos impor, mais nos encontrávamos. Era como se o destino estivesse brincando comigo. Ela apossou-se de minha alma e em nada eu conseguia pensar a não ser naquele mar de esmeraldas tão profundas que, se não tomasse cuidado, poderia, facilmente, me afogar. Ela me atormentava com suas provocações para no minuto seguinte me lançar um sorriso tão sincero que era inevitável retribuir. Eu tentava disfarçar as reações que ela me causava, mas meu corpo inteiro me traia. Não importava onde eu estava, meus olhos sempre vagavam a sua procura, mesmo nos lugares mais improváveis. Ela se comportava como um ogro, mas em seu interior eu enxergava a criatura mais cheia de delicadeza e carinho que eu conhecia. Ela era além do que se via. Nem todo o álcool, os beijos ou as noitadas do mundo eram capazes de me fazer querê-la menos. Mesmo entre multidões, me sentia só e vazia. Eu daria tudo para tê-la". — Henry tira os olhos da tela e encara a mãe. — É parte do livro da mamãe sobre vocês. É tão bonito como ela se expressa, como ela te ama. Vocês começaram de uma maneira tão imprevisível que torna esse casamento ainda mais especial. Mas não conte que estou lendo, ela ainda não deixou.
Quando Henry sai da sala, Emma corre para o banheiro e liga o chuveiro deixando a água escorrer por seu cabelo, seu rosto e suas roupas. Finalmente permite que escorram as lágrimas que prendeu durante toda a leitura de Henry. Saber que tudo não passa de falsas lembranças é devastador. Se no livro, Regina disse que daria tudo para tê-la, agora Emma daria tudo para acordar e perceber que isso não passa de um sonho ruim. Não há nada que deseja mais do que ter sua vida de volta. Está cansada de contos de fadas, de personagens, de vilões e mocinhos, de maldições, de lutar para sobreviver. Ela só quer voltar no tempo e não tomar aquela poção. O arrependimento lhe consome.
Termina o banho, se veste e ensaia expressões neutras no espelho, assim como sorrisos, mesmo ciente de que Regina a lê como ninguém e que não demoraria muito para interrogá-la sobre o que está acontecendo. Ela não quer contar, não quer que sua família se lembre, mas sabe que a verdade é inegociável. Precisa ser honesta com aqueles que mais ama. Imagina várias reações por parte deles, mas nenhuma é como gostaria.
Vai até a cozinha e encontra Regina preparando o almoço, senta-se na bancada e força um sorriso quando a mulher vai até ela e lhe abraça por trás.
— Que cheirosa! — Regina funga o pescoço da esposa e deposita beijos dos ombros até a orelha.
Emma estremece com o toque e sente o corpo arrepiar, mas não de desejo, como costumava ser, e sim de medo. Regina percebe.
— Você vai me contar o que está acontecendo?
— Vou sim, mas não agora. — Emma tenta disfarçar a angústia, mas sua voz a entrega.
— Eu fiz alguma coisa?
Regina toca o rosto de Emma a obrigando a encará-la. Os olhos da morena expressam preocupação, incerteza e até um pouco de medo também. Essa combinação faz o peito de Emma se apertar.
— Não, meu amor. Você é perfeita.
Emma abandona qualquer pensamento recriminante e abraça a rainha com força, que segura o rosto da loira com as duas mãos e cola seus lábios nos dela. O beijo começa lento, com Emma hesitante, mas quando sente a língua quente de Regina pedindo passagem, cede instintivamente. Emma vai até o fogão e o desliga, pega Regina pela mão e a puxa pelo corredor, bate na porta de Henry e anuncia que o almoço está pronto e que elas não irão acompanhá-lo, entra em seu quarto, tranca a porta e se deita chamando a esposa para se deitar ao seu lado. Com carinho, envolve os braços em torno da cintura da morena, fazendo com que seus corpos fiquem em perfeito encaixe.
— Não pergunta nada. Só fica assim comigo o resto do dia.
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