Todos os Erros do Mundo
4 A Coisa Mais Linda Que Existe
Notas iniciais
"A coisa mais linda que existe é ter você perto de mim. O apartamento, o jornal, o pensamento, a navalha. A sorte que o vento espalha, essa alegria, o perigo, eu quero tudo contigo, com você perto de mim"
— Gilberto Gil
Henry, definitivamente, não tem talento para esportes, mas seu time, no geral, é superior ao adversário, o que, provavelmente, garantiria a vitória. Emma assiste ao jogo em pé, berrando xingamentos, assim como David. Mary não faz ideia das regras, mas pula e grita irritada cada vez que acha que algo está errado. Já Regina, sem um pingo de interesse, permanece sentada com o queixo sustentado por uma das mãos.
— Henry é muito ruim. — Emma lamenta sentando-se por breves segundos ao lado da esposa.
— Impressionante quantas jogadas ele já perdeu.
Se fosse em outro momento, sobre qualquer outra coisa, Regina soltaria sua corujice materna para cima de David, e defenderia o filho com unhas e dentes, mas dessa vez ele está certo. Henry chega a irritar os colegas tamanha falta de coordenação e habilidade, mas o garoto não se importa verdadeiramente com o resultado, tampouco com sua inaptidão. Ele quer ser escritor, como a mãe.
— Esse garoto é um nerd. Não tem jeito.
Emma volta a se sentar, acompanhada pelos outros dois, todos desiludidos e esgotados. Quando o jogo acaba, consagrando a vitória da equipe de Henry, Emma vai até uma barraca comprar refrigerante.
— Trouxe a poção? — David pergunta para a esposa.
— Sim. Estou sempre com ela.
— Então talvez seja o momento.
Snow observa a filha afastar-se e volta a encarar o marido. Desde a noite anterior, quando descobriu os sentimentos das duas mulheres, a dúvida passou a rondar-lhe. Já não tem mais certeza de que isso é o melhor a se fazer. É o melhor para ela e para a cidade, mas e para Emma? Já não sabe. Pensou que era triste e injusto uma vida com memórias falsas, mas quando conheceu a realidade que o trio tem em NY, percebeu estar enganada. Pode ser que seja injusto, mas triste, com certeza, não é. Mesmo com todas as suas memórias e ao lado do seu amor verdadeiro, Snow não se lembra de ter momentos tão tranquilos e alegres quanto aquela família. Os sorrisos nos olhos de Emma e Henry a faziam vacilar quanto à ideia de leva-los de volta. No entanto, sabe que enquanto eles brincam de casinha, Storybrooke corre perigo. Não sabem quem lançou a maldição nem o que pretende. Quebra-la é prioridade. Apegando-se à ideia de que Emma não pensaria duas vezes antes de sacrificar qualquer coisa para ajudar aquelas pessoas, Mary caminha lentamente atrás da filha, como se isso pudesse fazer com que o tempo congele e ela se veja livre dessa missão.
— Emma?! — Tenta sorrir, mas a tensão em seu rosto a impede, fazendo com que seus músculos doam a medida em que tenta esticá-los.
— Oi, Mary. Vai querer um refrigerante também?
— Não. Na verdade eu gostaria apenas de conversar com você.
Emma nota o tremor na voz da pequena mulher e se preocupa. Claro que ainda estão se conhecendo, mas se importa como se fossem amigas de uma vida inteira. Emma é assim, demasiadamente preocupada, sempre tentando ajudar, sempre se complicando para salvar a pele de pessoas que mal conhece. Ao menos é isso que Regina diz. E, nesse momento, ela pode ouvir a voz da morena alertá-la.
— Aconteceu alguma coisa? — Emma caminha com Mary para uma área menos movimentada.
— Eu gosto muito de você, sabe?! — A princesa começa insegura. — Sei que pode não fazer sentido agora e pode parecer precipitado, mas tenho muito carinho por você e sua família. — Enquanto Snow fala, a loira repassa todas as vezes em que Regina a repreendeu por dar dinheiro a todos que a pediam na rua. "Não dê esmolas, encaminhe para uma casa de auxílio, dê comida, que seja, mas não esmola. Muita gente se aproveita da boa fé de pessoas como você, e as extorquem com histórias tristes sobre doenças e viagens de volta para casa". A morena quase sempre estava certa. Mas Emma nunca parou de contribuir. É da sua natureza acreditar na bondade humana. Mas diante daquela enrolação de Mary, ela pode jurar que a mulher estava pronta para pedir dinheiro ou outra ajuda muito exagerada para quem acabou de conhecer. — Eu só preciso que você confie em mim. Você confia?
— Acho que sim. — Emma sorri indecisa. Começa a cogitar a ideia de que a mulher é maluca.
— Então você beberia isso se eu pedisse?
Snow exibe o frasco com a poção incolor.
— Isso é alcoólico? — "Pronto, é alcoólatra, bebe escondido do marido e ainda quer uma cúmplice", a detetive deduz.
— Não! Não! — Snow rebate ofendida. — É uma poção mágica.
— Você é uma dessas "videntes" — faz aspas com as mãos — que fica abordando todo mundo em praças e praias? Porque se for, já digo que não acredito nessas coisas. — Emma tenta rir para deixar o clima mais leve, embora esteja realmente preocupada com o tom e com o rumo que a conversa está ganhando.
— Não, essa eu ganhei de um feiticeiro de verdade. — Snow fala baixo, sem convicção alguma, passando zero de credibilidade.
— Mary, ainda estamos construindo uma amizade, não conhecemos a história de vida uma da outra, os desafios enfrentados, os que ainda estamos superando, — Emma tenta um tom de voz compreensivo. Não quer acusar ou fazer com que a mulher se sinta ofendida. — mas eu também gostei muito de você e do seu marido, portanto, se estiver passando por alguma dificuldade, algum problema, não hesite em buscar ajuda. É perceptível o quanto David te ama, vocês merecem as melhores chances. — Emma abre um grande sorriso. — Eu sou muito feliz com os meus amores, quero que você também seja.
Snow está desapontada. Nunca pensou que Emma acharia que fosse uma alcoólatra. Ela sequer bebe. Mas com esse discurso de Emma, ela desiste de tentar fazê-la tomar a poção. A princesa simplesmente não consegue ser a responsável por tirar aquele sorriso lindo que Emma expõe. Mentalmente pede desculpas a todos os habitantes de Storybrooke que confiaram que ela levaria os três de volta para salvarem a cidade, mas, nesse momento, não acha nada mais importante do que a filha. Guarda a poção na bolsa, tenta um sorriso de desculpas, que sai mais como uma careta, e leva a loira pela mão até onde Regina, Henry e David esperavam.
Quando já estavam se aproximando do prédio, David sussurra:
— Pensei que o combinado era você dar a poção a ela.
— Eu sei, eu tentei, mas agora ela acha que sou alcoólatra.
— Isso seria engraçado se a cidade inteira não dependesse disso. — Retruca impaciente.
O príncipe é mais racional que a esposa, embora também sinta o peito se apertar quando pensa que pode estar prestes a destruir a vida da filha. Observar Emma e Regina mais a frente de mãos dadas, vez e outra trocando carinhos, com sorrisos apaixonados, não ajuda. Tenta se focar em tudo que já sofreu devido a sede de vingança da rainha. Agora Regina está vivendo com Emma, tendo-a em seus braços todos os dias, mas o privilégio de também conviver e cuidar da loira, como um pai deve fazer, lhe foi roubado justamente por aquela mulher. Isso ele não sabe se conseguirá perdoar um dia. O bem estar da morena não lhe interessa. Ele pensa que Regina é ruim demais para ter mudado tanto e que a felicidade da detetive pode estar com os dias contados, pois, tudo com a morena é doloroso e imprevisível. Tenta convencer-se de que devolver as memórias a Emma também será sua salvação, pois poderá se libertar da responsável pela vida solitária que teve.
— Obrigado pela torcida. Gostei de conhecer vocês. — Henry sorri para o casal quando chegam ao elevador. — Talvez possamos passar mais tardes juntos.
— Não tenha dúvidas disso. — Snow faz um carinho leve no rosto do garoto e David finalmente abandona seus pensamentos para dar atenção a ele.
— Nós vamos adorar.
***
— No que a mulher mais linda desse mundo está pensando, assim, tão séria? — Regina sai do banho enrolada na toalha e se deita ao lado da mulher na cama.
— Acho que Mary é alcoólatra. — Emma fala de uma vez, pegando a morena de surpresa.
— Por que acha isso?
— Hoje ela me ofereceu algo. — Senta-se e encara o rosto da editora. — Primeiro pensei que iria me pedir dinheiro, mas depois passei a ter razões para acreditar que ela tem esse vício. Fiquei preocupada. Será que David sabe?
— Eu não sei, querida, mas não é algo que seja realmente da nossa conta. Eles são casados e nós acabamos de conhecê-los, não acho que deva falar sobre isso com ele. — Regina acaricia a bochecha da esposa com a ponta dos dedos.
— Minha conselheira favorita.
Emma passa a mão pelas coxas da mulher, subindo por dentro da toalha, se deita em cima dela e roça seus lábios no lóbulo da orelha. Até que ouvem batidas na porta.
— Parem de namorar e vamos assistir um filme. — Henry grita do outro lado da porta, abrindo-a alguns segundos depois, quando as mães já estão recompostas. Regina vai até o closet e veste seu pijama enquanto o filho percorre a lista de filmes românticos da Netflix em busca de um que — dificilmente — ainda não tenham visto.
— Terminei o livro. — Regina conta quando volta a se sentar na cama e recebe sorrisos empolgados em resposta.
— E como é o final da história? — Henry pergunta.
— Feliz.
É uma resposta vaga, mas satisfaz a todos, afinal, não poderia ser diferente. Tantos anos, tanto sentimento e tantos momentos únicos não poderiam receber nada menos que o mais feliz dos finais. Ambos têm certeza de que não importa o quão violento seja o mar, o carinho e a confiança que sentem é forte o suficiente para manter o barco da família velejando. Eles sabem que não vivem em uma bolha protetora que mantém os problemas do mundo longe, mas sabem que juntos podem superar qualquer coisa. Desde que estejam dispostos a continuar, nada nem ninguém é capaz de afastá-los. Emma é tudo que Regina precisa. A morena é tudo que a detetive sempre sonhou. Henry é a realização mais bonita que as mães tiveram. E aquelas duas são o maior exemplo de amor que o garoto tem. E no que depender dele, será assim para sempre.
— Não estava escolhendo um romance, querido? — Regina pergunta quando vê o filho percorrer a lista de terror.
— Mudei de ideia. Nenhum amor é mais bonito que o de vocês, então, para não nos decepcionarmos, é melhor outro gênero. — Henry explica com os olhos brilhando para o sentimento das mães.
— Eu amo terror.
— Sabemos. — Emma e Henry responderam, uníssonos, provocando a morena.
***
David anda de um lado para o outro enquanto Mary tenta explicar as razões para adiar aquele plano, mas o homem já está mais do que convencido de que o melhor para todos é resolver isso o mais rápido possível.
— Vamos dar logo essa poção para Emma. Ela vai se lembrar e voltará conosco para Storybrooke, salvaremos a cidade e voltaremos a ficar todos juntos lá em casa. Eu, você, nossa filha e nosso neto. Emma pode até se reaproximar de Hook. Tudo isso sem Regina, claro.
— Você está sugerindo que abandonemos Regina aqui sem suas memórias? — Snow pergunta incrédula. Por mais que ainda tenha mágoas de sua madrasta, considera desumana a ideia do marido.
— Exatamente isso. Todos seremos muito mais felizes assim. Regina só nos causa problemas.
— Eu não posso acreditar que estou ouvindo isso. — Mary passa as mãos pelos cabelos em irritação. — Nós somos os mocinhos. Não vamos fazer isso.
— Meu amor, assim será melhor para todo mundo. Finalmente teremos paz. — David puxa a esposa para um abraço. — E eu não consigo pensar em ninguém que possa sentir falta dela.
— Henry vai sentir. — Mary grita se desvencilhando do marido.
— Henry nem se importava mais com Regina.
— Emma sentirá falta dela. — A mulher tenta mais uma vez.
— Emma sentirá nojo de ter vivido tanto tempo com Regina, isso sim. Ela irá nos agradecer.
Snow não consegue acreditar no que ouve. Se pergunta onde está aquele homem que no dia anterior chamou Regina de "doce" e defendeu sua nova personalidade como sendo parte de sua essência. Para ela, está fora de questão abandonar a rainha em NY, até porque tem certeza de que Regina, mesmo sem as memórias reais, iria até o inferno atrás do filho. Além disso, é capaz de apostar que Emma jamais deixaria a atual esposa para trás. Duvida que o casal permaneça junto quando souber de tudo, mas daí a abandonar uma a outra... Isso nunca. Pelo que pode capturar nos olhos das duas, Emma não deixaria Regina para trás, nem a rainha abandonaria Emma. O que elas sentem não desaparecerá da noite para o dia. Mas já cansada de discutir com o marido, concorda em convencer Emma a tomar a poção no dia seguinte, mesmo que seu coração diga o contrário, e dorme pedindo aos céus para que aquilo não destrua a filha de vez.
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