Todos Iguais
9 Bianca e Rafael
Notas iniciais

São sete da noite e o meu apartamento já está lotado.
A idéia foi totalmente do Rafael, que sugeriu déssemos uma festa para aproveitar a ausência dos meus pais aquele final de semana, já que hoje é o meu aniversário de dezessete anos e amanhã será o dele.
Eu não estava nenhum pouco afim de fazer festa em comemoração ao meu aniversário já que os meus próprios pais esqueceram essa data importante na minha vida. Fiquei sabendo ontem à tarde, depois que cheguei do colégio, através da Lídia que meus pais viajariam a trabalho e só voltariam na segunda-feira á noite.
Até aí tudo bem, normal. Mas então eu acordei hoje de manhã muito feliz, por mais um ano de vida, agradeci a Deus por tudo e passei o resto do dia fazendo tudo que eu tinha direito: manicure, cabelo, sobrancelha, depilação, massagem e esperando que pelo menos meus pais ligassem para me desejar felicidades e todas essas coisas. Toda a minha espera foi em vão, porque até agora eles não ligaram, nem mandaram presente ou um cartãozinho. E nem vão mandar ou ligar, minhas esperanças já se esgotaram.
Eu chego a duvidar que eles realmente me amam.
Pelo menos eu ainda tenho amigos. A Luiza veio cedinho e passou o dia inteirinho comigo. E depois apareceu o Pedro e o Rafael. Foi durante uma conversa na minha sala que ele acabou me convencendo a fazer a festa. Muito chateada eu não precisei nem pensar muito e concordei, desde que ele ficasse encarregado de tudo, porque eu estava muito triste pra isso.
O Rafa sempre foi muito bom pra essas coisas. Foi ele quem ligou para a galera, convidando-os. Mas eu moro em apartamento, então tudo tem que ser moderado: o tanto de convidados e o volume da musica. Sendo assim, convidamos só os mais chegados e praticamente todos trouxeram bebida. Já eu, pedi a Lídia e as outras empregadas que incomodassem docinhos, cupcakes e salgados. Pedi também que elas me ajudassem na decoração, com algumas bexigas e enfeites. E por fim eu as dispensei.
A sala do meu apartamento e o terraço — apesar de grandes e espaçosos — estão praticamente cheios. Mas antes de todos entrarem e se acomodarem, eu me certifiquei em tirar e guardar os objetos mais valiosos. Além de trancar todas as portas do andar de cima, deixando apenas os banheiros abertos. Sendo assim teríamos menos trabalho para depois.
Se tudo desse certo, meus pais nunca nem perceberiam que eu dei uma festa na nossa casa. Quando eles voltassem estaria tudo limpo e em ordem. E também eles nem tinha do que reclamar. Já que eles se esqueceram do meu aniversário e eu só queria comemorar, me divertir com os meus amigos.
— Bia, para, por favor. Você está perfeita! – diz Luiza, pela milésima vez. Tentando me convencer de que estou bem na minha fantasia de Tinker Bell. Ainda assim eu me sinto... Gorda nessa maldita roupa. — Vamos descer, vai. Assim vamos perder a festa praticamente toda.
Ela tem razão. Eu não estou perfeita, isso é exagero dela. Mas a culpa é toda minha que tive a idéia de fazer uma festa a fantasia. Ela sim está divina, com sua fantasia de Cisne Negro.
Tranco a porta do meu quarto, colocando a chave dentro da minha sapatilha de fada. Ajeito minhas asas. Luiza segura a minha mão e juntas nós descemos até a sala, onde estão todos dançando no escuro.
O Rafael “contratou” um dos amigos dele para ser o DJ da noite e com outro amigo ele conseguiu um jogo de luzes incrível para festas.
Ao me ver Rafael me dá um abraço, tirando-me do chão. Em seguida, ele me oferece uma cerveja. A essa altura ele já está bastante animado, fantasiado de Lobo Mal. Logo atrás vejo o Pedro conversando no canto com a Natália. Ele está fantasiado de Pirata e ela de Minnie.
Cumprimento alguns dos muitos convidados, sorridente. Com a minha cerveja em mãos. Eu mal reconheço a grande maioria, por conta de suas fantasias. Algumas bem criativas e interessantes. Como um grupo de garotos do terceiro ano, fantasiados todos os quatro de cangaceiros.
Aproveito que estou sozinha, já que a Luiza foi arrastada pelo Rafael para dançar, e dou uma olhada em volta, a procura do Felipe.
Será que ele veio?
Eu ainda não o vi.
Mas acabei de ver a insuportável da Gabriela no meio da pista de dança se esfregando com um garoto fantasiado de Policial. Ela está vestida de Bruxinha, fantasia que combina muito com ela.
Quando ela me ver ergue a sua cerveja com um largo sorriso, como se oferecesse um brinde a mim.
Tento ignorá-la, olhando em outra direção como se não tivesse visto ela e meus olhos enfim encontram o Felipe, na sacada, parecendo distante e solitário, enquanto encara o céu sem estrelas.
Penso se eu deveria ou não me aproximar.
Mas fico feliz em saber que ele veio e que está lindamente fantasiado de Gavião Arqueiro.
***
Eu posso até não ser um total cavalheiro, mas reconheço o olhar triste de qualquer garota. Eu gosto e sempre gostei da Bianca, desde o primeiro momento em que nos conhecemos, isso na sétima serie. Eu não poderia deixá-la na mão, justamente no seu dia. Não quando os pais dela esqueceram que era o seu aniversário. Ela realmente merece sentir-se... Especial.
Foi então que eu pensei na festa.
Cuidei de cada detalhe, para que tudo desse certo. Convidei só os melhores, pedi que trouxessem cerveja, chamei um amigo meu DJ, arranjei um jogo de luzes fluorescente e ainda por cima pedi há uns três amigos meus, do time do colégio, para que ficassem de guarda, caso algum espertinho resolvessem sair com algum objeto de valor do apartamento.
E de quebra ainda iria aproveitar para curtir o meu aniversário, que seria amanhã. Tem motivo mais especial que isso para comemorar?
São nove e meia da noite. Já perdi as contas do quanto eu bebi em tão pouco tempo, esse pode ser o meu recorde. Já estou até me sentindo um tanto zonzo e confuso. Mas isso não impede que eu me divirta. Puxo novamente a Bia pela cintura, fazendo-a mexer o corpo.
Alguém me oferece mais um drink quando a minha cerveja acaba.
A Bianca continua dançando na minha frente, cercado por marmanjos que não param de babar. Sei que ela está feliz agora, pelo sorriso e pelo brilho nos olhos. E isso me alegra e me conforta também. Ela é especial pra mim, quase como uma irmã. Eu nunca deixaria que nada de ruim acontecesse a ela.
Não se eu puder evitar.
Essa noite eu perdi completamente o meu melhor amigo, já que ele só tem olhos para a Natália. Nesse momento ele está dançando e beijando a amada. Tudo ao mesmo tempo. Eles estão bem próximos ultimamente. Não conversamos muito sobre isso, mas sei que estão bem. Não que eu esteja reclamando, fico feliz por um de nós está se dando bem.
Solto um grito, jogando os braços pra cima.
O pessoal a minha volta faz o mesmo.
Vejo de relance quando a Gabriela finalmente para se agarrar com um cara fantasiado de Palhaço, que eu sei que é da turma dela no colégio, e se afasta para ir ao banheiro. Essa é a minha chance.
Com dificuldade abro caminho entre as pessoas, dando cotovelada e recebendo também. Quando consigo alcançá-la, puxo-a pelo braço, entrando antes que ela no banheiro e a arrastando comigo. Fecho a porta com o pé.
— Eu quero você, Gabi. – a empurro de encontro à parede, com as minhas mãos em sua cintura. Tento beijá-la.
— Rafael, para com isso! – ela vira o rosto, contrariada. Mas não dou espaço para que ela se livre de mim facilmente. Porque eu sei exatamente do que ela gosta. — Você prometeu ao meu irmão que ficaria longe de mim.
— Eu não consigo. Eu não consigo! – continuo tentando beijá-la, agora com a mão em sua coxa, prestes a entrar no vestido preto de Bruxinha. — Ah, pelo amor de Deus, para com essas frescuras. Eu sei que você me quer também! Vamos aproveitar essa chance, vai.
— Rafael, se liga garoto! – ela me empurra com força, fazendo-me tropeçar para trás. — Eu não quero você. Cara, tu é convencido demais!
A Gabriela adora fazer um charme.
O garotinha irresistível.
— Gabriela você está me tirando do sério.
— E você está abusando muito!
Olho para ela por um momento, confuso. Ela está mesmo falando sério?
— Agora sai logo daqui! – ela continua me empurrando. — Eu quero usar o banheiro! – permaneço imóvel. Vencendo, já que sou bem mais alto que ela e mais forte também. — Rafael, por Deus! Eu vou mijar na calça.
***
— Você está bem? – resolvo me aproximar, ao perceber que já são quase dez horas e ele continua parado ali do lado de fora. — Não quer beber? Dançar? Ou comer alguma coisa?
Não obtenho resposta.
Felipe continua calado, fumando seu cigarro tranquilamente.
— Felipe, fala alguma coisa! – perco a paciência, aumentando ainda mais meu tom de voz. Não só por conta da musica alta que vem de lá de dentro, mas vai ver que a base de grosseria ele resolve funcionar. — Você quer alguma coisa? Qualquer coisa! É só pedir.
— O que eu quero – ele finalmente resolve olhar pra mim. Ainda mais bonito do que todas as últimas vezes. — você não pode me dar.
Coloco as mãos na cintura, o encarando de volta. Mudo o peso de uma perna para a outra.
— Então, tenta.
— O.K. – ele dá de ombro. — Então lá vai: some daqui.
— O quê?
Acho que não ouvi direito.
— Some daqui. Me deixa sozinho. Será que dá?
Fico indignada tamanha grosseria. Primeiro que ele está me expulsando da minha própria casa. Segundo que quando eu resolvo criar coragem de falar com ele, ele me trata mal. Ótimo. Acabou com a minha noite. Já não estava sendo tão boa e agora ficou pior.
— Ei, Bia, o que aconteceu? – pergunta a Luiza, quando me aproximo da mesa de docinha que já está praticamente vazia.
— Não foi nada, amiga. Não se preocupe. – tento sorrir, mas não sei se é o bastante. Olho para os docinhos, eles me olham de volta.
Não, nada disso. Não vou comer vocês.
— Quer um? Come! – Luiza me oferece um brigadeiro. — Você mal comeu o dia inteirinho, Bianca. É sério. Come só um.
Em resposta ouço meu estomago roncar.
— Tá bom. – pego o tal brigadeiro. — Mas só um.
Depois de comê-lo fico com um estranho peso na consciência.
— Eu te conheço: sei que você não está nada bem. Dá pra ver nos seus olhos! – ela pega a minha mão para segurar. — Ainda é por causa dos seus pais, não é? – não é só isso, mas também não consigo dizer a verdade. — Eu também não estou muito legal. – ela faz uma careta. — Mas vamos pra deixar pra pensar nessas coisas amanhã. Vem, dançar comigo vem.
Às vezes eu me sinto tão egoísta. Tão egocêntrica. Eu não sou uma boa amiga. Nem se quer perguntei o que ela tem. Mas deduzo que isso, seja lá o que for, tem a ver com a Nati. Já que elas mal se falam há alguns dias.
***
Infelizmente a festa precisou terminar antes mesmo do que gostaria. Esse é um dos pontos baixos de morar em um condomínio de alto padrão: não ter a liberdade de dar festas até altas horas da madrugada. Sendo assim, antes mesmo da meia noite precisei abaixar o som e pedir pra galera ir embora. A festa terminou. Foi bom enquanto durou.
— Olha só pra isso. – protestou a Gabi, jogando-se no sofá maior. — Eu preciso mesmo ajudar a limpar isso?
— Queridinha – foi à vez da Bia se manifestar. Não é de hoje que essas duas não se batem. E eu nem sei bem por que. — se você quiser se mandar daqui, fique a vontade. Ninguém está te obrigando a ficar pra ajudar.
— Nada disso. – interveio seu amigão, o Pedro, tirando o braço dos ombros da Nati. — Gabi, você vai ficar sim e ajudar seus amigos.
Gabriela revirou os olhos, contrariada.
Olhei em volta. Realmente a sala estava em péssimas condições. Nada quebrado, graças a Deus. O chão é que estava uma coisa assustadora: sujo, molhado, com restos de comida, copos descartáveis, latinhas, objetos perdidos e garrafas de vidro jogadas por todos os lados.
Mas o nosso estado também não estava dos melhores. Pelo menos a minha fantasia já era. Algumas garotas (as mais danadinhas) acabaram com praticamente todo o pelo do Lobo Mal. A minha mascara eu nem sei a onde foi parar. Por outro lado, mesmo com o álcool percorrendo as minhas veias, eu posso sentir cada marca de beijo espalhada por meu corpo.
Eu me dei muito bem essa noite.
Arregalei os olhos de surpresa quando vi a Nati surgindo da cozinha (eu nem notei que ela havia se levantado) e em mãos ela tinha um bolo pequeno, desses que se compra no mercado ou em padarias, com duas velas. Os outros cinco — fora a Bia tão surpresa quanto eu — começaram a cantar parabéns.
Por fim, eu e a Bia apagamos juntos as velas, enquanto os outros sorriam para nós dois. A Luiza ajudou a cortar o bolo e pegou o resto das cervejas e refrigerantes na geladeira para distribuir entre nós.
Passamos o resto da madrugada ali, enchendo a cara, falando bobagem, ouvindo som bem baixinho, comendo bolo e tudo que sobrou de doces e salgados, dando risada e brincando.
Lá pelas quatro da madrugada praticamente todos haviam caído no sono por ali mesmo. Apenas eu e a Bia estávamos acordados, aéreos. O Felipe sentado dormindo na poltrona, a Luiza e a Gabi dividindo o sofá maior, cada uma de um lado. Já o Pedro e a Nati sumiram e eu só espero que eles não tenham ido namorar em um dos quartos lá em cima.
— Você gostou? – perguntei a Bia, tomando o ultimo gole da ultima cerveja. — Gostou da festa?
— Eu gostei sim, obrigada. – ela tragou seu cigarro, soltando a fumaça logo depois. — Foi muito melhor que ficar chorando em um sábado à noite.
Soltei um risinho, enquanto ela ficou olhando pra mim com um leve sorriso. Às vezes eu passo tanto tempo me ocupando com coisas que não valem a pena, que eu me esqueço completamente do que eu tenho bem na minha frente.
A Bianca é do tipo de garota que mesmo depois de uma festa continua com a beleza intacta. Mesmo com a fantasia de fadinha suja, ela continua deslumbrante com a maquiagem bem feita e os cabelos clarinhos em cachos em volta do rosto angelical. Por um momento ela deve ter se esquecido de que está só de vestido, porque está sentada com as pernas praticamente abertas. Não que eu me importe. Eu gosto. O problema é que a cena é tentadora. Mordo o lábio inferior, sorrindo também.
— Sabe de uma coisa? Eu ainda nem te dei o meu presente. – levanto-me, estendendo a mão para ela. — Vem, eu vou te mostrar uma coisa.
Levo-a até o seu quarto, fechando a porta.
Ela parece ter entendido o recado, sentando-se na ponta da cama e batendo com a mão no espaço vazio ao seu lado.
Vou até ela, beijando-a ao me sentar.
***
Ele beija de maneira feroz. É tudo tão intenso e tão rápido.
Deito-me devagar, acomodando-me sobre o colchão. Enquanto isso, o Rafael parece bem mais preocupado em se livrar da sua fantasia. Levo minhas mãos até á suas costas, sentindo sua pele quente fumigar. Meu coração bate acelerado, tenho quase certeza de que ele pode me ouvir.
Rafael beija os meus lábios, depois o meu rosto, morde de leve a minha orelha, desce com a boca até o pescoço e vai descendo, descendo cada vez mais, tenho a sensação de que paro de respirar enquanto ele me explora.
Rafael passa os dedos lentamente por minhas pernas expostas, atiçando-me. E continua a beijar cada centímetro do meu corpo. Enquanto isso fecho meus olhos, com os dedos enterrado no seu cabelo curto.
Quando sinto que ele quer avançar, ir mais além, volto a abrir meus olhos, pegando-o de surpresa. Fazendo-o parar com um sorriso provocante. Deito-o, ficando por cima dessa vez. Beijo seu pescoço, seus ombros, seu peito, sua barriga sarada e pra finalizar brinco com a barra da sua cueca.
Ele não resiste por muito tempo. Rafael é muito dominador.
Ele me joga com uma força prazerosa sobre o colchão, voltando a ficar por cima. Voltamos a nos beijar intensamente. Primeiro ele passa um mão sobre o meu seio, mesmo que ainda estando de vestido. Permaneço com meus olhos bem abertos, atento em cada movimento dele.
Começo a me desesperar quando ele insinuar que vai colocar o dedo na minha intimidade, por baixo do vestido. Não sei se eu quero isso. Não sei se estou pronta para isso. Estava tudo tão bom... De repente pareceu tudo tão errado, fora de hora. Não deveria ser assim. Eu não deveria me sentir assim.
Sento-me imediatamente, quebrando o clima.
Eu sou uma mentirosa. É isso que eu sou. Eu não poderia admitir que rissem de mim por eu ainda ser... Virgem. Isso mesmo. Eu disse tantas vezes, há um montão de pessoas lá do colégio, que eu sou mais experiente do que aparento ser. Como sempre, todos acreditaram em mim. E nem por um momento duvidaram ou suspeitaram que eu sou uma fracassada.
— Rafa, eu não quero. – digo, com coragem. Olhando pra ele. — Me desculpe. Não dá... Eu não posso. Vamos só dormir?
Ele não parece chocado, nem chateado ou irritado como eu imaginei que ficaria.
Deito-me de lado, o sentindo passar os braços sobre mim, puxando-me para ficar mais pertinho. Sinto sua respiração no meu pescoço. Apago o abajur sobre o criado mudo. Tento segurar as lágrimas fechando os olhos.
Suspiro fundo.
Mas não consigo dormir. Fico pensando que ele, o Rafael, está decepcionado comigo, por eu ter parado justamente quando as coisas estavam esquentando entre nós. Pela primeira vez. Penso também nos meus pais, onde quer que eles estejam, nem se lembraram que agora eu tenho dezessete anos. Penso também no Felipe, lá em baixo, dormindo na minha sala e a maneira rude como ele me tratou mais cedo. Fico pensando que eu me sinto tantas coisas, quando na verdade eu não sou nada.
— Bia, já dormiu?
— Não... Por quê?
Ele fica em silencio por alguns segundos que parecem assustadores.
É agora, penso comigo mesma. É agora que ele vai jogar na minha cara todas as verdades que eu mereço ouvir. Prendo a respiração, preparando-me.
— Eu sei porque você quis parar.
Sou pega desprevenida.
— Sabe?
Viro-me de frente para ele, mesmo sem poder vê-lo por conta do escuro do meu quarto.
— Sei.
— Como?
— Certas coisas eu simplesmente sei.
Sinto-o sorrindo. Não sei se isso é bom ou ruim.
— Mas não se preocupe. – ele beija meus lábios rapidamente e depois a minha testa. — Acima de qualquer coisa nós somos amigos. Você pode confiar em mim. Seu segredo está segundo comigo.
Sorrio, sentindo uma lágrima escorrer do meu olho.
— Obrigada, Rafa.
Volto a fechar meus olhos para tentar dormir.
No fundo algo me diz que o Rafael pode ser tudo: cafajeste, mulherengo, pegador e cheio de lábia. Mas ele não é um traidor. E depois do que ele me disse até consigo me sentir melhor. Porque agora sei que meu segredo posso confiar a ele.
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