Todos Iguais
36 Felipe e Luiza
Notas iniciais

De certa forma estávamos todos muito abalados ao sabermos — pelo Pedro que nos convocou para uma pequena "reunião" entre amigos – que a Gabriela estava na reabilitação. Desde o sumiço dela, quando o Rafael a encontrou desmaiada e logo em seguida, após ter prometido a todos que não voltaria a cometer aquele tipo de loucura outras, e ainda assim eu a encontrei novamente desmaiada em seu quarto passando muito mal, eu soube que a situação dela era preocupante e que talvez ela nunca conseguisse se recurar sozinha enquanto continuasse a tomar decisões erradas.
Agora, tudo que poderíamos fazer era torcer para que ela melhorasse com a ajuda medica e de remédios controlados, mesmo que longe de casa, dos amigos, familiares e da vida que ela estava acostumada a ter. Era uma pena que ela fosse tão nova e estivesse passando por aquilo. Era uma pena não podermos visita-la, mas era compreensível que aquilo seria temporário e que fazia parte do tratamento ou ela não se recuperaria tão cedo.
Mas a nossa vida não era só feita de lados negativos, existia também os positivos que nos motivavam a continuar vivendo e levando a vida da melhor forma possível sem ficar todo o tempo pensando em coisas ruins. No meu caso, a única coisa que me fazia sentir verdadeiramente bem e pronto para continuar era ter a Bianca por perto.
Eu finalmente me dei conta de que estava me apaixonando por ela. Mas eu só consegui perceber isso quando comecei a perceber que coisas bem estranhas estavam acontecendo comigo desde que ela entrou na minha vida de um jeito que eu não imaginava e muito menos esperava.
Por exemplo: eu tinha a plena consciência que ao invés de estar pensando nela, eu deveria estar prestando atenção na aula que normalmente eu me dedicava ao máximo. Mas não mais. Não com ela tomando conta dos meus pensamentos. Eu ficava pensando em coisas muito bobas... Se ela estava bem, o que ela estaria fazendo, com quem estava ou se também pensava em mim naquele momento.
Quando tínhamos aulas juntos eu ficava olhando para ela, mesmo que muito disfarçadamente e começava a prestar atenção em detalhes nela que eu nunca tinha reparado antes. Como os pelos do corpo dela. Os pelos do braço eram loirinhos, quase brancos. Além dos cílios e da sobrancelha. Ou no quanto sua pele era alva, dando até para ver algumas de suas veias. Ou no quanto o verde dos olhos dela a luz do dia ficavam mais reluzente e translúcido. Ou no quanto ela era magra e elegante com suas roupas de marca e tinha um dos sorrisos mais admirável que eu já presenciei.
Às veze quando eu estava em casa sozinho, sem muito o que fazer, e ouvia uma música eu me perguntava se a Bianca também gostaria de poder ouvi-la comigo. Ou se ela gostaria de poder ler os meus quadrinhos ao meu lado. Dormir comigo no espaço vazio da cama. Fazer as refeições comigo na mesa da sala de jantar ou descer lá em baixo, na área de lazer do condomínio, para observar o céu se encher de estrelas ou imaginar o formato que as nuvens que cobriam o céu azulado.
Eu também tinha uns pensamentos bem indecentes. Afinal, era um garoto adolescente cheio de hormônios. Eu não tinha como simplesmente ignora-los. Sendo assim, por alguns minutos eu me dava a ousadia de imaginar como era o corpo dela por de baixo de suas tantas roupas, como era a sensação de poder tocar com as mãos ou com a boca cada milímetro de seu corpo esguio, ou se no calor era gostaria de poder tomar um banho gelado comigo ou deitar-se ao meu lado com pouca roupa.
Tudo isso era tão insano e ridículo.
Mas não era tudo. Eu também tinha pensamentos que poderiam se classificar como “fofos”. Como o quanto eu gostaria de poder ficar olhando para ela incansavelmente por horas a fio. Ou como seria tocar seus cabelos e sentir o perfume de sua pele. Ou quanto eu gostaria de fazer carinho nela até que ela caísse no sono com a cabeça no meu peito. Ou sentir sua respiração de encontro a minha. Ou no quanto eu gostaria de poder simplesmente estar ao lado dela todas as vezes que ela precisasse de mim.
Conclusão: eu estou perdidamente apaixonado por Bianca Vasconcelos. E ainda estou aprendendo a lidar com isso já que de uma hora pra outra eu simplesmente deixei de gostar da Gabriela – o que não significa que eu não me preocupe mais com ela — e tentando também descobrir uma forma de dizer isso a Bianca sem parecer muito estúpido.
***
É bom ver que mesmo em meio a toda essa tristeza que sentimos pela Gabriela – mesmo que ela nem sempre tenha sido boa com todos nós – a Natália ainda consiga ficar feliz porque a mãe dela resolveu se casar no final do ano com o cara que há muito tempo era só o melhor amigo dela e o pai do seu filho mais novo. A minha namorada não fala em outra coisa.
Sim, isso mesmo que eu acabei de dizer: minha namorada.
Agora é oficial. Nós estamos mesmo namorando e tendo um compromisso sério. E o melhor: já estão todos cientes disso.
A Nati conversou com o Pedro e resolveu tudo que ficou inacabado entre eles. Ela também conversou com a mãe e recebeu dela seu total apoio. Eu bem que queria ter uma mãe como a Dona Elisa. Tão compreensível. E isso era tudo que faltava para ela criar coragem para nos assumir perante todos, especialmente aos nossos amigos que mereciam saber disso.
Na segunda-feira, já na segunda semana de aula desde que voltamos das férias, nós chegamos no colégio de mãos dadas. Como já era de se esperar, as pessoas reagiram de muitas formas. Algumas foram contra, falaram um montão de bobagem mesmo com a gente por perto como se fossemos surdas, fizeram cara de nojo e algumas até se afastaram. Já outros ficaram felizes por nós, apoiaram totalmente, quiseram saber sobre a nossa história e continuaram a agir normalmente conosco. Até porque não éramos nenhum bicho de sete cabeças, nem mordíamos e nem tínhamos uma doença contagiosa. Ainda éramos a Luiza e a Natália de antes, só que agora juntas e totalmente apaixonadas.
Nossos amigos foram o que mais ficaram felizes por nós e nós sabíamos que qualquer coisa vinda deles era verdadeira. Com eles por perto não tínhamos nada a temer. Eu sabia que eles sempre estariam ali por nós, para nos proteger. Mesmo que eles não entendessem, pelo menos eles aceitavam. E isso era tudo. Os que resolveram se afastar, o que nunca foram nossos amigos nem nada, apenas colegas... Eu acho que foi melhor assim. Quanto mais energia negativa longe da gente, melhor.
Afinal, ninguém quer esse tipo de pessoa por perto, não é mesmo? Tudo que a gente quer é ser feliz, ser respeitada, ser aceita. O resto pouco me importa de fato. O amor sempre prevalecerá e nos fortalecerá.
Eu estava nervosa aquela noite, pois era uma noite muito importante para mim. Eu tinha pedido aos meus pais que preparassem um jantar especial, pois eu tinha algo importante a dizer para eles.
Enquanto a mamãe terminava o jantar e o papai a ajudava, eu fui tomar um banho assim que cheguei do colégio, coloquei um vestidinho verde que minha mãe adorava, pois dizia que ele realçava a cor dos meus olhos e para os pés uma rasteirinha marrom. Os meus longos cabelos castanhos estavam molhados, então os deixei soltos mesmo. Passei uma maquiagem muito leve e um pouco do perfume.
Quando a campainha tocou, eu corri para atender. Pois sabia que era a minha convidada especial: a Nati. Eu a beijei e depois a convidei para entrar. Ela estava usando uma saia floral vermelha com um cintinho fino e uma blusinha regata branca sem estampas. Sapatilhas para os pés e os cabelos curtos e vermelhos soltos como o habitual.
Conduzia-a até a sala de jantar, onde meus pais já estavam colocando a mesa para o jantar. Eles já a conheciam, até porque por muitas vezes ela veio aqui em casa para fazermos trabalhos do colégio juntas ou coisa do tipo. Meus pais sempre gostaram das minhas amigas. Eles a cumprimentaram com beijos no rosto e abraços calorosos.
Mas pela expressão deles eles ainda não entendia o porque da Natália estar ali aquela noite para o jantar.
Bom, a curiosidade deles eu iria matar só mais tarde.
Enquanto o frango com batatas ainda estava no forno, eu levei a Nati até o meu quarto para termos mais privacidade.
— Eu estou apavorada! – ela confessou sentando-se na ponta da minha cama, assim que fechei a porta do quarto.
— Não precisa ficar. – eu sorri, sentando-me ao seu lado e pegando suas mãos para confortar dentro das minhas. Ela estava gelada e levemente tremula. — Vai dá tudo certo, você vai ver.
Acho que as minhas palavras conseguiram amenizar um pouco mais o nervosismo dela. Mas a verdade é que nem eu tinha muita certeza sobre as minhas palavras. Afinal, meus pais ainda eram tão certinhos. Mesmo sabendo que agora tinham uma filha que gostava de garotas. Eles nunca deixariam de serem tão severos e rígidos. Isso era preocupante.
Para distrair ela e a mim, ficamos conversando normalmente sobre tudo que tinha acontecido mais cedo no colégio. Sobre a minha reaproximação com a minha melhor amiga, sobre a internação da Gabriela, sobre o Pedro, sobre o relacionamento suspeito do Rafael com a Maria Eduarda que parecia não estar tendo uma fase muito boa etc.
Alguém bateu a porta.
— Filha? – mamãe colocou a cabeça para dentro do cômodo. — O jantar está na mesa. Venham comer, antes que esfrie.
Fiquei surpresa por ela não ter reclamado do porque eu ter fechado a porta, já que aquela era uma das regras de casa: nunca feche a porta. Ou você tem alguma coisa a esconder dos seus pais?
Enfim. Antes de sairmos do meu quarto eu a puxei para um abraço e aproveitei para lhe roubar um beijo. Natália riu, mas ainda assim retribuiu o meu beijo. Um beijo rápido. Agarrada a sua mão nós fomos até a sala de jantar, onde sentamo-nos de frente uma para a outra. Meus pais ficavam na ponta da mesa, como qualquer família tradicional.
Eu não sabia dizer se eles já suspeitavam de alguma coisa, mas eu não toquei no assunto durante a refeição. Já que era devidamente proibido. Por sorte já tinha alertado a Nati sobre essas caretices dos meus pais hoje mais cedo pelo colégio, então ela não foi pega de surpresa com o silencio que seguiu ao longo da refeição. Assim que todos terminaram de comer e antes que a mamãe se levantasse para pegar o pudim que tinha feito como sobremesa, eu a impedi e resolvi começar o que tinha planejado para aquela noite.
— Mãe – olhei para ela e peguei sua mão de um lado. — Pai – depois fiz o mesmo com ele. Por fim estava segurando a mão dos meus pais, cada uma de um lado. — Eu tenho algo importante a dizer.
Olhei para a Nati por um momento, ela estava pálida.
Eu sorri, também me sentindo apavorada.
— Eu sei que vocês ainda não consegue entender as minhas escolhas muito bem – continuei, alternando o olhar entre eles e apertando de leve a mão de cada um só para eles sentirem o quanto aquilo também estava sendo difícil para mim. — mas acima de qualquer coisa, eu acho que vocês precisam saber de uma coisa: – dei uma pequena pausa, respirando fundo e reunindo o resto da minha coragem. — Eu e a Nati estamos juntas. E quando digo que estamos juntas, não é só como amigas e sim como um casal.
Mamãe arregalou os olhos de surpresa, já meu pai desviou o olhar, parecendo um tanto... Desconfortável. Bom, eu meio que já esperava essa reação vinda dos dois. Mas agora já estava tudo feito. Eu não queria que eles entendessem, eu só queria que eles aceitassem minhas decisões.
Eu já não era mais uma menininha. Eu era quase uma adulta.
Nenhum dos dois disse nada e olha que eu dei uma chance a eles de se manifestarem. Mas pelo visto eles estavam embaraçados demais para dizer qualquer coisa. Menos mal, né? Só para contornar a situação e não fazer feio diante da Nati, mamãe levantou-se para pegar a sobremesa.
— Eu vou com você. – disse meu pai, indo praticamente correndo atrás da minha mãe como se ela tivesse ido buscar um caminhão que não suportaria carregar sozinha e precisaria da ajuda dele.
Voltei-me para a Nati com um sorriso.
— Viu só? Não foi tão difícil assim. Eu não esperava muito. Eles são assim, acostume-se. Eu só precisava que eles soubessem.
Ela sorriu para mim de volta.
— Está tudo bem. Eu acho que posso aprender a lidar com isso.
***
Viemos para casa juntos após o termino da aula.
Nesse momento estamos subindo o elevador do prédio. Bianca está bem a minha frente, encostada na parede metalizada oposta a que estou. Ela está tagarelando sem parar com um sorriso genuíno nos lábios no quanto a Luiza e a Natália formam um casal bonito. Mas pra ser bem sincero: eu não estou escutando nenhuma palavra que ela diz. Apenas a observo.
Ela é linda! Meu Deus como eu não enxerguei isso antes?
Meus sentimentos por ela estavam cada vez mais intensos. Difíceis de manterem guardados. Eu me sentia como se a qualquer momento eles pudessem transbordar. Nunca senti nada parecido com isso. Nem mesmo pela Gabriela, que até pouco tempo eu me achava louco por ela. Mas o que eu sinto pela Bianca vai muito além disso.
Mas eu precisava ter certeza se isso era real ou se eu estava apenas alucinando.
Avancei sobre ela, calando-a completamente. Era evidente que Bianca havia se assustado com a minha aproximação repentina. Eu sorri, tentando manter a respiração controlada. Uma das minhas mãos livres tocou a nuca dela e trouxe seu rosto para perto do meu. Então ela sorriu e suspirei aliviado, pois era como se ela estivesse me dando um sinal de que estava gostando daquilo e me dando permissão para continuar.
Não esperei mais tempo e fechei meus olhos ao colar meus lábios muito cuidadosamente nos dela. Ficamos assim por alguns rápidos segundos e só depois minha língua invadiu a boca dela para poder explora-la.
Eu bem que tentei me controlar, mas eu estava muito acelerado. Eu precisava ter certeza quanto aos meus sentimentos por ela. Sendo assim, nosso beijo logo mudou de ritmo. Aproveitando que éramos os únicos dentro daquele pequeno cubículo metálico em movimento. Eu também não tinha tempo a perder, já que logo pararíamos no meu andar. Passei a beija-la com mais ferocidade, colando nossos corpos, tentando fundi-los.
— Nossa! – ela disse com um sorriso aberto quando infelizmente o elevador parou no meu andar. — Isso foi...
Ela estava sem palavras, tanto quanto eu. Mas eu tinha que ir agora.
Merda!
— Bianca, me encontre as nove lá em baixo. – digo, pegando a minha mochila que deixei largada no chão. — No lugar de sempre.
Ela assentiu ainda sorrindo.
Eu beijei sua bochecha e saí.
Quando entrei em casa eu também estava sorrindo feito um idiota.
***
A noite estava muito agradável.
Com a volta das aulas achei que eu e a Nati precisávamos tentar manter a chama do nosso amor sempre acessa, assim como aconteceu todos os dias durante as ultimas semanas de férias. Por isso eu a convidei para sair essa noite. Essa noite jantaríamos fora por minha conta.
Eu nunca fui muito romântica. Na verdade, eu ainda não tinha conhecido a pessoa certa para desenvolver esse meu lado. Mas agora com a Nati eu praticamente me sentia na obrigação de mostrar a ela – sempre que possível – o quanto eu a amo e o quanto eu estou feliz por nós.
Pelo caminho comprei uma tulipa vermelha para ela, pois eu sabia que era sua preferida e queria surpreende-la com esse pequeno gesto.
Natália havia chegado adiantada em um restaurante simplesinho que eu sugeri que ficava localizado não muito longe de casa. Era um lugar agradável e aconchegante. Com as paredes brancas, as mesas e cadeiras de madeiras cobertas por toalhas vermelhas e uma luminárias elegantes.
Inclinei-me em sua direção para beijar seus lábios, sem me importar se estavam todos olhando ou não. Aquilo já havia deixado de me importar há muito tempo e a Nati estava se acostumando pouco a pouco.
Entreguei-lhe a flor e ela abriu um sorriso agradável.
— Você me surpreende mais a cada dia. – ela comentou, com as bochechas levemente rosadas.
Eu adorava quando ela sorria assim, de um jeito mais tímido.
Fizemos os pedidos e enquanto aguardávamos, engatamos em uma conversa agradável. Segurávamos a mão uma da obra sobre a mesa.
— Com licença, senhoritas. – pediu educadamente o garçom, após o nosso consentimento ele depositou os pedidos diante de nós.
— Eu ainda não consigo acreditar nisso. – disse ela, tentando fisgar uma folha de alface com o garfo. — Parece que estou vivendo um sonho.
— E eu espero que você se sinta sempre assim. – admito sorrindo um pouco e fazendo um carinho rápido em seu braço livre.
Continuamos a conversar – sem meus pais por perto isso era realmente possível durante a refeição – enquanto comíamos.
Tudo estava indo incrivelmente bem até que eu vi uma figura bastante familiar saindo do toalete feminino, nos fundos. Quando a garota se virou, eu rapidamente a reconheci. Era a Aline. Minha ex-namorada. Há um bom tempo eu não tinha noticias sobre ela e nem estava certa se queria ter.
Não depois da forma como ela nos tratou após descobrir sobre o nosso relacionamento.
Eu não tinha nem para onde correr ou como disfarçar. Foi muito rápido e logo seus olhos claros se encontraram com os meus. Ela que estava sorrindo — assim como eu – antes de tudo aquilo — logo deixou de sorrir enquanto ainda caminhava na minha direção e passou por nós com um olhar quase como se ela estivesse nos amaldiçoando.
Confesso que tive medo daquele olhar.
Eu não creio que a Aline seja mal o suficiente para querer nos atingir um dia, mas nunca se sabe o que exatamente se esperar das pessoas.
***
Bianca já estava esperando por mim no banco na área de lazer do condomínio onde costumávamos ficar sentados quando não tínhamos nada de muito interessante para fazer.
Assim que me viu ela se levantou, parecia surpresa. Quase como se por um momento tivesse passado pela cabeça dela que eu não viria.
Bobinha.
No céu não tinha estrelas e nenhum sinal da lua.
Antes mesmo de parar em frente a ela, eu a puxei pela cintura, fazendo tropeçar nos próprios pés. Seu corpo se chocou contra o meu peito. Ela olhava diretamente dentro dos meus olhos. E eu só precisei inclinar um pouco a cabeça para poder alcançar seus lábios com os meus.
Dessa vez eu não precisava provar nada. Eu já tinha a minha certeza. Eu a amava. Eu estava apaixonado por ela. E já não aguentava esperar por nem mais por um segundo para tê-la em meus braços.
Eu a beijei mais demoradamente, com um ritmo mais lento. Dando-me o luxo de saborear o gosto de morango do gloss em seus lábios e a corrente elétrica que percorria por meu corpo porque eu estava a tocando como há muito tempo eu havia desejado, mas não sabia.
Ela sorriu com os lábios ainda nos meus.
— Bianca, eu quero você. Desculpe-me por ter demorado tanto tempo para me dar conta disso. – beijei os cantos de sua boca, sentindo a respiração dela de encontro ao meu rosto. — Eu não quero mais perder tempo. – meus dedos apertaram firme a sua cintura. — Eu quero ficar com você. Só espero que não seja tarde demais para isso.
— Nunca será tarde demais para você. – ela sussurrou, enlaçando meu pescoço com seus braços finos. — Fê, você não sabe quanto tempo eu esperei ou o quanto eu sonhei ouvir você dizer isso.
Aproveitando que ela já estava colada a mim, apenas apertei meus braços em volta de sua cintura fina e a segurei pelas costas. Ela enterrou a cabeça no meu pescoço e fiz o mesmo com ela. Eu jurei ter sentindo uma lágrima deslizar do rosto dela e molhado a minha camiseta.
— Você não está chorando, está? – perguntei, segurando seu rosto com as duas mãos ainda bem próximo ao meu.
— Não... – ela sorriu, desviando seu olhar do meu por um momento. Um momento muito curto. — Sim. Mas é só porque estou emocionada.
Eu também sorri, depositando um beijo em sua testa.
— Vamos ficar juntos? Não precisa todo mundo ficar sabendo. Eu só quero ficar com você agora. Será algo nosso.
— Isso seria... Ótimo! – ela deu um pulinho, voltando diretamente para os meus braços. — É tudo que eu mais quero agora: ficar com você.
Eu também estava muito emocionado. Era uma alegria que não poderia caber em meras palavras. Eu também estava muito agitado, muito empolgado e fascinando com isso que estava acontecendo entre nós.
Seria possível gostar tanto de uma pessoa assim?
Eu tinha tanto o que dizer e ao mesmo tempo nada. Eu ainda tinha a sensação de que estava sonhando. Acho que nunca fui tão corajoso em toda a minha vida e tão certo quanto aos meus sentimentos. Eu me sentia outro, eu me sentia melhor e inteiro. Por isso optei por agir. Segurei o rosto angelical dela novamente entre minhas mãos e me inclinei para beija-la mais uma vez.
Alguns minutos depois quando enfim eu consegui parar de beija-la, nós nos sentamos no nosso banco, dessa vez abraçados como um casal de namorados. Mas ainda não éramos bem namorados. Pelo menos eu achava que não. Era cedo demais para pensar nessas coisas.
Eu estava... Apaixonado. Ela também. Acho que isso é o bastante.
Ficamos assim por um bom tempo, apenas calados. Eu tentando protegê-la da brisa noturna com meus braços e com o meu queixo apoiado em seu ombro, olhando para o nada. E ela usando a mão livre – que não estava com os dedos entrelaçados aos meus – para fazer círculos imaginários na pele sensível do meu braço.
Aquilo era tão simples... Mas tão bom.
Mais tarde, naquela mesma noite, já em meu quarto, pela primeira vez me dei conta de que não estava mais tendo pesadelos. Eu estava livre deles. E naquela noite também, com a Bianca em meus pensamentos e um sorriso bobo nos lábios, eu tive uma das melhores noites de sono de toda a minha vida.
No outro dia, de manhã no colégio, todas as vezes que nossos olhares se encontraram acidentalmente mesmo em meio a tanta gente, nós compartilhamos um segredo. E automaticamente nós sorriamos um para o outro como se quisessem dizer, mesmo sem palavras, que estava tudo bem e que sim, aquilo era mesmo real e estava acontecendo.
Naquela quinta-feira tínhamos apenas a aula de História juntos, onde nos sentamos mais para o fundo e trocávamos bilhetinhos.
“Eu já disse o quanto adoro essa pintinha na sua bochecha?”
Ela escreveu e por pouco eu não ri ao ler, atrapalhando a aula que eu deveria estar prestando atenção, mas simplesmente não conseguia. Não depois de tudo que aconteceu entre nós noite passada. Eu estava no mundo na lua.
“E eu adoro com o verde de seus olhos se confundem facilmente com a cor da grama após a chuva em uma tarde de sol.”
E quando não tínhamos aula juntos, mas tínhamos uma pausa ou um tempo livre, nós nos encontrávamos em um lugar reservado, longe de tudo e todos, onde nos beijávamos até perdemos o fôlego.
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