Todos os Erros do Mundo
3 Das Rosas
Notas iniciais
"Meus olhos, cansados do mundo, não se cansam de contemplar tua face, teu riso moreno, teus olhos do verde do mar"
— Tom Jobim
Exatamente como uma editora de livros em ascensão deve ser, Regina Mills passa a maior parte do tempo lendo. Está sempre com o notebook no colo, analisando todas as histórias que lhe são enviadas diariamente. É uma mulher incrivelmente inteligente, surpreendentemente culta e capaz de conversar sobre qualquer assunto. Tem uma fila de admiradores e os autores disputam seu tempo, mas, para ela, isso passa longe de ser um trabalho, é, na verdade, um prazer. Poucas coisas a deixam mais entusiasmada do que abrir um arquivo original. Muito acaba sendo editado, ela sabe, mas, ainda assim, aqueles brutos são seus tesouros. Emma, embora não seja uma leitora apaixonada, aceita algumas recomendações da esposa e sempre impressiona-se com o quanto as histórias, já tão boas, melhoram após a revisão da morena. "Você nasceu para isso, amor", Emma elogia. "Eu também acho". Regina não faz a menor questão de ser modesta. Quando é contrariada com reclamações que sugerem que publique sem os aperfeiçoamentos que acha necessários, responde em seu tom mais autoritário:
— Eu sou boa, gosto de ser boa e não aceito ser ruim.
E não aceita mesmo. É perfeccionista. Dá o seu melhor e não admite menos de ninguém. É exigente, mas o resultado de tudo que faz sempre é muito acima do expectado.
No entanto, dentre todos os livros maravilhosos que Regina leu ou teve a honra de publicar, nenhuma história era tão envolvente quanto a que ela estava escrevendo. A história do ódio a primeira vista entre uma graduanda em Literatura e Crítica Literária e uma aluna de colégio militar.
— É a nossa história? — Emma se ajeita ao lado da esposa na cama e vira a tela para que possa enxergar melhor.
— É sim, mas nem pense que eu vou te deixar ler. — Regina fecha o notebook e estreita os olhos fingindo ameaça.
— Ah, morena, mas eu já conheço a nossa história. — Emma faz um biquinho que Regina só consegue definir como "a coisa mais adorável que já viu".
— Mas essa é a minha versão e já está quase pronta. Logo poderá ler.
— Como é que você vai terminar a nossa história, amor?
— Não vou.
A detetive estava se referindo ao livro, mas a resposta que recebeu foi melhor do que qualquer uma que imaginou. Regina, de fato, ainda não sabe como finalizar. Percorreu cada segundo que passou com a loira, fisicamente ou em pensamento, e não encontrou nada que pudesse compor a última linha. Na verdade, ela não quer terminar. Precisa, mas não quer. Em seu íntimo aquilo parece errado. Como dar fim a uma história que não quer que o tenha? Emma é o sol de Regina. Tudo na morena reage a ela e por ela. Entre implicâncias e apelidos, o que parecia ódio se revelou no mais intenso sentimento que ela já havia possuído. Ela demorou, mas descobriu que não era a presença da loira que a incomodava e sim a enorme distância que as separavam mesmo quando estavam próximas. Regina a ama incondicionalmente e infinitamente. E a cada vez que a vê, toca, sente, ouve ou pensa, esse amor cresce. É por isso que ela revisa, revisa, revisa e nunca encerra o livro: porque teme que, um dia, a história delas acabe também.
— O que você achou dos nossos vizinhos? — Emma chama a atenção de Regina.
— Agradáveis.
— Só agradáveis?
— Simpáticos?! — Tenta mais uma vez.
— Ai, Regina, você gosta de todo mundo, como assim não gostou deles?
— Eu não disse que não gostei. — Pensa duas vezes antes de formular a resposta. — Eu só me senti um pouco desconfortável com os olhares.
— Desconfortável?
— Invadida. — Confessou em uma careta.
— Impressão sua. Eles são uns amores. Até nos propuseram um jantar para compensar o de hoje.
— E você foi educada e disse que não é necessário, não é? — Pergunta fazendo a mulher ao seu lado sentir-se como se tivesse cinco anos.
— Claro que sim. Você me educou bem, mamãe. — Emma provoca marota.
— Céus, Emma, nunca mais me chame assim quando eu estiver com pensamentos impuros sobre essa calcinha minúscula que está usando.
Sem tempo para contestações, Emma tira o notebook do colo da esposa, colocando-o no chão, e a puxa para um beijo. Regina usa seu peso para deitar Emma, prendendo-a com as pernas. Corta o beijo com alguns selinhos e percorre o maxilar da esposa com a língua até a orelha, onde dá uma mordida fraca sentindo o corpo da outra arrepiar. Lentamente desliza a mão para dentro da regata da loira, tateia os seios, pressiona-os levemente até senti-los enrijecer. Afrouxa o aperto em Emma apenas o suficiente para que ela se virasse de bruços. Regina beija-lhe a nuca intercalando chupões. Desce os beijos pelas costas ainda cobertas pela regata até chegar ao bumbum firme e pálido que tanto ama. Passa a língua pelos lábios em puro desejo e lhe dá mordidas razoavelmente fortes. Emma geme em misto de dor e tesão. A editora ajoelha-se e puxa Emma encaixando-a em seu corpo, escorrega a mão por dentro da fina calcinha de renda azul marinho, e sente o sexo molhado da detetive. Pressiona o clitóris com a ponta do dedo e faz movimentos circulares em ritmo lento. Com a outra mão agarra um seio da mulher e o aperta com mais força dessa vez. Sua língua trabalha no pescoço de Emma, deixando-lhe marcas que sabe que dificilmente serão disfarçadas no dia seguinte. Emma suspira alto jogando a cabeça para trás e o corpo para frente pedindo por mais contato. Regina aproxima-se da entrada, brincando com os dedos, fazendo a esposa resmungar impaciente com a tortura da qual está sendo vítima, mas é surpreendida pela invasão de dois dedos da morena. Arfa imediatamente. No mesmo instante, passa a rebolar de forma frenética. Emma está ansiosa e Regina se aproveita disso, gosta de vê-la pedindo. Rapidamente deita a loira de frente para ela e lhe arranca a calcinha e a regata, enquanto Emma tira o vestido que cobre as curvas morenas da esposa e a livra da lingerie preta. Regina deita-se sobre o corpo de Emma deslizando seu sexo encharcado pelo dela. "Por favor", a loira sussurra dando vitória à parceira que acelera os movimentos permitindo que um gemido rouco escape. Ao ouvi-lo, Emma sente um calor partir de seu peito para toda a superfície do corpo até sua intimidade e, acompanhado de um gemido alto, o gozo lhe escorre pelas coxas. Regina imediatamente desce para beber o êxtase da esposa.
Emma leva apenas alguns segundos para inverter as posições e passar a beijar o pescoço da morena, descendo rapidamente para os seios. Enquanto beija e chupa um, acaricia o outro com uma mão. Regina geme se contorcendo, os seios são as partes mais sensíveis de seu corpo, mas não é ali que ela precisa da esposa. Com carinho, empurra o rosto da amada para baixo, indicando o que deseja, e é prontamente atendida. Emma passa a ponta da língua pela entrada da morena, sugando-a, sobe até o clitóris, onde passa a trabalhar ritmicamente. Penetra dois dedos sem deixar de chupa-la e ouve um suspiro de satisfação. Acelera a velocidade das entocadas enquanto os gemidos da morena se tornam mais altos. Retira os dedos e a penetra com a língua. Regina crava as unhas no lençol e morde os lábios tentando, em vão conter um grito, e explode na boca de Emma.
Regina usa o resto de suas forças trazendo a esposa para deitar-se ao seu lado, selam um beijo e, sem dizer nada, se abraçam de frente, entrelaçam as pernas e fecham os olhos sentindo o corpo relaxar e as respirações voltarem ao normal. Já recompostas, Emma gira Regina e lhe acolhe em uma conchinha, como sempre fazem:
— Você é a minha vida. — Sussurra contra a nuca da morena.
— Eu te amo. — Ouve a jura de todas as noites.
***
— Elas se amam!
Snow e Charming falam ao mesmo tempo assim que entram no apartamento. Ambos com a boca entreaberta, olhos fixos na parede e pensamentos conflitantes. Snow repassa toda a história que ouviu de Emma sobre o acidente enquanto Charming relata seu momento com Regina, quando fazia chocolate, onde ela o tratou com tanta educação e gentileza, que poderia jurar que era um alienígena e não a Regina que conhecia.
— Elas não simplesmente perderam as memórias, elas tiveram a personalidade alterada. Só isso explica. — Snow agita as mãos aflita. — Emma está sensível, aberta, vulnerável. E Regina está... amável?! — Senta-se no sofá seguida pelo marido. — Isso é loucura, David. Aquilo ali — aponta a direção do apertamento da filha — é uma loucura. Como vamos consertar isso agora?
Mas o príncipe já havia parado de prestar atenção no que saia da boca da esposa. Ajoelha-se diante dela, segura suas mãos e solta um longo suspiro:
— Talvez essa seja a personalidade real delas. Talvez essas sejam Emma e Regina quando estão felizes. Você mesma diz que Regina era doce quando se conheceram. Aquela mulher, com quem dividi a cozinha essa noite, é doce. — Passa a acarinhar as mãos da princesa. — E Emma é sensível, sempre foi. Ela construiu barreiras para proteger os seus sentimentos devido às decepções que teve. Mas essa Emma que está aqui, nunca foi ferida como a outra. Ela não precisou construir essas barreiras. E essa Regina provavelmente nunca sofreu nas mesmas proporções que a outra e não teve a influência de Cora e Rumple em sua formação, não foi obrigada a aceitar uma vida que não desejava... Enfim. — Respira alto. — A diferença entre essas mulheres e as que conhecemos é muito simples: essas são felizes, aquelas não.
Snow esfrega os olhos com força, passa as mãos pelos cabelos bagunçando-os, suspira pesadamente inúmeras vezes e, por fim, permite que as lágrimas caiam:
— O que não vamos fazer agora?
— Vamos seguir com o plano. — David fala sem a mínima certeza de que é isso mesmo que devem fazer. — Elas podem não lembrar, mas é exatamente isso que desejariam que fizéssemos. Ao menos a Emma...
***
— Amor, atende a porta? Eu quero dormir. — Emma resmunga sonolenta e usa os pés para empurrar a esposa da cama.
— Quem é que vai a casa de alguém, em um sábado, essa hora da manhã? — Regina reclama já saindo do quarto.
Quando ela chega na sala, Henry já está dando passagem a quem lhe fez acordar três horas mais cedo.
— Bom dia, Regina. Espero não tê-la acordado. É que Henry me convidou para assistir ao seu campeonato de hugby. — O homem se desculpa rápido, temendo o mau humor matinal que a mulher costumava ter. E ao menos nisso ela continua igual. Possui uma enorme carranca em seu rosto inchado pelo sono e olhos ainda vermelhos. Regina apenas acena e dirige sua atenção ao filho.
— Pensei que fosse no período da tarde.
— E é, mas terá reconhecimento de campo agora. Pensei que David poderia me acompanhar, mais tarde almoçamos todos juntos e vamos me ver vencer. — Diz esnobe fazendo-os rir.
— Já volto.
Regina vai até o quarto com passos preguiçosos, puxa as cobertas da esposa fazendo-a protestar e sentar na cama emburrada.
— Henry quer sair com David. Podemos confiar nele? — Emma permanece imóvel, com os olhos fechados e Regina percebe que ela está dormindo sentada quando ouve um ronronar. — Emma!!! — A loira desperta assustada. — Henry quer sair com David.
— Uhum. — Limpa a baba que escorria pelo queixo e coça os ombros despreocupadamente.
— Isso é um "tudo bem, ele não vai sequestrar o nosso filho" ou um "não faço ideia do que está falando, quero voltar a dormir"?
— As duas coisas. — Responde com a voz ainda rouca. Regina bufa. — Okay! Não acho que ele vá sequestrar o garoto e vender seus órgãos no mercado negro, então tudo bem, por mim, se eles quiserem sair.
Regina rola os olhos impaciente com o sono da loira e vai encher o filho de recomendações e beijos.
Horas depois Emma entra na cozinha, onde a esposa belisca um mousse de maçã:
— Eles já foram?
— Há horas. — Regina responde sem olhar, mas quando o faz, sente o peito aquecer. Emma está com o rosto marcado pelo travesseiro, os cabelos despenteados, a bochecha com resquícios de baba e os olhos inchados. A morena sorri ao pensar que parece que ela voltou da guerra, e, ainda assim, é a mulher mais linda que já viu. Nesses momentos rotineiros, em que nada parece especial, é quando sente com mais força a dimensão do seu amor. Suspira transbordando sentimento e puxa a esposa para seu colo. — Queria passar o dia abraçada com você. — Sela seus lábios. — Mas precisamos pegar Mary Margaret e ir ao shopping almoçar com o nosso filho.
Emma sorri pela primeira vez no dia, mas por um motivo que a fazia sorrir sempre: sua família. Nada no mundo era mais gostoso de ouvir do que a voz da esposa dizendo "nosso filho".
***
— Você também publica contos de fadas? — Snow se arrisca a puxar o assunto com Regina para medir o quão cético o trio havia se tornado.
— Não. Apenas histórias adultas.
— Você acha que contos de fadas são coisas de criança? — A princesa pergunta demonstrando sua indignação, mas ao perceber os olhares confusos que lhe foram lançados, disfarça. — É que eu acho que são histórias bem... reflexivas.
— Pode ser. — Regina não dá muita importância. — Eu até gosto de alguns.
Snow sente acender uma fagulha de esperança:
— De quais personagens você mais gosta? — O príncipe pergunta fingindo o mesmo desinteresse que percebia na morena.
— Da Beast, com certeza, e da Evil Queen.
Charming encara a esposa apenas para confirmar que ela pensa o mesmo que ele. É claro que Regina gosta dela mesma, talvez, em seu âmago, ainda sinta seu verdadeiro eu. Quanto à Beast, ambos sabem que a ligação entre Regina e Rumple é forte, mesmo quando tentam se matar, eles significam muito um para o outro.
— E tem algum que você não goste? — David tenta, mas não consegue reprimir a curiosidade.
— Snow White. — Regina responde sem pensar duas vezes.
Dessa vez o homem gargalhou sem medo do que pensariam dele. Todos na mesa o encaram confusos, exceto Mary, que se mostra ainda mais indignada.
— E eu posso saber o que a Snow White tem que não te agrada?
— Além do fato de ser chata, mimada, sem graça e parecer uma doida conversando com os animais? — Regina estranha, mas se diverte com a cena.
Charming nota a implicância na voz da morena e a raiva nos olhos da esposa, então se esforça para controlar o riso, seca as lágrimas, e tenta confortar a esposa apertando sua perna:
— Eu amo a Snow White.
— Eu também. — Henry se junta a ele em um sorriso carinhoso.
— Eu também. — Emma faz uma pausa no olhar de Mary e corre para encontrar os de Regina. — Mas a Evil Queen é mais bonita. — Sorri travessa e levanta a mão para um hi five.
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