Todos Iguais

64 Rafael e Pedro


Notas iniciais
Vocês têm noção de quantas páginas mais ou menos você já leram até agora se a fic fosse um livro de verdade? Quase quinhentas páginas! É muita coisa, gente. Parabéns! E obrigada por continuarem aqui, me acompanhando. Isso é tão maravilhoso! Obrigada, de coração.

Tivemos dias bem agitados ultimamente. Bom, pelo menos a maioria deles. E com todas as festas de fim de ano, as intrigas entre o grupo, a volta e o surgimento de alguns casais, a adaptação da Gabi ao mundo real, os momentos em família e as longas horas dormidas que só as férias proporcionam... Digamos que eu e o Pedro não tivemos muitas oportunidades para nos entendermos.

Ainda continuávamos sem nos falar direito. E ele parecia não sentir a mínima falta de mim e isso me incomodava muito. Porque todos os dias, sempre que eu acordava bem disposto a aproveitar melhor meu tempo livre eu desejava poder encontra-lo a minha procura, para que fôssemos jogar bola por aí, ou beber, conversar, jogar videogame. Esse tipo de coisas que fazíamos quando nossa amizade era estável.

O maior problema é que o Pedro, mesmo eu ainda o considerando meu melhor amigo apesar de tudo, se tornou aquele cara chato que não sabe conciliar o namoro com o resto de sua vida. Agora ele vive como se só existisse ele e a Maria Eduarda no planeta. Sem contar que as poucas vezes em que eles se juntam a nós, mesmo sem serem necessariamente convidados, os dois não se desgrudam. Nunca!

Se eu não gostava nenhum pouquinho dela antes por ela ter tentando inúmeras vezes arruinar a minha vida por pura birra de uma patricinha mimada, agora é que eu de fato a detesto por ter conseguido passar por cima de mim e ter levado uma das poucas coisas que eu de fato valorizo na vida: que é a amizade que eu tenho com o Pedro. Amizade de anos.

Tudo bem que ela possa ter realmente mudado. Algumas mudanças na Maria Eduarda são visíveis. Pelo menos quando ela está ao lado do Pedro, que é... Sempre. Ela não é mais tão nojenta, antipática, fofoqueira, enjoada, mimada ou metida. Mas não sei por que, agora mais do que antes, eu sinto um medro tremendo dela se rebelar novamente, assim, de uma hora para outra, quando todos estiverem vulneráveis e totalmente em suas mãos. Quando ela tiver provas o bastante para acabar com todos nós em um estalar de dedos.

Ser boazinha é uma coisa que definitivamente não combina com ela. Se tratando da Maria Eduarda e como ela já foi há pouco tempo atrás, a gente sempre precisa ficar com um pé atrás.

E sim, eu já aceitei que eles se amam e todo esse mimimi de adolescente apaixonado. Não é como se eu quisesse que ela se tornasse uma das minhas melhores amigas só porque ela é namorada do meu melhor amigo. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa (sério Rafael?). Tudo que eu queria mesmo era ter o meu amigo de volta, por pelo menos duas horinhas por dia sem que ela ficasse todo o tempo em cima, atenta a tudo que fazemos.

Eu até gosto do Felipe e de todas as meninas do grupo. Gosto de estar entre eles e fazer parte do grupo. Ou melhor, da equipe. O Felipe continua sendo o cara mais inteligente que eu conheço, sensato, observador e coerente. Mas o Pedro... O Pedro eu conheço há anos. Ele sabe tudo sobre mim, entende as minhas brincadeiras, ri das minhas piadas ridículas, está ao meu lado sempre mesmo eu sendo um babaca completo, me apoia nas dificuldades, entende meu jeito... Ele é simplesmente... O melhor.

Não tem como abrir mão disso.

Não tem como não sentir falta disso.

E foi por isso que eu resolvi deixar todo meu orgulho de lado e ir procura-lo, onde quer que ele esteja.

Porque eu sei que pela nossa amizade, que é cem por cento verdadeira, vale a pena lutar. Independente das circunstancias que nos separou.

Quando chego até sua casa aquela manhã, seu pai que está tomando café da manhã com a Gabi, diz que o Pedro não dormiu em casa noite passada. O que só poderia significar que ele estava com a... Maria Eduarda. Suspirei. Aproveitei e perguntei se eles tinham o endereço dela. Sim, para minha sorte eles tinham e me passaram tudo certinho. Eu anotei.

Bati na porta do apartamento com certa cautela. Receoso com o que veria quando ela fosse aberta. Torci para que o Pedro a abrisse e não a Maria Eduarda. Pois aquilo não se tratava dela e sim de nós dois.

— Ah – ela fez ar de surpresa quando abriu a porta segundos depois e me viu parado ali com cara de bunda. — oi, Rafael. Entra.

Eu entrei, calado.

— Pedro! – ela gritou em direção ao que eu deduzi que só poderia ser o acesso para os quartos. A área mais íntima. — É o Rafa.

Pedro surgiu segundos depois.

Ele me olhou surpreso, mas também não disse nada.

— Fica a vontade, Rafael. – Maria Eduarda rompeu o silencio. — Eu vou dar uma ajeitadinha nas minhas coisas e deixa-los mais a vontade.

Sim, seria o melhor que ela poderia fazer. Mas confesso que sua gentileza e educação me assustaram um pouco. Por essa eu não esperava.

— Senta aí. – Pedro pediu, sentando-se em uma poltrona.

Sentei-me no sofá, nem perto e nem longe dele.

— E aí, tudo beleza? – ele perguntou, sorrindo um pouco. E pela primeira vez eu respirei tranquilamente, aliviado. Sem perceber que estava prendendo a respiração por tanto tempo, como uma menininha assustada.

— Sim, tá tudo certo. Bom, pelo menos comigo sim. – digo, também sorrindo. Sentindo-me e aliviado. E também orgulhoso por ter tido coragem o suficiente para estar ali. — Mas e você?

— Tô bem. – ele respondeu, imediatamente. — Feliz por você está aqui. Estava começando a sentir... Deixa pra lá! Se eu disser isso você vai achar que eu sou uma menininha que muito provavelmente tem uma paixão secreta por você. Mas não é nada disso... Eu só... É que eu...

Ele se perdeu nas próprias palavras.

Era exatamente como eu me sentia.

— Eu sei. Pra ser sincero eu gostaria de poder dizer o mesmo. Mas não sei se consigo. E também não quero tornar isso mais constrangedor do que já está. – rimos ao mesmo tempo. — Vamos esquecer tudo isso, ta? Afinal, como eu diria em qualquer outra situação: não somos menininhas. Já passou. Esquece. Vamos apenas voltar a sermos amigos.

— Você tem razão. Não tem o quê conversar sobre isso. Eu e você já sabendo aonde isso vai dá. Está tudo certo. Passou. – ele continuou sorrindo. — Mas só pra constar, não tem porque voltarmos a sermos amigos, se nós nunca deixamos de ser.

***

E era assim que nós dois conversávamos, era assim que nos entendíamos e nos acertávamos. Sem mais delongas. Tudo muito direto e reto. Sem chororô, sem sofrimento, sem nos aprofundar muito. Até porque já tínhamos uma noção do que se passava na cabeça um do outro. Foi só uma crise entre amigos. Que amigos não passam por isso pelo menos uma vez? Nada e ninguém é perfeito. Algumas coisas acontecem.

Não é porque somos melhores amigos que temos que aceitar tudo um do outro. Se ele não gosta da minha namorada, o que eu posso fazer? Terminar com ela por isso? Brigar com ele por isso? Não. Nenhuma das opções! Apenas tentar, quem sabe no melhor momento, reverter essa situação, mas sem precisar perder nenhum dos dois.

Às vezes, na vida, a gente só precisa se adaptar a certas coisas.

Admito ter ficado bastante ocupado com a Duda ultimamente, como se nada mais importasse. Admito também ter errado nesse ponto. Ter deixado isso fazer eu me afastar do meu melhor amigo, correndo o risco até de arruinar de vez a nossa amizade, que pra mim era muito preciosa e significativa. Admito ter agido feito um animal, tão egoísta.

E só agora com a visita do Rafael foi que eu me dei conta da gravidade da situação. Pensei que, se não fosse por ele... Talvez eu nem tivesse lembrado que estávamos brigados e que no mínimo deveria ter feito algo para mudar isso. Mas eu não fiz. Eu não me importei. Nem se quer cheguei a sentir falta, por estar com a cabeça nas nuvens por outras coisas.

E pela primeira vez me dei conta do mau amigo que eu sou.

Depois que o Rafael foi embora mesmo eu tendo insistido para ele ficar mais um pouco – ele estava visivelmente desconfortável e preferiu ir de vez – eu fui até o quarto da Duda, onde ela estava estirada em sua cama, mexendo em seu tablet, muito provavelmente vendo alguma coisa sobre vestibulares, que era o que ela mais fazia ultimamente.

Sentei-me próximo a ela.

— Podemos conversar?

— Sim, claro.

Ela se senta, deixando o tablet de lado.

— É sobre nós, sobre meus amigos, o meu tempo, o seu tempo e algumas coisas que parecem estar muito erradas. Sei que já tentamos isso antes, mas não parece ter funcionado muito bem.

Ela arqueou a sobrancelha, levemente confusa.

— É maravilhoso estar com você, passar meu tempo com você, dividir minhas coisas com você, mas de repente, eu me dei conta que estou muito preso nesse mundinho, no seu mundinho, no nosso mundinho e que a vida não é só isso. – falo rapidamente, quase sem respirar.

Duda continua a me olhar, atenta.

— Pensa só, daqui um mês mais ou menos, você entrará na universidade e eu continuarei no colégio, continuaremos juntos, só que em caminhos diferentes, vivendo vidas diferentes e tem meus amigos e a minha vida, que eu tenho deixado muito de lado para aproveitar cada minuto com você. Não que te culpo, claro. As escolhas também são minhas. Mas você não acha que estamos exagerando um pouco? Você não acha que deveríamos dividir e administrar melhor esse relacionamento?

— Você está sugerindo que nós...?

— Não! Não é nada disso que você está pensando. – pego uma de suas mãos e aperto. — Eu quero você, Duda. Disso eu sei. O que eu não sei é o que eu e você podemos perder enquanto estamos aqui, isolados, vivendo em nossa bolha cor-de-rosa. Claro que não estou dizendo que as coisas mudarão entre nós. Bom, pelo menos só em parte, sabe? Sem precisarmos nos ver todo dia, ou estarmos juntos todo o tempo, grudados e perdendo tudo que se passa no mundo exterior.

Ela sorriu.

— Eu entendo aonde você quer chegar, Pedro. Você quer espaço, não é isso? E tempo para ficar com a sua família, seus amigos, aproveitar sua vida, mas sem que eu esteja ali, sempre. E que eu também tenha tempo e espaço e continue fazendo o que gosto e estando com as pessoas que eu gosto. Como antes, só que agora como um casal. Mas um casal que são duas pessoas diferentes e não um casal que sejamos dois em um só.

— Não... Você não está entendendo. Eu não quero que...

— Você que não está entendendo, meu amor. – ela soltou um risinho, apertando minha mão de volta. — Eu entendo, Pedro. Entendo perfeitamente aonde você quer chegar. Você não está sugerindo que gente acabe com tudo, você só está sugerindo que estejamos juntos, só que vivendo cada um a sua vida da forma que achar melhor.

— É! É basicamente isso. – eu ri também, um pouco nervoso. — Eu sei que é confuso, sei que parece complicado. Mas sei também que somos capazes de melhorar isso. Mas e você, o que você acha de tudo isso?

— Eu acho... Confuso. Mas também acho que será o melhor. Sei que não é legal ser um daqueles casais que só vivem um pelo outro. Afinal, pensa só se algum dia isso não der certo? Sim, Deus me livre! Não posso nem suportar pensar nisso. Mas não dá pra não pensar nisso. E aí, como será? Vamos nos separar, cada um para um lado, sem amigos, sem vida, sem laços, sem historia e tudo isso só porque passamos muito tempo focados apenas um no outro.

Inclinei-me para beijar sua testa carinhosamente.

— Que bom que você entendeu. Por um momento achei que nunca saberia explicar o que de fato eu gostaria de poder te dizer. Mas mesmo que eu não tenha conseguindo cem por cento, sei que você entendeu tudo direitinho. E foi totalmente compreensiva. E é por isso que eu te amo mais, cada vez mais.

Duda puxou-me para um beijo mais intenso e apaixonado.

Ficamos assim por alguns minutos.

Até que uma ideia brotou na minha mente.

— Já que estamos falando nisso... Eu vou ligar para o Rafa e combinar pra gente sair hoje, ta? Só nós dois. Como há muito tempo não fazemos.

— Sem problemas. – ela sorriu, acariciando os cabelos da minha nuca. Deixando-me totalmente relaxado. — Também vou ligar pra Tati e quem sabe até para a Bianca e combinar da gente fazer uma festa no pijama aqui hoje a noite.

***

Era fácil encontrar uma boa festa para se ir, mesmo no meio da semana, nas férias. Eu tinha muitos contatos e eles sempre que podiam me mantinham muito bem atualizado.

Quando o Pedro me ligou no meio da tarde sugerindo que nós saíssemos para fazer alguma coisa, eu rapidamente liguei o computador e procurei freneticamente no Facebook uma boa festa para a gente ir.

Só para não perder o costume quando chegamos a festa, eu comecei a beber tanto quanto bebi na virada de ano-novo na Paulista. Não me lembro de muito daquela noite, lembro-me das melhores partes: ter ficado com a Gabi mesmo depois de ter ficado com várias, porque ela sempre teria um significa especial pra mim e lembro-me também te der sido arrastado de volta para casa durante a madrugada por meus amigos.

O que seria de mim sem eles?

Pedro e eu ficamos mais isolados na festa, mesmo tendo em volta milhares de conhecidos lá do colégio. Estávamos aproveitando a companhia um do outro, já que fazia um bom tempo que não saia só nós dois. Enquanto eu azarava algumas gatinhas, ele me contou da conversa que tinha tido com a Maria Eduarda. E mesmo não sendo nada da minha conta, eu dei ouvidos a ele. Afinal, era para isso que os amigos serviam.

Circulamos um pouco pelo bar, só para conferir o movimento. Foi quando uma ruiva muito gostosa puxou o Pedro pelo braço e praticamente se jogou sobre ele em seguida. Ela estava muito bêbada. Muito mais que eu, sem duvidas alguma. Se bem que a festa nem tinha terminado ainda. Enfim, a garota insistiu muito e implorou para ficar com ele, porque ela se dizia estar muito carente e se sentindo muito solitária.

Achei que eu poderia dar um trato nela.

Mas ela não estava nem um pouco interessada em mim.

Enquanto o Pedro tentava acalmá-la e tirá-la educadamente de perto dele, explicando que tinha namorada e que era um cara sério, sabe, daquele jeito dele, eu me acabava de tanto rir tentando equilibrar minha garrafa de cerveja na mão ao mesmo tempo.

Só depois de um bom tempo foi que ele enfim conseguiu se livrar dela, quando uma amiga dela sentiu pena do vexame que ela estava dando e levou para bem longe antes que ela saísse vomitando em todo mundo. Eu ainda ria, piscando para algumas garotas que passavam por ali com seus vestidinhos curtos e justos.

Não tinha ficado com nenhuma garota até agora, mas estava começando a achar que estava na hora de agir.

— Vai com calma, amigão. – Pedro disse, colocando a mão no meu ombro por um momento. — Você também não está muito legal.

— É claro que eu tô. – digo, sorrindo. Depois viro garganta a baixo o resto da minha cerveja. — Relaxa, Pedro. Eu sou o cara.

Tropecei em alguma coisa, quase fui parar no chão. Mas o Pedro que estava ali, atento a tudo, me segurou rapidamente.

Algumas garotas que estavam por ali riram de mim, eu fiquei sem graça. Nem sei por que, já deveria estar acostumado as minhas cagadas. E de repente percebi que as minhas chances de ficar com algumas delas já tinha ido por água a baixo.

— Vamos cara, por hoje chega. – Pedro me pegou pelo braço, como se eu fosse uma criancinha e me arrastou para a rua.

Eu tinha tido um dia bom, pelo menos até agora. Até eu me sentir muito impotente.

O que eu era, afinal? Nada. Apenas mais um garoto qualquer louco por uma festa, louco por garotas e cerveja.

Que tipo de futuro eu teria?

Que tipo de garota me levaria a sério se nem mesmo eu me levava?

E por que diabos eu estou pensando nessas coisas justamente agora? Quando na verdade eu deveria estar aproveitando essa noite ao lado do meu amigo. Talvez tivesse sido melhor termos ficado em casa mesmo, comprado cerveja e pedido pizza, jogado videogame enquanto ouvíamos musica.

Pena centésima vez naquele dia, mesmo quando meu melhor amigo praticamente me carregava até em casa, a imagem da Gabi me veio a mente. O sorriso dela. O cabelo. O corpinho magro. Aqueles olhos. As mãos. Tudo que contém nela.

E as lagrimas vieram rapidamente. Minha visão ficou turva.

— Droga! – eu parei, assustando meu amigo. Abaixei o rosto, envergonhado. — Eu sou um lixo!

— Ah, qual é, Rafael? – Pedro soltou um risinho fraco. — Vai começar com isso outra vez? Para com isso, amigão! Você não é nada dis...

— Eu sou! – berrei, sentando-me na calçada suja. Enterrei meu rosto molhado entre as mãos. — Eu sou um imprestável! Olha só pra mim. – quando olhei para ele, vi que o Pedro estava assustado comigo. — E sabe o que é pior? Eu acho que estou me apaixonando pela sua irmã.

O simples fato do Pedro não dizer nada a respeito, me fez chorar ainda mais feito um bebezão.

E olha que estávamos no meio da rua.

— Mas é obvio que eu não sou o melhor para ela e nunca serei. – digo, em meio as lagrimas. Bêbado e desolado. A combinação perfeita. — Eu não quero sentir essas coisas! Mas não consigo evitar. Eu me odeio muito por isso.

Pedro enfim senta-se ao meu lado, calmo.

— O que eu faço? — voltei-me para ele, tentando limpar as lágrimas com o dorso da mão. — Como faço para não sentir tudo isso? Eu não quero sentir! Eu não devo sentir. Não é certo...

— Eu lamento, Rafa. – Pedro toca meu braço que estava parado, apoiado sobre o joelho. — Mas não tem um botão pra parar com isso.

***

Eu sabia! Sabia que isso poderia acontecer. Eu só não queria ver, não queria acreditar, não queria pensar que isso pudesse acontecer. Eu preferia me enganar, preferia me iludir.

Eu gostava muito do Rafael, mesmo ele sendo um problema na maior parte do tempo. Eu sempre soube que eu era como um apoio para ele. E ele era o que fazia da minha vida algo mais agitado, animado e alegre. Não éramos perfeitos, éramos apenas bons amigos. Amigos que se completavam de alguma forma.

Sempre soube que ele jamais seria bom o bastante para uma garota, seja lá ela quem fosse. Muito menos para a minha irmã. Minha irmãzinha! A quem tanto amo e quero proteger. Porque, bem, ele não era o tipo de garoto que eu imaginava que algum dia iria querer algo sério com alguém.

Mas parece que eu nem sempre estou certo sobre tudo. Não dá pra prever as coisas. Saber sobre tudo. Desejar e obter tudo que se quer e muito menos subestimar algo e alguém. Até porque, ninguém é de ferro. Até mesmo um Rafael da vida tem sentimentos, sentimentos que se aprofundam, se intensificam.

E minha irmã é maravilhosa, do jeito dela, mas é. Qualquer um seria capaz de se apaixonar por ela, mesmo ela sendo doidinha. Eu nunca pensei muito sobre essas coisas, mas por medo do qualquer outra coisa, mas sabia que algum dia esse momento chegaria. Quando eu me depararia com o momento em que minha irmã está crescendo e se tornando uma mulher admirável, em todos os sentidos.

— Tudo bem que você goste dela – digo, cauteloso. Rafael já controlou melhor o próprio choro. — eu só te peço que, por favor, não a machuque. Nunca. Ou isso estragaria para sempre as coisas entre nós. Porque eu jamais te perdoaria.

— Nem eu mesmo me perdoaria, Pedro. Acredite. A última coisa que eu quero na vida é machucar a Gabi, ainda mais depois de tudo que ela passou. Ela merece o melhor. E o melhor não sou.

— Talvez você pense assim, mas ela não. Já pensou que talvez ela te queira mesmo com todos seus defeitos? Afinal, amar é exatamente isso. A gente ama a pessoa por tudo que ela é. Sem tirar e nem por nada.

Ele fungou, eu suspirei.

— E se você desse uma chance a si mesmo e a fizesse feliz? – sugeri, com um sorriso amigável.

Ele me olhou, intrigado.

— Não! Você ficou maluco? Eu a arruinaria. Tudo que eu toco, eu destruo. Não tem jeito, Pedro. Eu sou um caso perdido. Por mais que eu tente, eu sei que sempre vou fracassar. Porque eu sou assim. Essa é minha natureza. Eu nunca serei esforçado o bastante, nem mesmo por ela.

— Mas e se...

— Não tem essa de “e se”. Não comigo. – ele olhou para o céu por um momento, com poucas lágrimas ainda nos olhos. — Ela é como você, como a minha mãe... Acredita que há esperanças. Mas não há. E foi por isso que eu cheguei a uma conclusão.

— Ah, é? E qual é essa decisão?

— Me afastar. Eu tenho que me afastar. Vou mudar de colégio, Pedro. Já está resolvido. Já conversei com a minha mãe.

— O quê? Não! Você só pode está maluco, Rafael. Você não pode fazer isso, não agora que eu vou me dedicar mais a nossa amizade...

— Relaxa, Pedro. Nem tudo vai mudar. Eu vou continuar aqui. Ainda seremos amigos, cara. Fica tranquilo! Só pense no bem da sua irmã. Você, eu e todo o resto sabemos que será melhor assim.

Suspirei, cheio de chateação.

— Pelo visto, eu não posso fazer muito a respeito. Você já tomou a sua decisão.

— Sim, eu já tomei. Será melhor assim, você vai ver.

Ele levantou-se em um salto.

Ergueu uma das mãos na minha direção.

— Agora vamos embora. Chega desse drama todo. Quanto mais eu penso nisso, mas sentimental eu fico. E isso é tão gay!

Apesar de tudo, nós rimos juntos.

Pego sua mão e levanto-me também.

Vamos embora para casa, calados durante todo o caminho.

Notas finais
Triste, né? É uma pena que o Rafael não queira nem tentar mudar pela Gabi. Pelo visto nem todos são capazes disso, mesmo em nome do amor. Comentem! Qualquer comentário é bem-vindo.