Todos Iguais
7 Natália
Notas iniciais

Ficamos até as sete da noite no colégio.
Bianca havia me procurando aquela manhã durante o intervalo para pedir ajuda com a matéria de Química, pois ela teria um prova muito importante amanhã e estava desesperada por ter aprendido tão pouca coisa nesses dois meses desde que as aulas se iniciaram.
Eu, claro, não iria deixar uma amiga minha na mão. A Bianca pode ter todos os defeitos do mundo, mas ainda assim ela é minha amiga e eu ajudaria no que estivesse ao meu alcance. Como eu sou uma das únicas no grupo com notas altíssimas ela resolveu me procurar, já que ela e o Felipe (outro nerd) não se dão tão bem assim.
E lá fomos nós: revisar todo o conteúdo da matéria na biblioteca.
— Eu não sei o que seria de mim sem você, Nati. – ela me pegou de surpresa, abraçando-me logo depois de termos guardado os materiais. — Muito obrigada mesmo. Agora eu estou bem mais tranquila.
Sorri timidamente para ela.
A Bia é sim uma boa aluna, ela só não se esforça o bastante por pura preguiça. Só quando as coisas estão pesadas mesmo. Mas ela aprende a matéria com facilidade, desde que a ensine com jeitinho. Às vezes eu acho que ela só precisa de um empurrãozinho, mas pelo que ela fala dos próprios pais parece que ela tem tudo, menos o incentivo deles.
Eu a entendo perfeitamente.
Após deixarmos o colégio ela pede ao motorista, o Marcel, que me deixe primeiro em frente de casa. Eu agradeço a carona e me despeço.
Ao entrar em casa jogo a mochila sobre o sofá da sala vazia. O barulho, as vozes, o cheiro de comida veem da cozinha e é pra lá que eu vou.
Não é surpresa nenhuma dar de cara com a minha mãe, Elisa, com um novo namorado. Ela troca de namorado todas as semanas, a cada final de semana. A minha mãe é muito jovem ainda, com apenas trinta e três anos e é por isso que ela age como uma adolescente na maior parte do tempo.
Tento ignorar o fato de que a minha mãe está sentada no colo do tal cara, que até então eu desconheço, beijando-o mesmo na frente do bebê.
Dona Elisa não tem um pingo de juízo.
Pego o bebê no colo, que no caso é o meu irmão, o Lucas. Ele só tem oito meses. Pela manhã quando estou no colégio ele fica na creche aqui do bairro e pela tarde, no comecinho da noite, quando a minha mãe está saindo do supermercado onde ela é gerente, ela vai buscá-lo.
Eu sou praticamente uma mãe para ele.
Levo-o até o andar de cima, onde ficam os quartos. Seu pequeno quarto de bebê fica em frente ao meu. É um quarto simples, bem decorado, com as paredes pintadas de azul-claro, a mobília branca infantil.
Com agilidade eu troco sua frauda e o faço dormir, balançando-o devagar nos meus braços até ele pegar no sono. É normal que o meu irmãozinho esteja estressado, choroso e sensível. Tudo que ele precisa é de um descanso, assim como eu. Mas que no momento não será possível.
Ao colocá-lo no berço, fecho a janela, ligo o abajur e apago a luz antes de deixar a porta entreaberta, caso ele resolva acordar e chorar.
Mesmo ali de cima sinto o cheiro de comida queimada.
— Mãe, olha as panelas. – grito do alto da escada. — Ta queimando!
Como resposta ouço uns ruídos bem estranhos vindo de trás de uma das paredes: do quarto da minha mãe. Reviro os olhos. Sei exatamente o que está acontecendo ali dentro. Não gosto nem de imaginar, apesar de isso ser impossível. Eu meio que já estou acostumada a presenciar coisas assim.
Não que eu aceite, pelo contrario. Até porque eu acho que a minha mãe deveria despeitar mais a mim e ao meu irmão. Mas não há nada que eu possa fazer a respeito. É meio natural sabe? Ela não faz de propósito.
Minha mãe ficou grávida de mim aos dezesseis anos, com a minha idade. Foi uma gestação bastante complicada. Seus pais, meus avós, não aceitaram na época e praticamente a jogaram no meio da rua. Mas a minha mãe não se abalou. Não desistiu de mim e seguiu a diante.
O único problema é que ela sempre foi assim... Como eu posso dizer isso? Ela sempre foi muito ousada, para não usar palavra pior. Sendo assim eu nunca soube ao certo quem é o meu pai. E não é como se eu fizesse questão. Não que eu o culpe, ou culpe ela por ser tão... Imatura. Mas é que eu já estou bem grandinha. Agora eu já sei me virar. Não preciso que ninguém se importe ou se preocupe comigo. Nada disso! Pelo contrário: eu é que tenho que agir como adulta aqui já que a minha mãe está tentando recuperar o tempo perdido, agindo como uma garotinha.
Ela não age só como uma garota da minha idade em relação aos homens não. Se bem que é... Namorar é com ela mesma. A minha mãe também gosta muito de sair com as amigas, que são tão infantis quanto ela. As roupas da minha mãe são piores que as minhas. O tipo de conversa da minha mãe chega a ser constrangedor. Comigo, com a própria filha, ela quer conversar sobre tudo: sexo, namoro, moda, colégio, garotos, festas... É terrível. Eu não sei o quê exatamente ela tem na cabeça.
Mas eu também não faço o tipo de filha mal agradecida. Porque sei que muitas garotas, até mesmo as minhas amigas, têm mães muito diferentes da minha e que do jeito delas são bem piores. Eu só acho que a minha mãe deveria ser mais adulta, pelo menos em certos aspectos. Porque às vezes eu não quero só mais uma amiga. Às vezes eu só preciso de uma mãe. Uma mãe que ela ainda não está preparada para ser e eu nem sei se algum dia estará.
Ainda assim eu a amo e serei eternamente agradecida por tudo que ela fez por mim ao longo dos anos. E sozinha. Nem por um momento ela pensou em desistir de mim, de nós. E ela pode até bem maluquinha, mas ela é muito amorosa, carinhosa, acolhedora e amigável. Eu amo a minha mãe, que é como um pai, uma amiga, uma irmã para mim.
Ela é jovem, bonita, morena, alta e magra, dona de um par de lindos olhos azuis cristalinos e merece ter toda felicidade do mundo. Mesmo que a definição de felicidade para ela seja bem diferente da minha.
Desço correndo até a cozinha. Mexo as panelas e abaixo o fogo. O jantar está quase pronto... Eu só preciso esperar um pouquinho mais.
Em seguida subo para tomar um banho quentinho, visto meu pijama de frio, já que a noite está bem gelada com a chegada do Outono, prendo meus cabelos vermelhos com um elástico, calço meus chinelos e desço para jantar antes que a comida esfrie completamente.
Sento-me a mesa de jantar sozinha, com o prato de comida cheio diante dos meus olhos. Está tudo calma, tranquilo e em completo silencio. Até ser surpreendida pelos gritos da minha mãe, que desce as escadas desesperadamente com uma toalha em volta do corpo. Em uma das mãos ela tem um chinelo. A minha mãe, aquele momento, está colocando pra correr mais um de seus namorados, que morrem de medo dela.
Eu confesso que eu também me assusto bastante com a minha mãe.
Principalmente quando ela age... Assim.
— Mãe! – levanto-me, assustada. — O Lucas está dormindo!
Ao expulsar o homem ela tranca a porta, voltando a respirar normalmente. Ela enche o peito de ar e suspira fundo. Como se não tivesse acontecido nada e entra na cozinha, enche um prato com comida e senta-se na cadeira a minha frente para jantar comigo.
— O que foi aquilo? – resolvo perguntar-, sentando-me novamente. — Eu pensei que estivesse tudo bem.
— E estava. – ela continua comendo, sem me olhar diretamente. — Só que eu fui tomar um banho depois de... Você sabe o quê e aí quando volto para o quarto pego o cretino vasculhando a minha bolsa. Dá pra acreditar, minha filha? O safado pretendia me roubar!
Bem feito. Espero que ela aprenda, de uma vez por todas, a não colocar qualquer homem aqui, dentro da nossa casa, precipitadamente.
— Mas já está tudo resolvido. Não se preocupe. – ela sorri, erguendo os olhos na minha direção. — Mas e você e o gatinho do Pedro?
Quase engasgo com o resto da comida.
— O que tem ele?
— Vocês estão bem?
— Ah, sim. Estamos.
— E vocês estão... Namorando?
— Mãe!
— Ué, eu disse alguma coisa de errado?
— Não... É que falar sobre isso com você é estranho.
— Natália! Eu sou sua mãe, mas também sou sua amiga.
— É isso que torna tudo ainda mais estranho.
Faço uma careta para não chateá-la. Ela detesta se sentir velha.
— Hoje você lava a louça. – digo, levantando-me para colocar o prato vazio na pia. — Eu já vou deitar. Boa noite! – beijo seus cabelos. — E nada de ficar até tarde assistindo tevê! Vê se dorme cedo para acordar cedo.
As paredes do meu quarto são recobertas por um papel de parede floral em tons pastéis, a mobília é escura, as cortinas também e normalmente está tudo em perfeita ordem. Do jeitinho que eu gosto. A bagunceira nessa casa não sou eu e sim a minha mãe.
Deito-me após trancar a porta e apagar as luzes. Mas estou sem sono por enquanto, só me sinto cansada. Por um momento fico encarando o teto, pensando na vida. Pensando no quanto a minha família é tudo, menos normal. Ou no quanto eu tenho me apegado ao Pedro ultimamente. Ou nas notas altas que eu tenho alçado esse ano. Ou no beijo inesperado que uma das minhas amigas, a Luiza, me roubou alguns dias atrás no parque.
Eu tenho a evitado desde então. Por mais que ela tenha tentado se desculpar ou se explicar. Eu já não consigo olhar pra ela e sentir a mesma coisa que antes. Tudo mudou. Se ela gosta de garotas ao invés de garotos, pra mim tudo bem. O errado foi ela pensar que eu sentiria o mesmo. Eu não guardo rancores, só preciso de um tempo para assimilar essa novidade. Afinal, fui beijada por uma garota. Isso é totalmente esquisito pra mim.
Acabo pegando no sono por volta das dez horas. E acordo somente as três da madrugada com o choro do bebê. A minha mãe deve estar no sétimo sono, normalmente ela não ouve o Lucas chorar. Nem que ele esteja aos gritos. Já eu tenho sono mais leve e é por isso que me levanto rapidamente, antes que ele acorde a vizinhança inteira com seus berros.
Quando o Lucas crescer terá muito que me agradecer.
Pego o no colo e imediatamente ele para de chorar, sorrindo de leve para mim com lágrimas nos olhos. Ele é um garotinho bem esperto e bonito também: puxou os olhos azuis da mamãe e os cabelos loiros escuro do pai.
Desço com ele para lhe dar a mamadeira.
O pai do Lucas sempre foi um dos melhores amigos da minha mãe, desde que ela era assim como eu, uma adolescente. Porém grávida e completamente perdida no mundo. O Leandro sempre esteve ao seu lado, apoiando-a de todas as maneiras possíveis. Até mesmo quando ela ficou sem teto, ele cedeu um espaço na casa dele para ela ficar.
Os dois sempre foram muito ligados, apesar de ele ser cinco anos mais velho. Mas nunca se casou e nem nada do tipo. Ele sempre aparece aqui em casa para ajudar no que for preciso. Ele é como um tio pra mim. Aí, no ano passado, ele e a minha mãe saíram para beber. Ficaram tão fora de si que pela primeira vez, em tantos anos, os dois tiveram algo mais que uma simples amizade. E aí surgiu o Lucas. Um sortudo, por sinal.
O Leandro ama o filho mais que qualquer outra coisa. Ele e a minha mãe não voltaram a ter mais nada... Tudo não passou de um simples engano. Ele vive a sua vida lá e ela aqui. Ainda assim o Leandro paga pensão e vem buscar o Lucas de tempos em tempos para ficar com ele. Ou ele simplesmente vem fazer uma visita. Traz presentes pra ele e pra mim. O cara é um amor de pessoa. Bem que ele poderia ser o meu pai também.
Na manhã seguinte, já no colégio, enquanto estou na aula de Inglês, fico torcendo para que a Bianca se dê bem na prova de Química.
Todo aquele esforço não pode ser em vão.
No intervalo sento-me com os meus amigos de sempre, que são poucos, porém suficiente. Conversamos pelo resto do tempo. Particularmente me dou bem com todos eles. Uns mais que outros. Por exemplo, eu falo bem pouco com o Rafael. Temos pouco em comum. Sou mais próxima a Bianca, o Felipe, e antes, da Luiza. Mas de uns tempos pra cá tenho ficado mais próxima a Gabriela, irmã do Pedro.
À tarde, estou na minha aula de Artes, quando sou surpreendida por mãos grandes e macias que cobrem meus olhos durante a ausência da professora que nos deixou livre para pintar enquanto ela saiu para buscar mais tintas e pinceis no deposito.
Pelo perfume sei que é o Pedro, e começo a sorrir.
— Como você sabia que era eu?
— Ah, quando se trata de você eu sei o bastante.
Ele sorriu, desviando o olhar por alguns segundos.
— Queria te levar a um lugar.
— Agora? Pedro, eu estou em aula.
— Eu sei, mas... Nati, você já é uma boa aula.
Aquela carinha fofa dele me convenceu.
— O.K. Mas se eu levar uma bronca da professora a culpa é sua.
— Você não vai. Ela nem vai sentir a sua falta.
Ele me puxa pela mão até a saída da sala.
— Como ela não vai sentir a minha falta? Eu sou tão invisível assim, é?
Ele ri.
— Não, boba. – ele continua a me puxar corredor a fora. — O que eu quis dizer é que ela nem vai sentir a sua falta tanto quanto eu sentiria.
Pedro me leva até o jardim do colégio. Em uma parte mais isolada, onde há alguns banquinhos perto de algumas flores e uma fonte de água.
Passamos o resto dos minutos ali, de mãos dadas, conversando normalmente como se fossemos namorados. O que não somos. Já que ainda não conversamos diretamente sobre isso. Mas admito que de uns tempos pra cá tenho notado que o Pedro tem me olhado de um jeito bem diferente do que normalmente ele olha para as outras e isso despertou em mim algo que até então eu desconhecia. Então eu pensei: Porque não?
Ele é tímido, eu também, mas com jeitinho a gente faz dar certo.
Ele é tão bonito. Eu adoro o tom pálido de sua pele clara e o contraste dos cabelos negros com os olhos verdes como a grama. E o mais interessante é que poucas garotas, pelo menos que eu saiba, conseguem enxergá-lo dessa forma. O Pedro não é só mais uma sombra do Rafael, seu melhor amigo. O Pedro é único, ele é especial. Carinhoso, romântico e sensível. Pelo menos ele não sai por aí iludindo qualquer uma para tirar proveito disso.
Eu tenho um carinho especial por ele que vem crescendo a cada dia, desde que ele se dispôs a dedicar boa parte do seu tempo a mim.
O dia inteiro ficou praticamente nublado e com o chegar da noite o vento esfriou. Vou caminhando lentamente pelas calçadas movimentadas da cidade até em casa. Eu poderia pegar um ônibus, seria bem mais rápido. Mas hoje resolvi ir andando, para pensar um pouco sobre certas coisas. Ou melhor, sobre um determinado alguém.
Eu não sei exatamente o que eu sinto por ele. O Pedro. Não é paixão, nem amor e não tem nada a ver com sexo. Eu o admiro, é isso. Por tudo que ele é e por tudo que ele ainda quer ser. Ele não é mais bonito, nem o mais inteligente, ou mais esperto, mais romântico... O Pedro é Pedro. Mesmo todo tímido, tentando me agradar na maior parte do tempo.
Eu gosto dele. Gosto de ficar com ele. Mas não gosto de ficar pensando no que isso vai ser, daqui um tempo, se é que vai ser alguma coisa. Eu só quero viver o momento. Quero conhecê-lo melhor, quero passar mais tempo com ele, quero que ele me conheça mais, quero ter certeza de que isso gerará coisas boas no futuro para mim, para nós, das quais eu não me arrependa.
Distraidamente continuo andando, pensando no sorriso dele e sorrindo também. É quase automático.
— Nati, espera. – ouço alguém me chamar. Mas não sei em qual direção. — Eu preciso falar com você.
Viro-me para trás e vejo a Luiza se aproximar de mim correndo.
Volto a andar, ignorando-a completamente. Será que ela não entende que eu não tenho nada pra conversar com ela? Depois do beijo eu me sinto estranha e completamente desconfortável perto dela. Não quero que isso atrapalhe a nossa amizade, por isso tenho que evitá-la por enquanto.
— Você não pode fugir de mim pra sempre! – ela segura forte o meu braço, fazendo-me me virar em sua direção. — Fala comigo, caramba.
— Luiza, não temos nada pra conversar. Está tudo bem. Olha, eu já esqueci o que aconteceu naquele dia. Eu só... Não me sinto mais confortável perto de você. Mas não se preocupe, eu já te desculpei e...
— Não é só isso! – ela parece nervosa e impaciente, ainda segurando meu braço com muita força. — É que eu cansei de esperar, sabe? Você precisa saber: Nati, eu amo você. É isso. Você não vê? Aquele beijo não foi só um engano... Eu fiz porque queria ter certeza que eu estava certa quanto aos meus sentimentos por você. Mas, não dá pra ficar vendo você e Pedro pra cima e pra baixo fingindo se amarem. Isso está me matando!
— Nós não estamos fingindo nada. Eu gosto dele! E ele gosta de mim. Nós estamos... Vivendo. – tento manter meus olhos nos dela, para que ela entenda de uma vez por toda. — Não me entenda mal, Luiza. Mas eu não sou gay. Se você é, está confusa, perdida e com medo... Desculpa-me, mas tudo que eu posso fazer por você é te apoiar. Mas eu não te amo... Quer dizer, não como você me ama. Eu não sei... Isso tudo é tão confuso pra mim!
Ela finalmente me solta, após um grupo de pessoas passarem por nós e olharem pra gente com curiosidade. Luiza parece abalada com o que acabo de dizer e passa a mão nervosamente pelos longos cabelos castanhos.
— Você não pode está falando sério...
Fico sem entender o que ela quer dizer com isso.
— Luiza, acalma-se. – toco-a, sentindo suas mãos geladas. — Eu não sei o que fez você pensar que eu gostava de você assim ou que eu gostasse de garotas como você. Mas, você está enganada. Eu gosto do Pedro... Ele é tão bom pra mim. Eu só quero aproveitar isso... Com ele. Desculpe-me se estou sendo dura com você, mas é a verdade. Eu não sou o que você pensa que eu sou ou o que você espera que eu seja.
Mesmo que ela esteja evitando me olhar nos olhos, posso ver que ela está tensa e prestes a chorar.
— Luiza... Nós somos amigas.
— Não! Nós não somos!
Nesse momento ela está gritando comigo.
— Eu não quero ser só a sua amiga, Nati. – ela enfim me olha, com lagrimas escorrendo dos olhos escuros com a noite. — Eu quero mais que isso. Eu sinto mais que isso. E você nem faz ideia do quanto isso está sendo difícil pra mim. Eu nem tenho certeza do que eu sou, mas eu sei exatamente o que eu quero. – ela se aproxima, tocando meu rosto. — E eu quero você.
Mesmo ali, praticamente no meio da rua, diante de curiosos, ela me beija mais uma vez. Fico sem reação... Pega novamente de surpresa.
— Luiza, não! – afasto-me, nervosa. — Eu não sou... Assim.
Corro rápido. Mas não estou indo mais para casa, pois não quero que ela me encontre novamente. Lágrimas escorrem dos meus olhos e continuo correndo. Em direção a casa do Pedro. Sim, porque é ali que eu quero estar nesse momento tão delicado. Eu preciso dele bem junto a mim.
Eu só consigo pensar nele nesse momento tão confuso.
— Nati, o que aconteceu com você? – ele pergunta, assim que abre a porta pra mim. — Porque você está chorando?
Como eu não consigo responder, ele me abraça forte.
Com a sua ajuda subimos até o seu quarto, onde ele tranca a porta e pela primeira vez eu sento-me em sua cama. Pedro se aproxima, passando o braço por mim. Nesse momento eu estou chorando bem menos. Pois nos braços dele eu sinto conforto, eu me sinto segura e em paz.
— Pedro...
Sussurro, olhando fixamente para ele. Com o polegar o Pedro limpa as minhas ultimas lágrimas e eu consigo sorrir com a sua delicadeza. Ele age como se eu pudesse quebrar a qualquer momento. Envolvida pelo calor do momento aproximo meus lábios dos dele, unindo-os pela primeira vez. Sua boca é quente e úmida, seu hálito é refrescante. Pedro leva uma das mãos até os meus cabelos e a outra para na minha cintura, puxando-me um pouco.
Ainda beijando-o, deito-me devagar, puxando-o para cima de mim. Com todo cuidado do mundo Pedro tenta não colocar todo o peso do corpo sobre o meu, beijando-me romanticamente. Passo meus dedos por toda extensão do seu rosto perguntando-me porque eu demorei tanto para experimentar isso. É tudo tão bom. Parece tão certo. Eu só queria aproveitar um pouco mais. Por isso me atrevo a enfiar as mãos por baixo da sua camiseta de algodão, sentindo o pelo de suas costas se arrepiarem.
Pedro beija meu pescoço, olhando-me a todo o momento como se pedisse permissão para continuar, para ir mais além. Sinto sua boca percorrer por meu corpo, enquanto toco-o com cuidados. Sentindo sua pele arrepiada, a maciez de seus cabelos e seus sussurros de prazer.
Livro-me de sua camiseta, beijando seu peito e sua barriga lisa. Ele me observa com atenção, sorrindo de leve. Tiro a minha blusinha e depois com a ajuda dele tiro meu sutiã branco de renda. Pedro me admira por um momento, avaliando-me. Sinto minhas bochechas arderem.
Voltamos a nos beijar, agora com mais intensidade. Não demora muito para nos livrarmos das peças de baixo, ficando ambos nus. Ele se move em cima de mim com cuidado e devagar. Aumentando o ritmo apenas quando eu mordo seu lábio ou enterro minhas unhas em sua pele.
Naquele momento sinto que perdi complemente a minha vergonha e me dou conta de que é a primeira vez que me entrego a um garoto. Que por sinal, é o garoto certo para mim. Eu sinto que sim, pela maneira como ele me beija, pela maneira como me olha ou como me toca. Eu confio nele e estou completamente à vontade, mesmo nua diante de seus olhos verdes.
Meu coração bate descompensado, a minha respiração está acelerada, meu corpo está suado, saem ruídos estranhos da minha boca, minhas pernas tremem por um segundo... Solto um gemido abafado. Estou exausta e ao mesmo tempo me sinto preenchida de alguma forma.
Pedro cai ao meu lado, tentando recuperar o fôlego. Viro a cabeça para olhar para ele. Sorrimos um para o outro. Ele pega a minha mão e a beija delicadamente. Preciso dele novamente. Então resolvo me aproximar, permitindo que ele passe os braços em volta do meu corpo ainda quente. Deito a cabeça em seu peito, passando a ponta do dedo suavemente pelos contornos da sua pele branca. Pedro beija meus cabelos e me abraça.
Ficamos calados pelo resto da noite até à hora de eu ir embora, apenas saboreando aquela estranha sensação de satisfação.
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