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1 Tiro 02 - Assassinos sentem ciúmes?
Notas iniciais
Assassinos sentem ciúmes?
Em cima de um prédio condenado a um futuro desmoronamento eu olhava, bem satisfeito por sinal, as viaturas policiais cercarem alguns bandidos enrolados em teia. Sorri por debaixo da máscara pensando que talvez não existisse nada melhor do que um trabalho bem sucedido para encerrar o expediente de um dia longo. As viaturas já iam longe quando meu estômago roncou sonoramente, dando sinal de vida, lembrando-me de que não ingeria comida a mais de seis horas, desde que saíra da universidade.
Pegando a mochila que deixei guardada em um lugar seguro enquanto pulava fantasiado pelos telhados alheios, rumei a caminho de sua casa. Ser herói tinha certas vantagens e uma delas com certeza era poder me locomover pelas ruas, com tranquilidade, usando minhas teias sem que precisasse passar pelo engarrafamento absurdo da cidade que nunca dorme. Sério, o engarrafamento estava quilométrico. Era por essa razão que eu nem me importava muito em não possuir um carro ou uma moto. Os carros estavam se movendo numa velocidade tão ridícula que seria mais rápido ir andando. Felizmente não sou mimado como o Harry – nem tenho dinheiro também, mas enfim – aquele sim teria um troço se algum dia ficasse sem um carro caríssimo para usar.
Devia ser por volta da dez horas quando entrei silencioso pela porta da cozinha. Ouvindo o som de algum programa de tv aleatório segui em direção a sala e após constatar que minha tia cochilava na poltrona de frente pra televisão, sacudi-a devagar a fim de acorda-la.
— Oh, Peter. Parece que adormeci enquanto te esperava, querido. – tia May sorriu-me gentil, piscando os olhos sonolenta.
Já perdera a conta de quantas vezes eu tinha dito a ela que não precisava me esperar voltar, mas não importava o que dissesse ela continuava fazendo isso. Podia estar com todos os fios grisalhos, mas a teimosia continuava firme e forte como sempre.
— Não se preocupe, tia. A culpa é minha, cheguei muito tarde hoje. A senhora já jantou?
— Sim, mas venha que vou esquenta seu jantar. – levantou-se da poltrona e fez menção de que iria para a cozinha, porém eu me interpus em sua frente, impedindo-a de prosseguir.
— Sério, tia, não precisa. Pode deixar que eu me viro na cozinha. Se a senhora está cochilando nesse horário é por que está muito mais cansada do que eu.
— Bem, devo confessar que hoje o dia foi bem puxado no orfanato... – ponderou por um momento, mostrando-se realmente tentada a ceder. Há alguns meses ela resolvera ajudar a cuidar de umas crianças no orfanato do fim da rua e embora eu a tivesse a alertado sobre como crianças podiam ser terríveis, ela continuou indo. As vezes ela voltava reclamando de dor nas costas ou de estar bem cansada, mas isso não a impedia de voltar lá no dia seguinte. Talvez eu devesse sugerir as amigas dela que a chamassem para sair de férias ou passar pelo menos um fim de semana descansando. – Você promete não tocar fogo na minha cozinha?
Olhei pra ela desacreditado.
— Como assim, tia? Está achando que eu sou algum incendiário? – indaguei um pouco ofendido. Pelo tom dela parecia que eu era o desastre em pessoa. Por favor, né.
— Não me leve a mal, Peter, mas você na cozinha é um verdadeiro perigo. – falou colocando as mãos na cintura numa pose de censura.
Cruzei os braços.
— Também não é pra tanto, né. Foi só uma vez que o forno acabou quebrando quando eu tentava fazer a ceia de natal. A culpa nem foi minha!
— Claro que não, Peter. Foi um furacão que entrou na minha cozinha e deixou tudo de pernas para o ar. Até explica como o recheio do peru foi parar debaixo da geladeira ou como a torradeira pegou fogo por estar cheia de papel. Quer que eu liste mais coisas incríveis que você fez naquele dia?
Ok. Talvez eu tivesse amenizado o que aconteceu. Naquele natal a tia May estava no hospital sendo medicada após ter tido um desmaio na rua. Para fazer uma surpresinha a ela resolvi fazer a ceia para quando chegasse a mesa já estivesse pronta. Nem preciso dizer o quanto a minha ideia deu errado, não é? Por sorte Gwen apareceu nos convidando para cear na casa dela e pudermos comer coisas decentes. Embora a tia May quase tenha ido parar no hospital outra vez quando viu o estado da sua amada cozinha.
Ela riu baixinho ao perceber que eu não tinha como retrucar.
— Certo, acreditarei que você não poderá causar estragos ao só esquentar a comida. – riu mais um pouco, enquanto acariciava meus cabelos e depois beijou minha testa. – Irei subir agora. Boa noite, querido.
Observei ela subir as escadas soltando bocejos esporádicos e quando saiu do meu campo de visão fui para a cozinha soltando um longo suspiro. Após esquentar e comer o gigantesco pedaço de lasanha – às vezes eu achava que ela queria me ver obeso pra que eu precisasse rolar ao invés de andar – subi para meu quarto e a primeira coisa que fiz foi ligar o computador. Larguei a mochila ao pé da cama e após livrar-me dos tênis e meias, segui para o meu banheiro.
Antes, no entanto, de iniciar um banho quente e relaxante tratei logo de trancar bem a porta. Nunca se sabe quando um tarado pode invadir o banheiro ou tentar espionar os outros, não é? Assim como minha tia sempre diz: melhor prevenir do que remediar. Poucos minutos depois sai do banheiro já com meu pijama – que se tratava de um short e de uma camisa folgada – e passei direto para o computador para as minhas duas horas de estudo noturnas. Horas essas que foram bem proveitosas por sinal. Estava tudo tão pacífico que se melhorasse mais estragava.
Alonguei os braços e as costas sentindo aquela sensação agradável de quando se relaxa os músculos tensos e guardei os livros de volta na mochila. Apaguei a luz e praticamente deslizei para a cama, pronto para a minha boa madrugada de sono.
Exatos cinco minutos depois um pigarro ecoou na escuridão. Som este que ignorei com muito sucesso. Mais cinco minutos e desta vez uma tosse alta soou exigindo minha atenção, mas continuei confortavelmente debaixo do meu cobertor, quieto no meu lugar. Estava tão quentinho ali. No entanto quando estava começando a adormecer outra manifestação, dessa vez por meio de uma voz, interrompeu minha tranquilidade.
— Então... Vai mesmo me ignorar? Não vai nem perguntar o porquê de eu estar assim? — a voz soara ofendida. Era só o que me faltava...
Bufando acendi a luz do abajur e encarei feio o dono da voz. Do lado do vasinho de planta que ficava perto da janela estava Deadpool sentado de braços cruzados parecendo um enfeite de mau gosto dado por uma tia rancorosa. Desde que chegara eu tinha visto ele ali, não era como se um homem vestindo vermelho e preto pudesse passar despercebido por alguém, mas decidi fingir sua inexistência. E estava conseguindo fazer isso eximiamente antes que ele começasse a perturbar meu sono. Isso não se fazia!
— Eu sei o porquê de você estar assim e escolhi não me importar. — informei-lhe irritado.
Há semanas ele ficava me seguindo emburrado ou às vezes simplesmente ficava quieto no meu quarto de braços cruzados sem soltar uma palavra sequer. Sabe o quanto é estranho ver um famoso tagarela calado como um mudo? E tudo isso porque de alguma forma ele descobriu que eu iria a um encontro do meu grupo de amigos. Nem me dei ao trabalho de tentar compreender o motivo de sua raiva, apenas aproveitei seu voto de silêncio para pôr meus estudos em dia. E foi bastante recompensador, afinal.
Deadpool se levantou, ainda de braços cruzados, e parou na minha frente — agora eu estava sentado na lateral da cama.
— Então já que você sabe o porquê, sabe que não permitirei que vá nesse encontrinho aí. — gesticulou com uma mão, desdenhoso.
Ri falsamente.
— E quem você acha que é para me impedir de ver meus amigos?
— Eu sabia! Você só os vê como amigos, nem sabe o perigo que está passando! Não vou deixar outras pessoas colocarem a mão no que é meu. — falou apontando na minha cara. Tive vontade de entortar seu dedo pela ousadia.
— Olha, aqui — levantei para encara-lo nos olhos, embora ele estivesse usando máscara e fosse vários centímetros acima de mim. Detalhes, meros detalhes. — Pra começo de conversa nunca fui nada seu e nunca irei ser, entendeu? E eles são meus amigos mesmo. Nem venha distorcer isso. Além de que a Gwen esta namorando agora, por que raios ela colocaria a mão em mim?
E antes que eu pudesse prever Wade levantou a máscara e encostou seus lábios nos meus. Obviamente fiquei surpreso e quando me afastei um pouco para reclamar, ele aproveitou e meteu a língua dentro da minha boca antes que eu conseguisse formar alguma palavra. E, pelos deuses, como ele beijava bem. Apenas com a língua ele me fazia esquecer até de como falar.
E aproveitando minha pequena distração Wade me ergueu pelo quadril, fazendo com que eu o circundasse com as pernas automaticamente, e me prensou com maestria na parede mais próxima. Um gemido me escapou, enquanto minhas próprias mãos enlaçavam seu pescoço o puxando para aprofundar o beijo. As mãos fortes apertaram minha bunda ao mesmo tempo em que ele forçava uma fricção entre nossos membros, mesmo por cima da roupa, e eu não consegui evitar outro gemido vir entre nosso ósculo molhado.
O maldito tinha pegada, não podia negar.
Infelizmente me faltou fôlego para continuar aquele beijo faminto — a culpa não era minha se nunca havia encontrado alguém tão intenso assim — e com a respiração pesada o senti descer a boca para o meu pescoço e depositar ali um beijo e uma mordida digna de arrancar um pedaço meu. Isso foi o suficiente para me tirar do torpor que me encontrava e chuta-lo para longe de mim.
— O que raios pensa que está fazendo? — falei com meu melhor tom irritado, embora soubesse que minhas bochechas estavam quentes pelo que acontecera há pouco.
Ele ajeitou a máscara no rosto nem parecendo se importar com minha exaltação, mas mesmo assim dava para perceber que o desgraçado sorria largamente.
— Ora, não resisto a essa sua carinha irritada, baby boy. Era como se estivesse pedindo para ser beijado. — postou-se de pé como se nada tivesse acontecido. — E não adianta vir falar que não gostou, seu corpo é bem sincero para mim. — seu sorriso aumentou ao apontar para meu short. Depois complementou malicioso. – Aliás, você fica muito bem de shortinho.
Rosnei irritado. Não precisava olhar para saber do que ele estava falando, sabia muito bem que estava pra lá de animado nas partes baixas. Meu rosto agora devia estar mais vermelho do que nunca. Até ameacei ir em sua direção para esmurra-lo, mas prevendo minhas intenções Wade correu para o parapeito pronto pra ir embora. Entretanto, antes de sair ele virou a cabeça para mim.
— Eu não estava falando de Gwen e sim daquele seu amiguinho metido... Aquele tal de Harvey. Não gosto dele e aquele cabelo dele é ridículo! – falou parecendo uma criança recalcada.
Franzi o cenho.
— Harvey? Quem diabos é Har— Ah! Tá falando do Harry? Céus, de onde você tirou essa ideia absurda? Eu e ele somos como irmãos!
Deadpool deu um riso de escárnio.
— Então esse seu “irmão” aí está bastante interessado em um incesto com você... E lembre-se que eu te avisei. – fez o famoso gesto do “estou de olho em você” e pulou da janela antes que eu pudesse alcançar meu dispositivo de teia.
Argh. Como ele ousava manchar o meu relacionamento com Harry? Na próxima vez que Wade aparecesse ele ia se ver comigo.
oOo
Ajeitei os óculos sem grau no rosto – eram apenas para não me perguntarem como eu melhorara a visão, além de que eu me sentia um pouco com Clark Kent — e comecei a procurar a mesa onde estavam meus amigos. O lugar havia sido escolhido por Felicia por isso não fiquei nem um pouco surpreso ao saber que ela escolhera um dos cafés personalizados mais caros da cidade. Tudo para Harry pagar, é claro.
Se não me engano para poder conseguir uma mesa nesse café era preciso marcar com bastante antecedência pelo tanto que era requisitado pelas pessoas. Pra mim aquilo era um exagero, o lugar nem era tão especial assim. Alguns garotos e garotas serviam as mesas vestidos com cosplays bem variados e o ambiente era decorado com coisas temáticas do espaço tipo Star Wars. Estava tentando entender a roupa esquisita de um garoto quando ouvi um voz chamar meu nome. Virei o rosto na direção que imaginei ter vindo a voz e avistei Felicia, com os cabelos agora tingidos de branco, acenando alegre.
— Finalmente, hein Peter. Você foi o último a chegar. — notificou a garota de cabelos brancos. — Já deu tempo de experimentar três pratos!
A mesa era redonda de modo que a sequência nos assentos era: Felicia, Mary Jane, Gwen e Harry. A única cadeira ainda disponível estava entre Felicia e Harry e foi nela que me sentei.
— Desculpe pela demora pessoal. Tive que resolver umas coisas antes.
— Sem problema, Peter. — Gwen sorriu pra mim em um cumprimento habitual. — Sabemos que seu trabalho de meio período exige muito de você.
E exigia mesmo. Trabalhar para J. J. Jameson não era pra qualquer um, ainda mais quando tinha que receber tantas reclamações de fotos ótimas e depois ainda ver elas serem usadas para capas de jornais onde deixavam minha fama como Homem-aranha o pior possível. Se bem que na verdade eu tinha me atrasado porque precisei interferir num assalto a um banco no meio do caminho... Ossos do ofício.
— Na verdade você chegou bem a tempo da sessão"lembranças vergonhosas". — MJ deu lançou um sorriso maligno me fazendo ter sérias dúvidas sobre o que iria rolar ali. — Já contei a vocês que estudei o fundamental com Peter? Sabiam que ele tinha uma paixonite por mim e que ele devia ser a pessoa mais desastrada da escola inteira?
Ok. Agora eu sabia que aquela tarde não ia prestar.
— Ah, não. MJ você prometeu nunca mais falar sobre isso! — reclamei me sentindo injustiçado.
Gwen me olhou curiosa.
— Sério? Vamos, conta logo o que aconteceu!
— Essa eu também quero ouvir — a garota de cabelos brancos também me sorria divertida.
Engoli em seco e percebi, com certo assombro, que Felicia fazia pedido de mais uns quatro pratos diferentes do cardápio quando uma garçonete que mal se aproximara da nossa mesa. E eu tinha quase certeza que se fosse pra ela mesma pagar o que comia, não teria pedido nem metade dos pedidos que tinha feito. Às vezes eu sentia um pouco de pena por Harry. Sorte que ele era rico, não que isso justificasse a atitude dela, mas ele também não parecia se importar com isso.
— Se continuar a comer assim você vai engordar mais ainda, Feh. — comentou Harry em uma falsa inocência palpável. Todas as garotas da mesa viraram-se para ele com os olhos arregalados. Aquele era o assunto proibido das garotas.
No momento seguinte a confusão já estava instaurada. Felicia tentou pular no pescoço do Osborn para sufoca-lo pelo que ousara falar, enquanto Mary Jane a impedia de prosseguir segurando-a pela cintura com toda a força que seus braços permitiam. Gwen, por sua vez, falava palavras apaziguadoras para acalmar os ânimos dos amigos e Harry apenas arregalava os olhos atemorizados para a garota que rosnava selvagemente para si. Como uma garota passava de cordial para uma fera assassina em questão de segundos?
Já estávamos começando a chamar a atenção das mesas ao nosso redor quando o pedido de Felicia chegou e ela se acalmou quase de imediato, voltando toda a sua atenção para os doces que vieram. Respirei aliviado. Se o barraco tivesse ficado sério eu teria ido embora de fininho na primeira chance que tivesse.
— Vou te dar um conselho, Harry — MJ ajeitou a trança ruiva sobre o ombro e cruzou os braços. — Jamais, em hipótese alguma, fale isso para uma mulher, ok?
Ele revirou os olhos e eu apenas ri.
— Mas eu te perdoo, querido, pois sou uma pessoa bastante bondosa. — Felicia comentou depois de comer um pedaço de um bolo colorido como um arco-íris. — Mas você vai ter que pagar a taça gigante especial daqui pra todos nós tomarmos sorvete juntos.
Ele até abriu a boca para falar algo, mas acabou fechando achando melhor ficar calado. Melhor decisão mesmo.
— Deve ser por isso que você não arranja uma namorada, Harry. Sua sutileza com as garotas é incrível. — dei umas tapinhas no seu ombro de consolo amigo.
Harry deu de que ombros.
— Mulheres são muito problemáticas para mim. Desisti delas há muito tempo.
De repente Felicia deu um gritinho de felicidade e mirou Harry com os olhos cheios de uma expectativa suspeita.
— Então quer dizer que você mudou de lado? Curte garotos agora?
Harry deu um sorriso enigmático atraindo o olhar de todos na mesa.
— Quem sabe, não é? — falou deixando a pergunta pairando misteriosa no ar.
Eu não veria problema algum naquele comentário se não tivesse uma mão apertando minha coxa sugestivamente. Engoli em seco, surpreso e ao mesmo tempo aflito. Estava começando a acreditar na ideia louca de Wade... E se fosse mesmo verdade o que eu faria? De fato eu só via Harry como um amigo. Mirei fixamente a minha xícara de chá sem saber como reagir a mão que me apalpava.
— Peter, você está bem? Seu rosto está meio vermelho. – informou-me Gwen com as sobrancelhas claras arqueadas.
— Ah, é que eu—
Minha fala foi cortada pelo som de flash várias câmeras e pelo alvoroço de vozes na frente da porta do café atraindo a atenção dos clientes de dentro. Alguns repórteres circulavam alguém que devia ser bem famoso pelo modo compulsivo que tiravam foto e falavam ao mesmo tempo.
— O que esta acontecendo? – alguém de uma mesa próxima falou.
Para espanto de todos, subitamente, Tom Cruise transpassou a porta de entrada e colocando uma cadeira pra travar a porta temporariamente, pediu para que os garçons ajudassem a segurar a porta. Meio aturdidos eles foram fazer o que lhe foi pedido, nisso Tom aproveitou e começou a olhar ao redor como se procurasse alguém.
— Aquele é Tom Cruise? — murmurou a ruiva tão perplexa quanto o resto do grupo.
— Creio que sim. — respondi também murmurando.
E quando eu não achava que podia ficar mais estranho Tom virou-se na nossa direção e aproximou-se acenando sorridente. Ok. O que estava acontecendo?
— Boa tarde, queridos fãs. — peraí, eu reconheceria aquela voz em qualquer lugar! — Venho aqui para rouba-lhes este Petey de vocês.
Os olhares, então, se viraram para mim e todos pareciam extremamente confusos, com exceção de Gwen. A loira parecia ter certa noção do que estava havendo ali. Para minha sorte Harry ficara tão chocado com a aparição do suposto Tom Cruise que retirara a mão da minha coxa.
Percebendo que eles pareciam querer alguma resposta, eu consegui responder sabiamente:
— Err... É que... Hm. Meio que eu... Bem. Como posso explicar... — sério, eu devia parecer ter algum retardo.
Tom bateu o pé impaciente com minha enrolação e me puxou da cadeira falando um simples "até mais ver" para os meus amigos. Felizmente consegui segurar minha mochila a tempo antes dele sair me arrastando para a cozinha. Minha preciosa câmera estava ali dentro. Quando passamos pela porta giratória da cozinha várias cabeças protegidas com touquinhas se viraram para nos ver passar e ficaram muito surpresas ao reconhecer o homem alto de terno.
Ele estava andando tão rápido que acabei tropeçando no meu cadarço ao tentar acompanha-lo na velocidade, mas antes que meu reflexo entrasse em ação ele me segurou e colocou-me em seus braços. Não preciso nem descrever o quanto fiquei envergonhado ao perceber que estava na famosa posição de princesa, não é? Ainda pude ouvir murmurinhos antes que passássemos pela saída dos fundos.
— Ponha-me no chão, seu idiota! — exigi quando já nos encontrávamos no beco vazio.
Ele riu.
— É só comigo ou você fica vermelho com qualquer um? Se for só comigo ficarei um pouco convencido...
— O que diabos você faz aqui, Wade? E o que é essa aparência?! — indaguei, ignorando sua pergunta anterior.
— Ah, isso? — ele apontou para o rosto. — É só um indutor de imagem...
E para provar o que estava falando ele clicou no relógio de pulso que usava, começando a alternar sua aparência entre diversos rostos avulsos. Minha cabeça girou.
— Céus, desligue isso. Está começando a me dar dor de cabeça. — retirei os óculos do rosto e massageei os olhos.
Quase agradeci quando pude ver a máscara vermelha e preta tão familiar que ele usava. Não que fosse um familiar bom, na verdade era uma familiaridade forçada pela insistência com a qual ele me visitava. Revirei os olhos e cutuquei seu peito.
— Precisamos conversar, Deadpool. — só foi eu terminar de falar e ouvimos as vozes dos repórteres a procura de Tom Cruise se aproximando de onde estávamos. Provavelmente perceberam que esperar por ele na porta de entrada não daria em nada e vieram averiguar a única outra saída do lugar. — Mas não aqui. Vamos sair daqui, precisamos de um lugar particular para conversar.
Wade sorriu por debaixo da máscara.
— Sei o lugar perfeito para isso. — ele disse e me puxou para perto de si, apertando um botão em seu cinto com a mão livre.
Ia perguntar sobre o que ele estava falando quando tudo na minha vista turvou-se e eu apaguei.
oOo
Pisquei os olhos sentindo-me um pouco tonto por algum motivo desconhecido e olhei ao redor não reconhecendo nada do ambiente onde estava. Lembrava de Deadpool ter apertado um botão em seu cinto, mas não entendi muito bem o que aconteceu depois e agora eu estava sozinho num quarto estranho. E bem desorganizado por sinal. Estava tentando entender o que era o desenho de um quadro bizarro na parede quando a porta se abriu e Deadpool apareceu usando pantufas, segurando uma latinha de Coca-cola numa mão e parte da máscara levantada para poder beber seu conteúdo.
— Finalmente acordou, hein. Está se sentindo um pouco tonto? Sempre se fica assim no primeiro teleporte.
Algo na minha mente parou. Como assim ele tinha um teleportador no cinto? De onde ele tirava tanta tecnologia? E meu sexto sentido dizia que não era de um jeito legal.
— Espere aí, teleporte? E que lugar terrível é esse?
Wade assentiu indo sentar-se num sofá verde que tinha ali. Depois chamou-me com o dedo, indicando que eu me aproxima-se dele. Eu até me aproximei, mas fiz isso com cautela e mantive uns bons centímetros de distância por precaução.
— Você queria um lugar pra conversar em paz então nos teleportei pra minha casa. Sendo mais específico, para o meu quarto. — deu de ombros, despreocupado. — E então sobre o que quer conversar?
Coloquei as mãos na cintura, decidindo por qual tópico começar a reclamar.
— Primeiro: Porque você apareceu usando a imagem de Tom Cruise?
Ele estalou com os dedos.
— Essa é fácil. Eu precisava de um disfarce pra poder entrar.
Bati na minha própria testa. Como alguém podia ser tão imprudente assim?
— E tinha que ser logo de alguém famoso? Não podia ser um rosto comum de alguém na rua?
Wade tomou um longo gole de sua bebida antes de responder.
— Queria chocar um pouco os seus amigos.
Tive uma forte vontade de esmurra-lo, por pouco não me descontrolei.
— E porque tinha tanto alvoroço na entrada do café? — perguntei, massageando uma têmpora. Calma Peter, ele não é merecedor de seu descontrole...
— Ah, é que dei uma pequena entrevista antes de entrar. Os repórteres apareceram do nada. Foi algo bem sinistro.
Estreitei os olhos, não conseguindo imaginar o que ele poderia ter falado aos repórteres. Só podia torcer para que não fosse tão calamitoso, mas vindo dele tudo se podia esperar.
— Agora chegaremos ao tópico principal. — respirei fundo e depois franzi o cenho, mostrando minha irritação para com ele. — O que você pensou que estava fazendo ao interromper a reunião do meu grupo de amigos?! — sibilei, em um tom de censura.
Entretanto, ao invés dele tentar se justificar ou ao menos responder, ele jogou a latinha vazia para trás e me puxou para seu colo, já me beijando sem nem me dar tempo para raciocinar sobre o que estava acontecendo. Deslizou a língua hábil por cada lugarzinho da minha boca – para delírio meu — e depois deu um beijo estalado nos meus lábios. Minhas bochechas ficaram quentes tão logo nossas bocas se separaram e tive que encara-lo.
— A sua carinha irritada só não é melhor que a sua corada, Petey. — ele sorriu e apertou minha bunda com vontade sem a menor cerimônia. Aparentemente ele tinha uma certa tara por ela. Cerrei os lábios a fim de conter o gemido involuntário que me veio em resposta. Corpo traíra! — Mas quando é que as reclamações vão acabar e você vai me agradecer por ter te salvado do seu "irmãozinho"? Tem que admitir que no final eu estava certo — sorriu presunçoso.
Desviei o olhar e tive certeza de que estava mais vermelho ainda. Mas como eu iria adivinhar que meu melhor amigo tentaria me assediar? E confesso que fiquei até um pouco aliviado quando percebi que era Wade quem aparecera lá. Tomaria mais cuidado com Harry a partir de agora.
— Ainda bem que resolvi entrar quando ele falou que tinha desistido das mulheres... Desde a primeira vez que vi ele sabia que tinha interesse em você, nunca me enganou — continuava a tagarelar distraidamente, enquanto me apalpava com gosto.
Algo em minha mente estalou e eu olhei pra ele com os olhos estreitos.
— Como é que você sabe que ele falou isso? — Wade engoliu em seco parecendo culpado o suficiente para mim. — Não acredito nisso, Wade! Você botou escutas em mim?!
— E uma câmera também. Vi até a mão boba passeando na sua coxa. Você devia ter batido nele.
Olhei pra ele boquiaberto. Como ele conseguia admitir tudo assim na cara dura? Saltei do seu colo — aliás, porque eu ainda estava ali mesmo? — e peguei os dispositivos de teia que estavam dentro da minha mochila.
— Isso já está passando dos limites, Wade. Isso invade completamente a minha privacidade! — reclamei, enquanto ajeitava a minha máscara de Spider no rosto e guardava a minhas roupas comuns na mochila. O bom de sua roupa de herói ser um collant é que dava para usar debaixo de qualquer roupa e ir pra qualquer lugar sem maiores problemas. Depois fui até a única janela que tinha ali e botei um pé no peitoril. — Pare de invadir o meu espaço senão serei obrigado a tomar medidas drásticas. E isso quer dizer que quem vai se dar mal é você, Deadpool.
Agora ele estava de joelhos sobre o sofá, com os braços apoiados nas costas do móvel, me observando ir embora sem fazer o drama corriqueiro que costumava fazer. Achei meio suspeito, mas preferi ignorar.
— Oh, adoro quando me faz ameaças! Fiquei até duro depois dessa. — riu malicioso.
Olhei pra ele, incrédulo. Sério que ele conseguia distorcer até uma ameaça para alguma espécie de fetiche? Deadpool era mesmo alguém único, não que isso fosse bom.
— Argh! Não me procure nunca mais, seu despudorado!
— Na verdade acho que é você que vai me procurar antes do que imagina... Ah, e essa roupa realmente fica bem em você. Dá uma ênfase perfeita na sua bunda. — falou fingindo que suas mãos eram uma câmera fotográfica e que tirava fotos de mim. Ou mais especificamente, da minha bunda.
Ignorei sua provocação, embora soubesse que estava bem corado por baixo da máscara, e pulei da janela querendo chegar logo em casa para poder esquecer tudo aquilo. Fui pulando de teto em teto, tentando reconhecer o bairro em que estava quando percebi que não conhecia nada ali. Olhei ao longe procurando algum ponto de referência, mas também nada encontrei de útil. Dei umas voltas, me sentindo perdido, e quando percebi estava na entrada de um parque florestal. Meio sem alternativas me vi obrigado a usar o modo clássico de buscar informações.
— Err... Com licença, senhora, mas poderia me informar onde estamos? — perguntei a uma senhora cega que passeava perto das árvores com um cachorro que usava um colar elizabetano (aquele famoso cone de plástico) ao redor do pescoço. Como ela era cega, nem ao menos se assustou por ter um cara fantasiado pedindo informações no meio da tarde.
Bufou parecendo insatisfeita e quase pude ouvir ela me chamando de turista em seus pensamentos.
— Esse é o Golden Gate Park. – falou sem o menor tom de cordialidade na voz.
Fiquei boquiaberto.
— E-espere aí... Esse parque é em...
— Sim, San Francisco. Se você foi sequestrado e vendido como um escravo, melhor procurar a polícia. Agora se me dá licença, tenho que levar esse saco de pulgas pra ir mijar em algum lugar sem que seja meus pés. – a senhora falou e continuou seu caminho com o cachorro de cor marrom.
Observei a senhora se afastar lentamente, um pouco aturdido. Quando Wade falou que tinha nos teleportado eu não imaginava que tinha sido para um lugar tão longe de Nova York! Então era disso que ele estava falando quando disse que eu voltaria antes do que imaginava. Claro que iria ter que voltar, estava a vários de quilômetros de casa! Grunhi. Não queria vê-lo tão cedo, mas pelo visto não tinha outra opção.
Insatisfeito, iniciei meu trajeto de volta. Já podia até ver o sorrisinho zombeteiro que ele com certeza daria... Droga.
oOo
A noite, já devidamente alimentado e tomado banho, sentei no sofá da sala para fazer companhia a tia May. A televisão estava ligada no canal de notícias e nela via-se um homem falando sobre o assalto que eu impedira mais cedo naquele dia. Como fiquei com sede dei uma passada rapidinha na cozinha a fim de pegar uma garrafa d’agua e quando voltei pra sala vi que quem falava agora era uma repórter loira alvoroçada.
Arqueei as sobrancelhas enquanto via a câmera mostrar uma multidão agitada na frente de um grande portão que ao que parecia era da mansão de algum famoso.
“Estamos aqui esperando que o famoso ator hollywoodiano, Tom Cruise, dê uma explicação quanto a declaração dada mais cedo em Nova York. Segundo testemunhas no local, Tom afirmou que doaria metade de toda a sua fortuna para ONGs que lutam pelas causas e direitos LGBT. Alguns consideram uma possível instabilidade mental no ator, enquanto outros acham que essa é a deixa para ele se assumir diante a mídia. A fim de sanar as dúvidas sobre isso repórteres e ativistas de todo o globo se reuniram aqui em frente a mansão principal de um dos atores mais ricos do mundo para perguntar o motivo de tal decisão. No entanto, o assessor pessoal de Tom Cruise nos informou que ele não daria nenhuma entrevista, pois nada disso seria verdade já que o ator nem ao menos estivera em Nova York nas ultimas 24 horas. Agora com mais dúvidas do que respostas esperamos alguma manifestação por parte do...”
Cuspi toda a água que eu tinha botado na boca. Então foi isso o que o Wade tinha falado na frente do café? Olhei abismado para a tela da Tv. Será que ele nunca pensava nas consequências do que fazia?!
— Você está bem, Peter? – tia May me olhava preocupada.
— Ah, sim, estou bem. A água só estava gelada demais... – tranquilizei-a, voltando minha atenção para a tela onde mostrava as pessoas montando acampamento ao redor do portão.
Uma coisa eu podia concluir de tudo isso. Nada que envolvesse Deadpool podia ser normal ou acabar bem.
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