Todos Iguais

37 Gabriela e Bianca


Notas iniciais
Queria agradecer a todos pelos comentários que me fazem verdadeiramente feliz, especialmente as novas leitoras: PalomaBonicenha e Lariih Angel ♥

Vai fazer três semanas — ou será que é mais? — que eu estou nesse inferno e mais parece uma eternidade. O dia parece ter muito mais de vinte quatro horas.

Eu estou mais solitária do que nunca, sendo vigiada a todo tempo, sem ter o direito de receber a visita de ninguém, tomando remédios controlados e fazendo terapia com psicólogos. Sem contar que sou praticamente obrigada a participar de uma patética reunião de grupo entre nós, considerados viciados, contando como, porque e quando começamos a ficar dependentemente das drogas e perder o controle de tudo a nossa volta. Reuniões que eu fico calada, apenas escutando o depoimento dos outros e achando tudo aquilo muito inútil e ridículo.

Meu quarto é minúsculo, mas pelo menos não tenho que dividi-lo com ninguém, já que os médicos me classificaram como uma pessoa extremamente difícil de lidar e conviver. Tudo aqui é muito claro e extremamente deprimente. Com paredes brancas, uma única cama, um criado-mudo, uma cômoda e uma janela com grades com vista para o jardim.

Como eles acham que eu poderia melhorar tendo que ficar trancada nesse lugar?

Sim, eu já pensei em fugir. Já pensei em fazer amizades, já que praticamente são todos da minha idade e vivem uma situação muito parecida com a minha ou até pior, e causar a maior confusão para dar o fora daqui e viver livre. Já pensei em choramingar para os meus pais, implorando para voltar para casa, além de prometer ser uma garota boazinha. Ou simplesmente fingir que estou cada vez melhor, mesmo não tendo 100% de certeza quanto a isso.

Mas eu não sou a única esperta por aqui. Esse lugar é rodeado por muros muito altos com cercas elétricas, além de ser monitorado por câmeras e muitos seguranças grandalhões. É como um presídio. E eu sou a criminosa com problemas psicológicos. O pessoal que trabalha aqui também são muito profissionais e durões. Eles jamais acreditariam em mim se eu fingisse estar bem ou se prometesse não mais me meter em furadas. Provavelmente eles já devem ter ouvindo essa mesma ladainha uma centena de vezes. Porque eles acreditariam justamente em mim? Que passo a maior parto do dia isolada no meu canto, de cara feia, fazendo birra para não ter que ir conversar com o psicólogo, tomar os remédios ou me misturar com os outros pacientes.

Eu só não estou acostumada a tudo isso. E nem sei se algum dia estarei. Eu fico desolada só de pensar quanto tempo mais eu terei que ficar aqui, longe dos meus amigos, da minha família e principalmente do meu quarto, meu lugar favorito no mundo, fazendo as coisas que eu gosto, junto às coisas que me pertencem, que têm o meu cheiro, que se parecem comigo. Eu acho que vou ficar maluca de vez se continuar aqui. Às vezes parece que eu vou surtar a qualquer momento, sair gritando por aí com os braços para cima feito uma maluca, pedindo pela minha vida de volta.

— Hora do seu remédio, Gabriela. – entra a enfermeira. Uma senhora baixinha e rechonchuda. Que está sempre exageradamente maquiada, vestido seu jaleco branco e seus sapatos de saltos baixo. Seus cabelos são castanhos claros, sempre pesos. Na frente e nas laterais já existem muitos frios brancos. Ela deve ter o que... Cinquenta ou sessenta anos?

Ela me entrega sempre os mesmo comprimidos, sempre no mesmo horário, três vezes ao dia. Pego meu copo vazio sobre o criado-mudo e o encho com a água da jarra. Jogo os comprimidos dentro da boca e com o auxilio da água tento engoli-los. Sim, eu poderia muito bem não tomar meus remédios, esperar a enfermeira sair e cuspi-los. Mas isso é impossível, pois a enfermeira faz questão de revistar cada canto da minha boca para ter certeza que eu estou mesmo tomando minha medicação corretamente.

Fugir, fingir, mentir... Já não é tão mais fácil pra mim. Não aqui.

— Porque você não vai lá fora com os outros e tenta fazer amizade? O sol finalmente resolveu dar as caras. – ela diz, após checar a minha boca. Isso é constrangedor e desagradável. — Está um dia lindo! Não fique aqui dentro o dia todo pensando em coisas negativas. Isso só fará mal a você! Se você se ocupar com algo útil, tenho certeza que o tempo passará mais depressa e quando você se der conta já estará em casa, livre.

Ela não era a única que tentava me arrancar do quarto para me misturar aos outros ou procurar algo para ocupar o meu tempo. Todos os enfermeiros realmente gostavam de me incentivar, melhorar o meu humor e me dar animo. Mas eu nunca fui uma pessoa que escuta os outros, certo? Não era como se eu desse muito ouvido a eles, mesmo sabendo que muito provavelmente eles estavam certos.

Essa minha postura de garota deprimente, antissocial, reservada, imatura, rebelde, carrancuda e mal humorada não iria me ajudar em nada. E se eu queria mesmo ir pra casa logo, eu deveria repensar sobre isso. Talvez eu realmente devesse tentar melhorar, tentar ficar boa, voltar ao que eu era antes, mesmo não sendo perfeitinha, mas pelo menos eu era feliz, e isso bastava. O problema é que eu ainda não me sentia preparara para me misturar, eu me sentia quase sem forças para lutar. Eu queria um motivo, eu queria incentivo, eu queria apoio e inspiração para lutar, para tentar. Mas quando olhava para os lados tudo que eu via eram pessoas apenas cumprindo suas obrigações e isso só me deixava ainda mais desanimada.

Muitos deles não se preocupavam comigo de fato, eles só estavam fazendo o seu trabalho.

***

Eu e o Felipe estávamos tendo um relacionamento secreto. Ficar as escondidas não era exatamente o que eu tinha em mente. Eu queria ficar com ele, só com ele. O lugar já não importava mais, desde que ele estivesse comigo. Confesso que a adrenalina em tentarmos não sermos flagrados deixava tudo ainda mais interessante e intenso. Era sim muito arriscado, afinal estávamos nos pegando nas salas desocupadas do colégio e qualquer um poderia entrar a qualquer momento. Mas só de pensar nisso eu sentia meu corpo todo arder cada vez mais de desejo por ele.

A convivência excessiva entre nós nos fez aprender muita coisa um sobre o outro. E em pouco tempo já tínhamos uma espécie de código. Hoje, por exemplo, durante o intervalo enquanto todos tagarelavam a mesa comendo seus lanches gordurosos, bastou eu olhar para o Felipe de um jeito diferente para ele entender o recado. Eu o queria naquele momento, mas eu o queria só pra mim, sem mais ninguém por perto.

Ele assentiu disfarçadamente, enquanto terminava seu refrigerante.

Eu me levantei, ajeitei a saia no corpo e disse aos demais que ia ao banheiro antes que o sinal anunciasse o fim do intervalo. Tínhamos quinze minutos. Alguns minutos depois Felipe também inventaria uma desculpa para levantar-se da mesa para me encontrar. Eu não sabia qual seria a desculpa dele, mas sabia que ele era bom naquilo e não corríamos o risco de ninguém suspeitar quanto a nós. Sorrindo ao pensar nisso eu me dirigi até um cantinho escuro, quase secreto, próximo aos banheiros do ginásio.

Cinco minutos depois o Felipe veio até mim. Não tive tempo nem de dizer o quanto ele estava bonito aquela manhã com um suéter preto. Ele já chegou me atacando, pressionando-me contra a parede fria, colando seu corpo ao meu e tomando meus lábios com os seus.

Não dava para ser melhor.

Em todos esses nossos encontros secretos nós ficávamos nos beijando sem dar pausa para respirar e tocando um ao outro. Nada de conversa fiada, afinal tínhamos pouco tempo. E também podíamos conversar normalmente quando estivéssemos entre amigos, ou, sei lá.

Eu finalmente estava vivendo o meu sonho.

Enquanto eu tinha os lábios dele nos meus, sua língua dentro da minha boca, suas mãos em minha nuca ou na minha cintura, o tempo parecia que passava voando. Dez minutos se transformavam em dois. E logo o sinal batia e tínhamos que nos separar. O que era uma pena, mas também fácil de superar. Porque eu sabia que na próxima primeira oportunidade estaríamos aos beijos novamente. Era como um sonho sem fim.

Naquela manhã em especial não foi nem o sinal que interrompeu nosso caloroso momento e sim o toque estridente do meu celular.

Merda.

Felipe se afastou.

Eu estava usando uma saia azul-marinho com um bolso discreto na lateral, de onde retirei meu Iphone e vi o nome do Danilo piscar na tela enquanto o aparelho ainda tocava em minhas mãos. Franzi o cenho e perguntei-me porque, depois de tanto tempo, o Danilo resolveu ligar pra mim. Tudo bem que tenha dito a ele quando “terminamos”, que poderíamos manter contanto e sermos amigos. Mas será que ele poderia não ter ligado em um momento em que eu não estivesse saboreando os lábios do Felipe?

O lado ruim dessa história não foi só o Danilo ter ligado em um momento importuno mesmo sabendo que eu estava no colégio aquele horário, a pior parte foi o Felipe ter reagido muito mal a aquela ligação que eu nem ser quer cheguei a atender. Ele surtou.

— Ah, não. – ele riu sem humor, ao ver o nome do Danilo piscar na tela do meu celular ao mesmo tempo em que eu. — O que esse cara quer com você, posso saber? – agora ele olhou pra mim e parecia bem bravo.

Vê-lo com ciúmes era tão... Bonitinho.

Mas tudo tem um limite. Convenhamos.

— Eu não sei. – eu ri, completamente embaraçada. — Eu realmente não faço ideia. – eu estava sendo sincera... Eu não esperava esperando por aquilo. Voltei a guardar meu celular no bolso da saia quando enfim parou de tocar e depois olhei para ele sorrindo de um jeito insinuoso. — Deixa isso pra lá. Vem cá, vem. O intervalo nem terminou ainda.

Eu dei um passo à frente, tentando diminuir a distancia entre nós. Mas o Felipe recuou, deixando-me surpresa e levemente... Chateada.

— Eu não gosto nenhum pouco desse cara. – ele continuou. Com os olhos claros esbravejantes. — Ele não desgrudava de você!

Eu quis rir e dizer que ele estava sendo um bobinho por ficar com ciúmes de um cara que já era passado e que nem mesmo quando tivemos a oportunidade não reatamos, porque o que um dia existiu entre nós não existia mais. Agora eu só tinha olhos para ele, tempo para ele, meus pensamentos pertenciam a ele, assim como meu coração. Eu queria passar meu tempo somente com ele e nada mais importava agora que enfim estávamos juntos, mesmo que secretamente.

Mas não tive tempo de dizer nada, pois o Felipe virou as costas pra mim. Passou a mão no cabelo, como quem estava muito frustrado e contrariado. Eu o observava assustada. Eu não imaginava que ele fosse ciumento a esse ponto. E quando ele finalmente resolveu olhar nos meus olhos novamente, não foi para me pedir um ultimo beijo antes do sinal bater e termos que nos separar. Ele virou-se para mim para dizer algo que eu ainda não estava preparada para ouvir. Não vindo dele.

— Eu não gosto de pensar esse cara com você de novo. Ou você resolve as coisas com ele ou isso que existe entre nós não vai funcionar. – ele torceu os lábios e suspirou. — Eu sinto muito.

Dito isso, Felipe se foi. Deixando-me paralisada, sem reação ou palavras.

Eu já deveria ter imaginando que uma hora ou outro eu acordaria desse sonho e teria que viver o mundo real.

***

Eu não era aquela Gabi de antigamente há muito tempo.

Disso todos sabiam.

Naquela manhã eu acordei ainda mais desanimada. Todas as noites eu sonhava que já estava em casa junto da minha família e seguindo a vida normalmente, tentando não cometer uma nova burrada. Tudo para não ter que voltar para esse lugar. Mas quando eu acordava no dia seguinte e olhava em volta e que ainda me naquele lugar... Era como se eu fosse lançada ao fundo do mar para nadar com os tubarões novamente.

Havia dias – mesmo que poucos – que eu acordava realmente disposta a lutar por minha vida. Eu me esforçava ao máximo para conseguir pelo menos chegar a superfície do mar e tentar nadar até a praia. Mesmo que ela parecesse muito, mais muito distante. Mas as ondas eram tão altas e fortes, o mar era tão imenso e as tempestades eram tão duras comigo que eu me cansava facilmente e acabava sempre desistindo. Deixava-me levar pelas profundezas do oceano e permanecia ali, no fundo do mar, onde era meu lugar. Afinal, Eu merecia estar ali. Ninguém mandou ser uma garotinha má e irresponsável, que desobedece aos pais e que não ouve os amigos e saí correndo em direção ao mar — mesmo sabendo que às vezes ele pode ser muito traiçoeiro — como se eu fosse a melhor nadadora do mundo.

O dia estava de fato muito bonito. O céu estava bem azulzinho, quase não havia nuvens e o sol estava razoavelmente forte. Eu já tinha tomado meus remédios e tentando comer algo pela manhã. Mas continuava imóvel, quase sem vida, deitada na minha cama e olhando para a janela.

Lá fora, no jardim, alguns pacientes estavam sentados no gramado em um semicírculo, conversando, passando o tempo, dando risada ou inventando brincadeiras. Havia outros que assim como eu preferia se isolar, mas ainda assim saiam de seus quartos (com permissão, claro) e ficavam pelos cantos, imaginando um futuro longe dali. Enquanto isso alguns funcionários e enfermeiros ficavam mais atrás, sempre de olho, só para garantir que ninguém ia surtar de uma hora pra outra, querer matar o coleguinha por causa da abstinência ou coisa do tipo.

Confesso que eu não estava sofrendo com a falta de drogas. Sei que muitos de nós, que hoje estamos aqui, optamos por esse caminho por motivos variáveis e alguns até compreensíveis. Alguns por prazer, outros por más influencias, ou por brincadeiras e inocência. No meu caso eu só queria de alguma forma “aliviar” o sofrimento que me atormentava emocionalmente. Mesmo que na maior parte do tempo eu optasse sofrer por pequenas coisas. Pode parecer bobagem, fraqueza ou estupidez, mas ninguém realmente entenderia. É fácil julgar os outros, porque não é com você. Mas se fosse, você saberia exatamente do que estou falando ou o que quero dizer com tudo isso.

E não era só por causa dos remédios que eu não estava sofrendo com a falta de drogas não — aquelas que me tornaram tão dependente nos últimos meses. O motivo maior para o meu sofrimento era me sentir sozinha, era não saber como estava o meu irmão, os meus amigos, os meus pais. Era estar longe de tudo e todos, sem ter alguém para conversar, alguém que realmente se importasse comigo que não fosse só por estar fazendo seu trabalho e ganhando por isso, alguém que me apoiasse e que estivesse aqui, nem precisava dizer nada, apenas que segurasse forte a minha mão e não olhasse para mim com pena.

Eu nunca pensei que eu, Gabriela Noronha, aquela que costumava odiar todo esse sentimentalismo pudesse ter ser tornado uma garota tão sensível ao ponto de não conseguir mais me ver sozinha.

Quando dei por mim, lágrimas silenciosas escorriam de meus olhos, rolavam por minha bochecha e molhavam o travesseiro.

— Gabriela, eu trouxe seu almoço. Você não está com fome? Você não tem comido muito desde que chegou. – a tal enfermeira rechonchuda entrou no meu quarto sem nem bater. Privacidade era algo que eu não tinha e nem merecia aqui. Já que eu era considerada uma doente.

Eu era sim uma pessoa com um grande apetite. Mas isso era antes. Antes de eu optar em seguir pelo caminho mais obscuro.

Eu me sentei na cama, limpando minhas lágrimas com o dorso da mão e respirei fundo. Vi pelo canto do olho a enfermeira depositar a bandeja com meu almoço sobre o criado-mudo. Aqui nós tínhamos horário para tudo.

— Eu acho melhor você comer, pelo menos um pouco. Se você quer se ver livre daqui o quanto antes, tem que pelo menos se esforçar mais. – disse ela com sua voz melodiosa. — Se você me ajuda, eu te ajudo e....

Ela levou a mão até o meu cabelo, na intenção de toca-los como minha mãe faria ou o meu pai e para tirar alguns fios que cobriam meus olhos. Mas eu fui mais rápida e tirei bruscamente sua mão de perto de mim.

— Eu não quero comer nada! – eu gritei, sem paciência e nervosa. — O que eu quero é ver o meu irmão. Será que eu posso ver o meu irmão? – eu estava tendo um ataque de fúria. E com um gesto mal pensado eu peguei o copo de suco ao meu lado e o joguei longe, assustando-a.

Só queria deixar bem claro minhas verdadeiras intenções, mesmo que isso me prejudicasse. Eu não estava pedindo muito, ou estava?

Pedro era uma das pessoas que eu mais pensava naquelas semanas, desde que fui jogada nesse calabouço. Eu queria ver todos, saber de todos, mas ele era o mais importante pra mim. Ele sempre foi meu melhor amigo pra tudo, mesmo quando não fui a melhor pessoa do mundo com ele.

De uma coisa eu sabia era que assim que meus pais pudessem vir me ver eles viriam correndo e quando me encontrassem nesse estado me olharia com os olhos repletos de lágrimas e meu coração se partiria ainda mais por estar os fazendo sofrer. Não era justo com eles.

— Tenha calma, Gabriela. – ela ainda estava por perto, com a voz calma e serena. Porém com uma expressão de pânico. — Tudo isso parece muito difícil agora, mas com o tempo vai melhorar e um dia você vai entender que isso faz parte do seu tratamento...

— Não, eu nunca vou entender porque as coisas têm que ser assim. – eu continuei berrando, olhando dentro dos olhos dela e sentindo meu corpo tremer. — Não é justo que vocês me privem das pessoas que amo! – olhei para o lado, agora suado frio e com as duas mãos peguei a bandeja com o meu almoço e joguei no chão, bem aos pés da enfermeira que deu um pulo para trás. — Eu quero ver o meu irmão. Agora!

Ela saiu correndo do quarto, não sei se para pedir ajuda para me controlar ou se para atender ao meu pedido. A primeira opção parecia a mais provável, mas algo dentro de mim ainda tinha esperança que ela me desse ouvidos e que pudesse me trazer o meu irmão.

O Pedro não podia me ver assim, não nesse estado. Como se eu estivesse pior aqui do que costumava estar lá em casa, mesmo que essa fosse à verdade. Ele também não merecia sofrer por mim, eu devia isso a ele. Sendo assim, levantei-me da cama.

Eu precisava de um banho.

Meu irmão viria me ver.

***

Desde aquele seu pequeno ataque de ciúmes de uma simples ligação do Danilo que eu não atendi, Felipe se afastou completamente de mim. E isso estava acabando comigo. Ia fazer uma semana que nós não ficávamos mais às escondidas, ou que ele segurava a minha mão durante toda a aula de história, ou que trocava os olhares insinuosos comigo durante o intervalo sem que os outros percebessem ou que me enviava mensagens de texto fofas que me fazia sorrir pelo resto do dia. Nem mesmo um “Bom dia, Bianca.” quando nos encontrávamos no elevador ou um “Oi, Bia.” quando nos esbarrávamos pelos corredores do colégio nas trocas de aulas.

A situação me parecia ainda pior de quando ele mal falava comigo, antes mesmo de eu confessar meus verdadeiros sentimentos por ele. Antes ele pelo menos era educado. Agora ele agia como se nós nem nos conhecêssemos, ou fizéssemos parte do mesmo ciclo de amigos ou como se nós não tivéssemos passados praticamente todas as semanas anteriores aos beijos em qualquer canto escuro por aí sempre que tínhamos a oportunidade. E tudo isso só para me punir por um telefona que eu não atendi, como se a culpa fosse totalmente minha que de uma hora pra outra o Danilo resolveu me ligar – como o prometido – para mantermos o contato como dois bons e velhos amigos.

Era tão difícil assim para o Felipe entender que o Danilo não significava mais nada? E que eu tinha escolhido ele mesmo quando tive a chance de rebater com o cara mais lindo e cobiçado que já conheci? E sabe por quê? Porque não me importava se o Danilo era lindo, se ele era rico, se tinha um carro, uma carreira, seus meus pais estariam de apoio ou se eu poderia ser considerada sortuda por tê-lo novamente como meu namorado. Tudo que me importa agora é que eu finalmente descobri o verdadeiro significado do amor e me dei conta que ele não tem nada a ver com beleza ou dinheiro. E tudo isso eu descobrir ao lado do Felipe, o garoto mais inteligente do colégio, que coleciona historias em quadrinhos, que não está nem aí pra moda, que não é rico e nem nada, que perdeu o irmão e que é bem pouco conhecido.

Você deve estar se perguntando por que é que eu ainda não fui atrás dele para resolver essa situação. Ou melhor... Porque é que eu ainda não disse tudo isso a ele quando tive a chance? Talvez nós já estivéssemos bem agora e tudo isso já tivesse se resolvido e deixado para trás como algo sem importância ou fundamentos. Afinal, não é isso que eu queria?

Mas é que no fundo eu realmente me sinto culpada por tudo isso. Nas ultimas semanas eu fiquei tão feliz e tão empolgada por finalmente estarmos juntos que eu só quis aproveitar cada momento para fazer aquilo que eu tive vontade de fazer há muito tempo: beija-lo sem parar. E com isso acabei perdendo todas as chances de provar em palavras – mesmo que parecesse impossível – o quanto eu o amo e estou perdidamente apaixonada por ele. Beijos, abraços e amassos não faltaram. O que faltou foi o dialogo entre nós, onde eu poderia ter tido tudo isso e muito mais. Ter deixado às coisas bem claras desde o inicio. Agora eu não saberia nem por onde começar.

Felizmente, ou infelizmente, essa semana torturante chegou ao fim.

E como se não bastasse o Felipe estar meio que me punindo, eu também acabei pegando pesado na dieta essa semana. E no máximo o que comi foi uma maçã, barras de cereal e bebi muitos copos d’água. Se antes de tudo isso acontecer eu já não tinha apetite — mas o Felipe sabia bem como me contornar — agora que estamos tendo uma má fase eu perdi completamente a vontade de comer. E como se não comer já não fosse o bastante, eu resolvi tirar essa noite de sexta-feira para correr na esteira até o corpo não aguentar mais. Enquanto eu tivesse meu corpo em movimento, minha mente estaria trancada para qualquer tipo de pensamento negativo.

Coloquei meu top preto, minha calça legging, meu tênis de corrida, peguei minha garrafinha cor-de-rosa com água gelada, meu celular, fones de ouvido e uma toalhinha. Desci de elevador até a academia do prédio no térreo. Antes de subir na esteira e colocar as minhas coisas de lado, prendi meus cabelos em um alto rabo de cavalo. Em seguida liguei uma musica qualquer mais agitada, coloquei meus fones e subi na esteira.

A academia do prédio era pouco frequentada, então eu estava praticamente sozinha. Eu e mais um casal. Comecei correndo devagar na esteira por uns vinte minutos e fui aumentando de ritmo depois.

Eram oito e meia da noite e eu já estava pingando de suor, por mais que tentasse secar com a minha toalhinha. Meu coração batia acelerado dentro do peito, meus olhos pareciam mais pesados e meu corpo estava tremendo, implorando para que eu parasse, pois já tinha chegado ao limite. Mas eu não lhe daria ouvidos e continue correndo. Minha garganta estava seca, minha garrafinha já tinha esvaziado. Mas por nada nesse mundo eu desceria da esteira para buscar mais, pois assim perderia o ritmo.

A aquela altura eu era a única ali presente.

As paredes eram todas envidraçadas, assim eu podia ver o movimento da área externa do condomínio e quem estava lá fora também poderia me ver. Mas isso não me importava. Aquele momento era só meu. Eu não queria pensar em nada enquanto estivesse focada na minha atividade.

Tudo aconteceu muito rápido. Meu corpo pedia por descanso. Mas minha mente estava acelerada, pedindo sempre por mais, pois nunca era o suficiente. Eu precisava estar magra. Eu necessitava ser magra. O Felipe tinha que gostar de mim. O Felipe teria que me desculpar. E com esse ultimo pensamento e com uma ultima imagem dele, do outro lado da parede de vidro com os olhos focados em mim (ou isso era algo apenas da minha imaginação?) eu caí e bati a cabeça na esteira ainda ligada.

E então eu apaguei.

***

Ele demorou, mas veio. Isso graças ao meu comportamento exemplar. Ou devo dizer a falta dele? Eu só não estava disposta a ser uma "boa" garota – como eu estava sendo nas ultimas semanas – enquanto eles não trouxessem o meu irmão aqui. No fundo só eu sabia que ele era o meu porto seguro, o meu ponto de equilíbrio. Eu queria ver o Pedro e finalmente ele estava ali, bem na minha frente, olhando para mim com um sorriso bobo.

Por sorte eu já havia tomado um banho. E vestido uma roupinha melhor e mais apresentável. Não que ele fosse se importar, já que estava tão acostumado comigo há tanto tempo. Ainda assim optei por um jeans surrado e uma blusa fina de manga longa cinza sem estampas. Meus cabelos estavam molhados, resolvi deixa-los soltos e rebeldes, como de costume. E para o rosto nada de maquiagem, eu estava de cara limpa.

A primeira coisa que fiz assim que ele entrou foi correr para abraça-lo. Eu nunca pensei que pudesse sentir tanta falta do meu irmão. Ele me abraçou de volta daquele jeito dele: carinhoso e forte. Ficamos assim por pelo menos dois minutos, abraçados e calados. Não pude evitar deixar uma lágrima escorrer do meu olho, mas logo a enxuguei. Não queria que ele me visse chorar, não queria que ele me visse sofrendo, não queria o deixar ver que eu aquele tratamento estava acabando comigo, mesmo que no fundo eu aceitasse que era o melhor para mim, a minha única saída ou eu seria um caso perdido. Afinal, não estava sendo nada fácil.

Os dias trancada aqui passavam dolorosamente devagar.

Pedro foi o primeiro a se afastar, pegando-me pela mão, entrelaçando nossos dedos e me conduzindo de volta para a cama. Sentamo-nos um de frente para o outro. Ele não soltou a minha mão até agora e fica me olhando desse jeito dele, todo fofo e sorrindo, com seus olhos verdes analisando-me, procurando por melhoras ou procurando por algo de errado.

— Não fica me olhando assim. – eu pedi, sorrindo sem jeito e desviando o olhar por um momento. O calor da mão dele atravessa o meu corpo e me aquecia por dentro. — Eu vou ficar bem, bobinho.

Ele assentiu ainda sorrindo e fechou os olhos por um segundo, como se também quisesse se convencer disso.

Em parte ele parecia muito feliz por estar ali, tanto quanto eu. Pelo visto ele também queria muito me ver, mas não pôde vir antes. Por outro lado, ele parece levemente entristecido. E eu tenho certeza que é por minha causa, porque eu estou aqui, porque eu me deixei levar por pequenas coisas, mesmo quando ele se ofereceu para me ajudar tantas vezes e eu recusei, porque sempre fui muito cabeça dura e revoltada.

E burra, principalmente.

— Agora me conta! – eu pedi, dando um pulinho. — Eu quero saber de tudo. Sobre você... Sobre os outros. Eu quero estar a par de todos os últimos acontecimentos. – eu ri, ele também. — Por favor, não me esconda nada.

***

Quando abri os olhos à primeira coisa que eu vi foi às paredes cor-de-rosa do meu quarto enfeitadas com os meus objetos pessoais. Alguém certamente havia me encontrado caída lá na academia no térreo de prédio e me trouxe até aqui, deitando-me em minha cama. E esse alguém estava ali, do meu lado, olhando-me com uma expressão de preocupação.

— Que bom que você acordou. – ele tocou de leve o meu braço. É, meu príncipe encantado havia me encontrado caída na floresta. — Você se sente melhor? Sua cabeça está doendo? Não quer ir ao hospital?

— Oh – eu ri meio desajeitada. Tentei me sentar, Felipe me ajudou, sendo solidário. Mais uma vez. — não precisa. Eu estou bem. Acho que a minha pressão deve ter caído.

— Não, não foi a sua pressão. Você desmaiou porque não se alimenta corretamente há dias e para piorar resolveu pegar pesado nas atividades físicas. – de preocupado Felipe agora estava bravo. — Você ficou doida?!

Até agora eu estava muito feliz. Eu tinha passado mal e apagado completamente. Mas por quanto tempo? Bom, isso pareceu não importar, já que foi o Felipe quem me encontrou e me trouxe até aqui, sã e salva.

Ele tem razão. Eu fiquei doida. Eu sou doida! Mas não é como se eu tivesse controle sobre tudo que está relacionado a minha vida. De preocupado ele passou a ficar bravo comigo. E de feliz eu passei a ficar triste por toda essa situação. A culpa era toda minha. E eu não queria seguir o mesmo caminho da Gabriela, ao ponto de ter que se internada...

Pensando em tais coisas comecei a chorar descontroladamente.

— Eu sinto muito, Felipe...

Eu realmente sentia. Eu não queria perder o controle. Mas eu sempre acabava perdendo. Por mais doloroso que seja admitir. Sei que esse caminho não é o certo, mas parecia o mais fácil e a tentação sempre fala mais alto. Só depois que bate o arrependimento e vem à culpa.

Só depois que fazemos merda é que temos a dimensão do estrago.

— Você não tem que chorar. – ele me abraçou, agora com a voz mais mansa. Eu enterrei o rosto molhado em seu peito, sentindo-me envergonhada. — Você precisa de ajuda e sabe disso.

Sim, eu realmente precisava de ajuda. E esse parecia o momento certo para me convencer disso. Eu não queria ir longe demais. Não queria fazer as pessoas que eu amo sofrerem por minha teimosia.

— Vamos fazer um acordo? – Felipe agora me olhava dentro dos olhos, segurando meu rosto com as duas mãos e limpando as minhas ultimas lágrimas com os polegares. — Vamos começar com um passo por vez, ok? – eu assenti. — Primeiro você procura a psicóloga lá do colégio. Só para terem uma conversinha. E eu tento não ser tão ciumento. Que tal?

Eu tive que soltar um risinho, achando graça naquilo. Não de tudo, mas em parte sim. Eu gostava que ele fosse ciumento. Afinal, isso só poderia significar que ele também gostava de mim tanto quanto eu gostava dele. Mas reconheço que ciúme demais não faz bem a nenhum casal. E se vamos começar um relacionamento... Que seja da forma certa. Que seja moderado e nunca exagerado.

Eu aproximei meu rosto do dele e beijei suavemente seus lábios.

— Se isso significa que vamos ficar bem, eu topo.

Notas finais
É, parece que a Bianca vai em busca de tratamento. E a Gabi está bem mudada. O que estão achando de tudo isso? O que vocês esperam desses dois casos? Comentem! *Gente, essa semana tá meio corrida pra mim na faculdade e com o enem no final de semana. Quem aí vai fazer enem também esse ano? Desejo boa sorte! Sendo assim, não consegui terminar o próximo capítulo narrado pelo Pedro e pela Duda. Vou fazer o possível para postá-lo no começo da semana que vem, ok? Não se preocupem. Beijão!