Todos Iguais
5 Luiza
Notas iniciais

Eu tenho o péssimo hábito de ficar pensando em um montão de bobagens antes de dormir. Mesmo morrendo de dor de cabeça, os pés doloridos de tanto dançar e com o corpo exausto não posso deixar de pensar que as coisas poderiam ser diferentes se não fossem tão complicadas.
Naquela noite de sábado nós concordamos em ir à festa de um amigo do Rafael, o André. E foi até legal. O cara é super bacana e muito sortudo em ter uma casa imensa só pra ele, além de muitos amigos. Teve muita bebida, música alta e gente nova. Das nove e meia da noite até as duas e meia da manhã aconteceram muitas coisas.
Depois de ter sido apresentada para uma grande quantidade de gente, a Bianca, minha melhor amiga, me convenceu a dançar. Nós dançamos e bebemos por longas horas, até eu já não aguentar mais. Ao contrário de mim a Bia estava realmente animada àquela noite e continuou dançando com uns garotos novos que ela conheceu e que não tiravam os olhos dela.
Não demorou muito para um deles criar coragem e arrastá-la para o canto escuro mais próximo. Ainda não tivemos tempo para conversar sobre isso, mas eu tenho quase certeza de que eles ficaram juntos o resto da noite, já que eu não voltei mais a vê-la.
No meu canto, muito cansada e bebendo a minha cerveja tranquilamente, eu vi muitas coisas estranhas aquela noite.
Por exemplo, o Rafael se insinuando para cima da Gabriela mesmo estando agarrado a outras garotas. Ele piscava e sorria. Eu gosto muito mais dele do que dela. A garota é uma chata quando quer, vive pegando no meu pé e da Bianca. Mas será que está rolando algo entre eles que eu não saiba? Pela troca de olhares eu deduzo que sim. Certamente o Pedro, irmã da Gabi e melhor amigo do Rafa, vai ficar uma fera quando souber da novidade.
O Felipe, que já era de se esperar, também ficou de canto, apenas bebendo e observando a movimentação. Ele é assim mesmo, meio reservado. Chega a ser estranho e esquisito. Mas eu particularmente não tenho nada contra ele. Ele é bonitinho, inteligente e tudo mais, mas sinceramente, eu fico a maior parte do tempo me perguntando qual é a dele.
Bom, mas o pior de tudo foi flagrar o Pedro conversando intimamente com a Natália. Eles sorriam um para o outro, apesar de parecerem um tanto embaraçados, cheios de vergonha. E pra piorar: os dois terminaram a festa dançando juntos e cochichando sabe-se lá o que no ouvido um do outro.
Estava mais que explicito: estava rolando alguma coisa entre aqueles dois e eu estava morrendo de ciúmes. Sim, ciúmes. Eu admito.
Eu já deveria ter percebido que desde que a Nati entrou no grupo, no início do ano, o Pedro tem mudado de comportamento quando o assunto é ela. Ele bem que tenta disfarçar, porque eu mesma não tinha percebido nada até então. Mas bastou ligar os pontos para concluir que ele está caidinho por ela, o que já era de se esperar, claro. A Natália é um encanto de menina.
A grande verdade é que eu gosto dela. Muito mais do que devo gostar da Bianca, que é a minha melhor amiga há muito tempo. Eu gosto da Nati muito mais que uma simples amiga e eu vivo na esperança de que aconteça alguma coisa que possa finalmente nos unir, mesmo sem entender exatamente o que se passa dentro de mim em relação a ela.
Eu me dei conta disso essa noite, quando eu me vi morrendo de ciúmes dela com o Pedro. Cheios de intimidade e conversinhas. Eu me vi louca pra pular do pescoço do Pedro, que é um bom amigo pra mim, mas que ainda assim estava com a minha garota.
E eu tive ainda mais certeza de que eu assim como o Pedro (ou como muitos outros) estou apaixonada pela Natália, quando um garoto qualquer, que se apresentou com Daniel Fernandes se aproximou de mim, interrompendo meus devaneios, me ofereceu uma bebida, puxou conversa e por fim me convidou pra dançar com ele.
E eu simplesmente neguei. Rejeitando-o.
Eu deveria ter me dado conta de que eu sou diferente da grande maioria das garotas quando todas as vezes que um garoto se aproximava, mostrando interesse por mim, eu não sentia nada. Absolutamente nada. E no fundo, achava que era normal. Como se eu ainda não estivesse preparada para dar um passo em frente, como as minhas amigas, ou como a Bianca.
Claro que eu já fiquei com alguns garotos, mais por pressão do que por qualquer outra coisa. Meu primeiro beijo foi com um garoto, no caso, um primo distante, nas minhas férias na sétima série. Não foi um dos melhores beijos da minha vida e nem dos piores, só foi embaraçoso, como costuma ser o primeiro beijo de qualquer pessoa.
E os outros que vieram a seguir foram parecidos: nem melhores nem piores e eu até então não via problema nisso. Talvez eu só devesse esperar pelo momento certo, pelo garoto ideal. Coisas assim. Mas aí tudo mudou quando a Nati chegou ao colégio e quando ela entrou na minha vida de maneira repentina. Pouco a pouco as coisas foram sendo esclarecidas dentro de mim e por mais que parecessem erradas, eu, depois de tanto tempo, senti que finalmente estava preparada para dar um passo a mais. Que eu finalmente estava pronta para me apaixonar, porque havia encontrado o momento certo, e que eu finalmente havia encontra a pessoa certa.
Eu ainda não parei pra conversar com ninguém sobre essas coisas, ainda é tudo uma novidade até mesmo pra mim. É confuso, estranho, diferente e embaraçoso. No fundo eu tenho certo receio em ser rejeitada pela grande maioria, por ter me encontrado enfim. Mesmo que nos dias de hoje essas coisas sejam mais comuns. Eu não sou boba nem nada e sei que há complicações e também muito preconceito ainda. Não será fácil, disso eu sei. Eu ainda estou tentando criar forças e coragem para me "revelar".
Existe uma grande demanda de coisas que eu devo reavaliar, antes de me abrir com qualquer pessoa. Eu ainda vivo escondida, com medo de ser rejeitada e discriminada por ser diferente. Mas quando a Natália está por perto, sinto todos os meus medos irem embora. Ao lado dela, por um momento, mesmo que ela não saiba dos meus verdadeiros sentimentos, porque até eu mesma ainda estou tentando lidar com tudo isso; ao lado dela sinto que sou capaz de coisas que eu nunca me vi fazendo antes.
Se ela estiver ao meu lado eu sinto que serei mais forte.
Quando eu a vi a primeira vez, no primeiro momento eu pensei que ela não passasse de uma criação da minha imaginação fértil. Mas aí todos do colégio começaram a falar sobre a garota e eu comecei a me dar conta de que precisava fazer algo a respeito. Porque eu sempre imaginei que não deve ser nada fácil ser novato e eu não queria deixá-la na mão. Desde o primeiro momento senti-me na obrigação de defendê-la e protegê-la.
Fui a primeira a me aproximar dela e imediatamente nós nos identificamos. Começamos a conversar, descobrimos que tínhamos muito em comum, que nossos jeitos, gostos e preferências eram parecidos e não demorou muito para ficarmos amigas. Eu a apresentei ao resto do grupo e todos a aceitaram muito bem. Quando eu me dei conta a Nati já fazia parte do nosso grupo e todos, além de mim, se davam bem com ela.
É fácil gostar de alguém como ela. Que tem mais qualidades a oferecer do que defeitos. A Natália é especial. Não digo isso só porque estou... Apaixonada por ela. Mas é possível enxergar a verdade na imensidão do negro de seus olhos. Ela é bonita, inteligente, carismática, sensata, uma excelente amiga e companheira, ela é prestativa, educada, carinhosa, reservada no ponto certo, tímida de um jeito encantador, sorridente e tantas outras qualidades que deixam qualquer um babando.
Pensando nela, mesmo ainda estando uma fera com o Pedro (sei que o coitado na tem culpa, mas é inevitável não me sentir como se tivessem tirando algo meu), eu acabado adormecendo aquela noite.
Acordo às onze da manhã daquele domingo ensolarado. Estamos no finalzinho do verão. Nas ultimas semanas de Março. E eu só quero aproveitar ao máximo uma das minhas estações do ano preferida.
Levanto-me e antes mesmo de seguir até o banheiro eu arrumo a minha cama e dou uma organizada básica no meu quarto. Meu quarto é grande, mas geralmente está organizado. Aqui em casa as coisas devem estar impecáveis, ou a mamãe tem um surto.
As paredes do meu quarto são pintadas de um lilás bem clarinho, com alguns enfeites de borboletas na parede. A mobília é branca. Tenho um pequeno closet de um lado, a cama do outro, escrivaninha, uma cômoda, penteadeira com um espelho grande e algumas prateleiras na parede com minhas bonecas antigas, ursinhos, porta-retratos e alguns poucos livros.
Depois, vou até o banheiro, tomo um banho morno, visto um short jeans não muito curto, uma blusinha cinza com a gola caída, calço meu All Star vermelho e prendo meus longos cabelos castanhos em um alto rabo de cavalo para me livrar do calor. Hoje dispenso a maquiagem.
Moro em um condomínio de alto padrão no Jardins Paulista, São Paulo. No mesmo prédio em que a Bianca e o Felipe. Diferentemente da minha melhor amiga, eu não moro na cobertura. Meu prédio é mais simples, o aluguel é mais barato e não vivo só de luxuria. Pelo contrário, aqui em casa é tudo minimamente bem planejado.
Encontro o meu pai, Tobias, trabalhando no escritório. Ele é advogado, ama o que faz. Mesmo aos domingos de sol. A mamãe, Daniela, está dando um limpadinha na cozinha. Ela é fissurada em faxina e em organização. A minha mãe é professora no jardim de infância.
Cumprimento os dois com beijos e depois de pegar meu café e algumas torradas com geleia, sento-me no sofá da sala para não atrapalhar a minha mãe na cozinha, ligo a tevê e começo a assistir enquanto tomo o café da manhã sem tentar derrubar nenhuma migalha no sofá ou no chão.
Eu amo meus pais, de verdade. Mas nós também não somos uma família perfeita, como qualquer outra. Nós vivemos bem e fazemos tudo ao nosso alcance para uma melhor convivência. Meus pais estão casados há anos, se conheceram na infância. Foi amor a primeira vista. Eles têm a mim como única filha. E isso já é o bastante.
Meus pais têm um defeito: eles são extremamente rigorosos, rígidos e religiosos. Eles nunca me obrigaram a ir à igreja, tanto que eu nem vou. Foi uma escolha minha e pra eles tudo bem. Mas enquanto eu viver de baixo do mesmo teto que eles eu preciso obedecer às regras.
Eu necessito ter boas notas, eu necessito ser educada, ser uma boa aluna e uma boa filha. Eu tenho a obrigação de lavar o meu prato, arrumar o meu quarto e o meu guarda-roupa. Não posso falar palavrão, nem falar em voz alta e nem pensar em assistir ou ler determinadas coisas. Tenho hora pra chegar, tenho hora pra estudar, temos horas pra comer e conversar. Não posso vestir qualquer coisa e antes de entrar em casa tenho que tirar o sapato ou seja lá o que eu esteja calçando. Nada de bebidas alcoólicas, cigarro, drogas ou namorados. Antes de levar qualquer amigo pra casa eu preciso pedir a autorização e antes de sair pra qualquer lugar preciso pedir a permissão. E estar sempre, sempre mesmo, com o celular em mãos.
Pode parecer simples, mas não é nada fácil. Eu realmente me sinto sufocada dentro da minha própria casa, diante dos meus próprios pais. Tanto que acabei criando vários maus hábitos. Por exemplo: mentir. Tornou-se a minha maior especialidade. Minto para onde vou, com quem vou ou o que estou fazendo. Mas acima de tudo minto sobre mim mesma com medo da reação não só do mundo, mas também a dos meus pais.
— Filha, querida, você quer que eu te leve ao parque? – pergunta o meu pai quando finalmente saiu do escritório. Já é uma hora da tarde.
— Oh, sim pai. – sorriu, virando-me para ele. — Eu vou ligar para a minha amiga pra confirmar se ela vai comigo. Tudo bem?
Ele sorri em resposta.
Faz um tempinho já que eu combinei com a Natália de passarmos uma tarde no parque para passar o tempo. Ou simplesmente sair da rotina.
Vou até a sacada, retiro meu Smartphone do bolso do short e ligo para ela, na esperança de que o nosso combinado ainda esteja de pé.
A Bianca, a minha melhor amiga, não pode nem sonhar com a possibilidade de que eu vou sair sem ela. Nós somos como carne e unha.
Eu só quero passar um tempo com a Nati, só eu e ela e sem nada para interferir. Ainda mais depois de ontem. Eu necessito esclarecer algumas coisas, ou só assim poderia tirar esse peso do meu coração.
— Sim, claro. Eu vou! – ela disse. — Você passa aqui ou eu vou aí?
— Vou passar aí com o meu pai às duas horas, tá bom pra você?
Ajudo o meu pai a colocar a minha bicicleta no carro e só assim podemos sair, rumo à casa da Nati. Onde ela já estava esperando por nós na calçada, sorrindo. Após cumprimentar o meu pai e trocar uma dúzia de palavras com ele, ela e eu o ajudamos a colocar a sua bicicleta junto a minha.
Meu pai nos deixa em uma das entradas do parque Ibirapuera. Antes de voltar pra casa ele diz que vêm nos buscar as seis da tarde. Cinco horas são suficientes pra mim. Com nossas bicicletas eu e a Nati adentramos o parque, que está sempre bem movimentado. Nós pedalamos rápido, lado a lado, passando pelas pessoas e sorrindo uma para a outra.
Eu não poderia estar mais feliz.
Continuamos a pedalar pela ciclovia do parque, conversando um pouco sobre a festa de ontem. Sem entrar em muitos detalhes.
Eu simplesmente amo parques, a natureza, a minha bicicleta, dias de sol, o ar batendo no meu rosto, o céu azul e as nuvens. Por mim eu ficaria assim, pedalando sem parar pelo resto do dia. Mas a Nati que não é tão acostumada com a coisa tanto quanto eu, se cansa rápido e nós temos que dar uma pausa para descansar por um momento.
Deixamos as bicicletas de lado e nos sentamos juntas próximo ao lago, onde por um curto momento ficamos admirando os gansos nadarem.
— E você se divertiu muito ontem na festa? – pergunto como não quer nada, olhando de relance para ela.
A Nati está usando um jeans justo nas pernas curtas de lavagem clara, uma regata branca e seu All Star azul-marinho. Seus cabelos vermelhos cereja estão soltos, presos somente na lateral com uma presilha cor-de-rosa.
— Ah, eu realmente me diverti muito. – ela sorria, sem tirar os olhos dos bichinhos, no meio do grande lago do parque. — Eu pensei que ia ser uma chatice, mas o Pedro melhorou e muito a minha noite de ontem.
— Hum. – desvio o olhar, tentando não deixar a minha irritação prevalecer. — Você, tipo, está gostando dele?
— Oh, não. – ela solta um risinho. Volto a olhar para ela, vendo que ela está levemente corada. Não sei se de vergonha ou por conta do sol. — Quer dizer, eu não sei ainda. Ele é uma graça.
Se eu gostasse de garotos... Certamente o Pedro seria um bom partido para se investir.
— Eu estou morrendo de sede. – levanto-me em um pulo, limpando a parte de trás do meu short jeans. — Quer beber alguma coisa?
Eu peço água e ela opta por uma Coca-Cola bem gelada.
Com as nossas bicicletas de lado nós andamos pelo parque ainda conversando sobre assuntos paralelos, caminhando entre as grandes arvores, que proporcionam uma sombra refrescante.
Passamos por alguns skatistas que descaradamente ficam assobiando quando a gente passa por eles. Ignoro-os completamente. Me dando conta só agora do quanto alguns garotos tão patéticos e imaturos, quando nessa idade a maioria das garotas são bem mais evoluídas. Não é atoa que eu prefira garotas a garotos. Nós somos bem mais maduras e sensíveis.
Nossa conversa é interrompida de vez, quando o celular da Natália começa a tocar. Rapidamente ela o tira do bolso da calça jeans e sorri largamente quando vê o nome do Pedro piscando no visor.
Ela faz um sinal para mim e se afasta para atendê-lo.
Aquela altura eu já estou começando a perder a paciência com o Pedro. Ele precisava mesmo ligar justamente agora? Bem quando eu estava começando a ficar mais tranquila, mais solta, mais a vontade. Quem sabe eu até tomaria coragem para tocar em determinado assusto. Mesmo certa de que a assustaria, eu sabia que ela entenderia se eu fosse sincera.
— Desculpa, Lu. – ela se aproxima novamente, guardando o celular no bolso novamente. — O Pedro queria me ver... Mas aí eu tive que explicar a ele que estava passeando com você. Então deixamos para outro dia.
— Fico feliz que ele tenha entendido. – digo, sem olhá-la diretamente nos olhos. — Meus pés estão começando a doer. – eu minto. — Olha ali – aponto para um lugar mais vazio, mais reservado. Na sombra. — Vamos nos sentar ali e descansar por um instante antes de voltarmos pra casa.
Natália concorda e me acompanha.
Sentamo-nos de baixo de uma arvore. Não há ninguém em volta. Aproveito para deitar sobre a grama, com o corpo esticado. Olho para o céu, admirando as nuvens branquinhas como algodão.
— O quê você vê quando olha para aquela nuvem? – eu aponto para o céu, perguntando-a ela.
Mesmo confusa e surpresa, ela deita-se ao meu lado. Seu corpo muito próximo ao meu, fazendo nossos braços se tocarem.
A sensação é ótima.
— Pra mim parece uma baleia. – ela responde, sorrindo de lado. — Mas e para você, o que parece?
— Eu não sei ainda. – solto um risinho, virando a cabeça de lado, encontrando seus olhos pretos dentro dos meus olhos castanho-esverdeados. — Estou em duvida entre um navio e uma baleia também.
Ela ri.
Ficamos nos entreolhamos por um momento, caladas.
É a primeira vez em quase dois meses em que nos conhecemos que eu me sinto verdadeiramente conectada a ela de todas as maneiras. Seus olhos escuros transmitem algo a mim que eu não saberia definir em palavras. Palavras não seriam o bastante para definir o que eu sinto nesse momento, com a Nati tão perto de mim como nunca estivemos antes, por estarmos sempre rodeadas de pessoas. Meu corpo todo é uma confusão de sentimentos e a minha mente processa muito rápido, eu não consigo acompanhá-la. Algo me diz que esse é o momento certo para agir.
Levanto a cabeça um pouco, inclinando-me lentamente em sua direção com o coração disparado. Seria ela capaz de ouvi-lo bater tão acelerado e tão alto? Eu não sei. Mas sei que ela observa cada movimento meu com atenção, sem desviar ou sem reação.
Eu preciso arriscar. Ou nunca saberei se o que eu sinto é verdadeiro, ou apenas enganação. Provavelmente ela não sinta o mesmo e nunca sentirá, mas eu preciso que ela saiba o que eu sinto, o que eu quero, o que eu espero e o que eu desejo. Mesmo que não seja em palavras, mas que eu seja corajosa o suficiente para agir nesse momento que eu sei que será único.
Fecho os olhos quando finalmente colo meus lábios nos dela, pressionando-os de leve. Não é exatamente um beijo. Já que ficamos assim por alguns segundos que parecem uma infinidade. É um selinho. Delicado, carinhoso, precioso e repleto de sentimentalismo.
— Luiza...?
Inesperadamente ela senta-se, afastando-se como se eu tivesse acabado de tentar matá-la com um beijo tão simples. Natália já não está mais olhando pra mim, evidentemente confusa. Ela passa as mãos pelo cabelo curto, aflita. Eu não consigo ver seus olhos. Mas sei que eu deveria tentar me explicar ou simplesmente abraçá-la, garantir que isso não passou de um engano ou dizer qualquer outra coisa que não a afaste de mim.
— O que você fez...?
É uma pergunta que eu não sei responder, mas pelo menos não agora, que ela esta olhando pra mim, quando posso ver a confusão em seus olhos repletos de lágrimas. Na certa agir não foi uma boa, eu deveria ter pelo menos tentado dizer alguma coisa antes de tomar qualquer iniciativa.
Agora ela está chateada comigo e não há nada que eu possa fazer para contornar essa situação, já que eu estou paralisada de medo.
Ela levanta rapidamente, pega sua bicicleta no chão, montando sobre ela com uma agilidade surpreendente e sem nem olhar para trás, eu a vejo desaparecer entre as arvores, se perdendo entre as pessoas.
Ela se foi, deixando-me para trás.
Já são quase seis horas quando eu vou rumo a uma das saídas do parque, ainda atordoada. Meu pai chega em questão de segundos, pronto para me levar de volta pra casa.
— Ué, mas cadê a sua amiga? – ele pergunta, olhando para os lados a sua procura. Enquanto eu ajudo a colocar a bicicleta no carro.
— Ela já foi embora. Teve que ir mais cedo, aconteceu um em previsto e ela não pôde esperar. – minto descaradamente.
Mas ele nem desconfia.
Volto para casa e a primeira coisa que faço depois de guardar a minha bicicleta é me trancar no quarto pelo resto da noite, fingindo estar estudando para não ser importunada por meus pais curiosos.
Penso em ligar para ela, não sei, talvez a gente possa conversar, esclarecer as coisas e eu prometeria nunca mais fazer nada do tipo.
Não quero perde-la. Eu não posso nem imaginar que deixaremos de ser amigas por minha causa. Não é justo. A amizade dela já é o bastante pra mim. Eu não deveria ter confundido as coisas. Mas pelo menos agora eu tenho uma certeza: sim, eu a amo.
Apesar de tudo, das impossibilidades, eu a amo.
Não, é melhor eu não ligar. Pelo menos não hoje.
Tento em vão limpar as lágrimas que insistem em cair dos meus olhos.
Amanhã será outro dia. Veremos-nos no colégio, teremos aula juntas e tudo voltará ao normal. É o que eu quero, é o que eu espero. A Nati tem o coração mais puro que eu conheço e sei que ela na ficará brava, chateada ou magoada comigo por muito tempo. Vai passar. E nós voltaremos a ser amigas.
Tento convencer meu coração de que tudo será como antes.
Isso não passa de um terrível pesadelo.
Mas é difícil convencer meu coração quando ele está tão inquieto.
Eu necessito fazer alguma coisa. Qualquer coisa.
Pego meu celular ma cabeceira da cama e rapidamente digito uma mensagem de texto que será destina a ela. E isso é tudo por enquanto.
“Eu sinto muito por tudo. Eu não queria... Eu juro que tudo não passou de um grande mal entendido. Não fica brava comigo. Não vai acontecer de novo, eu garanto. Eu nem sei o que estava passando na minha cabeça quando eu resolvi... Você sabe. Espero que ao menos você possa me desculpar.”
Ainda com lágrimas nos olhos acabo adormecendo antes mesmo do esperado, com o aparelho celular nas mãos, na esperança de receber uma resposta, qualquer resposta. Uma resposta que não veio e olha que eu esperei por muito tempo. Peguei no sono antes mesmo de ter que descer para o jantar.
Fale com o autor