Às vezes parece que quanto mais você gosta de uma coisa, mais rápido o tempo passa. E quando dei por mim, as nossas férias já tinham terminado e amanhã cedinho teríamos aula. Luiza e eu não teríamos nem tão cedo tanto tempo para ficarmos juntas, curtindo o nosso namoro e nos conhecendo de um jeito que nunca tivemos a chance antes.

Como esse é o ultimo dia de férias decidimos passar o dia inteiro juntas aproveitando cada segundo como se não tivesse feito exatamente isso em todos os outros dias anteriores. Basicamente nós não nos desgrudamos um só quer instante. Passamos a maior parte do tempo presas na bolha que construímos. Eu nunca pensei que pudesse amar tanto uma pessoa e querê-la tanto por perto. Hoje eu vejo que o que tive com o Pedro foi maravilhoso, eu me sentia completa. Mas com a Luiza eu me sinto inteira.

Ainda não tínhamos assumido nada disso para ninguém e também não era como se nos sentíssemos na obrigação. Era algo só nosso, algo muito novo e recente. Um relacionamento onde queríamos que desse tudo certo, mais que qualquer outra experiência que já tivemos antes.

Luiza dormiu na minha casa durante uma semana inteirinha. Não acho que isso tenha levantado suspeitas da minha mãe – não que eu tenha algo a esconder, por enquanto é... Complicado. Não éramos só namoradas, éramos muito mais que isso... Éramos melhores amigas e agora aquilo parecia completamente normal para mim... Tê-la como uma companheira.

Fizemos juntas de tudo um pouco, nós praticamente criamos uma rotina como se já estivéssemos casadas. Para muitos isso poderia parecer loucura e muito cedo, mas para nós era como se tivéssemos passado a vida toda esperando por isso. Preparávamos o café da manhã, assistíamos a televisão, arrumávamos a casa, passávamos um tempo ouvindo musica e conversando sobre assuntos diversos, íamos buscar o meu irmão na creche e passávamos um tempo só com ele, depois do banho nós saímos para comer alguma coisa fora, quando voltávamos para casa ficávamos ouvindo minha mãe tagarelar sem parar enquanto ela preparava o jantar, fazíamos nossas refeição como uma grande família unida e feliz, por fim preparávamos pipoca e ficávamos assistindo filmes até altas horas da madrugada.

Eram coisas simples... Que se tornaram mais interessantes e bem mais divertidas e completas com a Luiza por perto, para me auxiliar.

Minha mãe adorava a Luiza e fazia com que ela se sentisse uma de nós, apesar de ser visível que ela ainda estranhava o fato de eu ter uma amiga em casa vinte e quatros horas por dias já que nunca fui do tipo que trás visitas pra casa. Mas no fundo ela parecia entender e não fazia muitas perguntas, nem mesmo sobre o sumiço do Pedro, pois eu não contei a ela sobre o nosso término. E não era como se eu me sentisse a vontade para conversar com ela sobre tudo, apesar de ela insistir bastante.

O Leandro – pai do meu irmão e melhor amigo da minha mãe — que também vinha passando mais tempo do que o normal lá em casa não parecia ter problemas como a Luiza. Eles não se falavam muito, mas isso apenas por causa da falta de oportunidade. Já que ele e minha mãe viviam grudados pra baixo e para cima e sempre muito ocupados com alguma coisa. Eu estava começando a me perguntar se eles dois não estavam me escondendo alguma coisa de mim. Mas afinal, o que poderia ser?

O Lucas, meu irmãozinho, também parecia muito à vontade perto da Luiza, mesmo não podendo falar ainda. Sempre que eu estava ocupada com alguma coisa, mesmo sem eu pedir ela tomava conta dele por mim e ele nunca chorava. Isso era ótimo. Para mim era muito importante que todos nós nos déssemos bem dentro de casa, pois cada vez que o tempo passava eu me sentia cada vez mais na obrigação de contar a verdade a todos e assumir o nosso compromisso de vez.

A única coisa que me impedia — além de toda a minha timidez e meus receios sobre o que as pessoas diriam ou pensariam – era que no fundo eu ainda me sentia em divida com o Pedro. Afinal, tínhamos dado um tempo e não era como se tivéssemos terminado de vez. Então eu ainda precisava conversar abertamente com ele sobre isso assim que possível e só depois eu me sentiria totalmente livre e a vontade para me assumir com a Luiza.

Por enquanto eu não queria ficar pensando nesse tipo de coisa, eu só queria aproveitar esse meu momento mágico ao lado da Luiza. Eu acho que tudo tem um tempo certo para acontecer. Da mesma forma que eu demorei tanto tempo para perceber que era ela e não o Pedro ou qualquer outro garoto, eu saberia o momento certo para agir e acertar as coisas. Hoje já não me resta duvidas: é a Luiza que eu amo e acho que sempre amei desde que nos conhecemos e nos tornamos grandes amigas. Eu só não queria reconhecer isso por medo, por nunca ter sentido nada igual antes.

Parecia tão errado... Ainda hoje, às vezes, quando me pego pensando nesse tipo de coisa eu me pergunto se isso é normal. Bom, eu não faço ideia. Pode ser que para muitos seja errado e inaceitável. Ainda lá no fundo eu vivo uma constante batalha comigo mesma, mas sempre que penso no meu amor por ela e no amor dela por mim e todas as coisas que passamos até chegar aqui, quando finalmente nos reencontramos e nos entendemos, eu me sinto forte o bastante para poder vencer todos obstáculos que eu sei que aparecerão ao longo da nossa vida.

— Ei, no que você está pensando? – perguntou a Luiza, despertando-me dos meus devaneios. — Pela sua carinha não é coisa boa.

Com uma expressão preocupada ela deixou o colchão que a minha mãe tinha colocado para ela no chão ao meu lado e sentou-se comigo sobre a minha cama. Durante todas as noites anteriores foi exatamente assim: minha mãe pensava que estávamos dormindo separadas, quando na verdade Luiza sempre deixava seu colchão para vir dormir comigo na cama. Claro que não acontecia nada de mais... Nós apenas queríamos dormir abraçadas como qualquer casal de namorados por aí.

Nós tínhamos esse direito também, não tínhamos?

— Eu estava pensando apenas em nós. – admito, sorrindo um pouco sem tirar meus olhos dos dela. — Não precisa se preocupar.

Ela também sorriu se aproximou um pouco e me deu um selinho.

— É uma pena que tudo esteja prestes a acabar. – ela torceu os lábios, desviando os olhos dos meus. Luiza parecia... Decepcionada.

— Ei, nada disso. – eu toquei seu braço, chamando a sua atenção de volta para mim. — Nada disso vai acabar tão cedo. Não se depender de mim. Será só a volta das aulas... Um novo recomeço.

Pela carinha dela, Luiza gostou e muito das minhas palavras. Mesmo sem a intenção eu vivia constantemente me declarando para ela mesmo em poucas palavras. Saia naturalmente. Eu não precisava pensar muito para dizer coisas bonitas ou expor meus sentimentos.

E então ela me abraçou.

Eram onze da noite.

A casa estava silenciosa. Mamãe já havia ido dormir, pois tinha saído com o Leandro para jantar em uma pizzaria e precisava acordar cedo amanhã para o trabalho. Eu coloquei o Lucas para dormir muito cedo, antes mesmo das nove horas. Com pouco barulho ele dormia tranquilamente, por horas a fio sem acordar nenhuma vez. O Leandro por sua vez estava lá em baixo, dormindo no sofá com a tevê ligada.

— Você já está com sono? – ela perguntou ao me ver bocejar. Já estávamos ambas prontas para dormir. Mas geralmente ficávamos conversando até pegar no sono. — Então vamos dormir. Amanhã teremos aula cedinho. Por um lado eu estou triste pelo fim das nossas tão adoradas férias, mas por outro lado será bom rever todo mundo.

Eu assenti em concordância. Levantei-me para apagar as luzes, deixando apenas o abajur ao lado da cama ligado. Fui a primeira a me deitar do lado esquerdo da cama e depois a Luiza se ajeitou atrás de mim, envolvendo-me com seus braços.

Fechei os olhos, me deliciando com o suave cheiro de seu perfume.

Algo dentro de mim estava inquieto, apesar de todo o sono que me consumia naquele momento. Será que eu estava ansiosa para a volta das aulas? Ou será que eu estava nervosa pois reveria o Pedro? Talvez eu ainda não estivesse preparada, mas sabia que seria preciso. Não teria como fugir disso para sempre. Era hora de encarar a realidade.

Senti um calafrio percorrer meu corpo quando senti os lábios da Luiza tocarem meus a pele sensível do meu pescoço. Ela começou a beija-lo lentamente, depositando beijinhos rápidos por toda parte. Depois ela se endireitou sobre o colchão, para conseguir morder o lóbulo da minha orelha vagarosamente. Quando suas mãos entraram de baixo da minha camiseta do pijama de algodão foi que eu soube suas reais intenções comigo.

Eu fiquei nervosa só de pensar na possibilidade de fazermos aquilo ali, naquele momento. Afinal, ter relações sexuais com garotas era muito diferente de ter com garotos. O Pedro tinha sido meu primeiro, mas também o único. Talvez eu não fosse boa com... Garotas. Eu estava apavorada. Mesmo assim não conseguir não deixa-la me explorar com as mãos.

Suas mãos estavam geladas, deslizando por minha barriga. Era uma sensação agonizante. Ela me beijava e continuava me tocando sem qualquer restrição e eu permaneci imóvel sem qualquer tipo de reação.

Eu sempre ia dormir sem sutiã, coisa que qualquer garota faz. Luiza sabia muito bem daquilo, porque ela também dormia sem para não incomodar. E quando ela subiu com a mão para tocar um dos meus seios foi que eu não me aguentei mais e me virei bruscamente de frente para ela.

— Você já fez isso... Antes?

— Mas porque você quer saber disso agora, Nati?

Percebi que ela estava ofegante e pelo tom de voz levemente frustrada também, por eu ter a interrompido com as minhas paranoias.

— Só me responda.

— Sim, já. Eu fiz uma ou duas vezes com a Aline. Não me lembro ao certo. Foram as minhas primeiras vezes também. Mas você sabe, assim como eu, que tem um significado completamente diferente quando acontece com quem à gente ama. Mas porque você quer saber?

— Ah, não é nada. É só curiosidade mesmo.

Ela soltou um risinho baixo.

— Agora que você já sabe... Podemos continuar?

Antes que eu pudesse responder ela avançou para cima de mim, unindo nossos corpos novamente. Luiza era tão magra quanto eu, por isso não pesava muito e não me incomodou que ela estivesse com o peso todo sobre mim. Ela inclinou-se para me beijar intensamente. Um beijo que já não tinha mais aquela inocência de antes. Era mais quente e mais feroz.

— Luiza... Não... Eu não quero.

Luiza parou para poder olhar dentro dos meus olhos.

Ela parecia confusa... E eu estava amedrontada.

— Pelo menos não ainda.

— Você não é virgem, é?

— Não, mas eu só...

— O.K. Já entendi.

Ela rolou para o meu lado.

— Tudo bem. Eu entendo.

— Entende mesmo?

— Acho que sim.

Permanecemos uns cinco minutos em silencio. Um silêncio completamente embaraçoso, pelo menos para mim. Não sei para ela.

— Então, vamos só dormir. – Luiza resolveu quebrar o silencio, voltando para pertinho de mim e me puxando para me abraçar por trás, para que voltássemos a mesma posição de antes de tudo acontecer.

Eu fiquei um bom tempo acordada, apenas olhando para a parede do meu quarto e imaginando no que ela estaria pensando nesse momento. Estaria ela brava ou decepcionada comigo? Eu queria muito perguntar, mas também não quis incomoda-la. Quando dei por mim, senti a respiração da Luiza se modificar em meu pescoço, indicando que ela já estava dormindo. Então, eu também deveria fazer o mesmo e parar de pensar em tanta bobagem. A gente sempre acabava se entendendo, não tinha porque eu me preocupar por pouca coisa.

Pouco tempo depois também caí no sono.

Quando acordei pela manhã Luiza já não estava mais ali, mas ela tinha deixado um bilhete avisando que precisou acordar mais cedo para passar em casa e pegar suas coisas antes que a aula começasse. Eu já deveria ter imaginado que isso aconteceria, já que ela não trouxe a mochila com o material pra cá.

No fundo eu torcia que ela não estivesse chateada comigo pelo o que não aconteceu ontem. Levantei-me e com toda preguiça do mundo arrastei-me até o banheiro, onde tomei um banho morno, depois vesti um jeans, uma blusinha azul mais soltinha e sapatilhas. Peguei minhas coisas e desci para comer alguma coisa antes de sair.

Primeiro dia de aula após as férias era sempre a mesma coisa, não só no meu colégio, mas imagino eu que em todos os colégios do mundo. Os amigos se abraçando como se não se vissem há décadas, todo mundo sorridente e animado, grupinhos eufóricos compartilhando novidades. Para daqui uma semana está todo mundo reclamando que não vê a hora disso tudo acabar, porque estão todos cansados e precisando de mais férias.

Como cheguei alguns minutos adiantados, fiquei ali, no portão, esperando encontrar algum dos meus amigos. Fazia um bom tempo que nós não nos reuníamos. Tinha acontecido tanta coisa. Eu precisava me atualizar e estar por dentro de tudo novamente.

O primeiro a chegar foi o Pedro, fazendo meu coração dar aquela estremecida. Eu não saberia dizer se o que sinto por ele é amor, mas se não for, chega muito perto disso. É evidente que o Pedro sempre mexeu um pouco comigo e talvez isso nunca vá mudar. O problema é que não damos certo como um casal, mas se depender de mim poderemos ser bons amigos.

A me ver ele abriu um sorriso singelo, que me fez soltar todo o ar que eu prendia nos pulmões. Ao se aproximar Pedro me abraçou carinhosamente e depois deu um beijinho meigo na minha testa. Seus olhos eram de um verde translucido aquela manhã nublada. Mesmo ele estando lindo como sempre e estar sorrindo amigavelmente ele não me enganava. Algo em sua expressão fazia o meu botão de alerta disparar.

O Pedro estava com algum problema.

Será que era comigo?

— O resto do pessoal ainda não chegou?

Eu fiz que não com a cabeça.

— Mas e você, está bem?

— Sim, e você?

— É, acho que sim.

Eu estava certa: ele estava com algum problema. Eu só não sabia como aborda-lo sem parecer muito intrometida.

O sinal tocou. Tínhamos que entrar no colégio.

Nossa primeira aula de Matemática teríamos juntos. Sentamos-nos próximos, mas não colados como quando estávamos namorando. Era bom saber – ou ver – que estava tudo bem entre nós. A aula foi tranquila. O Pedro permaneceu todo o tempo centrado na explicação do professor e não abriu a boca um só quer instante, nem mesmo olhou para mim. Eu também não me importei, talvez ele precisasse de espaço. Mas uma hora ou outra eu teria que ir até ele para gente poder conversar sobre certas coisas.

Rumo a minha próxima aula de Geografia acabei trombando com a Luiza e o Felipe no corredor. Fui até eles e os cumprimentei normalmente, como eu estava habituada a fazer. Cumprimentei até mesmo a Luiza com um beijo no rosto e um rápido abraço, como se não tivéssemos dormido juntas na ultima semanas. Mas não era como se todos soubessem.

Na verdade, a Bianca era a unica que sabia até agora.

Ficamos ali trocando algumas rápidas palavras, até que eu e a Luiza – que teríamos a próxima aula juntas – precisamos nos apressar. Pelo caminho até a sala de aula Luiza tentou segurar a minha mão e entrelaçar nossos dedos, mesmo sabendo que eu ainda não estava pronta. Aquilo me deixou um pouquinho irritada, pois ela estava sendo muito persistente.

Acabei apressando o passo e entrei na sala primeiro que ela e fui até o meu lugar no canto próximo as janelas. Luiza pareceu perplexa com a minha atitude um tanto rude, mas também não disse nada. Ela apenas se sentou atrás de mim. Aguardamos a professor chegar em silencio, enquanto o resto da turma tagarelava alto sem parar.

No intervalo foi uma festa só, nem era como se tivéssemos passado umas duas semanas sem nos reunir. Sentamos todos na nossa velha mesa no refeitório com nossos lanches. Após cumprimentar todos – os que eu ainda não tinha encontrado pela manhã – passei meu olhos por todos eles sem conseguir deixar de notar que estavam todos diferentes de alguma forma: algumas pareciam mais felizes, outros nem tanto assim. O caso do Pedro e do Rafael. Será que eles estavam brigados?

— Pedro, cadê a Gabriela? – Bianca perguntou. E aí eu me dei conta de que a Gabi não estava entre nós. Então agora tudo fazia sentido!

O Pedro não respondeu, mesmo com todos nós olhando para ele esperando por alguma explicação. Ele apenas abaixou a cabeça, pegou sua caixinha de suco e fez um gesto que só poderia significar que aquele não era o momento certo para falar sobre aquilo.

Além de curiosa, comecei a ficar preocupada.

Fora isso o dia seguiu normalmente. Até que eu tive que me encontrar novamente com a Luiza na aula de informática. Aproveitando o atraso do professor nós ficamos encostadas na parede do corredor. O clima entre nós não eram dos melhores. Eu não me sentia bem estando mal com ela. Por isso resolvi aproveitar a oportunidade para esclarecer tudo que estava acontecendo entre nós. Eu a amo o bastante para desejar que tudo fique bem entre nós.

— Olha, me desculpe por hoje mais cedo. – comecei. — Eu fui um pouco rude com você. Não foi intencional. Eu só não me sinto...

— Eu sei. – ela me interrompeu educadamente com um sorriso. — Eu é que estou pegando pesado contigo. Desculpe-me também. Eu não quero forçar e nem adiantar nada. Prometo ser mais paciente.

Sorrimos juntas. Um sorriso que transbordava felicidade. Fiquei aliviada em saber que mesmo não sendo perfeitas, tínhamos a capacidade de nos entender sem muitas delongas. Esse era o lado bom ter uma companheira que antes de qualquer coisa era sua amiga e te conhecia como ninguém. Não resisti e a abracei. Mas eu queria mesmo era beija-la.

— Vamos entrar, meninas? – ouvimos a voz rouca do professor interromper aquele momento. Ele sorriu para nós e nós assentimos.

Sentamos juntas na ultima fileira do canto. Onde tivemos mais privacidade, de certa forma. Enquanto ouvíamos as explicações do professor lá da frente, estávamos de mãos dadas durante todo o tempo por debaixo da mesa. Dali nós não corríamos o risco de sermos flagradas. Por um lado eu ainda me sentia despreparada para falar para o mundo sobre o nosso relacionamento, mas por outro lado eu mal poderia ver a hora em que todos saberiam que nós finalmente nos pertencíamos.

— Eu fiquei de sair com a Bianca depois do colégio, tudo bem? – Luiza perguntou ao meu lado, durante a saída no fim da tarde. — Faz tempo que não passamos um tempo juntas. Você se importa?

— Nenhum pouco. – afinal, eu assim como qualquer outro, sabia que elas costumavam não se desgrudar e talvez estivessem tentando reatar esse laço. — Eu vou procurar o Pedro. Preciso conversar com ele.

— É, eu já imaginava. – Luiza sorriu de um jeito tão carinhoso, que deu a entender que ela também entendia o meu lado, o meu tempo, o meu momento. Por isso não ficou enciumada e apenas assentiu.

Vi o Pedro pegar o caminho para casa sem ao menos esperar por uma companhia. Geralmente ele ficava esperando pelo Rafael, pelo Felipe ou até mesmo a própria irmã. Mas eu fui mais rápida e tentei alcança-lo com uma rápida corridinha. Ao perceber que eu estava ali bem ao seu lado, respirando ofegante pela corrida, ele sorriu lindamente e diminuiu o ritmo para que eu pudesse acompanha-lo.

— Podemos conversar?

— Claro.

Ele não parecia muito a fim de parar para termos aquela conversa em um lugar mais reservado. E eu também não estava a fim de esperar ou adiar aquela conversa. Eu não via a hora de soltar tudo que estava preso dentro de mim. E tinha que ser rápido, tinha que ser agora. Mas antes de qualquer coisa eu precisava saber como ele estava e o que tinha acontecido com a Gabi para ela não ter ido a aula e por ele parecer tão tristonho com isso.

— Você tá melhor?

— Acho que sim. Rever vocês todos foi bom pra mim.

— Quer conversar sobre isso?

Ele pensou por um momento, sem olhar diretamente para mim. Mas quando seus olhos encontraram com os meus segundos depois eu vi que eles estavam cheios de lagrimas e uma tristeza infinita. Pedro parou no meio do caminho, como se não tivesse mais forças. E eu, mais por impulso do qualquer outra coisa, ergui-me na ponta dos pés e o abracei.

Ouvi quando ele começou a chorar no meu ombro.

— É a Gabi. Ela foi para a reabilitação. Não havia mais nada que pudéssemos fazer por ela. E o pior de tudo é que eu nem posso visita-la, nem nada do tipo. Há dias eu não tenho noticias dela e meus pais não estão dispostos a conversar comigo a respeito como se fosse para o meu próprio bem. – ele fungou, afastando-se. — Eu não sei como ela está, se está melhorando, se está gostando de lá. Eu não sei nada. E dói saber que ela está sozinha, que pode estar pior do que antes, que pode estar odiando aquele lugar ou que pense que nós a abandonamos de vez.

Eu me senti muito culpada naquele momento por ter ficado tanto tempo distante sem ter noticia dos meus amigos. Eu e a Luiza estávamos há dias trancadas dentro do nosso mundinho particular onde tudo era perfeito e ideal, longe do mundo exterior a nossa volta. Mas agora tudo aquilo tinha acabado e eu me sentia mal por não ter feito nada para ajudar.

Se é que eu tinha como ajudar.

Esperei o Pedro se acalmar e o ajudei a limpar as lágrimas. Disse que sentia muito e que estava a disposição para qualquer coisa. Ele suspirou, parecendo melhor. Depois voltamos a caminhar normalmente.

— Mas não era bem sobre isso que você queria conversar comigo, não é mesmo? – ele se virou para mim por um momento, com um sorrisinho.

Eu assenti.

— Na verdade, não me parece justo ter que tocar nesse assunto justamente agora. Mas já que estamos tendo essa oportunidade, eu achei que seria bom definir algumas coisas entre nós. – passei a mão pelo cabelo curto, um pouco embaraçada. — Antes que você saiba pelos outros, eu queria que você soubesse por mim que eu e a Luiza estamos juntas...

Ele riu. Eu me espantei.

— Desculpa. – ele resolveu se justificar. — Eu só meio que já imaginava. E também não é como se eu nunca tivesse desconfiado que vocês tivessem alguma coisa. Mas agora que somos amigos e terminamos definitivamente, me conta como tudo isso começou.

O Pedro era tudo de melhor que um garoto poderia ser.

Quando enfim chegamos à frente da casa dele, sentamos-nos nos últimos degrau em frente a sua porta. E foi ali que permaneci pelos próximos minutos, tentando explicar a ele da melhor forma quando foi que eu senti que as coisas tinham mudado dentro de mim por mais medos e receios que eu tivesse. Antes mesmo de começarmos a namorar. E contei também sobre meu relacionamento com a Luiza e tudo mais que eu achava que ele tinha todo o direito de saber. Eu queria ser sincera com ele.

— Se vocês se amam de verdade, eu não só fico feliz por vocês, mas também estou totalmente de apoio com esse relacionamento. – olhando nos olhos dele eu sentia que ele falava com o coração. Sua mão estava sobre a minha. — Mas não deixe de viver seus sonhos e vontades por medo, Nati. Não faça mais isso. Não cometa esse erro duas vezes. Não tenha medo de expor seus sentimentos ao mundo, por mais incomuns que eles sejam. E se mesmo depois de tudo você ainda tiver medo que os outros não te aceitem e possam te ferir, lembre-se que você tem a mim, como seu amigo. Eu estarei sempre por perto para te proteger. Nunca se esqueça disso.

Eu estava prestes a chorar, comovida com suas palavras. Mas eu me segurei ao máximo e apenas o abracei forte. Amando-o cada vez mais. Depois ele me puxou, ajudando-me a levantar. Deixamos qualquer resquício de tristeza de lado e entramos em sua casa. Pedro havia me convencido a jantar com ele. Era notável que ele não queria ficar sozinho.

E eu não permitiria que ele ficasse. Não naquele momento.

Continuamos a conversar pelo resto da tarde, até que enfim escureceu e eu precisava voltar para casa para cuidar do meu irmãozinho. Pois a doida da minha mãe nem se quer deu noticias se foi ou não busca-lo na creche. Pelo caminho mandei uma mensagem de texto para Luiza, só para avisar que eu estava bem e dizer o quanto eu a amava.

Como se já não bastasse ter um dia cheios de surpresas, em casa quase caí pra trás quando vi a minha mãe e o Leandro aos beijos na sala.

Mas espera aí... Eles não eram só amigos? A primeira e ultima vez que isso aconteceu entre eles os dois tinham bebido demais e por descuido ganharam o Lucas de brinde. Mas e agora... Qual era a desculpa para dois melhores amigos de longa data estarem novamente naquela pegação? Será que tinham bebido demais? Ou será que enfim se deram conta de que o que sentiam um pelo outro era muito mais que uma simples amizade?

Fala sério! Eu sempre adorei o Leandro. Eu sempre invejei o meu irmão por tê-lo como pai. Eu sempre o quis como o meu próprio pai, porque ele é um homem adorável, carinhoso, respeitador, prestativo, dedicado e além de ser muito bonito também e com um espírito jovem igual a minha mãe. Na verdade, eles sempre foram muito parecidos em tudo. Eu só me convenci de que eles eram apenas amigos, porque a minha própria mãe me afirmou isso. Mas no fundo, bem lá no fundo, eu nunca achei que seria possível eles se gostarem tanto, mas só como amigos. Ainda mais depois que os dois geraram o meu irmão. Que tipo de amizade era aquela, afinal?

Ainda assim eu não estava preparada para vê-los enfiarem a língua um na boca do outro no sofá da minha sala. Foi uma cena muito chocante, além de horrorosa. Não que minha mãe nunca tivesse feito pior na minha frente, porque sim, ela já vez inúmeras vezes coisas terríveis na minha frente e na do meu irmão também. Por sorte o Lucas ainda é um bebê. Mas e eu? Não importa, pelo menos não para ela. Mas o choque foi maior dessa vez, mesmo que eles estivessem só se beijando, porque o Leandro é incrível demais como homem para fazer coisas assim justamente na minha frente.

Se bem que eles não tinham como saber que eu ia chegar justamente naquele momento. Então dá pra relevar e reconsiderar. O Leandro continua tendo pontos positivos comigo, mesmo trocando saliva com a minha mãe. Até porque é melhor que seja ele ali, do que aqueles namorados sem-vergonha que a minha mãe encontra por aí. O Leandro sim é o cara certo para ela, talvez ele finalmente possa dar um jeito na minha mãe e ela finalmente possa ser a mulher e a mãe que eu espero que ela seja.

Acho que nesse momento eu estou mais contente por eles do que horrorizada.

Ao me ouvir fechar a porta, os dois deram um salto para longe um do outro. Cada um em uma ponta do sofá, levemente constrangidos e embaraçados. Como duas crianças que acabaram de ser flagradas fazendo bagunça na casa pelos pais. Eu não resisti e caí na risada.

— Será que vocês podem me explicar o que significa isso? – perguntei, tentando bancar a durona. Logo depois de conter o riso.

— Nati, que bom que você chegou. – Leandro foi o primeiro a se manifestar, um tanto corado. — Nós meio que não conseguimos nos segurar enquanto você não chegava. Eu sinto muito que você tenha presenciado isso. Não vai mais acontecer, eu prometo.

Eu acreditava nele e confiava também.

— Filha, então como você pode ver – mamãe levantou-se, veio até mim com um sorriso de orelha a orelha. — nós estamos juntos e é pra valer. E olha que nós nem bebemos hoje. – os dois riram, todo cúmplices.

Tão fofos!

— E porque vocês estavam esperando por mim?

— Então...

Mamãe pegou a minha mão carinhosamente e olhou-me nos olhos.

— Nós decidimos e... Vamos nos casar. Queríamos saber se você é de acordo ou não. Já que seremos uma família agora. Sua opinião é importante.

Pela minha expressão... Eles ainda tinham alguma duvida?

É claro que eu estava totalmente de acordo!

E completamente feliz com a novidade.

Notas finais
Ufa, enfim algumas notícias boas! A mãe maluquinha da Nati vai casar, gostaram da ideia? E o Pedro sempre tão adorável. Eu sou apaixonada por ele! Ele é um fofo. É uma pena que ele esteja tristinho por causa da internação da Gabi. Vou falar mais sobre isso depois, aguardem. Deixem seus comentários e postarei o próximo capitulo assim que puder.