Notas iniciais
Obrigada pelos comentários, pelos elogios, eu fico muito feliz que estejam gostando, vocês não fazem ideia do quanto o meu peito se aquece com cada incentivo que recebo. Tenham uma boa leitura!

"Se lembra quando a gente chegou um dia a acreditar que tudo era pra sempre sem saber que o pra sempre, sempre acaba"

— Renato Russo

Quando os primeiros raios de sol cruzam o céu, Emma já está diante do apartamento dos pais. Teme que eles aproveitem o horário em que está trabalhando para tentar fazer com que Henry e Regina também se lembrem de tudo.
— Emma! — Uma Snow descabelada e com o rosto inchado pelo sono abre a porta e logo surge David em seu encalço. Ameaça falar algo, mas é interrompida por Emma, que invade a casa fechando a porta.
— O que vocês estão fazendo aqui?
Sua voz é seca, transmitindo o quando a presença dos dois a desagrada.
— Filha, nós ficamos um ano distantes e ainda não ganhamos sequer um abraço. Nós sentimos saudade. Não nos trate assim. — David caminha hesitante até a filha, quando ela não recua, ele a envolve em um abraço e Snow se junta a eles com os olhos marejados.
Emma permite ser abraçada, mas não retribui. Ela está confusa, com raiva e exausta. Não fechou os olhos a noite, precisa dormir, mas não consegue esvaziar a mente por um segundo. Passou as últimas 24h pensando, mas era como andar em círculos. Não decidiu nada nem encontrou as respostas que precisa.
— O que vocês estão fazendo aqui? — Repetiu a pergunta em tom mais sutil.
— Outra maldição foi lançada e voltamos para Storybrooke, mas não nos lembramos de nada. — Snow explica.
— Parece que foi há poucos dias que nos despedimos na fronteira da cidade. É como se o último ano não tivesse existido.
— Mas existiu. — Emma fala ríspida, não conseguindo esconder toda a angústia que sente. Repassa o último ano inteiro em sua cabeça e sente o peito rasgar de dor. — Muita coisa aconteceu.
— Nós percebemos. — David destila deboche e Emma finca as unhas na palma da mão para não atacar o príncipe.
— Mas o que eu tenho a ver com essa maldição? Que eu saiba, meu carma era quebrar a outra, não essa.
A verdade é que a loira já não aguenta mais todos os acontecimentos dessa vida de contos de fadas e não se conforma com a mania de maldição que aquelas pessoas têm. "Nesse mundo, quando as pessoas se desentendem, batem boca na rua trocam socos e passam a noite na cadeia, por que demônios vocês não podem fazer o mesmo?", é o que pensa e queria dizer, me se contém.
— Você é a salvadora, só você pode nos ajudar! — Snow exclama como se fosse óbvio.
— Não estou interessada. — Emma tenta deixar o apartamento, mas é impedida pelo pai.
— Emma, eu não estou te reconhecendo. A minha filha não se negaria a ajudar.
— Essa é a questão. Você não está me reconhecendo porque nunca me conheceu. Eu não sou sua filha, eu sou órfã, e eu não preciso ser a salvadora de ninguém. O que eu preciso é ir trabalhar, isso sim, porque eu tenho uma família que precisa de mim verdadeiramente.
Emma cospe as palavras que são como ácido para Mary e David. Eles a encaram boquiabertos, com as testas franzidas, absorvendo o peso daquelas palavras, mas é o homem quem reage.
— Você foi órfã por culpa daquela mulher que agora você chama de família. Ela destruiu nossas vidas, ela destruiu a sua vida e se hoje estamos aqui te pedindo algo que você, claramente, não está nem um pouco disposta a fazer, é por causa dela. — Charming tem o dedo apontado para Emma e grita ignorando os pedidos da esposa para que se acalme. — Nós somos seus pais, nós somos sua família. Ela não é nada além de uma bruxa, de um monstro.
Emma avança na direção do príncipe parando há poucos centímetros de distância, sua pupila está dilatada e seu rosto vermelho pela raiva que cresce dentro dela.
— Você não tem direito de falar assim. — Tira seus olhos dele e aponta para Snow. — Se Regina fez o que fez, foi porque você não conseguiu ficar com a boca fechada e guardar a porcaria de um segredo. Você criou o monstro e não conseguiu pará-lo. Você destruiu a vida dela no começo dessa história. — Recua alguns passos para conseguir ter os dois em seu campo de visão. — Vocês escolheram me enviar para cá com uma criança irresponsável e mentirosa como acompanhante. Regina não me tirou de vocês, Regina não me fez órfã, vocês fizeram isso sozinhos. E não pensem que a história vai se repetir, porque não vai. Eu abandonei a minha vida para salvá-los uma vez, mas realmente não estou disposta a isso novamente. Aprendam a resolver os próprios problemas.
Nesse momento Emma enxerga sobre a mesa dois frascos idênticos ao que Snow deu a ela. Caminha a passos largos até eles, mas a princesa é mais rápida.
— O que é isso?
— Poção da memória para Henry e Regina.
— Me dê.
— Não! — Snow é taxativa.
— Me dê! — Emma tenta pegá-los.
— Eu disse "não"! — Corre até o marido e protege os frascos em suas costas.
— Vocês não acham que vou permitir que eles bebam isso, acham?
— Eu não estou acreditando no que estou ouvindo. — David agita as mãos em indignação. — Por todos os deuses, Emma, você não pode mantê-los nessa mentira.
— Não parecia uma mentira e eu era muito feliz. Muito mais do que já fui na minha vida real. — Ela quase perde a batalha contra as lágrimas que desejavam brotar, mas consegue controlá-las. — Vocês não entendem...
— Não, Emma. Realmente não entendemos! — Snow suspira cansada e abaixa o tom da conversa. — Tudo bem você estar frustrada por ter vivido uma mentira, tudo bem você hesitar em nos ajudar, considerando a tranquilidade que tem aqui e nunca encontrará em Storybrooke, tudo bem querer continuar vivendo aqui com Henry, mas daí a ignorar o sofrimento de um reino inteiro preferindo ficar aqui com Regina é distante demais de qualquer coisa minimamente lógica para mim.
Emma cogita responder, mas respira devagar e se concentra no que realmente importa.
— Vamos, Mary, me dê esses frascos. Eu não vou permitir que vocês cheguem perto deles, então, se quer que eles tenham uma chance de recuperar a memória, é melhor me entregá-los.
— Não, Emma. Sinto muito, mas não posso fazer isso.
O coração de Snow se aperta com a dor que transpassa os olhos da filha e lhe atinge diretamente. Quer abraça-la e prometer que tudo vai dar certo, e poderia fazer isso porque confia na vitória do bem acima de qualquer coisa, mas sabe que seu carinho não é bem vindo, então, apenas observa a filha sair do apartamento.

***

Emma fica poucas horas em seu escritório sem conseguir se concentrar e desiste de trabalhar. Considera ir até o bar que frequenta com Regina e os amigos, mas muda de ideia ao pensar que o ambiente só agravaria seu estado depois do que aconteceu na última noite, então caminha na direção oposta até encontrar outro. Ela passa a tarde ali, finalmente conseguindo não pensar em nada, apenas encarando o fundo do copo, que regularmente o garçom enchia com mais cerveja. Quando o sol se põe, paga a conta e caminha de volta ao escritório onde o carro estava estacionado. Dirige torcendo para ser parada em uma blitz e ser presa, adiando, assim, ainda mais seu encontro com Regina e Henry, e também com os pais. Quando chega em casa vê Henry estirado no sofá com o notebook nas pernas.
— Hey, garoto.
— Oi, mãe. Você demorou.
— Muito trabalho. — Mente e percebe que mentiu mais nos últimos dois dias do que no último ano inteiro.
— A mamãe ligou avisando que vai sair mais tarde da editora. Estou aproveitando para ler o livro. — Ele não tira os olhos da tela.
Só de pensar no livro e em tudo que nunca aconteceu, Emma se contorce.
— Ela já sabe que você está lendo?
— Não. Mas eu não consigo parar. Sei que já me contaram muito da história de vocês, mas nunca com tantos detalhes.
— Talvez você não queira saber os detalhes. Os filhos geralmente são poupados disso. — Tenta fazer graça, mas não consegue mover um micrômetro de sorriso.
— Olha isso. "Tínhamos tudo para dar errado. O temperamento diferente, sonhos distantes, torcida contra, ex inconformados e personalidades incompatíveis. Nem nós nos ajudávamos, éramos vilãs da nossa própria história. Naquela tarde estávamos abandonando dois anos de relacionamento sem motivo consistente, como se fôssemos apenas uma aventura de verão. Mas dentro de mim se fez inverno, a chuva nunca foi tão gelada e os ventos tão devastadores. Tudo em mim desmoronava. A alegria da vida me era arrancada por um tufão chamado arrependimento. Arrependimento por ter permitido que nosso namoro caísse nas armadilhas que a inveja preparou, por não ter lutado para defendê-lo, por não ter confiado no nosso amor e por estar deixando-a ir. Inconscientemente minhas pernas correram até ela, que já estava sumindo entre a multidão, e a puxei para mim. Nosso abraço foi tão forte e meu coração batia tão rápido que meu corpo inteiro tremia e as lágrimas desciam abundantes por meu rosto desaguando nos ombros de Emma. Ela se afastou apenas o suficiente para colar nossos lábios e nessa hora a tempestade que havia em mim se dissipou, dando lugar ao sol que permitia o desabrochar e o respiro das borboletas habitantes de estômagos apaixonados. Eu prometi a mim mesma nunca mais deixar que algo cruze nosso caminho. Fiquei apenas alguns minutos sem ela, mas foram os mais sombrios da minha vida e foi então que eu percebi que Emma era a minha luz". — Emma já está sendo forte há tempo demais e não consegue se controlar entregando-se ao choro. Henry a abraça aturdido. — A senhora não gostou?
— Gostei. Claro que gostei. Eu também nunca ouvi a versão da sua mãe sobre nossa história. — Emma fala controlando o choro, ainda agarrada ao filho. — Você não quer dormir na casa de um amigo hoje?
— Você quer ficar sozinha com a mamãe?
— Quero, garoto. Quero sim. — Ela se separa do filho e vai até a cozinha pegar um copo d'água fugindo de seu olhar questionador.
— Vocês brigaram?
— Não. Nós só precisamos conversar sobre um assunto delicado, mas não tem nada a ver com a gente. — Mente outra vez, porém, menos convincente.
— Tudo bem. Eu vou ligar para o Noah.
— Mas ele não é seu amigo, é amigo da Regina. — Tenta outra brincadeira e falha miseravelmente.
— Noah é viciado em vídeo game e isso faz dele a melhor opção. — Vai até o quarto e volta com sua mochila nas costas. — Ele está vindo me buscar, vou esperar lá embaixo. Se cuida e cuida da minha mãe. — Ele dá um beijo na bochecha de Emma e sai do apartamento deixando-a com a pior missão de sua vida: finalmente decidir o que fazer com as memórias que tem.

***

David e Snow não conseguem entrar em um consenso sobre dar ou não a poção para Regina. Com Emma se recusando a ajudar, ela se torna a última opção.
— De jeito nenhum, nem sei porque estamos discutindo isso. Não vamos devolver suas memórias, assim ela se mantém longe de Storybrooke e ficamos com um problema a menos. — David está irredutível enquanto Snow argumenta que também é do interesse de Regina descobrir quem lançou a maldição.
— David, entenda, quando Regina se lembrar vai correndo para Storybrooke tentar acabar com isso. Ou você acha que ela permitirá que alguém chegue perto do seu trono?
— Ela vai é se unir a quem quer que tenha feito isso. Ou, no mínimo, derrotá-lo para recuperar o controle de nossas vidas.
No meio desse bate-boca que não os leva a lugar nenhum, ouvem batidas na porta.
— Emma? — Snow não esperava ver a filha tão cedo.
— Preciso que me dê a poção. — Emma fala sem respirar.
— Não vou fazer isso de novo. — Mary bate a mão na testa, levantando a cabeça e suspirando alto.
— Eu vou dar a ela.
— O que? — David e Snow perguntam juntos.
— Vocês estão certos. Não posso prendê-la em uma vida que não é a dela. Vou deixar que ela escolha o seu caminho.
Snow pondera por alguns minutos, enquanto todos permanecem em silêncio, até finalmente ir até a mesma mesa onde os frascos se encontravam mais cedo e pegar um deles. Sabe que precisa confiar na filha, que ela merece essa chance depois de tudo que fez por eles, mas prefere, por garantia, ficar com um, caso de Emma mude de ideia e jogue fora.
— Não! Não, Snow. — David a impede de entregar. — Esqueceu tudo que eu falei? Não vamos devolver o poder à Regina. Não vamos permitir que ela se lembre de tudo e volte a nos flagelar.
— Você não está em condições de negociar. — Emma toma o frasco das mãos da princesa e volta para o seu apartamento.

***

Emma está sentada na cama, com o álbum de retratos que fez para presentear Regina há alguns meses atrás. Nele estão fotos das duas, de Henry, e dos três juntos.

— Eu amei, querida. Obrigada. É lindo. Nossa família é linda
— Sabe o motivo para eu não ter colocado foto sua ou minha sozinhas nesse álbum?
— Não consigo imaginar. Qual é?
— Porque eu sem você e você sem mim é impensável, não existe.

Ela tenta não chorar, mas é só o que deseja desde a fatídica noite em que tomou a maldita poção.
— Querida? — Regina chama. Emma tenta limpar as lágrimas, mas é flagrada pela esposa. — Você está chorando, meu amor? — Emma não responde, apenas observa o rosto da morena franzir em preocupação. — Quando você vai me contar o que está acontecendo? Eu não aguento mais te ver assim. Me dói.
Emma se pergunta como contar a alguém que toda a sua vida é uma mentira. Pior, como tirar de alguém uma vida tão pacífica para lhe devolver uma tão dolorosa quanto ela sabe que é a da rainha.
— Agora. Eu vou te contar agora.
Regina tira os sapatos e se senta em postura burmese de frente para Emma, inclina o corpo para lhe dar um selinho e volta a ficar ereta.
— Por favor, querida. Me diga.
Com o coração em frangalhos, Emma pega o frasco que estava entre suas pernas, conta até cinco, seca o rosto, suspira e começa a destruir a vida de Regina:
— Há algumas coisas que vivemos, mas nos esquecemos. Isso acontece com todo mundo, as coisas simplesmente nos fogem. Eventos, passeios, conversas... Mas nós não somos como as outras pessoas. Não foram alguns momentos que nos escaparam, foi muito mais. Foram angústias, dores, decepções, perdas, erros, pessoas, vazio, coisas que nos fizeram muito infelizes, mas que são parte do que somos. Mais do que isso, são responsáveis pelo que somos. — Emma fala com dificuldade devido ao choro incessante. — Aqui nesse frasco está contido a sua vida inteira. O seu eu verdadeiro e todas as coisas que eu citei. Não quero que me pergunte nada, quero que você escolha beber ou não, mas antes disso preciso que saiba que eu fui muito feliz no último ano e eu não o trocaria por nada.
Emma estende a poção para Regina que tem a expressão confusa. Ela também chora mesmo não entendendo uma linha do que a loira falou, mas a dor que emana das esmeraldas que tanto adora, dói nela também. Assim como a felicidade de Emma é a sua felicidade, o tormento de Emma é o seu tormento. Acha que o que a esposa disse sobre a relação daquela bebida com vidas infelizes é uma metáfora e que, talvez, se tomá-la e mostrar que está tudo bem, ela volte a estampar os sorrisos mais alegres que a editora já viu e que contagiam qualquer pessoa. Sorrisos dos quais já sente falta, pois não recebeu nenhum no dia anterior, o único dia, desde que estão juntas, em que presenciou tanta aflição na loira. Assim, pega o frasco destampado das mãos de Emma, que prende o ar em agonia, e bebe em um único gole.

Notas finais
Se serve de consolo, também estou sofrendo! Comentários, conselhos, ideias e beijos continuam sendo bem vindos.