Todos os Erros do Mundo
14 Carry You Home
Notas iniciais
"If she had wings she would fly away (...) Trouble is the only way is down"
(Se ela tivesse asas, ela voaria para longe (..) O problema é que o único caminho é para baixo)
— James Blunt
Quando cruzam a fronteira de Storybrooke, Regina sente os pelos eriçarem, a pele fica mais sensível ao frescor do vento, a audição apura-se, um tom arroxeado toma sua visão por um centésimo de segundo, sente suas células inflarem e uma forte energia correr por seu corpo enquanto ele parece fundir-se ao universo. É a magia voltando. As cores estão mais vivas, os sentidos mais perspicazes e até respirar é mais fácil. É como se a magia fosse um membro de Regina cuja ausência a faz perder a plenitude de suas funções.
— O que você quer fazer primeiro?
David para pouco após a fronteira e encara Regina que tem olhos fechados e respira profundamente. Vê os músculos da face da rainha relaxarem e sua expressão se tornar serena. Quando Regina abre os olhos, ele pode enxergar contornos roxos nas pupilas e íris.
— Tenho coisas para fazer antes de iniciar a caça. Me encontrem no Granny's para o jantar.
Quando abre a boca para responder, só restava uma fumaça roxa, que dissipa-se lentamente, onde estava Regina.
— Ela precisa chegar usando magia? — O príncipe dá partida no carro e segue pela rodovia.
— Viu como ela se transformou? Sua postura, sua voz, até o tom da sua pele mudou. — Snow fala com fascínio velado por receio do que o marido pode pensar. — Como deve ser possuir tanto poder assim dentro de si? Uma coisa é termos espadas em punho, outra coisa é ter essa força correndo pelas veias.
— Eu não sei e fico feliz com isso. Já viu algo bom vindo de magia?
— As fadas fazem coisas boas.
— Fazem, mas têm 10 centímetros e são massacradas por bruxas tão fácil quanto pisamos em baratas. — O príncipe faz uma careta imaginando-se usando calças justas e varinha.
— Pisar em baratas não é fácil. — Snow ainda tem brilho nos olhos. — Engraçado... A magia esteve esse tempo todo presa no nosso mundo, depois presa em Storybrooke, sempre tão longe de Regina, mas a reconheceu assim que cruzamos o limite da cidade e a possuiu imediatamente.
— Esse é justamente o meu medo, o quanto a magia pode mudar uma pessoa. O quanto de Regina é Regina e o quanto é magia, pois dependemos das duas coisas nesse momento.
***
Diante do caixão do pai, Regina o acaricia e deposita uma rosa branca.
— Senti sua falta, daddy.
Uma das lembranças que mais doeram em Regina quando tomou a poção dias atrás, foi a do momento em que arrancou o coração do próprio pai. "Tenho que arrancar o coração da coisa que mais amo". Henry Mills sabia do que se tratava, de quem se tratava. A única pessoa que Regina amava era ele mesmo, e soube, naquele momento, que morreria pelas mãos da filha. "Sinto muito". Uma dor tão forte cresce no peito da rainha e as lágrimas lhe escapam os olhos em abundância.
— Quando eu estava prestes a tirar a sua vida, o senhor me disse que, juntos, poderíamos encontrar a felicidade. Eu a encontrei, daddy. Eu precisei perdê-lo e fazer tantas pessoas sofrerem, o que me arrependo, mas eu a encontrei. Queria que o senhor estivesse aqui comigo. Acho que ficaria orgulhoso de ver que ao invés de matar a pessoa que quebrou a maldição que tanto me custou, eu a amei.
Ainda com o choro escorrendo por seu rosto, Regina aparata-se para seu quarto na mansão. Os móveis estão empoeirados, o cômodo tem leve cheiro de mofo, mas não se importa com isso no momento. Tudo que precisa é de um banho quente que apague as marcas de lágrimas por seu rosto. Vai até o banheiro e evita olhar-se no espelho, enche a banheira e mergulha todo o corpo, inclusive a cabeça, mantendo-se submersa até o pulmão implorar por oxigênio. Após alguns minutos de choro compulsivo, adormece. Só acorda quando a água, agora fria, unida ao vento que entra pela janela, fazem seu corpo estremecer. Enrola-se na toalha e caminha de volta ao quarto, jogando-se na cama cobrindo-se com o edredom. Pega o celular de dentro da bolsa e disca o número de Emma.
— Regina? Tudo bem? — A voz da loira é preocupada, o que faz a morena sorrir.
— Oi, Swan. Eu ainda não fui atacada por nenhuma criatura maligna, se é isso que quer saber. Tudo bem aí?
— Por que você está triste? — Pela voz Emma reconhece que Regina esteve chorando.
— Fui visitar o túmulo do meu pai assim que cheguei. — Regina respira algumas vezes contendo as emoções. — Você não me respondeu se estão bem?
— Estamos sim. Eu acabei de chegar do trabalho e Henry está preparando uma salada de frutas para o rato.
— Cuide bem dos nossos filhos. — Regina brinca, mas o coração de Emma dispara com essas palavras. Para a loira significa que Regina, mesmo chegando em Storybrooke, ainda não desistiu deles, ainda os considera uma família. — Dê um beijo em Henry por mim, vou dormir um pouco e depois jantar com os dois idiotas.
— Fez amizade? — Emma tenta imitar o tom debochado que Regina tem.
— Nem em mil anos.
— O que é, mais ou menos, a idade que tem.
— Até mais, Swan. — Regina finge estar indignada, mas sorri quando encerra a ligação. Sabe que, provavelmente, sentirá saudades disso.
Antes que consiga pegar no sono, seu celular toca.
— Pensei que eu tivesse dito "até mais", Swan.
— E você disse, mas esqueceu da outra parte. — Emma tem a voz manhosa.
— Que parte? — Regina cora e abre um sorriso tímido, mas sente-se idiota, pois sequer está sendo observada pela loira.
— Aquela coisa que sempre falamos quando nos despedimos.
— Você não fará a Evil Queen dizer isso. — Regina está cada vez mais vermelha. Sente o rosto queimar e passa a mão por ele.
— Estou esperando, Regina. — Emma frisa o nome da morena e morde o lábio inferior em expectativa. Aquilo é o que precisa para não enlouquecer com o medo que sente da esposa não voltar ou descobrir que o que sente não é assim tão forte e que não vale a pena.
— Até mais, Swan!
***
Quando entra no Granny's e caminha até a mesa dos Charmings, Regina nota que os habitantes a encaram assustados, alguns com medo, cochichando sem se preocuparem com discrição, e sabe que isso logo chegará aos ouvidos de quem quer que tenha lançado a maldição, portanto, não tem muito tempo para agir, se quiser contar com o elemento surpresa.
— Esqueci como as pessoas daqui são fofoqueiras, teria sido melhor na minha casa ou na de vocês. — Regina senta-se de frente para o casal com cara de poucos amigos.
— O que você fez o dia todo? — Snow pergunta casualmente enquanto chama Ruby com um aceno.
— Visitei o túmulo do eu pai e depois... — Regina para ao perceber o que está fazendo. — Eu não te devo satisfação.
— Alguma coisa relacionada à maldição? — David pergunta em quase sussurro.
— Não. Vamos até a loja de Gold depois do jantar, quero falar com ele.
— Nós já falamos que ele também não se lembra do que aconteceu nesse último ano. — Snow respira alto, irritada com o descrédito que Regina lhe dá.
— Gold sempre sabe de alguma coisa. Vocês é que não souberam perguntar.
— Ora, ora! A rainha veio recuperar o trono? — Ruby brinca ao se aproximar da mesa pronta para anotar os pedidos.
— Sim! E quando isso acontecer, vou querer um tapete novo para o meu escritório, quem sabe um de lobo.
— Sempre na defensiva. — A garçonete resmunga. — Já querem pedir?
— O de sempre. — Os três respondem ao mesmo tempo.
— Não sei porquê me dou ao trabalho.
Quando a loba de afasta, Regina se pega refletindo sobre aquilo. De fato, está sempre na defensiva em Storybrooke, o que é totalmente diferente em NY. Na metrópole ela é simpática, disponível, aberta e tem mais facilidade para confiar nas pessoas. Enquanto na sua própria cidade, precisa manter-se atenta, pois a qualquer momento pode ser atacada, agredida ou xingada. Todos ali têm motivos para odiá-la, mas não pensou que fosse tão difícil voltar a lidar os olhares de repulsa. Sente uma súbita vontade de voltar para NY, para sua família, seus amigos e os desconhecidos simpáticos que sorriem, brincam e se juntam para uma noite de diversão.
— Eu consigo sentir uma energia muito pesada na cidade, quem quer que tenha lançado essa maldição, é uma pessoa muito poderosa. Mais do que eu imaginei. — Comenta já comendo a salada Tabule Tropical.
— Isso é um problema? — David preocupa-se.
— Claro que não. Não importa quanto poder essa pessoa contenha, eu irei destruí-la.
— Gosto dessa confiança. — Ruby senta-se ao lado de Regina, que a encara em choque.
— Quando foi que a plebe passou a jantar com a realeza? — O tom grave de Regina não a intimida.
— Eu quero ajudar.
— E como você poderia ser útil? — O tom de Regina fica cada vez mais debochado a cada palavra proferida.
— Não sei, Sra. Prefeita, mas eu sou uma loba, sou forte, rápida, tenho o melhor olfato da cidade. É claro que posso ser útil. — Ruby fala como se tudo fosse óbvio.
— Você sabe que a pessoa que fez isso poderia te matar com um estalar de dedos, não sabe?
— Suspeito que sim. Mas sei que você a pode matar da mesma maneira.
— Eu não teria tanta certeza disso. — A energia negra que cobre a cidade é mais poderosa do que a lançada por Regina 30 anos atrás. Isso não significa que quem lançou a maldição dessa vez é, necessariamente, mais forte que ela, mas há a possibilidade.
— Você é a bruxa mais poderosa que eu conheço. Nós vamos vencer. — Ruby lança um sorriso simpático para todos e sai da mesa.
— Você vai deixá-la fazer isso? — Snow não se preocupa em falar baixo, chamando a atenção de pessoas próximas.
— Se ela quer morrer, que morra. Eu não me preocupo de verdade.
***
— Eu sabia que você voltaria. — Gold fala, sem nem mesmo olhar para a porta, quando Regina a atravessa seguida por Snow e Charming.
— Ótimo, assim podemos pular a parte dos abraços surpresos e ir direto ao assunto. — Regina devolve o deboche.
— O que te faz pensar que eu tenho algo para lhe dizer que já não tenha dito aos Charmings?
— Você sabe que são dois idiotas e não confiaria nenhuma informação importante a eles, mas eu não sou, então é melhor colaborar. — Regina nota cortes cicatrizados no rosto do homem.
— Devo confessar que senti sua falta. — Rumple soa irônico, mas Snow e Charming enxergam uma sinceridade velada, confirmando o que pensaram dias atrás, quando Regina disse gostar da Beast. A conexão entre os dois é muito forte.
— Não estou para brincadeiras, Rumple. Você sabe quem fez isso? — Ao contrário do casal, Regina não captou qualquer resquício de verdade.
— Tenho minhas suspeitas. — Snow e David o encaram perplexos e traídos. — Desculpem, queridinhos, mas Regina tem razão. — Encara Regina nos olhos pela primeira vez. — Já ouviu falar em Oz?
— Acha que a Wicked Witch os amaldiçoou? Por que? — Isso não faz sentido para Regina, afinal, não se recorda da bruxa pisar alguma vez na Enchanted Florest. — O que aquele abacate ganharia com isso?
— Não sei.
— Gold...
— Não sei, Regina.
— Por que acha que é ela?
— Conheço sua magia e isso que estou sentindo, e sei que você também está, se assemelha ao que ela emana. — Cogita falar mais sobre o que sabe, mas perder a chance de ver a rainha descobrir a verdade por conta própria não lhe parece sedutor.
— Quão poderosa ela é?
— Mais do que você.
***
Após separar-se dos Charmings, Regina caminha pela cidade em direção a mansão. Seus pensamentos estão longe. Esteve confiante demais desde que soube de tudo, nunca cogitou que quem lhe tomou Storybrooke fosse mais forte, aliás, nunca cogitou que alguém, além de Rumpelstiltskin e Cora, pudesse vencê-la e, ainda assim, acredita que, em um possível combate, haveria uma pequena chance de destruir a mãe. Desiste de ir para casa e entra no Granny's debruçando-se no balcão.
— Uma dose da coisa mais forte que tiver, por gentileza.
— Por gentileza? — Ruby volta com um copo e uma garrafa, servindo-lhe a dose. — Acho que NY te mudou.
— Acho que sim. — Ruby está boquiaberta com o tom de voz e as respostas suaves de Regina.
— Você se casou? — A loba nota a aliança na mão da morena.
— Longa história. — Regina gira o anel no dedo e suspira. Deseja que Emma estivesse ali para dar-lhe apoio, para dizer que ninguém no mundo pode vencer a Evil Queen pois ela é a bruxa mais poderosa do mundo. Assim como fazia quando Regina abatia-se com o trabalho na editora. "Você é a melhor". — Mas não é da sua conta.
— Aí está a Regina que eu conheço.
— Por que vocês ficam dizendo isso? — Regina recorda-se de Emma falando-lhe a mesma coisa no dia anterior. Quem era essa Regina que todos conheceram? Ela nãos sabe dizer, pois nunca se viu má.
Regina bebe a dose e acena para Ruby pedindo por mais uma. Enquanto a loba serve, o celular da morena toca.
— Alô.
— Oi, mãe! — Henry responde no meio de uma risada.
— Oi, querido! Tudo bem? O que está acontecendo aí? — Ela não deixa de acompanhar o filho mesmo não sabendo do que se trata.
— Estou ligando para dizer que consegui o que parecia ser impossível.
— O que você conseguiu?
— Fazer Sonic andar na rodinha — Regina consegue ouvir os gritos animados de Emma ao fundo.
— O porco está se exercitando? Emma estava errada, ele não é meu filho. — Henry repete e resposta da morena para uma Emma curiosa e os dois riem.
— Vou desligar e te mandar uma foto.
— Okay, querido. Estou curiosa para ver isso. — Sorri mesmo sabendo que sua família não pode lhe ver. — Boa noite. Beijos nos meus três amores.
— Boa noite. Te amo, mãe!
Mal se encerra a ligação e Regina recebe a foto. Sonic está mesmo na rodinha, não tão empenhado quanto imaginou com a empolgação do filho, mas está caminhando. Henry e Emma posam um de cada lado, sorrindo amplamente. Emma aponta o animal com o indicador e Henry segura uma placa com os dizeres: Família Swan Mills. A rainha sorri bobamente depositando o celular no balcão para observar os detalhes da cena. Imagina a festa que estão fazendo e deseja profundamente estar ao lado deles nesse momento, para brincar, abraçar, cantar e dançar como sempre fazem em suas comemorações. Pela primeira vez teme estar tomando a decisão errada.
— Parece que encontrei o outro par da aliança. — Ruby, que havia se afastado durante a ligação, volta e põe-se a observar a foto. Regina se assusta e guarda o celular. — Toda aquela tensão era sexual e a gente com medo de vocês se matarem. Inacreditável. Por isso ela nunca correspondeu as cantadas de metade da cidade, estava de olho em um peixe maior.
O ciúmes faísca nas íris escuras de Regina. A morena bebe a segunda dose, atira uma nota no balcão e sai batendo a porta:
— Você está fora da Operação Clorofila.
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