Todos Iguais
38 Pedro e Eduarda
Notas iniciais

A minha irmã havia se tornando a prioridade pra mim.
Eu bem que tentei seguir normalmente com a minha vida, a minha rotina, fazendo as minhas coisas, indo para o colégio, terminar o dever de casa, jantar com meus pais, sair com meus amigos. Mas não era como se os problemas da minha irmã e o lugar onde ela estava nesse momento saísse da minha cabeça.
Quando ligaram para mim dizendo que a Gabriela queria me ver e que teria que ser urgente, eu fiquei muito preocupado, pensando que ela enfim tinha resolvido deixar as bobagens de sua cabeça falar mais alto. Mas ela só queria me ver e isso me reconfortou de alguma forma. Sinal de que ela pensava em mim tanto quanto eu pensava nela, mesmo estando tão distantes, pela primeira vez em nossas vidas.
Eu sei que o que ela quis passar para mim durante a minha visita não era em nada o que de fato ela estava vivendo ou sentindo estando naquele lugar que sinceramente parecia bem assustador. Ela parecia bem, ela estava sorridente, limpinha, falante, preocupada com tudo e todos... Nem parecia com a Gabriela que todos estávamos acostumados.
Eu conseguia ver, no fundo de seus olhos de cores indefinidas, o quanto ela queria gritar, pedindo por socorro, pedindo por ajuda, pedindo por perdão. Só Deus sabe o quanto eu me segurei para não chorar diante dela ou pega-la no colo e fugir com ela para bem longe dali, desde que ela me prometesse se comportar e melhorar. Mas eu fui mais forte, porque no fundo eu sabia que aquela dura realidade era a única capaz de ajuda-la, por mais dolorosa que pudesse parecer. Eu sabia que se fosse paciente e se pudesse ajuda-la de alguma forma, ela logo estaria bem e voltaria para casa.
Eu mal via a hora disso tudo acontecer e voltar ao normal. Não precisava ser perfeito. Ela não precisava ser uma irmã diferente, certinha, menos intrometida, exigente ou menos chata e irritante. Eu só queria a minha irmã de volta, aquela Gabriela de um tempo atrás, mesmo de cara feia, mesmo mau humorada, mesmo distante. Mas que de alguma forma estava ali, que de alguma forma ajudaria no que fosse preciso, que de alguma forma era capaz de pedir ajuda quando precisasse. A Gabi que todos detestavam e amavam ao mesmo tempo. Que adorava pegar no pé dos outros e depois rir. Que mostrava presença, que não deixava se abater por pouco, que era durona e a que achava que sabia de tudo, que era capaz de tudo.
A Gabi invencível, até mesmo para as drogas.
— Ei, Pedro – ouvi alguém me chamar de voltar à realidade. Olhei para o lado e vi o Felipe. Então me lembrei de que era sábado e estávamos tentando nos divertir mesmo em meio a tudo que estava acontecendo. — sua cerveja acabou? Pega outra.
Eu recusei. Não estava no clima. Não sentia mais aquela vontade de beber, de fumar, de rir, de me divertir, de ir à festa e voltar para casa só durante a madruga e dormir no outro dia até tarde. Não era a mesma coisa sem a Gabi ali. A Gabi que estava sempre por perto, mas não o bastante. A Gabi que se pudesse estar aqui, nesse momento estaria em meio à pista de dança, bebendo e fumando a vontade, como se nada no mundo a preocupasse ou fosse capaz de atingi-la.
Levantei-me e vi que todos olharam na minha direção, curiosos para saber o que eu estava prestes a fazer. Na verdade eu só precisava de um tempo, um espaço longe de tudo. Eu queria respirar melhor lá fora.
Saí do barzinho e por sorte ninguém me acompanhou. Acho que eles conseguiam entender o meu lado. Lá fora eu sentei-me no meio-fio em uma parte mais afastada de um grupinho de pessoas. Não pude deixar de perceber que entre eles estava a Maria Eduarda, que a me ver decidiu vir em minha direção como se fossemos grandes amigos.
Eu estava tão na merda que havia me esquecido completamente que por um momento cheguei a me sentir verdadeiramente atraído por ela, mesmo sabendo que ela era uma vaca. Mas agora nada disso me importava, eu estava sem saco para esse tipo de coisa. Eu queria ficar sozinho. Será que ninguém conseguia entender isso? Eu tinha motivos de sombra para querer ficar sozinho.
— Pedro, que bom te ver aqui. – disse ela ao se sentar ao meu lado com um sorriso que quase pareceu verdadeiro. — Olha, eu não tive a oportunidade de dizer antes, mas já que estamos aqui agora, eu só queria dizer que eu sinto muito por tudo. De verdade.
Ah, então ela soube da Gabi ? E quantos mais já deveriam saber também?
— Não seja tão sínica. – eu ri, sem humor. Olhei fixamente para ela, sem muita paciência. — É claro que você não sente porra nenhuma. Você e minha irmã se odiavam. – levantei-me antes que fosse capaz de dizer coisas muito mais horríveis que isso.
Não parecia justo descontar a minha infelicidade nos outros, nem mesmo na Duda que era uma pessoa amarga e cruel. Eu não era esse tipo de pessoa. Era por isso que eu preferia ficar sozinho agora.
— Me deixa em paz, ta? – digo, antes de dar as costas para ela. — Eu não preciso da piedade de ninguém. – pronto, a minha missa da noite havia terminado ali. Virei à primeira esquina e fui caminhando até em casa.
***
Será que ele não conseguir perceber que eu não estava sendo nenhum pouco cruel? Eu estava falando com o meu coração. Porque eu realmente sentia muito. Isso não tinha nada a ver com as minhas divergências com a Gabriela. Tinha a ver com os meus sentimentos por ele. Que eram fortes o bastante para eu me preocupar com ele e me ver no direito de me mostrar solitária em um momento que eu sabia que ele precisava de um ombro amigo. Mesmo que eu não fosse a mais indicada para isso.
Por um segundo eu fiquei muito chateada pela maneira grosseira que ele me tratou. Eu só queria me aproximar, queria ser verdadeira, queria poder ajuda-lo e ele foi estupidamente cruel. Mas isso logo passou e eu voltei a erguer a minha cabeça. Não deixaria que isso me abatesse. Deixei a raiva substituir a decepção que eu sentia no momento pelo garoto mais incrível que já conheci e com a frustração eu me dei conta de que precisava descontar isso em alguém. Porque era assim que eu funcionava.
Levantei-me no mesmo instante em que vi o Rafael atravessar as portas do bar. Não era como se ele tivesse vindo aqui fora para me ver. Nós não estávamos nos falando há um bom tempo. Na certa ele veio atrás do Pedro, mas ele já tinha ido embora.
— Ele foi embora. Você chegou tarde demais. – eu disse com um sorriso sínico, mesmo que ele não tivesse me perguntado nada.
— Você sabe por onde ele foi? – ele perguntou, por sua expressão ele estava mesmo preocupada com o amigo. Eu deveria me preocupar?
Será que estava acontecendo mais alguma coisa que eu não sabia?
— Para lá. – eu apontei além da próxima esquina. — Por quê?
— Nada não. Mas pelo menos ele foi para casa. Valeu.
Como ele podia ter tanta certeza?
Ele ia voltar para o bar, para junto de seus amigos, mas eu fui muito mais rápida e o segurei pelo braço, o fazendo voltar a olhar para mim.
— Nós temos uns assuntos inacabados.
— Nós não temos mais nada, Duda.
— Claro que sim! Ou você se esqueceu de que eu...
— Que você sabe coisas sobre mim?
Rafael jogou a cabeça para trás, após livrar-se de minhas mãos e começou a gargalhar, chamando a atenção do pessoal que estava por ali.
— Ah, para com isso, vai. Não invente pretextos para ficar perto de mim. Eu sei que sou irresistível. – ele continuou, parecia levemente bêbado. Como eu não percebi antes? Por isso estava cheio de marra. — Mas eu não tenho mais medo de você. E você sabe disso. Agora vê se me deixa em paz.
Dito isso, ele se foi, voltando para o bar. Rafael deixou-me ali, ainda mais furiosa e intrigada. Afinal, será mesmo que ele não tinha nenhum pouco de medo que eu espalhasse seus segredinhos? Ou ele só estava bêbado o bastante para achar que não sentia nenhum pouco de medo de ser exposto?
Acho que ele vai ter que pagar pra ver.
Nunca se deve duvidar de uma garota de coração partido.
— Ei, Duda. – Tatiana se aproximou de mim saltitante. Aquela ali era outra que tinha tirado a noite para me dar trabalho. Tatiana não era muito boa com bebidas. — Você vem se divertir ou vai ficar aí?
Eu não tinha muitas opções.
Ela era a unica que eu poderia chamar de amiga e a unica que poderia divertir a minha noite.
***
Infelizmente não consegui dormir até tarde no domingo. Mesmo com a casa silenciosa pelo simples fato da Gabriela não está mais entre nós. E acabei acordado às nove da manhã. Permaneci ali, deitado na minha cama, ouvindo musica no meu celular e esperando a hora passar.
Até que as onze da manhã meu celular resolveu tocar. E eu só atendi porque não era nenhum dos meus amigos e sim do hospital da Gabriela. Eu estava apreensivo e preocupado. No final das contas não era nada de mais, apenas a enfermeira ligou para avisar que a minha irmã queria me ver e estava dando um trabalho danado para todo mundo por lá.
Era bem típico da Gabriela ter esse comportamento infantil para obter o que queria.
Levantei-me assim que deixei o celular de lado e fui direito para o banheiro, onde tomei um banho e vesti uma roupa melhorzinha. Ao descer para tomar meu café da manhã, dei de cara com o meu pai. Ele estava sentado no sofá, assistindo um canal qualquer sobre documentários e tinha uma expressão não muito boa no rosto.
— Nem pense que você vai sair correndo para ir vê-la. – disse ele, assim que passei por ele para ir até a cozinha.
Nem precisei perguntar exatamente o que ou a quem ele se referia.
— E porque não pai? – perguntei, já sem paciência. Odiava quando as pessoas falavam nesse tom comigo quando eu estava numa boa. — Ela quer me ver! Ela tem o direito de querer me ver.
— Sim, ela tem. O que ela não pode é resolver se comportar como uma garotinha descontrolada só para ter o que deseja.
— Mas pai, a Gabi sempre foi assim. Você esperava o que? Ela deve estar de saco cheio daquilo lá. Eu só quero ajudar!
— Entenda uma coisa meu filho: – ele se virou para mim finalmente, com seus olhos claros inexpressíveis. — eu sei que as suas intenções são as melhores, mas a sua irmã está em tratamento. Tudo isso faz parte de um processo, ela não pode agir feito uma maluca quando bem entender.
Passei o peso do corpo de uma perna para a outra e passei também os dedos pelos cabelos negros. Suspirei fundo, tentando manter o controle.
Meu pai não entendia. Todos pareciam não entender. Mas eu entendia o lado da minha irmã. Eu me colocava no lugar dela e conseguia imaginar o quão horrível era ficar longe de tudo. Aquilo não era só parte do tratamento, aquilo era torturante. Ela precisava saber não só em palavras, mas sim em atitudes, que nós ainda estávamos aqui, apoiando-a e amando-a mesmo com todas essas suas fases.
— Pai, por favor, eu tenho que ir lá. Você tem que ir mais vezes. O pessoal tem que ir vê-la. Ela precisa disso. Ela precisa de todos nós. Ela sente nossa falta, nós sentimos a dela também. Já parou para pensar que isso poderá ajuda-la e não o contrário?
Meu pai suspirou forte e desviou o olhar. Eu permaneci ali, parado, apenas observado-o. Ele pareceu refletir por um momento em minhas palavras, quando por fim se virou para mim novamente e disse:
— Eu vou pensar nisso. Seja paciente, Pedro. Eu como pai, preciso manter essas coisas em ordem. Não está sendo difícil só para ela, está sendo difícil para todos nós. Eu sei que você entende isso, não entende?
***
Acordei na manhã de segunda-feira muito inspirada.
Eu tinha muitos planos para colocar em pratica aquele dia, tudo isso só seria possível com a ajuda da Tatiana, que para detonar a minha felicidade, acabou chegando atrasada ao colégio. Contei até dez mentalmente e suspirei diversas vezes, por fim eu acabei a perdoando por isso.
Como estamos no terceiro e ultimo ano, os professores e o pessoal do colégio não se preocupam tanto com a gente. Nós temos mais liberdade, desde que garantíssemos a eles que iriamos bem nos vestibulares no fim do ano. De resto, é tudo muito sossegado. Não temos muitas obrigações, nem muitos trabalhos e nem somos tratados como criancinhas. Sendo assim, optei por não frequentar a terceira aula para começar a movimentar esse colégio com algumas novidades muito interessantes que eu tinha para compartilhar.
Não queria dar a entender que eu era uma fofoqueira de plantão, por isso saí por ai discretamente, sentando-me em meio aos grupinhos que não estavam muito afim de estudar – assim como eu e a Tatiana – e meio sem querer, digamos assim, acabei soltando na primeira oportunidade alguns segredinhos sobre o Rafael que eu tinha guardado por muito tempo, até perder a paciência com ele e me vingar.
Nada melhor do que uma boa fofoca espalhada por todo o colégio, a respeito de um dos garotos mais populares do segundo ano. Mais que metade do colégio, especialmente as garotas, o conhecia. Muitas delas ficaram surpresas com o que eu disse e até pediram por provas, mas bastou eu lembra-las que tivemos um “namoro” muito especial para elas acreditarem em mim como uma boa e confiável fonte de informação de primeira.
Como toda e boa fofoca, levou minutos para se espalhar pelos quatro cantos desse colégio. E eu nem precisei fazer o trabalho todo sozinha. Esse tipo de coisa se desenrola sozinha. Especialmente entre nós mulheres. É um dom que já nasce com a gente e facilitou muito para o meu lado.
Faltavam poucos minutos para o intervalo, quando vi o Rafael saindo da quadra e indo para o banheiro masculino no pátio onde eu estava sentada em um canto com a Tati festejando uma das minhas muitas vitorias. Foi nítido que enquanto ele seguia seu rumo até o banheiro, ele percebeu que tinha algo de errado. Pois as muitas garotas ali presentes olhavam para ele, cochichavam entre si e depois riam da cara dele.
Aquilo era exatamente o que eu esperava vindo delas.
— Você não acha que pegou um pouco pesado com ele? – Tatiana me perguntou, ao virar-se para mim com seus grandes olhos negros. — Poxa, ele é um gato! Tadinho. Se antes ele te detestava, agora é que você não tem nenhuma chance com ele de novo.
Revirei os olhos.
— E você acha que eu quero ficar com ele de novo? Se liga, Tati. Ele foi só um passatempo. Você sempre soube. Claro, ele é um pedaço de mal caminho sim. Mas não é exatamente o que eu procuro. E convenhamos, ele bem que merece tudo isso. O Rafael reinou nesse colégio por muito tempo, sempre com aquela pose de durão e pegador. Isso é para ele aprender que ele não se deve duvidar de uma garota como eu.
A nossa conversa chegou ao fim quando o sinal do intervalo tocou e outras garotas da nossa turma se juntaram a nós para saber mais sobre a novidade que já tinha chegado aos ouvidos delas.
Muito rapidamente o refeitório — para onde nos dirigimos segundos depois — foi se enchendo.
Estava sendo uma manhã muito agitada no colégio, isso graças a mim. A essa altura o Rafael já deveria estar escondido por aí, em alguma sala vazia, morrendo de vergonha por todos saberem de seus problemas familiares. Cheguei a essa conclusão porque ele não estava na mesa de sempre, junto a seus amigos. Nem ele e nem o meu Pedro.
Bom, aquela foi só a primeira ação do dia.
Quando eu e a Tati novamente tivemos aula juntas mais tarde, aula de natação, eu pedi para que ela fingisse passar mal. Só assim o professor nos pouparia daquela aula, para eu poder acompanha-la até a enfermaria, quando na verdade iríamos seguir para a nossa próxima missão.
Tatiana já estava a par de tudo. Pois assim que eu descobri, no domingo, o segredinho da minha prima eu liguei rapidamente para ela.
Mas a verdade é que eu não sabia exatamente de tudo, por isso estava indo atrás de preciosas informações, para ir mais a fundo. Mas ouvir, meio sem querer, a minha prima conversar com alguém ao telefone sobre uma consulta que ela teria com a psicóloga do colégio aquela tarde me deixou muito curiosa.
Tudo que precisávamos fazer agora era esperar a psicóloga ir para sua hora de almoço as três e meia – sim, eu já tinha investigado – que acontecia todos os dias no mesmo horário e entrar na sala dela para ler a ficha da Bianca e saber o porquê exatamente ela precisava ter uma conversinha com a psicóloga.
— Ai, meu Deus. Eu estou morrendo de medo! – sussurrou Tatiana ao meu lado, tremendo dos pés a cabeça enquanto de longe esperávamos a psicóloga deixar sua sala por uns minutos. Teríamos que ser rápidas. — E se formos pegas no flagra? E se tudo der errado? E se não tiver nada lá?
— Cala essa boca, Tati. Para de tanto pessimismo! – eu briguei, olhando feio para ela. — Não se preocupe, se algo der errado eu me responsabilizo pela culpa. E qualquer coisa a gente inventa uma boa desculpa, sei lá. Não estamos cometendo um crime. Ou estamos?
Passei todo o plano para ela novamente. Às três e meia em ponto a psicóloga deixou sua sala. Eu saí em dispara, correndo até sua sala. Tatiana ficaria no corredor para vigiar, caso alguém aparecesse e estragasse o plano. Entrei na sala sentindo o coração querer sair pela boca. Fui até o armário dela que por muita sorte estava destrancado e procurei a ficha que conteria o meu sobrenome.
Achei a ficha facilmente,pois a psicóloga tinha muitos poucos pacientes. E fiquei ainda mais admirada por aquelas fichas tão confidencias terem fácil acesso a qualquer um. Afinal, qualquer um poderia estar ali, além de mim e poderia ler a respeito de qualquer paciente. Credo! Eu que não teria coragem de me abrir com aquela mulher, sendo que qualquer um poderia saber coisas a meu respeito que eu não queria que ninguém soubesse. Além dela, claro.
Percorri meus olhos rapidamente pela ficha da minha prima, já em minhas mãos. Meu tempo era curto. E no finalzinho da ficha eu li algo que me deixou completamente sem reação. Por essa eu não esperava, apesar de que eu já deveria ter imaginado o porquê da minha prima ser tão rigorosa com a alimentação, tão paranoica com o próprio corpo e tão certinha e perfeita.
Tirei meu aparelho celular do bolso do short jeans e tirei uma foto das palavras perfeitamente bem escritas com a letra bem desenhada da psicóloga do colégio exatamente onde dizia: Distúrbios alimentares.
***
O dia estava seguindo perfeitamente normal, até eu ouvir um grupo de garotas da minha turma, na saída da aula de química no laboratório, falarem sobre o Rafael no corredor. E não era sobre o corpo atlético dele não, nem sobre a mais nova garota que ele estava ficando ou sobre qualquer outra coisa que eu estava habituado ouvir por aí da boca das garotas desse colégio. Elas falavam sobre algo muito particular sobre ele, que ele nem mesmo tinha contado para mim antes, em todos esses anos de amizade.
Nem preciso dizer qual foi o meu próximo passo ao me dar conta de que metade do colégio estava falando sobre a mesma coisa. Eu saí correndo a procura do meu melhor amigo. Mesmo ele não sendo o melhor amigo do mundo, nós sempre fomos parceiros e estivemos juntos em momentos delicados como esse. Procurei-o por toda parte e ninguém sabia dizer onde ele estava. O Rafael havia sumido de vez e com razão.
Não me importava de perder todo o meu intervalo, eu só precisava encontra-lo e saber como ele estava lidando com aquilo. Ele sempre foi alvo de fofocas positivas nesse colégio, mas não de negativas. Ele deveria estar muito mal, para não ter tido nem a ousadia de lidar com aquilo de frente.
Acabei o encontrando finalmente atrás do ginásio, onde já ficamos muitas vezes fumando um cigarro no tempo livre. Isso no primeiro ano do colégio, onde tudo era novidade pra gente.
Rafael estava lá sentado no chão com os braços sobre os joelhos, as costas apoiada na parede e o olhar distante.
Apenas me aproximei devagar, sentei-me ao seu lado e ele se limitou a dizer qualquer coisa ao sentir a minha presença. Eu melhor do que ninguém entendia que ele precisava de tempo e espaço naquele momento. Então ficamos apenas assim na companhia um do outro, calados, olhando para o vazio. Cada um com seu próprio pensamento.
— Tudo que eu ouvi é verdade? – resolvi perguntar quando percebi que o nosso tempo estava acabando.
— Sim, é tudo verdade. E eu não me envergonho. Tudo isso foi há muito tempo. Eu só não gosto de ver as pessoas comentando sobre coisas minhas, que nunca tive coragem de revelar a ninguém, nem mesmo a você, por motivos óbvios. Ou rindo da minha cara, sempre que eu passo por elas.
Não que eu já tivesse passado pelo mesmo, mas eu entendia perfeitamente o lado dele. Afinal, não era da conta de ninguém os problemas que ele tinha dentro da própria casa, com a família.
— E quem poderia ter feito isso com você?
— A Duda, é claro. Quem mais poderia ser?
O pior de tudo foi ele ter dito isso com um misto de fúria acompanhada de uma risada debochada.
Naquele momento eu senti meu peito explodir de raiva daquela garota. Ainda mais do que eu já sentia. Ela não tinha o direito de dizer o que bem entendesse das pessoas e espalhar por aí. Ela não só era ridícula, cruel, como também era desprezível. Nem sei como, por um momento, eu achei estar me sentindo atraído por ela.
Garotas assim nunca foram o meu tipo.
Mas dizem que tem uma primeira vez pra tudo nessa vida.
Eu espero que isso não seja totalmente verdade.
Passei as próximas aulas com a cabeça nas nuvens. Em parte preocupado com o meu melhor amigo. Por outro lado desejando que a Maria Eduarda tivesse uma punição dura por toda sua maldade. Cheguei à conclusão, no final do dia, que não dava para esperar que ela simplesmente fosse punida em algum momento de sua vida. Isso precisava ser agora e precisava ser por mim.
Eu tinha muito o que dizer a ela.
Quando o sinal tocou indicando o final da ultima aula, eu praticamente enfiei meu material todo dentro da mochila e a joguei sobre o ombro. Em passos firmes e raivosos eu fui em direção à saída do colégio, na esperança de encontra-la pelo caminho a tempo.
Tudo o que eu tinha para dizer não poderia esperar.
Vi uma cabeleira loira familiar em meio a multidão. Acabei esbarrando em todos que estavam na minha frente e nem se quer pedi licença ou desculpas. Eu só tinha um objetivo em mente: alcança-la. E quando isso aconteceu eu vi que ela estava cantando sua vitoria antes do tempo com a sua amiguinha Tatiana do lado. Elas sorriam cúmplices. Até eu agarra-la pelo braço e vira-la bruscamente em minha direção.
Seu sorriso desapareceu.
Nunca antes eu tinha sido tão agressivo e frio com uma garota.
Eu não era assim.
Mas com a Maria Eduarda eu perdia a cabeça facilmente.
Ela olhava para mim com os olhos azuis acinzentados arregalados, surpresa com a minha atitude e com a minha aparição. Devolvi o olhar, porém cheio de frieza e nenhum pouco surpreso. Eu queria que ela tivesse medo de mim naquele momento, porque eu estava prestes a fazer uma loucura. Estava mordido de raiva por essa garota imatura, que é mil vezes pior do que a minha própria irmã já foi um dia.
Eu estava acostumado a esse tipinho, mesmo que não soubesse lidar muito bem com ele.
— Você não tinha o direito de espalhar fofocas por aí sobre o Rafael. – eu gritei, feroz. Todos em volta pararam para olhar o espetáculo.
Curiosos e surpresos.
Nunca gostei de plateias, mas naquele momento ela era favorável para mim.
— Você se acha muito superior, não é? – eu apertei mais forte meus dedos no braço dela. Sem me importar em deixar marcas. — Certamente você nunca teve problemas em casa, segredos, particularidades... Você é perfeita. Nossa! – eu ironizei com um sorriso forçado. — Você não sente vergonha de se olhar no espelho todos os dias e vê a criatura medíocre que você se tornou?
Não era bem uma pergunta. Tudo que eu queria era poder falar e que ela e todos escutassem tudo que estava entalado.
— Pedro – ela sorriu sem jeito, olhou para mim por um breve momento e depois em volta, para os curiosos de plantão. — Por favor, vamos conversar em outro lugar. Aqui não. Estão todos olhando...
Ah, então quer dizer que ela se importa com que os outros pensem ou digam sobre ela? Mas com os outros ela não dá a mínima.
Ponto para mim.
Eu tinha que continuar.
— Você é desprezível, garota. Eu tenho nojo de você! – eu disse isso olhando fixamente para ela, como se não tivesse acabado de ouvir o que ela tinha acabado de dizer. — Você deveria sentir vergonha de si mesma e do mal que faz as pessoas. – continuei frio como um garoto sem coração.
Percebi que ela travou a mandíbula e desviou o olhar.
— Nunca mais se aproxime de mim. – dessa vez eu gritei mais alto, para todos, todos mesmo, escutarem em alto e bom tom. — E nem ouse a se aproximar dos meus amigos novamente. Eu quero você longe do meu caminho, longe da minha vida. Você é uma cobra! E de você eu só quero distancia.
Não foi tão bom quanto eu esperava, mas acho que ela teve uma lição: foi ridicularizada na frente de todos. Do mesmo jeito que ela gostava de fazer com as pessoas. Eu tinha terminado por ali, mas ela foi a primeira a agir. Ajeitou a bolsa no ombro e saiu correndo, como a presa foge da caça.
Também não olhei para o lado, apenas segui meu rumo. Mas no fundo eu não me senti melhor pelo que fiz, mesmo certo de que ela merecia, mais do qualquer um, ouvir umas verdades. Pelo contrário, eu me senti mal por humilha-la de tal forma. Eu não era assim. Eu não fazia esse tipo de coisa, por mais furioso que estivesse. Eu me sentia culpado de certa forma.
Já perto de casa mudei de direção e segui por outra rua. Eu precisava concertar disso, ou iria dormir com a consciência pesada. Cheguei minutos depois em frente ao prédio da Bianca. A Maria Eduarda ainda estava ali em baixo, sendo amparada por sua única amiga, a Tatiana. As duas se abraçavam. Mesmo de longe percebi que a loirinha chorava e por minha causa.
Engoli em seco.
Aproximei-me devagar.
— Sai daqui, seu idiota. – ela disparou a me ver, vermelha de raiva. Tatiana se afastou e entrou no prédio, para nos deixar mais a vontade. Pelo menos foi o que deu a entender. — Eu não acredito que você vez isso comigo, na frente de todo o colégio. Eu pensei que você fosse diferente, Pedro.
E então ela se pôs diante de mim, olhando-me nos olhos. E de repente deu um pequeno ataque e começou a bater no meu peito com os punhos fechados. Aquilo não doía, pois ao contrário do que ela imaginava, ela era bem fraca nesse sentido. Ainda assim admirei sua determinação em tentar me ferir, só para revidar o que eu comecei.
Ou será que foi ela?
Com certeza foi ela.
— Você pediu por isso. – eu disse, segurando-a pelos braços para que ela parasse com aquele showzinho. Eu estava cansado de tudo isso. Eu devera estar em casa, preocupado com a minha irmã e não aqui perdendo o meu tempo com essa garota. — O Rafael não merecia...
— Ele sabe se defender sozinho! – ela disparou, secando as lágrimas com o dorso da mão. — Você não precisava...
— É para isso que serve os amigos. Eles defendem uns aos outros. – eu a interrompi. — Eu não aprovo sua atitude e achei que você merecia...
— Um castigo? – ela me cortou também, com os olhos claros esbravejantes. — Nossa! Valeu. Acho que já aprendi a minha lição.
— Eu não acredito em você. – digo, sendo sincero. — Mas eu vim aqui pedir desculpas. Sabe, a gente só percebe a merda que fez segundos depois de cometer os erros. Acho que fui longe demais com você. Mesmo não aceitando suas atitudes, acho que na deveria ter me rebaixado tanto ao seu nível.
Pela cara dela, ela ficou surpresa com a minha atitude. Mas por outro lado pareceu ofendida – ainda mais devo observar – com as minhas palavras.
— Você realmente não me conhece. – ela riu, sarcástica.
Depois revirou os olhos, pensou por um momento – algo maligno, acredito – e olhou novamente para mim, como uma vilã dos filmes. Eu captei aquele olhar no mesmo instante... Ela ia me bater, mas eu a impedi a tempo.
Eu não só a impedi de me agredir, como também a contive com um gesto inesperado até mesmo para mim: eu a beijei. Não só porque ela estava frágil naquele momento, com os olhos vermelhos e lagrimejados. Como também porque ela era a criatura mais linda do mundo quando estava nervosa e chorando.
Eu nem sei por que me liguei nesses detalhes em meio a tudo isso, mas finalmente me dei conta de que a minha atração por ela não foi algo passageiro, era algo que crescia dentro de mim e que eu não tinha nenhum pouco de controle sobre isso.
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