Notas iniciais
Minhas férias acabaram, depois de quase dois meses. Sem dúvidas alguma as férias mais longas da minha vida! Por enquanto está tudo muito tranquilo, mas sei que terei semanas bem difíceis cheias de provas e trabalhos logo em breve. Ainda assim não vou deixar de postar pelo menos dois capítulos por semana. Ou até mais. Aí depende dos leitores.

Eu não consigo não olhar para ela. É como se meus olhos não conseguissem ver mais nada além de sua presença, não importa onde estejamos. Às vezes, mesmo sem querer, meus olhos parecem ganhar vida própria, percorrendo o ambiente, só para ter a certeza de que ela está ali. Longe ou perto. Não importa. Ela só precisa estar ali, em algum lugar, para o meu coração se tranqüilizar por inteiro.

Definitivamente: estou apaixonado por Natália Fagundes. Desde que ela entrou no colégio, no início do ano. Eu posso até ter me apaixonado muitas outras vezes antes de conhecê-la, mas agora sinto que é diferente. Mesmo sendo só amigos, já é o bastante pra mim. A presença e a companhia dela me bastam. Eu só tenho olhos para ela e sinto que não vai demorar muito pra eu criar coragem de me declarar. Eu só não quero estragar a nossa amizade.

É tudo tão recente, diferente, estranho e novo pra mim.

Nesse momento estamos no finalzinho da aula de Matemática. Os olhos negros dela estão absortos no professor, dando a sua aula na frente da turma, explicando algo sobre... Equações Logarítmicas. Natália está mordiscando a ponta da caneta, concentrada. Eu realmente não entendo nada do que o professor diz e sinceramente estou muito mais interessado em ficar observando-a com o canto do olho.

Eu adoro o cabelo vermelho cereja dela cortados acima dos ombros em contraste com a pele branca. Eu adoro o corpo magro dela, de poucas curvas, mas que ainda assim é ideal pra mim. Eu adoro quando ela está perto o suficiente para que sinta o cheiro do seu perfume de flores do campo. Eu adoro quando andamos lado a lado e seu braço acidentalmente toca no meu. Eu adoro quando ela sorri daquele jeito incrível e único, torcendo os lábios para o lado...

— Pedro?

E eu adoro, ainda mais, quando ela me olha daquele jeito carinhoso, hipnotizando-me com seus olhos, as bochechas levemente rosadas e a boca...

— Pedro?

Conclusão: eu adoro tudo nela. Tem como estar mais apaixonado?

— Pedro!

A voz dela me desperta. Estou desorientado.

— Oi... Que foi?

— Porque você está me olhando assim, bobinho?

Ela me pegou no flagra!

Sem resposta eu a observo guardar seu material cuidadosamente dentro da mochila sobre a mesa. E é aí que eu me dou conta de que a aula já acabou e é hora de ir embora. Faltam três minutos para as quatro da tarde.

— Hum... Não é nada. Bobagem minha!

Tento sorrir, para disfarçar a minha vergonha. Ela sorri pra mim, um sorriso de verdade. Daqueles que faz meu coração dar um giro.

Juntos nós saímos da sala de aula e caminhamos lado a lado em silencio pelos corredores até a saída do colégio.

E mais uma vez a minha irmã, a Gabriela, não está me esperando no lugar de sempre: perto de uma arvore em frente ao portão. E mais uma vez eu me pergunto o que será que aquela garota anda aprontada ou onde será que ela se meteu nos últimos dois dias? Eu, apesar de não ser o melhor irmão do mundo, tenho motivos de sobra para me preocupar.

Da Gabriela pode se esperar de tudo. Tudo mesmo.

— Eu posso ir com você hoje? – a Nati pergunta, virando-se pra mim.

— Claro! Vamos então? – olho pra ela também, sorrindo levemente.

Ela mora a algumas quadras da minha casa, assim podemos pegar o mesmo caminho. Não moramos tão longe, então nem é preciso pegar um ônibus ou coisa do tipo. Seriam três reais de passagem jogados fora.

Durante todo o caminho até em casa ela tagarela sem parar sobre a aula de Matemática, a mesma da qual não prestei atenção em nenhuma palavra porque estava ocupado demais a admirando. Mesmo assim, assenti todo o tempo, como se concordassem com tudo que ela me dizia.

Deixei-a em casa primeiro, já que ela mora antes.

Cheguei em casa cinco minutos depois. Meu pai, Marcos, está lavando o carro na rua. Minha mãe, Célia, está terminando o jantar. Aceno de longe para os dois antes de subir correndo para o meu quarto.

Meu quarto é bem simples e pequeno. As paredes são pintadas de branco, com alguns detalhes em verde. A minha direita está a minha cama, meu criado-mudo, meu abajur e uma prateleira com livros. Na parede oposta, no canto está o meu guarda-roupa e ao lado a minha escrivaninha com o meu computador, mais a cima, um gigante mapa-múndi com alguns bloquinhos de anotações coloridos. Na parede em frente à porta está a janela que dá para a parede do vizinho. Vizinho que eu mal conheço.

Jogo minha mochila no canto, tiro meu Vans azul, procuro uma toalha limpa e vou direto para o banheiro, o único no corredor dos quartos. Tomo um banho morno de uns vinte minutos e volto para o quarto, só de toalha, para vestir algo mais leve e comportável.

Opto por uma bermuda preta, uma camiseta branca básica gola V e minhas Havaianas também brancas. De frente ao pequeno espelho colado na parte de dentro da porta do meu guarda-roupa, passo desodorante e um pouco de perfume, olhando-me no reflexo.

O que será que a Nati pensa sobre mim? Será que ela me acha bonito? Será que ela sente alguma coisa, por mínima que seja, por mim também?

Sei que não sou o garoto mais bonito do colégio, nem o mais popular, ou o mais forte, ou mais atraente, ou mais inteligente, ou melhor nos esportes ou em qualquer outra coisa. Eu sou comum. Não sou nenhum Rafael Cardoso, mas eu também não tenho problema nenhum comigo mesmo. Ou quase nenhum. Eu estou... Satisfeito.

Tenho a pele clara, chega a ser pálida. Meus olhos são de um verde vivo, assim como os do meu pai. Meus cabelos são negros, mais cheios em cima e mais ralos nas laterais. Sou alto, tenho um metro e oitenta. Não sou magro, nem gordo. Meus braços são compridos e meus ombros largos. Minha barriga é lisa, mas não definida. Faço atividade física sempre que posso, mas não sou fissurado, assim com o meu melhor amigo, o Rafael.

Quais defeitos eu poderia ter? Hum... Aparentemente nenhum. O meu maior problema é a timidez com as garotas, mesmo eu sendo bonitinho. Sou inseguro. Isso sempre me atrapalhou em muito, mas é aí que o papel do Rafael, meu amigo, é fundamental. Nesse aspecto ele sempre me ajudou em muito. Somos íntimos o bastante para ele saber, melhor do que ninguém, o meu tipo de garota preferida. Mas admito que até ele se ligar nisso, o Rafael errou e muito. Chegou a me fazer pagar vários micos e constrangimentos.

Fora isso, bom, acho que é tudo. Não que eu não tenha mais defeitos, porque eu tenho. Mas é que é meio difícil enxergar defeitos em nós mesmo. Afinal, quem é que não faz uma boa propagando de si mesmo? Já as qualidades são mais fáceis. Por exemplo, eu me considero bastante sensato, sei meus limites. Estou sempre por perto para evitar o pior.

Eu bebo, fumo sim e faço um montão de outras merdas das quais eu não me orgulho, mas também não deixo de fazer. Mas geralmente, quando saímos em grupo, eu e meus amigos de sempre, eu evito beber muito ou ficar usando drogas. Porque eu sei, sempre sei, que o Rafael, o meu melhor amigo, acaba se metendo em encrencas e eu terei que estar por perto, para ajudá-lo. Porque amigos são pra essas coisas, não é mesmo?

Basicamente, ser um bom amigo é uma das minhas maiores qualidades. Já me meti em muitas furadas por conta disso, mas eu não me arrependo, pois eu sou leal as pessoas que eu gosto e me preocupo.

— Pedro, o jantar já está na mesa!

Berra a minha mãe, no pé da escada.

Passo a mão no meu cabelo liso, fecho o guarda-roupa e saio. Desço correndo até a cozinha, onde a minha família já está reunida na mesa para o jantar. O céu lá fora já está escuro e entra um ar fresco pela janela aberta.

A minha mãe está sentada em uma das pontas da mesa pequena, servindo a todos com suco de laranja. Ela trabalha como auxiliar de enfermagem em um dos principais hospitais públicos da cidade. É um trabalho puxado, exige muito de seu tempo e do seu esforço, mas ela ama o que faz, então nada disso é um problema.

Já o meu pai, também sentado em uma das pontas da mesa, na ponta oposto a da mamãe, está calado, concentrado em seu prato cheio. Ele trabalha em uma oficina, aqui do bairro, ele faz sociedade com o seu irmão.

A minha única irmã, a Gabriela, que já está em casa, é mais nova um ano. Na maior parte do tempo nós nos damos bem, mas também temos nossas brigas, que não são nada bonitas. Afinal não somos perfeitos e muito pouco parecidos. Digamos que ela seja a explosão em pessoa e eu a calmaria, desde que ela não me tire do sério, claro.

A Gabi se entedia com facilidade e qualquer pessoa que esteja na sua frente é um alvo fácil. Por exemplo, agora. Que estamos sentados de frente para o outro, jantando. Quem vê de fora diria que somos uma família feliz, tranquila e perfeita, como nas novelas. Mas na verdade não é nada disso.

Começando pela minha irmã, que sabe como irritar uma pessoa sem nem abrir a boca. Ela é do tipo que age, sem nem pensar ou avisar antes. Nesse momento, irritantemente ela está me chutando por baixo da mesa. Olho para ela com a cara feia, pedindo em silencio para que ela pare. Mas ela tem o dom de me ignorar completamente, com um olhar debochado.

Não é hora de brincadeiras.

Estou começando a ficar irritado. Mas tento me controlar.

Meus pais estão juntos há... Quase vinte anos. Eles se apaixonaram cedo e se casaram cedo também. Olhando pra eles, não há quem diga que eles não se amam mais. Mas eu sei que esse casamento está... Esgotado. Sim, algumas coisas chegam ao fim, por mais doloroso que seja admitir. Eles não admitem isso, claro que não. Mas eu sei que um já não suporta mais o outro, pela maneira como eles se olham e se tratam. Não há mais aquela conexão... Nem carinho, afeto ou amor. Eles apenas se suportam, só não sei até quando essa farsa vai durar. Não seria tão mais simples dar o braço a torcer?

Eles merecem ser felizes, são os meus pais. Não importa como. Longe ou perto daqui, com outro alguém ou não. Eu não queria que eles se importassem tanto com os outros que vão dizer ou pensar. Mas no fundo, eu sei que isso não é tudo. Eles se importam com a gente, comigo e com a minha irmã. E é por isso que eles ainda tentam superar essa fase difícil. Pois com o amor que eles têm por nós, há esperança de que isso passe e tudo volte ao normal.

Mesmo que eu deseje o melhor para os dois, eu também me preocupo com as possibilidades de uma futura separação. Afinal, há tanta coisa em jogo. Por exemplo, com quem nós iríamos ficar? Com a mamãe ou com o papai? Iríamos ter que vender a casa e nos mudar? Essa seria uma separação amigável ou os dois acabariam ficando com um ódio mortal um do outro pelo resto da vida? Não gosto nem de pensar nesses absurdos!

— Caramba, Gabi. Para com essas criancices!

Ela venceu. Ela sempre vence.

Olho feio para ela, como se fosse capaz de estrangulá-la.

— Porque você não pode agir normalmente como qualquer outra garota?

Pela reação de espanto dela, eu peguei pesado dessa vez. Não que ela se importe, ela não se importa com nada. Ela só não gosta de perder.

— Pai, o Pedro está me ofendendo!

Ela se faz de inocente, recorrendo ao papai que, Deus sabe, faria qualquer coisa para proteger e defender sua garotinha preciosa.

Gabriela é uma excelente atriz.

— Você está me chutando, sua maluca!

— Mas eu não fiz nada! Todos viram!

Mamãe fecha os olhos por um momento e suspira fundo.

— Pai!

Continuamos discutindo, até o meu pai perder a completamente a paciência, batendo os punhos com força na madeira da mesa, fazendo um estrondo grande que assustou a todos nós.

— Já chega! – ele grita nervoso. — Pedro, peça já desculpa a sua irmã!

— Pai, não. Ela começou... Vocês não percebem...

— Pedro, peça desculpa agora a sua irmã.

Eles não vêm, mas nesse momento a Gabi está sorrindo, triunfante. Em momentos assim eu a odeio mais que qualquer outro no mundo.

— Nem pensar. – levanto-me, impaciente. Sem olhar para ninguém. — Mas que droga, Gabriela! – pego o meu prato, olhando fixo para ela. — Porque você tem que estragar tudo? Que garota infantil!

Com o meu prato em mãos subo correndo até o meu quarto, trancando-me lá dentro para terminar o meu jantar após bater forte a porta.

Não é que eu odeie a minha irmã, por mais que às vezes eu sinta que sim. O que eu odeio mesmo é o meu pai, cego do jeito que é, defende-la de tudo, mesmo quando a culpa é dela, só dela.

Apesar de terminar de jantar em questão de segundos, fico enrolando no computador até as dez da noite. Não quero descer e dar de cara com o meu pai, ainda estou muito nervoso com ele e com essa situação toda.

Quando desço enfim não há sinal de ninguém por ali, está tudo praticamente escuro, com apenas os abajures ligados. Lavo meu prato, tomo um copo d’ água e saio o um pouquinho lá fora para pegar ar fresco.

Não há programas para essa sexta-feira. Quer dizer... Deve ter. O Rafael sempre sabe de alguns. Mas eu não estou a fim de sair essa noite. Só quero descansar por um tempo, ficar sozinho e organizar as idéias.

Sento-me no degrau em frente à porta da minha casa.

Moro em um sobrado verde-claro.

As casas em volta são praticamente todas iguais a minha.

— Não está bravo comigo, está? – ouço a voz da minha irmã. Ela se aproxima, fechando a porta devagar. Gabriela senta-se ao meu lado.

— Não... Não estou. Quer dizer, – olho pra ela, sorrindo um pouco. — às vezes eu gostaria de poder te matar. Mas isso passa rápido.

— É, eu entendo. Às vezes eu também sinto isso. – ela sorri também, passando uma mecha do cabelo escuro pra trás. — Uma vontade louca de me livrar de você e ficar com tudo isso – ela abre os braços. – só pra mim.

Nós dois rimos ao mesmo tempo.

— Bom – ela levanta-se repentinamente, olhando as horas no visor do celular. — eu já vou indo. Estou atrasada!

— O quê? – olho para ela espantado. Que eu me lembre nós não combinamos nada com o resto do grupo. — Pra onde? Agora?

— Olha irmãozinho, eu realmente gosto muito de você. Não tem como evitar, mas sinceramente, não preciso te dar satisfações.

Gabi faz uma careta.

— Mas e o papai?

— O velho já foi dormir. Relaxa.

— Você vai sozinha...?

— Sim e não.

— Posso ir com você então?

Geralmente nós saímos juntos. Apesar de odiá-la (às vezes, ou quase sempre) ela ainda é minha irmã mais nova e eu me preocupo.

— Claro que não, Pedro! Me deixa.

Gabriela corre até o portão, virando-se uma ultima vez para trás.

— Nem ouse a abrir essa boca grande para o papai.

— Eu não ia...

— Nem ouse a me seguir ou me ligar.

Quando foi que ela ficou tão... Adulta? E tão esperta?

— Ah, antes que você pergunte: não, a sua amada, a Nati, não vai comigo e nem vai estar lá. Mas se você quer saber, eu acho que você deveria deixar de ser tão mané e ir falar com ela logo, antes que seja tarde demais.

Antes de desaparecer completamente ela me manda um beijo e corre, como se ainda fosse uma garotinha indo para o parquinho. No fundo, eu ainda sinto que ela é uma garotinha. Perdida. Irresponsável. Mentirosa. Sem coração e intolerante. Mas ainda sim a minha garotinha.

Eu dormir incrivelmente bem noite passada, não tenho uma noite tranquila assim há semanas. Levanto-me cedo no sábado. A casa está em total silencio e ela é só minha, já que meus pais estão trabalhando e minha irmã provavelmente desmaiada no quarto por ter chegado as quatro da madrugada. Tomo meu café da manhã, assisto um pouco de televisão e saio pra almoçar fora, na primeira lanchonete que aparece pela frente.

Quando estou terminando meu X-Calabresa, vejo meu celular vibrar sobre a mesa. É o Rafael. Quem mais poderia ser? Rapidamente limpo meus dedos no guardanapo, tomo meu ultimo gole de Guaraná Antártica para o lanche descer com facilidade e o atendo.

— Onde você ta? – ele pergunta, sem rodeios. — Fui à sua casa e você não estava lá. Onde é que você se enfiou?

Até parece que ele é minha namorada. Ou pior: minha esposa.

— Ué, eu sou livre, você sabia? – dou um risinho, ouço-o suspirar impaciente do outro lado. — Estou... Hum... Almoçando. O que você quer?

— Preciso de você. Agora. Deu pra entender? – ih, pelo visto o Rafael está uma fera. — Estou no campinho. Vê se não demora, Pedro! Preciso de alguém no meu time, cara.

Já entendi.

Pago a conta e saio em dispara até o campinho. Um campinho ainda de terra, com uma graminha rala desgastada pelo tempo, próximo a casa do Rafael. Muitas crianças brincam no parquinho por ali, já os pais ou seja lá o que eles forem daquelas crianças, estão acomodados nos bancos da praça.

Aproximo-me do Rafael, assim que o avisto. Ele está no centro de uma roda de garotos que têm mais ou menos a mesma idade que a gente. Provavelmente ele conhece todos ali. Quem o Rafael não conhece em toda São Paulo? Assim que ele me vê pede pra eu tirar a camiseta.

Quê? Não! Como assim?

— Tá esperando o que Pedro? – ele me encara, puxando-me de lado. Rafael solta um sorriso e acena de longe para um grupo de garotas que estão por ali, afastadas, de olho na gente. O rostinho bonito se desfaz em segundos, quando ele volta a me olhar— Você é do meu time, cara. Os sem-camisa.

Não tenho outra escolha: tiro a camiseta. Sou obrigada a jogar.

Jogamos a tarde toda, mesmo debaixo daquele sol escaldante. O grupo de garotas, que não tiraram os olhos de nós durante todo o tempo, solta gritinhos e batem palmas, como se nos incentivassem. Quando o sol está se pondo nós saímos de cena. Um garoto, o qual desconheço o nome, do nosso time, o vencedor, convida todos nós para ir a casa dele mais tarde, festejar a nossa vitoria, como se isso realmente fosse importante.

— Claro que nós vamos! – O Rafa responde por nós, sorrindo de orelha a orelha. — Me manda o seu endereço pelo WhatsApp e as nove em ponto nós estaremos lá. Pode ter certeza!

— Coloca o seu numero aí então – o garoto entende o celular para o Rafael, que rapidamente digita seu numero, salvando-o na memória. — Ah, se quiserem podem chamar uns amigos, de preferência, algumas gatinhas.

O time todo solta risadinhas.

Rafael e eu voltamos para a minha casa para nos arrumarmos.

O cara é tão folgado que já têm até uma parte do meu guarda-roupa só pra ele, de tantas vezes que ele veio dormir aqui. E também para que não precise ficar pegando as minhas coisas emprestadas, porque isso é bem chato. Tomamos banho (separados, ok?), colocamos roupas limpas, comemos alguma coisa e saímos. A aquela altura o Rafael já havia ligado para a turma, convidados a todos para a tal festinha.

Ficamos de nos encontrar lá, na casa do tal André Torres.

A casa do tal André é imensa, deu pra perceber de fora. Mas ele não parecia... Riquinho. Se é que dá pra entender. Quando chegamos por lá no horário combinando a festa já estava acontecendo nos fundos da casa. Onde não só encontramos o time, mas também uma multidão de pessoas. Bebendo, conversando, rindo, dançando, gritando, pulando, se agarrando e tudo isso que geralmente acontece em festas assim.

Fiquei me perguntando onde é que os pais do André estão.

— Fica tranquilo! – O Rafael disse, como quem lê meus pensamentos. Ele me estende uma latinha de cerveja. — O cara mora sozinha, já é maior de idade e tem tudo isso só pra ele. Deve ser uma loucura!

Sei bem a qual, ou quais, loucuras ele está se referindo.

Imagine a merda que iria ser se o Rafael morasse sozinho, assim, exatamente como o André. Em uma casa imensa e... com tudo que tem direito.

Não ia prestar.

— Olha só quer chegou, Pedrão. – odeio que ele me chame assim, ele sabe. Mas faz só pra me provocar, eu sei.

Rafael cutuca a minha costela com o cotovelo.

Olho na mesma direção que ele. E lá vem a Bianca no meio, do lado esquerdo a Luiza e do lado direito a Natália. Isso mesmo, elas vieram. Ou melhor, a Nati veio. Rafael acena para elas histericamente, quando nos vêem elas se aproximam, sorrindo. Nos dão abraços e beijinhos.

Sou meio suspeito pra dizer, mas com certeza a Nati é a mais bonita. Eu não sei como ela consegue, mas a cada dia que se passa ela está ainda mais bonita. E muito cheirosa por sinal. Acho que já posso limpar a baba.

— Vai lá garanhão! – o Rafa me empurra de leve na direção na Natália, que se afastou pra pegar uma cerveja. Quase tropeço nos próprios pés.

Será que todo mundo já percebeu que eu estou apaixonado por ela?

Será que ela já percebeu também?

Só de pensar nessa possibilidade eu fico nervoso, minhas pernas ficam meio bambas e minhas mãos soam frios. Que patético! Ela riria de mim se soubesse que essa é minha reação quando tocam o nome dela.

Eu preciso me descontrair, preciso não ficar pensando tanto nessas bobagens, preciso ser mais seguro de mim mesmo, preciso me divertir... Vou beber! É isso. Eu preciso beber pra relaxar.

O que não ajuda tanto, já que não consigo para de olhar para a Nati, que nesse momento está dançando com a minha irmã no meio de um grupo de garotos que parecem predadores. Isso está me matando! Eu estou morrendo de ciúmes de uma garota que nem ser quer é minha garota.

— Eu acho que você deveria ir lá. – eu estava sozinho no momento, até o Rafael voltar a aparecer. Evidentemente bêbado, como sempre.

Em festas ele sempre some por minutos, ou até mesmo horas. Pra que? Pra ficar por aí, se esfregando com qualquer garota que der bobeira.

— Rafael, sai pra lá cara. Vai atrás das suas “minas” , vai.– empurro, ele ri alto. — Você é chato pra caralho!

— E você é bundão pra caralho! – ele provoca, rindo ainda mais. Tão alto que chama atenção de um grupo de amigos próximo a nós. — Mas tudo bem, se você não quer a minha ajuda – ele trava, só pra olhar para uma morena corpuda que acaba de passar na nossa frente. — tem quem queira.

E novamente ele se vai, para a minha sorte.

— Se divertindo muito?

Eu, que estava olhando para o outro lado levo um susto.

— Nati...?

— Oi. Eu mesma.

Ela está sorridente.

— O que foi? Você parece... Entediado.

— Na verdade, não. Eu me sinto bem melhor agora.

Por quê? Ela está ali, bem ao meu lado. Tem coisa melhor?

— Você não me convenceu.

— Eu tô falando sério...

Ela faz uma careta bonitinha, depois passa uma mecha do cabelo vermelho atrás da orelha. Um gesto comum entre elas, mas que é extremamente encantador.

Especialmente vindo dela.

— Não importa... Vem dançar comigo, vem.

Ela me puxa pelo braços e lá vamos nós.

Notas finais
Esse Pedro é tão... Fofo. O que vocês têm a me dizer sobre ele?