Todos Iguais
59 Rafael e Luiza

Demorei muito tempo para me dar conta porque o pessoal estava me olhando daquele jeito quando eu mostrei a eles a surpresinha que tinha comprado para nossa festinha de boas-vindas a Gabriela: um litro de VodKA não poderia ser tão mal assim. Ou era?
O problema não era a bebida, já que todos ali extrapolavam um pouquinho uma vez ou outra. Eu sempre o campeão, claro. O problema era a Gabi está presente finalmente, depois de tantos meses naquela clínica de reabilitação. Justamente para lutar contra a dependência química. E agora eu tinha estragado tudo por ter trazido – mesmo que inocentemente e para a diversão de todos — um litro de cachaça.
A verdade é que apesar de a festinha ser para ela, por ela estar de volta, retornando as novas vidas, eu me esqueci totalmente que ela estaria presente. Fazia tanto tempo que ela não estava por perto e parecia tão distante, que eu simplesmente me desliguei e... Me esqueci completamente desse lance de drogas. Eu já tinha me acostumado a sua ausência, ninguém poderia me tacar pedras por isso.
Agora eu só precisaria ficar mais atento e ser um pouquinho mais cuidadoso para não continuar estragando tudo.
Não foi intencional, entendam.
Apenas um acidente.
— Me desculpe... Eu não queria... – tentei dizer, tentei me explicar, tentei me justificar, mas as palavras não saíram conforme o previsto.
— Não tem problema, Rafa. Você não tem que se sentir mal por isso. – Gabi resolveu me salvar aquela noite. — Senta aí com a gente.
Após ela ter dito aquilo, notei que o pessoal parou de olhar pra mim como se eu fosse um maluco e voltaram ao que estavam fazendo antes que eu chegasse e ferrasse com tudo.
Sentei-me perto do Pedro e quando olhei para a Gabi, que estava de frente para mim, ela estava me olhando com um meio sorriso como se realmente me desculpasse por meu pequeno deslize.
Eu não me importava tanto com que as pessoas diziam ou iria pensar. Eu sempre fui assim. Mas naquele momento me importei muito se a Gabi não tinha ficado mal com mais um dos meus erros estúpidos.
Acho que ela já estava acostumada a isso.
E talvez fosse exatamente por isso que gostava tanto de mim.
Como eu poderia não ter coragem de retribuir algo tão bonito assim?
Eu só poderia ser mesmo um maluco.
— Olha gente – a Gabi chamou a atenção de todos, na primeira oportunidade. — quem estiver com vontade de beber, pode beber, ta? Não mudem seus hábitos por causa de mim. Eu me sentiria muito mal por isso. Não quero estragar nada.
— Que isso, Gabi. – a Bianca interferiu, mostrando-se condolente. — Imagina! Você não vai estragar nada. A gente tá de boa, fica tranquila.
As duas trocaram sorrisinhos amigáveis.
— Parem com esse mimimi que eu estou ficando com ânsia. – resolvi dizer, fazendo todos voltarem a olhar pra mim com certa indignação. — Eu sei que aqui está todo mundo louco para beber isso aqui – voltei a pegar o litro de Vodka em mãos. — Mas já que vocês são uns franguinhos... Eu é que não vou amarelar e desperdiçar tudo isso.
Dito isso da maneira mais imbecil possível — que é o meu jeito – e abro a garrafa e jogo uma boa quantidade diretamente na boca.
Depois faço um careta.
Eu, Rafael Cardoso, não sendo babaca pode ter certeza que não sou eu. Muito provavelmente um ser de outro planeta tomou o meu corpo.
Eu necessito ser um babaca.
E um babaca eu serei.
Gostem ou não.
***
O Rafael é muito sem noção mesmo.
Admito que em parte fiquei bastante orgulhosa de sua sinceridade. Porque ele tinha toda razão e nós sabíamos disso.
Queríamos sim beber, fumar e tudo que estávamos habituados a fazer. Mas não estávamos fazendo nada daquilo por medo da Gabriela ter uma recaída e seguir nosso mau exemplo ou o pior de tudo: sentir-se por fora ou excluída das nossas atividades.
Claro que eu também entendia esse lado, afinal, éramos seus amigos e não queríamos ser uma má influencia. Ela não estava totalmente curada e talvez nunca esteja. Mas é esse ponto: Por quanto tempo ficaremos fingindo não fazer todas essas coisas se ela sabe que fazemos com ou sem ela por perto de qualquer forma?
Nem sempre temos uma resposta pra tudo.
Não se tem bom senso pra tudo.
E depois que parei pra refletir sobre isso por alguns minutos, foi que eu me juntei ao Rafael e começamos a beber juntos a tal Vodka.
O pessoal também olhou pra mim como se perguntassem se eu estava enlouquecendo também. Mas eu fingi não notar isso. Principalmente o peso do olhar da Natália, que na certa estava morrendo de ciúmes de mim e do Rafael há um bom tempo. O que ela já deveria saber é que nunca eu e ele ficaríamos juntos. Nunca! Não é como se ele fizesse o meu tipo.
E eu não estava fazendo isso só porque não tinha respostas ou certezas para tudo ou porque queria fazer ciúmes a ela. Eu também tinha motivos de sobras para comemorar: eu não estava mais de castigo. E recebi os parabéns dos meus pais ontem a tarde quando eles foram buscar meu ultimo boletim do ano no colégio com todas as minhas notas vermelhas recuperadas.
Pelo menos alguns sacrifícios de fato valeram a pena.
— Ei, ei. – chamei o Pedro, puxando sua camiseta. Ele olhou para mim, assustado. Nós estávamos meio brigados ainda, desde aquela tarde no parque quando nos desentendemos por causa da Natália.
Eu não sei ao certo quanto de Vodka já tinha tomado, até porque não estávamos bebendo no copo, mas sim diretamente pela garrafa. Então era possível medir a dosagem. E Vodka também já era bem forte, sendo assim, eu já estava meio alterada. Sentindo-me bêbada e alegre demais.
— Cadê aquela tua namorada rabugenta? – perguntei a ele, enquanto ele me olhava curioso.
Senti que a minha pergunta nada apropriada pegou todos de surpresa.
— Liga pra ela não, Pedro. – disse a Nati, antes que ele pudesse responder alguma coisa. — Ignore. Ela está bêbada.
E então ela tocou o braço dele muito intimamente e carinhosamente.
Aquilo fez a raiva saltar dentro de mim.
— Vai se fuder, Natália. – levantei-me, cambaleando um pouco. Por sorte o Rafael me segurou pelas pernas, rindo. — Nem falando com você eu estou. Então vê se cala essa sua boca inútil, por favor.
Todos continuaram olhando pra mim, agora chocados.
Resolvi ir pra casa. Não havia mais nada para eu fazer ali.
— Você está sendo uma ridícula, sabia? – Natália correu atrás de mim, quando eu já estava chegando ao portão. — Você está bêbada, Luiza!
— Não tô, não. – rebato, levantando um pouco o tom da voz. — Cuida da sua vida. Você não tem porque se meter na minha.
Natália riu, sem humor.
Virei as costas novamente, mas ela me impediu de continuar. E olha que eu já estava muito perto de alcançar o portão.
— E você não tem nada que ficar perguntando aquelas coisas para o Pedro, sabendo que poucos de nós aceita o namoro dele com a Maria Eduarda. – disse ela, olhando-me com raiva.
— Porque ele é um idiota em dar importância ao que vocês pensam. E você é ainda mais por está o defendendo, mesmo depois de tudo.
— Eu não estou...
Não deixei que ela continuasse ou começaríamos tudo de novo.
Sempre do mesmo ponto.
— Eu vou pra casa.
— Assim? Sozinha? Eu te acompanho.
— Não, você não vai. Eu sei o caminho de casa.
***
Eu adoro brigas e discussão, principalmente entre garotas. Eu fico animado, atento, exaltado, agitado e louco para que elas saiam do tapa. É tudo tão excitante!
Já deu pra todo mundo perceber que essas duas – Natália e Luiza – estão se bicando já faz um tempo. E tudo isso graças ao putão do meu melhor amigo, o Pedro. E depois eu que sou o cafajeste do grupo.
Mas isso também não é da minha conta.
Elas que se resolvam!
Tomo o resto da Vodka que ainda sobrou.
Ninguém está dando mais tanta importância pra mim. Estão conversando, se divertindo, rindo, brincando como se eu não estivesse ali, já completamente bêbado e sem conseguir acompanhar os demais. Era como se meu cérebro – que nunca foi lá essas coisas – tivesse parado de funcionar de vez. Pelo menos em parte. A parte mais sensata. Se é que algum dia ela já existiu.
Se tem uma coisa que eu detesto é que me excluíam, me ignorem ou não prestes atenção nas baboseiras que eu digo por mais absurdas que sejam.
E ficar assim de lado, olhando para Gabi, observando o quanto ela parecia maravilhosa, mudada, diferente e ao mesma tão única e especial só piorava ainda mais as coisas pra mim.
Eu queria muito algo para me distrair.
A Luiza pelo menos tinha me feito “companhia” até pouco tempo, mas agora ela já tinha ido de vez. Toda marreta. E a Nati sempre atrás, boazinha e preocupada do jeito que ela sempre foi, apesar de tem seus baixos de vez em quanto. Como qualquer outra pessoa.
A bebida acabou, meu estoque de piadas se esgotou, eu não estou incluso na conversa... Então, tudo que me resta é ficar olhando pra Gabi, praticamente babando em cima dela. O problema é que desde aquela vez em que fui visita-la na clínica e conversarmos abertamente sobre nossos sentimentos como nunca antes e eu saí de lá praticamente correndo, em prantos após ter lhe dado um fora, sinto uma aperto no coração todas as vezes que me deparo com os olhos dela.
Olho pra ela e me sinto mal por ter praticamente jogado fora a única coisa que poderia me tornado uma pessoa melhor, quem sabe até mais responsável, madura, sensível e sensata. Já que todos dizem que o amor transforma as pessoas... Pode ser que eu nunca tenha amado alguém assim dessa forma, mas também nunca deixei de acreditar que todas essas transformações e melhorias ao lado da pessoa amada possam sim ser possíveis. Só que não comigo.
Mas também me sinto aliviado por ter rejeitado esse sentimento, ou pelo menos ter tentado. Tenho feito um esforço árduo para isso. Porque sei que a livrei do pior. Se a Gabi estivesse em minhas mãos, eu faria um estrago e me arrependeria ainda mais pelo resto da vida. Eu não teria como evitar magoa-la. Se eu escolhesse tentar ficar com ela, assim, oficialmente, com todo aquele papo furado de sermos fieis até que a morte nos separe, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza... Certamente não daria certo. Somos muito explosivos, cabeça-dura, donos de personalidades fortes e marcantes, além de birretos e difíceis de lidar.
Isso nunca daria certo.
Acabaríamos matando um ao outro.
Nesse caso, nem o amor um pelo outro seria o bastante.
Mas como eu poderia saber de tudo isso?
Bom, eu simplesmente não sei. E temo arriscar.
Levanto-me irritadíssimo, por ter me deixado levar por pensamentos assim em um momento como esse, que só tem motivos para celebrar. Inclino-me para pegar o litro vazio de pinga que deixei jogado por aí e ao erguer-me novamente percebo que mais uma vez estão todos olhando para mim, curiosos, esperando pela próxima merda que vou fazer.
A minha intenção não é essa. Não quero estragar as coisas de novo. Pelo menos não por hoje. Mas ainda estou indeciso. Não sei se vou pra casa, tomo um banho gelado e desabo na minha cama, preparando-me para a ressaca do dia seguinte. Ou se vou por aí, a procura de uma festinha animada e algumas garotas para me distrair.
A segunda opção me parece a melhor.
Afinal, não sou de ferro. Estamos de férias! Não tem nada pra fazer e não fazer nada me deixa pra baixo. Nada melhor que uma festinha, cheia de gatinhas e muita bebida de graça.
Vou até a saída e ninguém me impede.
Menos mal.
No exato momento em que coloco meus pés na calçada, fechando o portão atrás de mim, vejo um grupinho de garotas passando. São três. Duas loiras e uma morena. Não consigo ver muito, por causa da visão embaçada e por causa do breu da noite, mas acho que são bonitas e me interessam bastante.
Elas aparentam ser do tipo fácil. Mas talvez eu esteja julgando mal precipitadamente. Elas estão de braços dados, praticamente abraçadas e cheias de sorrisinhos. Parecem fofocar sobre alguma coisa muito interessante. Elas também se vestem muito igual: shorts jeans curtos, regatas e sapatilhas da moda. Não sei se estão voltando pra casa, já que são quase onze da noite. Ou se estão saindo por aí, assim como eu.
Como sou muito cara de pau me coloco entre elas ao meu aproximar, elas trocam olhares cúmplices, dizendo algo mentalmente uma pra outra que só elas entenderiam. Espero que sejam coisas boas sobre mim. Passo meu braço por cima do ombro da morena e de uma das loiras. Elas soltam risinhos.
— As mocinhas estão de saída? – pergunto, olhando para cada uma delas com um sorriso largo. — Eu posso ir com vocês?
Estamos no meio da rua, a rua parece desértica naquele momento.
Vejo quando meus amigos se aproximam do portão, ainda do lado de dentro, no quintal da frente da casa do Pedro e da Gabriela. Eles estão olhando pra mim, parecendo preocupados.
Mas eu estou legal... Bem até demais com três gatinhas. Queria poder dizer isso a eles, mas não quero gritar do meio da rua e chamar a atenção da vizinhança. Pois eles podem resolver chamar a policia e acabar com tudo.
E também não quero ninguém se preocupando a toa comigo. Eu já sou adulto. E sei me virar. Sempre foi assim. Também não preciso da pena de ninguém. E pra provar que estou ótimo e tudo ficará bem, beijo a garota da minha esquerda. Não sei qual é ou como se chama. Ao abrir os olhos vejo que é a morena. Qualquer uma das opções parecia ótima para mim.
E por mais estranho que pareça: ela retribui o meu beijo, enquanto as outras soltam risinhos animados.
***
Apesar de ter acordado com uma dor de cabeça infernal, aceitei almoçar fora com meus pais essa tarde. Meus pais ainda estavam muito bonzinhos comigo, devido o meu término com a Natália e as minhas notas boas no boletim escolar. Mas eles não poderiam nem sonhar que eu estive bebendo na noite passada.
Há um bom tempo não almoçávamos fora ou tínhamos qualquer outro tipo de programação em família fora de casa. Meu pai adorava um restaurante não muito longe, no bairro vizinho, onde se faziam as melhores comidas caseiras de toda a região. Tudo muito bem temperado e fresquinho. E especialidade do lugar eram comidas nordestinas.
E foi exatamente para lá que ele nos levou.
Apesar do céu nublado e o sol aparecer uma vez ou outra, o tempo estava abafado, então eu optei por um shortinho jeans branco e uma blusinha básica verde escura. E para os pés uma rasteirinha marrom. Prendi os cabelos longos e limpos em coque mal feito e passei um pouco de base no rosto, rímel nos cílios e batom rosa clarinho nos lábios.
Sentamos-nos em uma mesa bem no meio, porque era uma das únicas disponíveis, já que o lugar estava sempre lotado. Por sorte os ventiladores estavam ligados, girando de um lado para o outro.
Papai e mamãe nem precisaram do cardápio para fazer o pedido. Já eu precisei pensar um pouquinho. Por fim, muito incerta, pedi o mesmo prato que eles, acompanhado de um suco de limão com gelo.
Enquanto aguardávamos, fiquei calada, apenas atualizado meu Feed de Notícias no Facebook de minuto em minuto. Mas o sinal da minha internet estava muito fraquinho e também não havia nada de interessante para ver por ali. Acabei desistindo e deixei o celular de lado.
Foi quando meus pais resolveram conversar comigo.
Fizeram perguntas do tipo:
— Como foi ontem com seus amigos?
— E aquela sua amiguinha, está melhor? Já está em casa?
— Vocês se divertiram muito?
— O que vocês fizeram de bom?
E eu respondi a todas essas perguntas sem dar nenhum detalhe.
Depois, meio inesperadamente, eles começaram a falar da nossa família. Aqueles típicos problemas que toda família tem: primos folgados, tios rabugentos, sobrinhos pidões, avós exigentes.
— Estávamos pensando em passar o natal na casa da vovó, querida. O que você acha? – perguntou a minha mãe, com os olhinhos verdes brilhando. Ela parecia muito empolgada. Já meu pai nem tanto.
Ele não se dava muito bem com a vovó, porque ela nunca foi muito com a cara dele. E sempre disse que a mamãe merecia algo melhor.
Coitado.
— Não seria maravilhoso? – ela insistiu, enquanto eu pensava bem sobre aquele assunto.
Bom, eu ainda não tinha pensando sobre as festas de fim de ano. Também não sabia como iria funcionar. Se meus amigos estavam planejando algo especial ou se cada um ficaria com sua devida família. Eu também não tinha feito nenhum plano para essas férias. E não era como se eu tivesse muitas opções. Mamãe não estava bem sugerido... Elas estavam nos intimando. Gostássemos ou não.
Como eu e a Natália não estávamos mais namorando e nada por aqui seria tão bom e prazerosa se ela não estivesse ao meu lado, eu percebi que não tinha muito a perder. E nada que me prendia por aqui, exceto meus amigos. E depois da confusão que arrumei ontem com o Pedro e a Nati, eu duvido muito que eles ainda me achem uma pessoa legal.
Mas pelo menos eu posso colocar a culpa na Vodka.
E sobre ontem... Não me arrependo de tudo. Arrependo-me da confusão que armei, quando tínhamos motivos de sobra para comemorar, por causa da volta da Gabi. Queríamos que ela se sentisse bem-vinda, apesar de não termos planejado uma grande recepção. E me arrependo também em ter dito asneiras quando não estava muito lúcida.
Fora isso... Não me arrependo de mais nada. Nem mesmo ter atacado mais uma vez o Pedro. Ele não era um santo, nem eu, nem a Natália, nem ninguém. Acho que todos merecem ouvir umas verdades ou umas alfinetas às vezes, pra ver se acordamos. E todos nós temos os direitos de dizer algumas verdades e asneiras de vez em quando também.
Quando isso acontece, parece que as coisas ficam menos pesadas dentro de nós.
— É, acho que seria bom. – acabo respondendo, no exato momento em que um dos garçons coloca nossos pedidos diante de nós, sobre a mesa.
***
Quando abri os olhos no outro dia percebi logo de cara que não estava em casa. Ali não era o meu quarto, nem a minha cama.
Tentei me sentar, sentindo-me um tanto zonzo e enjoado. Vi que tinha um copo d’ água na mesinha ao lado e um comprimido. Bebi tudo de uma vez.
Tentei me lembrar da noite de ontem e tenho algumas poucas lembranças vagas do pouco que aconteceu.
Eu beijei a tal garota desconhecida para provar aos meus amigos que sabia me virar como sempre. Mas foi um beijo muito molhado, que durou uns cinco segundos até eu virar para o lado e vomitar no asfalto mesmo.
Vi quando todos correram em minha direção, ajudaram-me a recompor. Perguntaram se eu estava bem. Eu não consegui responder, pois a Vodka tinha me feito muito, mais muito mal.
As três garotas foram embora, horrorizadas comigo.
Pedro e Felipe me ajudaram a entrar em casa. Por sorte o pai do Pedro já estava dormindo há muito tempo. Mas tenho minhas duvidas se com toda aquela barulheira, minhas risadas e minhas reclamações não o acordaram nem por um momento.
Ajeitaram-me na cama do Pedro. Fiquei ali, no escuro, apenas com o abajur ligado por alguns instantes. Ouvi o pessoal se despedindo, porque já estava tarde e a festa tinha terminado. Houve um momento que pensei que iria vomitar de novo, mas isso não aconteceu.
Pedro resmungou, me xingou ao voltar para o quarto, disse que ia descer e pegar um remédio para aliviar a minha ressaca.
Gabriela sentou-se ao meu lado, na cama. Sorriu daquele jeito bonito e gracioso. Tocou meu rosto. E eu sorri de volta, sentindo-me um bobo apaixonado. Mas por outro lado ainda pior, por todo esse vexame. Mesmo depois de tudo ela não me odiava, o que era um alívio. E ainda estava ali por mim, mesmo eu sendo um peso a mais.
Tentei dizer alguma coisa, talvez um agradecimento, mas não consegui. Ela soltou um risinho, colocou uma mecha do cabelo atrás da orelha. Parecia acanhada. O que não era comum para ela. Achei bonito, queria ter dito isso a ela. Mas não disse. Tive medo e estava impossibilitado.
Lembro-me que fiquei olhando para ela por um tempinho, analisando seu rosto sereno. Até que dormi. Apaguei completamente. Mas no fundo da minha mente consegui ouvir a voz do Pedro, reclamando sobre alguma coisa que eu não entendi muito bem.
E foi só.
Resolvo me levantar, calço meu tênis e saio. Lá em baixo o Pedro está largado no sofá com uma tigela de cereal, assistindo desenho animado. Seu pai deve ter ido trabalhar, pois não há qualquer sinal dele por perto.
Eu devo estar um lixo, porque meu amigo me olha com espanto, como se eu fosse uma espécie de milagre vivo.
— Que horas são? – pergunto, sentindo vários tipos de dores pelo corpo. Será que eu fui atropelado também?
— Onze e quarenta e cinco. – Pedro responde, voltando-se para a televisão e seu cereal.
Vou até a porta. Preciso ir embora. Quero dormir na minha cama pelo resto do dia, até esse mal estar acabar.
— Estou indo. – aviso. — Obrigado por tudo.
— Não foi nada. – ela responde com um sorriso, vindo da cozinha, usando um pijama infantil e o cabelo todo armado. Gabi está devorando um iogurte de morango com cereal.
Sorrio, admirando por um curto tempo o quanto ela fica ainda mais bonita pela manhã.
Eu me acostumaria facilmente a essa visão.
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