Notas iniciais
Felipe será o ultimo que irei apresentar individualmente, ainda sem relevar exatamente tudo. Com o tempo cada segredo e mistério será relevado, não se preocupem.

Acordei no meio da noite com o barulho forte da chuva batendo de encontro ao vidro da janela do meu quarto. Além de estar chovendo estava frio. Acendi a luz do meu abajur ao lado da cama e me sentei, agora sem sono. Olhei no visor do celular e já se passava das duas da manhã.

Olhei em volta e me senti solitário. Eu tenho me sentido muito sozinho desde a morte do meu irmão. O quarto sem a companhia dele já não é mais o mesmo. Quando ele estava aqui eu costumava achar esse cômodo muito pequeno para nós dois, agora sem ele parece grande até demais para mim.

Ainda durmo na parte de baixo do beliche. A janela fechada está logo em frente, com as cortinas brancas cobrindo-a. As paredes do meu quarto são azul-marinho. Em um dos lados está o guarda-roupa e ao lado a escrivaninha. Na parede da porta de madeira está as minhas prateleiras com os meus bonecos e os meus quadrinhos da Marvel.

Pego a minha mochila jogada sobre a cadeira e de lá de dentro tiro meu livro de Biologia. Em algumas horas terei uma prova importantíssima e por mais que eu já tenha estudado, sinto que devo dar tudo de mim enquanto eu puder. Sendo assim, volto a me ajeitar sobre o colchão, cobrindo-me com o meu edredom e volto a estudar pelas próximas horas.

O tempo passa rápido e quando dou por mim já é quase sete horas, a hora que normalmente eu costumo acordar para ir ao colégio. Desde a morte do meu irmão, há quase quatro anos, tenho dormido pouco e mal. Ou perco com sono com facilidade por qualquer coisinha ou acordo suando frio por conta dos meus aterrorizantes pesadelos. Onde vejo o meu irmão morrendo novamente de todas as formas possíveis.

Isso parece nunca ter fim.

Tomo um banho quente, visto um jeans escuro e minha camiseta cinza do Hulk e calço meu All Star preto mesmo sujo e rasgado na lateral. Como está friozinho lá fora pego um moletom liso na cor preta com capuz, passo a mão no meu cabelo loiro escuro, ajeito no meu topete e dou uma ultima olhada em mim mesmo antes de sair com a minha mochila.

Meus olhos cor de avelã essa manhã estão tão escuros quanto o céu dessa sexta-feira chuvosa.

Meus pais já estão à mesa, tomando o café da manhã. Eles nem se querer se importaram em me chamar para se juntar a eles ou para certificarem se eu já havia acordado para não perder o horário. É como se eu existisse mais para ele.s Ambos já estão prontos para sair para o trabalho. Meu pai, Paulo, trabalha como funcionário público. A minha mãe, Silvia, é pedagoga.

Sirvo-me com leite quente quando a minha mãe enfim ergue os olhos na minha direção. Sua expressão não é nada agradável e me deixa um tanto assustado. Afinal, eu acabei de entrar aqui, na cozinha. O que tanto de errado eu poderia ter feito a essa hora da manhã?

— Tira já essa blusa. – ela não pede, ela ordena. — Essa blusa não é sua, Felipe. Essa blusa era do seu irmão. Tira agora!

— O quê? Não! Mãe. – olho para ela sem acreditar que ela está gritando comigo por causa disso. É só uma blusa. Idaí? Era do meu irmão, o que automaticamente significa que pode ser minha também. — Eu...

Eu não tenho mais roupa.

Há muito tempo ela não compra nada pra mim, nem mesmo o necessário.

— Felipe, tira agora. – ela me interrompe, olhando-me dentro dos olhos o que me dá certo arrepio. — Você não vai usar o que é do seu irmão. Você nunca será como ele! Quando é que você vai entender isso?

Tento ignorá-la, mas algumas lágrimas começaram a dificultar a minha visão. Meus pais são duros e frios comigo. Não costumava ser assim, mas desde a morte do Guilherme eles me tratam como se eu não significasse nada para eles. Como se eu não pertencesse mais a essa família. E tudo isso porque ambos me culpam pela morte do meu irmão. Eu o amava mais que qualquer outra pessoa. Ele era tudo pra mim. Eu jamais cometeria tamanha crueldade com o meu próprio irmão.

Só eu sei a falta que eu sinto dele e da importância que ele tinha na minha vida. Só eu sei como é difícil continuar sem ele por perto. Só eu sei o quanto é sofrido viver uma vida da qual ele não faz mais parte. Ele e eu éramos muito próximos, muito amigos, muito unidos. Mesmo ele sendo cinco anos mais velho. Fazíamos de tudo juntos. O Guilherme me ensinou tudo que eu sei. Ele me defendia, ele se orgulhava de mim, me motivava, era paciente e estava sempre ao meu lado. Eu tinha o meu irmão como um exemplo. Quando eu era menor costumava desejar ser como ele algum dia.

Mas então ele se foi. Tragicamente. Nem dá para expressar em palavras o quanto eu fiquei abalado com a sua morte. Todos os dias eu sinto muita falta dele e fecho os olhos na esperança que ele reapareça. No primeiro ano foi muito difícil superar tal trauma. E o pior de tudo: tive que seguir em frente sozinho. Meus pais também sofreram muito, mas nem por um momento se preocuparam comigo, com o que eu sentia. Pelo contrário, eles praticamente jogam na minha cara, até hoje, que a culpa da desgraçada lançada sobre a nossa família foi e sempre será toda minha.

Como você acha que eu me sinto ouvindo isso dos meus próprios pais?

Deixo o meu leite de lado, pego a minha mochila e vou apressadamente até a porta, rumo à saída, antes que eu me atrase para o colégio. Eu já não me sinto bem nessa casa. Aqui eu sou desprezado, sou invisível, rejeitado. Eu não tenho amor, carinho e nem a compressão ou apoio dos meus pais. Tudo que eu consigo, conquisto, faço e alcanço é por mim e pelo meu irmão. Eu já teria desistindo de tudo, se ele não tivesse me ensinado a seguir em frente independentemente das circunstâncias.

Meu irmão, o Guilherme, era a pessoa mais incrível, sábia, inteligente e forte que eu já conheci. Hoje em dia eu suporto melhor a sua ausência, na esperança de que esteja fazendo o certo, para que ele, onde quer que esteja, ainda sinta orgulho de mim. Mas é impossível não me lembrar dele ou pensar nele em qualquer lugar que eu esteja, com um desejo imenso martelando no peito que ele estivesse ali, bem ao meu lado.

Se ele ainda estivesse aqui seriamos todos felizes. Eu não me sentiria tão solitário, tão incapaz, tão infeliz ou tão descartado. Com certeza eu seria uma pessoa melhor se ele estivesse por perto para me alertar sobre os perigos da vida, guiando-me na direção certa. A mamãe ainda me amaria e se lembraria de que ainda tem um filho, mais novo, e ela não me culparia por algo que eu não fiz. O quarto ainda seria pequeno para nós dois, aproveitaríamos ao máximo cada momento de nossas vidas, brigaríamos por qualquer bobagens, mas logo depois faríamos as pazes.

Hoje tento compensar o meu sofrimento fazendo tudo que eu aprendi a gostar por ele: estudar. Isso sim é o que eu sei fazer de melhor. Mesmo que as minhas notas altas não tenham nenhum efeito sobre os meus pais. Não é como se eles se importassem com alguma coisa que eu faça, por melhor que eu seja. Nem que eu seja, tipo, o melhor aluno do colégio. O único lugar onde eu me sinto valorizado. Não pelos alunos, pelos colegas ou amigos. Mas sim pelos professores, que me tratam de uma maneira especial e que estão sempre me motivando a ir cada vez mais além.

Desço o elevador do prédio e quando saio na rua sou surpreendido pela chuva fina e gelada. Dias assim, chuvosos e frios, hoje pra mim são muito deprimentes. Com o Guilherme ao meu lado dias assim costumavam valer a pena, quando depois de fazermos os deveres do colégio nós passávamos o resto do dia jogando vídeo-game ou assistindo filme.

Cubro a cabeça com o capuz do moletom e vou correndo até o ponto de ônibus, até o outro lado da rua. Chego ao colégio quinze minutos atrasado, o que não é novidade. Tenho prova na primeira aula, sento-me em uma das carteiras da frente, um dos únicos lugares vazios e me preparo mentalmente para mais uma avaliação.

Eu não deveria ficar tão nervoso assim, já que dificilmente tiro notas abaixo de sete. Ainda mais quando eu estudo o bastante. O problema é que pensamentos negativos, como o desprezo dos meus pais por mim, sempre vêm à tona quando eu mais preciso de concentração.

Ainda assim consigo terminar a prova vinte minutos antes de acabar a aula. Estava tão fácil. Foi moleza. E como fui o primeiro a terminar o professor pediu gentilmente para que eu saísse, para não atrapalhar ou distrair os outros. Guardei meu estojo, peguei minha mochila e fiz exatamente o que ele pediu. Mas antes alguém puxou a barra da minha blusa, chamando-me a atenção discretamente. Enquanto o professor estava ocupado demais dando uma boa olhada na minha prova.

Era o Rafael. Com os olhos claros desesperados, em busca de uma salvação. Que no caso, sou eu. Com muito cuidado tirei um pequeno pedaço de papel do bolso e joguei sobre a mesa dele antes que o professor me visse passando cola. Eu sempre ando preparado, para ajudar os mais próximos.

Pego um dos meus mais novos quadrinhos de super heróis de dentro da mochila, sento-me em um dos bancos vazios no pátio, olho para os lados ao perceber que estou praticamente sozinho (fora os alunos que estão ali matando aula) e começo a ler antes que a próxima aula comece.

— Cara, você salvou a minha vida. – Rafael senta-se ao meu lado, dando batidinhas de leve nas minhas costas. Interrompendo a minha leitura, mas não me importo. Não tanto. — Valeu mesmo, Fê.

Sorrio para ele, em resposta.

Vejo que ainda está chovendo, um pouquinho mais forte agora e o vento está ficando cada vez mais gelado. Impressionante com o tempo aqui em São Paulo muda da noite para o dia. Depois de um guardar o meu quadrinho dentro da mochila, olho em volta e vejo que em um ponto não muito longe dali o meu amigo Pedro está sentado de frente para a Natália, os dois de mãos dadas, conversando animadamente.

É impressão minha ou eles parecem... Apaixonados?

— Você nunca fala? – Rafael pergunta repentinamente, surpreendendo-me. Ele é sempre assim: nada de rodeios. Fala tudo na lata. — Tipo, você não gosta de falar ou... O quê? Cara, eu não me lembro qual foi a ultima vez que eu ouvi o som da sua voz. O que foi? Desaprendeu a falar, foi?

Ele ri. Eu tento não parecer ofendido com essa observação.

— Ah. – dou de ombros. — Não é nada. Bobagem minha!

Ele assente, compreensivo. Por sorte resolve não tocar mais no assunto quando vê o mesmo que eu: Pedro e Natália.

— Não importa. Você é um cara legal mesmo assim. – Rafael levanta-se, olhando na direção do amigo, o Pedro. Depois ele volta olhar pra mim novamente. — Valeu mais uma vez pela ajudinha na prova. Agora se me der licença, eu vou ali encher um pouco o saco daqueles dois.

Ele sai correndo, sentando-se entre o casal.

Sorrio, observando-os.

Rafael é mesmo uma figura. Meio sem noção, fala muita coisa sem pensar. Mas eu gosto dele. Gosto do jeito descontraído dele, sempre disposto a animar a turma. Mesmo que abuse um pouco as vezes. Em parte ele até que me lembra em muito o meu irmão: facilidade em fazer amigos.

Minha próxima aula é de Historia. Quando chego à sala a maioria dos lugares já estão ocupados. Detesto ter que passar por um mar de gente me encarando até chegar a um dos únicos lugares vazios no fundão. Onde, surpreendentemente, a Bianca está sentada também.

Mesmo não olhando diretamente para ela, enquanto me sento, sei que ela está olhando pra mim, com aquele sorrisinho sacana.

Nós somos sim do mesmo grupo de amigos, geralmente frequ entamos os mesmos lugares com os outros e inevitavelmente estamos sempre por perto.Não é como se eu a odiasse. Eu só detesto que ela fique me olhando todo o tempo, querendo insinuar alguma coisa. Parece que ela está todo o tempo zombando de mim internamente, rindo da minha cara.

Afinal, não pode ser outra coisa fora isso. Uma garota com ela, assim tão popular, não iria se encantar por um garoto como eu. Nem mesmo somos amigos. Apenas conhecidos. Um pouco íntimos demais. Mas é só isso. Não temos nada em comum além dos amigos e dos maus hábitos.

E não é como se o tipo dela me atraísse. Não gosto de garotas superficiais, comuns, fúteis, cabeça-oca, patricinhas, metidinha, carentes de atenção e clichês. A Bianca pode até ser uma das mais bonitas do colégio, o tipo de beleza almejada, mas eu gosto mesmo é da Gabriela.

Ela sim me atrai muito. Gosto do jeitinho solto dela, brincalhão, descontraído, diferenciado, alternativo, fora dos padrões. Gosto de suas roupas pretas rasgadas, seu cabelo escuro bagunçado e maquiagem borrada. Adoro a cor indefinida dos olhos dela. Eu não me importo se ela costuma ser maldosa, livre e ousada até demais, ou que gosta de aprontar e não dar a mínima para com o que vão dizer ou pensar. Como se ela não tivesse sentimentos. Porque no fundo eu sei que ela age assim por proteção. No fundo eu sei que ela é frágil e sensível. Que precisa de cuidados.

O problema é que eu sou tímido demais, estúpido demais, nerd demais, reservado demais, fechado demais, travado demais... E parece que eu nunca vou ter coragem de dizer a ela que eu a amo, mesmo secretamente, mesmo sendo tão diferentes. Eu só queria que ela soubesse que eu faria qualquer coisa para protegê-la e para estar com ela em todos os momentos.

Algo interrompe meus pensamentos, quando foi lançado sobre a minha mesa. Olho para o lado e sei exatamente de onde veio aquela bolinha de papel. Sei exatamente quem a atirou em mim.

— Abra. – Bianca gesticula, sem voz.

Faço o que ela pede, abrindo a bolinha cuidadosamente. E só então me dou conta de que não é só uma bolinha de papel, é um bilhete.

Ela escreveu com sua letra exageradamente desenhada:

“Oi.”

Penso duas vezes antes de devolver o bilhete e escrevo:

“Oi.”

Volto a minha atenção para a explicação do professor sobre a Diversidade Cultural no país, fazendo anotações sempre que possível.

“Essa foi à única forma que encontrei de puxar conversa com você. Já deu pra perceber que você não gosta muito de falar.”

Se ao menos ela soubesse o porquê. Se ao menos todos soubessem o porquê de eu mal abrir a boca eles parariam de perguntar a respeito.

“Pois é. Você é bastante observadora.”

Como se ela não soubesse mais o que dizer, ela para de escrever para mim e quando olho para ela, ela me dá um meio sorriso, diferente de antes. Não sei se ela continua zombando de mim por conta do meu constante silencio (como a grande maioria) ou se ela está tentando ser minha amiga, ou algo do tipo, mas nós nunca passamos disso. E eu nem sei se quero.

Eu me sinto estranho diante dela. Um tanto inferior.

Na saída o Pedro e o Rafael me alcançam antes que eu pegue o caminho de volta para casa. O Pedro me chama para ir com eles até a sua casa, porque como o Rafael acabou de dizer: hoje será a noite dos garotos. A idéia parece ótima. Eu preciso mesmo me distrair um pouco. E tem também a oportunidade de ver a Gabi, que eu não vejo há... O quê? Duas horas?

Fico de lado durante todo o caminho, apenas ouvindo os dois falaram bobagens sobre algumas garotas bem conhecidas do colégio. Não é novidade pra ninguém que o Rafa pega a grande maioria, inclusive a Bianca.

— Fique a vontade. – pede o Pedro, jogando sua mochila sobre o sofá na sua sala. — Meus pais não vão chegar tão cedo hoje.

Enquanto o Pedro vai usar o banheiro, o Rafael que já é praticamente de casa me leva até o quarto do amigo. Poucas vezes eu estive ali desde o ano passado, que foi quando eu os conheci. Jogamos nossas coisas no chão, sento-me na beirada da cama, meio tímido, já o Rafa se deita sobre ela ocupado praticamente toda a cama após ligar o vídeo-game.

O Pedro logo está de volta e oferece uma cerveja a cada um de nós, a qual eu aceito sem restrições. Iniciamos uma espécie de campeonato entre nós três. O tempo acaba passando bem rápido. Mas eu não ainda não vi a Gabriela. Pelo menos estou me divertindo, como sempre acontece quando estou com eles. Ainda assim não deixo de pensar no meu irmão. Sei que eles iriam se amarrar se pudessem conhecê-lo algum dia

— Eu vou pedir pizza pra gente, o que vocês acham? – sugere o Rafael, levantando-se após eu derrotá-lo na corrida.

Pizza para o jantar seria ótimo, penso.

— Esperei aí. Eu vou descer para pedir.

Antes que ele desaparece, o Pedro diz:

— Estou de olho em você, amigão. Nada de gracinhas!

Eles se entreolharam sorrindo, como se compartilhassem um segredo.

— Eu prometi a você, não prometi? Então não esquenta.

Depois disso ele se vai, com o celular em mãos para fazer a ligação lá em baixo. Já que aqui, no andar de cima, tem pouco sinal.

— Que historia é essa? Não entendi. – pergunto, dando pausa no jogo.

Pedro vira-se pra mim, surpreso.

— Ah, você fala é espertinho? – reviro os olhos, ele ri. — Bobagem. É que o Rafa andou se engraçando com a minha irmã há alguns dias atrás.

É evidente a minha reação de espanto.

Não posso acreditar que o Rafael e a Gabriela... Não quero nem pensar o que aconteceu entre os dois. Estou morrendo de ciúmes. Isso não deveria ter acontecido! A Gabi não é qualquer uma para o Rafa... Ah, esquece.

Isso não é problema meu. Ou é?

— Eu vou no banheiro! Já volto.

Saio do quarto, deixando o Pedro sozinho. Mas não vou ao banheiro, pelo contrário, desço lá em baixo para me certificar que a Gabi e o Rafa não estão aprontando. E mesmo que estejam. O que eu poderia fazer a respeito? Nada. Mas certamente o Pedro não ia gostar de saber.

Para o meu total alivio a Gabi está deitada no sofá, espaçosa, assistindo um filme qualquer de terror no HBO com um saco de pipocas em mãos. E mesmo daqui de cima, no pé da escada, eu consigo ouvir o Rafa xingando a telefonista da pizzaria pela demora com os pedidos.

— Ei – ela me vê. — ai está você.

Sorrio sem jeito, aproximando-me.

— Estava tão chato assim a tão especial “noite dos garotos”? – ela pergunta, provocativa. — Quer se juntar a mim e assistir um filminho?

Ela tira as pernas do sofá me dando espaço para me sentar.

— Que filme é esse? – resolvo perguntar, por falta de coisa melhor para se dizer. Eu sou uma negação para puxar assunto, ainda mais com a garota que eu sou a fim há quase um ano.

— A morte do demônio. – ela responde, ainda olhando pra mim. — Você já assistiu? É legalzinho. – ela faz uma careta e sorrio em resposta, porque não, ainda não assisti. Eu nem gosto desse tipo de filme pra falar a verdade. — Você deveria sorrir mais... Seu sorriso é bonito.

Fico sem reação. Eu estou enganado ou ela acabou de me elogiar?

Tentando esconder a timidez, volto meus olhos para a televisão. Pelo canto do olho vejo que ela faz o mesmo, oferecendo-me pipoca. Eu recuso, estou guardando espaço para a pizza. Mas não consigo prestar atenção no filme por muito tempo e me pego olhando para ela, observando-a atentamente. Cada detalhe de seu rosto, do seu corpo, as roupas...

— Você não deveria ficar olhando pra mim assim.

Ela me pega no flagra, parece séria. Ou incomodada.

— Ah, me desculpe... Mas por quê?

— Pode até ser que eu não entenda dessas coisas, mas eu sei reconhecer um olhar apaixonado. Há muito tempo eu venho percebendo que você olha pra mim como o meu irmão olha para a Nati. E não é querendo ser grosseira com você, mas, eu prefiro ser sincera enquanto ainda há tempo.

Espero ela continuar, quase sem respirar.

— Fê, você é super gente boa... Mas eu não gosto de você. Digamos que você seja bom demais pra mim. Eu não mereço isso. Mas você sim merece coisa bem melhor. – ela inclina-se para beijar a minha bochecha, como um gesto de consolação. Não tem como me sentir pior. — Desculpa.

Levanto-me mais rápido do que eu gostaria. Eu me sinto... Humilhado. Além de estar morrendo de vergonha pelo que acabo de ouvir. Foi como levar um tiro no peito. Fez um buraco, dói bastante. Mas o coração continua o mesmo, batendo por ela, mesmo ferido. Nada do que ela diga irá mudar isso. Meus sentimentos são reais, são verdadeiros.

Eu me sinto tão infantil!

Subo correndo de volta ao quarto do Pedro, onde ele ainda está sozinho terminando uma partida bastante concentrado. Pego minha mochila jogada no canto e resolvo me despedir. Será melhor assim. E também está ficando tarde. Meus pais não ligam... Mas eu sim ligo e me preocupo.

— Felipe, você já vai?

— É. Está tarde.

— Cara, mas e a pizza? É sexta-feira!

— Desculpe... A minha mãe... Ela ligou.

Minto na cara dura. Não sei se ele acredita, mas pelo menos não diz mais nada. Pra minha sorte a Gabi já não está mais na sala quando eu desço, mas quando já estou com a mão quase na maçaneta o Rafael entra, segurando duas caixas de pizza e uma Coca-Cola de três litros e meio.

— Ei, Felipe. Fica mais, cara.

— Não, não. Foi mal.

Continuo seguindo, rumo a minha casa. Eu não conseguiria ficar mais naquela casa nem por um segundo, nem se eu quisesse. Seria humilhante e embaraçoso demais estar de baixo do mesmo teto que a garota que acabou de me dispensar, sem rodeios. Foi melhor assim? Eu não sei. Não mudou muita coisa. Eu continuo gostando dela, talvez agora ainda mais que antes.

Isso pode até soar um tanto estranho... Mas o que eu poderia fazer além de fugir se está doendo tanto?

E pior: parece que não vai parar nunca de doer, em todos os sentidos, e isso vai fazer quatro anos.

Notas finais
Eu sou apaixonada pelo jeitinho do Felipe! Mas e vocês, me digam, o que acharam dele?