Todos Iguais
51 Maria Eduarda
Notas iniciais

A comida chegou meia hora depois. A essa altura o céu já estava escuro e ganhava suas primeiras estrelas. A brisa adentrava o apartamento vazio através das janelas abertas. Pedro já tinha colocado sua calça de volta – esquecendo-se da camiseta – para ir até a portaria do prédio pegar o que eu pedi e também pagar, já que ele fez tanta questão. E eu vesti minha calcinha e meu sutiã para não ficar completamente nua.
Voltamos a nos sentar no colchão, já que era tudo que tínhamos ali, e começamos a devorar a comida.
— Sabe, nunca antes tinha comida tailandesa. – Pedro admitiu, sorrindo. — É muito boa! Nossa, estou surpreso.
Pelo menos agora ele estava sorrindo, parecia mais relaxado e melhor. Diferentemente de minutos antes de deitarmos e rolarmos nesse colchão. Eu nunca antes tinha o visto chorar daquela forma e confesso que fiquei muito fragilizada com isso. Não posso vê-lo chorar novamente.
Enquanto terminávamos de comer engatamos em uma conversa boba sobre diferentes coisas que já tínhamos comido ao longo dos anos. Acabei sabendo um pouco mais sobre seus gostos e preferências.
Depois deixei tudo de lado, para poder jogar no lixo lá de baixo, do hall do prédio, já que não tínhamos lixeira ali. Pelo menos não por enquanto. Voltei a ficar deitada com ele e ficamos assim, apenas abraçadinhos e em silencio, cada um pensando em alguma coisa em particular.
Eu pensava no quão mágico tinha sido aquele final de tarde.
Quando eu trouxe o Pedro ali não tinha em mente exatamente isso. Eu só tinha uma grande urgência de ficar a sós com ele, longe da confusão e da barulheira do mundo, na intenção que ele se abrisse comigo e me dissesse o porque de estar tão mal.
Enquanto o ouvia contar sobre seus problemas, confesso que uma parte de mim ficou muito amolecida com tudo. Não era justo que sendo maravilhoso do que jeito que era, ele ainda pudesse se considerar um monstro, um babaca, um cretino ou um destruidor de relacionamento. Mas houve também um momento que eu fiquei muito decepcionada e brava por ele ter beijada a Natália e ter a procurar para conversar sabe-se lá porque.
Mas acima de tudo fiquei com ciúmes. Sim, eu já suspeitava que eles tivessem esse tipo de relação mesmo depois de terem terminado. E por um momento eu quis que ela fosse eu. Que ele procurasse a mim quando quisesse conversar, que ele beijasse a mim quando estivesse se sentindo perdido e confuso ou que ele recorresse a mim de qualquer forma, seja lá pelo que ele estivesse passando. Eu estaria do seu lado, o apoiaria e continuariam o amando acima de qualquer coisa.
Diferentemente dos outros.
E quando me dei conta do quanto injusta eu estava sendo em pensar primeiramente em mim, no que eu queria, no que eu desejava e sonhava, ao invés de pensar nele, nos problemas dele e por tudo que ele estava passando foi que deixei toda essa baboseira de lado e pensei que o melhor seria fazer com que ele se sentisse melhor, se sentisse bem e percebesse o quão bom ele era.
De repente, essa tinha se tornando a minha maior prioridade: fazê-lo sorrir mesmo quando seu mundo parecesse estar desabando.
E com todo aquele calor da emoção de estarmos enfim nos dando bem, aqui, sozinhos nesse lugar vazio e cheio de espaço para construir uma nova vida, eu achei que nada melhor seria do que começar essa nova fase da minha vida ao lado da pessoa que eu amo, fazendo o que gosto.
Eu senti que sempre estaria preparada para me entregar para ele. Então nem foi tão difícil dar o primeiro passo. A minha única preocupação era que ele me rejeitasse, como tantas vezes. Ou que pensasse que eu estava sendo egoísta e fria por deseja-lo quando ele só precisava de carinho e atenção. Mas eu só eu sabia o quanto estava desesperada para senti-lo mais perto, junto a mim, em todas as partes do meu corpo.
Não tinha sido minha primeira vez e pela forma que as coisas desenrolaram, eu percebi que também não era a primeira vez dele, já que ele parecia tão certo do que fazia, tão experiente. Mas por fim, quando tudo acabou, quando estávamos ambos saciados, eu senti que aquela tinha sido a melhor transa de toda a minha vida. Romântica e feroz ao mesmo tempo. Carinhosa e rude. Do jeitinho que eu gostava. E se eu pudesse apagaria todas as outras, só para torna-la aquela vez a mais bonita, a mais especial e única de todas as outras anteriores.
Agora eu tinha mais certeza do que nunca: eu não queria nenhum outro. Eu só queria o Pedro. O resto é resto, nada mais importa. Queria beija-lo pelo resto da minha vida, deitar-me só com ele, sentir apenas ele e ama-lo por muito, muito tempo. Como se nada na minha vida fosse tão importante quanto ama-lo e ser amada por ele.
Sempre que ele estava por perto eu não conseguia me segurar. Eu precisava sentir tudo aquilo de novo. Só para ter certeza de que não era um sonho. De que não estava delirando e imaginando as coisas. E que sim, ele estava me olhando como se me adorasse, como se eu fosse única e linda. Exatamente o que ele precisava.
Agora que já tínhamos matado a fome, eu queria matar essa vontade louca de querê-lo cada vez mais. Eu voltei a beija-lo, devagar dessa vez. Com a mão em seu rosto. Ele ainda estava quente e com o cheiro de suor misturado com o perfume suave de sua colônia masculina. Seus cabelos negros estavam bagunçados e seus olhos verdes intensos e calorosos. Com a mão nas minhas costas ele me puxou para mais perto e me beijou de volta, me fazendo perder o ar mais uma vez.
Voltamos a nos amar, cheios de carinho e desejo. Só que dessa vez mais devagar, com mais cuidado e atenção, atentos aos detalhes, saciando as sensações até então desconhecidas.
Eu estava quase lá, perdendo a cabeça outra vez, quando o Pedro me pegou nos braços e me levou até o banheiro. Ele ligou o chuveiro, me encostou a parede e voltou a me beijar e me apertar nos lugares certos. Rapidamente ficamos molhados, mas eu ainda me sentia em combustão.
Chegamos ao clímax juntos novamente.
E foi quando começamos a tomar banho de verdade, sem amassos dessa vez. Mas também sem xampu ou sabonete. Também não tínhamos toalha para se secar. O jeito foi esperar secarmos sozinhos, o que não foi ruim. E até me deixou ainda mais excitada.
Pedro e eu ficamos deitados, trocando beijinhos e carinhos. Eu adorava a forma como ele me olhava, como se eu fosse uma joia rara. Pela primeira na vida eu me senti uma pessoa boa, uma pessoa bonita, plenamente feliz, sem preocupações ou problemas. Naquele momento eu só era um garota comum de dezoito anos, loucamente apaixonada por um garoto um ano mais novo e que transbordava de amor por ele, mesmo tendo em mente que não tínhamos quase nada em comum ou que talvez nunca déssemos certos, nem mesmo se quiséssemos.
Mas nada daquilo me importava. Não agora.
Acabamos dormindo abraçados. Eu só acordei mesmo quando senti uma estranha movimentação ao meu lado. Era o Pedro, claro. Ele estava se vestindo como se... Como se... Como se estivesse pronto para ir embora sem me avisar que já estava de saída.
Ele estava... Fugindo de mim.
— Pedro, para onde você está indo? – perguntei, ainda meu grogue de sono. Será que não estava apenas tendo um pesadelo?
Não, pela forma como meu corpo estremeceu eu pude sentir o quanto aquilo era real. Ele não estava mais por perto, então rapidamente senti um vazio pesar dentro de mim.
— Já é tarde, Duda. São quase onze horas. Eu preciso ir! – disse ele, terminando de vestir sua calça.
Pelo menos ele se abaixou para dar-me um beijinho no rosto de despedida.
— Tchau... Até amanhã.
Antes que ele pudesse ir de vez eu o segurei pelo pulso.
Ele voltou-se para mim, surpreso.
— Pedro, vamos ficar juntos... Por favor.
— Duda, eu tenho que ir.
Eu queria desesperadamente chorar, mas não podia.
Não na frente dele.
— Por favor, Pedro. Eu quero ficar com você! – sentei-me e tentei proteger minha nudez com o meu vestido. — Eu aceito qualquer migalha vinda de você. Podemos pelo menos tentar. Nem que seja escondido. Eu só quero você, Pedro. Nada mais importa. Eu só preciso que você seja corajoso o bastante para me querer de volta.
Ele ficou me olhando. Não soube definir sua reação.
— Eu prometo que vou pensar. – ele levou minha mão até seus lábios e a beijou carinhosamente. — Tá bom? A gente conversa amanhã.
Assenti.
Aquilo já era um começo.
Esperei ele ir, só para depois me vesti, pegar um táxi e voltar para casa.
Pelo silêncio já estavam todos dormindo àquela hora.
Entrei de fininho e fui para o meu quarto.
Meus tios tinham sido muito bons comigo, mesmo depois da Bianca ter jogado um caminhão em cima de mim. Antes de ligarem para o pobrezinho do meu pai, eles conversaram comigo e sugeriram que eu tomasse a frente daquela situação sem causar maiores danos a nossa família. Disseram também que qualquer que fosse a minha escolha, eles me ajudariam no que fosse preciso. Mas que eu precisava sair dali, o quanto antes.
Liguei para o meu pai assim que pude. Tive que mentir, claro. Não queria que ele tivesse um ataque do coração ao saber tudo que eu tinha aprontado desde que cheguei à Capital. Ele não merecia isso. Ele ainda acreditava que eu poderia ser uma pessoa boa mesmo longe da cobertura de seus olhos. E, bom, eu devia isso a ele.
Conversamos bastante. Ele perguntou como eu estava e eu quis saber como ele estava também. E por fim eu comentei a ele, sobre o fato de eu estar muito perto de me formar e querer começar uma vida independente, longe dos meus tios. Para que eu pudesse ser responsável por mim mesma, sem precisar mais de qualquer adulto.
Antes de concordar com qualquer coisa, papai pediu para falar com os meus tios. Eles conversaram. Meus tios deixaram de fora as minhas confusões com a Bianca e tentaram convencer meu pai o que era melhor pra mim. No final das contas, foi decidido que eu procurasse um lugar para morar sozinha.
Aquilo não era um castigo, muito pelo contrario. Era exatamente o que eu queria desde o inicio. Fiquei feliz por meu pai concordar. Foi difícil encontrar um lugar, mas com a ajuda dos meus tios eu encontrei um apartamento pertinho do colégio – não que eu fosse precisar, já que sairia dele em poucos meses – mas ali era um bom lugar. No centro de tudo, onde eu teria mercado, lanchonete, lojas de todos os tipos em fácil acesso.
Faz dois dias que eu dei entrada no apartamento em que eu e o Pedro estivemos mais cedo e agora eu só preciso encontrar um bom Design de Interiores para fazer a decoração. Quando tudo estiver pronto, eu me mudarei e darei graças a Deus por sair de baixo do mesmo tempo que a Bianca, que resolveu arruinara minha vida tanto quanto eu queria arruinar a dela.
Mas chega de pensar nessas coisas negativas. Hoje estive muito próxima do céu para me deixar abalar por pequenas coisas. Estou tão feliz, radiante e satisfeita que não quero deixar isso se perder. Se eu pudesse nem se quer dormiria só para não perder o que sinto agora.
Foi por isso que entrei no meu quarto, nem acendi as luzes e cai direto na cama sorrindo de orelha a orelha. Não tomei banho e nem troquei de roupa. O cheirinho do Pedro estava impregnado em mim e eu só queria senti-lo por perto por mais tempo.
Em um aplicativo do meu celular eu optei por tocar uma playlist da Taylor Swift. Fechei meus olhos e recreei todo aquele cenário mais uma vez entre mim e o Pedro hoje mais cedo na minha mente. Como se eu estivesse presente naquele apartamento observando a tudo por vários outros ângulos. Isso bastou para eu pegar no sono depressa, com o Pedro na minha mente e um sorriso bobo brincando em meus lábios.
Na sexta-feira de manhã no colégio, naquele finalzinho do mês, matei a aula de Geografia para bater papo com a Tatiana no banheiro. Escondidas dos inspetores. Eu ainda estava muito feliz, como se vivesse um sonho. E não consegui me aguentar. Tive que contar pra ela sobre tudo que tinha acontecido entre mim e o Pedro.
Tatiana ficou pasma, sem acreditar em tudo que eu disse. Enquanto eu tentava convencê-la de que sim, estava falando a verdade, uma rápida ideia se formou em minha mente brilhante. Eu queria muito o Pedro, era uma ideia quase obsessiva. E para isso eu seria capaz de qualquer coisa, principalmente de contar a todo mundo o verdadeiro motivo da Natália e Luiza terem terminado o namoro que parecia perfeito.
Claro, que assim que a galera do colégio ficasse sabendo iriam querer saber o porquê do término das duas. E euzinha aqui era a fonte mais confiável de fofocas nesse lugar. Eu também já não tinha mais o que temer. Eu finalmente tinha o Pedro inteirinho só pra mim. E em breve teria minha própria casa e não precisaria ter que aturar as infantilidades da minha prima.
No intervalo, aproveitei para me sentar com as meninas. E “acidentalmente” perguntei se elas já estavam sabendo sobre o fim do casal NaLu. Elas, claro, ficaram chocadas. Ninguém estava sabendo ainda. E olha que essas meninas são muito fofoqueiras. Elas quiseram saber mais sobre o caso, mas eu me fiz de desentendida e aleguei não saber de nada. Pelo menos por enquanto, até eu pensar em uma forma melhor de colocar meu mais novo plano em ação.
Acontece que naquele exato momento o Pedro passou perto da nossa mesa, com sua bandeja vazia em mãos pronta para se depositada no lugar certo. Meu coração logo disparou, na esperança que ele viesse falar comigo ou pelo menos sorrisse para mim, para eu saber que estava tudo certo entre nós. Mas isso não aconteceu, porque ele acabou ouvindo as meninas comentarem sobre o casal NaLu. E pior: elas estava fazendo piadinhas pesadas a respeito.
E ele sabia que eu era a única que sabia de tudo que tinha acontecido.
No mesmo instante ele se aproximou, me pegou pelo braço e disse:
— Precisamos conversar. – ele parecia muito bravo. — Agora.
Levantei-me sem jeito e fui atrás dele.
Paramos em uma parte do corredor mais vazia onde tinha algumas salas de aulas, ainda no térreo. Ele virou-se de frente pra mim, bufando. E eu instantaneamente me encolhi, tremendo de medo.
— Eu não acredito que já ia espalhar pra geral sobre tudo que eu te contei ontem. Eu confiei em você, Maria Eduarda.
Ai. Essa. Doeu.
— Pedro. Não. Olha. – digo, gaguejando. — Não é nada disso! Eu só pensei que elas já sabiam. Você sabe como é esse colégio – dei um risinho fraco. — As noticias por aqui voam.
— Por favor, né. Você nem se quer sabe mentir! Depois de tudo que aconteceu ontem... Eu pensei que as coisas entre nós pudessem ficar melhores. Mas pelo visto me enganei.
— Pedro. Não! Eu sinto muito....
— Eu que sinto muito. – disse ele, interrompendo-me. — Eu sabia que nada nunca daria certo entre nós. – ele passou a mão pelo cabelo, frustrado. — Esqueça tudo que aconteceu entre nós ontem.
Ele virou as costas e se foi.
Deixando-me completamente abalada.
Comecei a chorar no mesmo instante. Corri para o banheiro antes que alguém me visse. Mas foi uma péssima ideia. Todos os banheiros do térreo durante o intervalo ficam entupidos de garotas. Eu só esperei algumas delas liberar uma das cabines e me tranquei lá. Abaixei a tampa do vaso, sentei-me no no mesmo e chorei ainda mais, sentindo-me uma estúpida por ter estragado tudo.
O sinal do fim do intervalo bateu duas vezes, como sempre. E eu permaneci ali, imóvel. Tentando controlar as lágrimas. Não demorou muito para a Tatiana me encontrar. Ela sabia que sempre que as coisas ficavam difíceis para o meu lado, o banheiro era o primeiro lugar para aonde eu ia. Eu gostava de pensar que ela era a única amiga de verdade que eu tinha, mesmo sendo uma destrambelhada.
A essa altura o banheiro já estava vazio e em silencio. Ouvi quando ela entrou me chamando, mas eu não respondi. Só queria um tempo sozinho para me conformar por tudo que eu tinha perdido. Foi então que eu vi a cabeça dela por de baixo da porta.
— Ei, aí está você. – ela sorriu. — Enfim te achei. Agora abre logo essa porta ou eu vou dar um jeito de entrar mesmo contra sua vontade.
Sim, disso eu não tinha duvida.
Abri mesmo relutante, ela entrou e fechou a porta de novo.
Tatiana se abaixou e se apoiou as mãos no meu joelho.
— Vocês brigaram, não foi?
— Pior do que isso.
Ela tirou uma mecha do meu cabelo do meu rosto molhado.
— Se você gosta tanto assim dele porque não o procura e pede desculpas?
— Não é tão fácil assim, Tati.
Funguei.
— Claro que é. Você que está complicando as coisas.
Ela pegou um pedaço de papel higiênico e me entregou.
— Vamos, precisamos voltar para aula antes que nos peguem e sejamos suspensas. Limpe esse rosto e sorria. Você precisa ir atrás desse homem. Ou vai perdê-lo de vez. E eu não quero te ver chorar de novo. Você fica horrível com a maquiagem toda borrada.
Apesar de tudo, eu ri.
Limpei meu rosto com o papel enquanto me olhava no espelho.
Minutos depois eu estava pronta, sem choro e sem maquiagem borrada. Pronta para encarar a aula de Sociologia com o sorriso mais falso que eu sou capaz de dar.
Senti um embrulho no estomago quando estava indo para a próxima aula, aula de Artes, e meu olhar acidentalmente cruzou com o do Pedro, que estava de bobeira no corredor, parado em frente a sua sala, conversando com a Bianca e o Felipe que estavam abraçados de frente para ele e por sorte não me viram passar com a Tatiana ao meu lado.
Fiquei olhando para ele, na esperança que ele me desse um sinal de que já não mais tão chateado comigo. Mas ele rapidamente desviou o olhar, voltando-se para seus amigos como se eu fosse um ser invisível.
— Se você quiser falar com ele, eu te acoberto. – sussurrou Tatiana.
Sorri para ela agradecida. Sabia que aquele não era um bom momento para ir falar com o Pedro. Era evidente que ele voltou a não me suportar. Então, deixaria para mais tarde. Ou para outro dia, talvez. Até que as coisas amenizassem.
Tive aula teórica de Artes, depois fui para a Educação Física, em seguida aula de Química no laboratório e uma pausa de dez minutos para outro intervalo. Mais tarde fiz um trabalho em grupo na aula de Literatura, depois tive História e só na aula de Biologia foi que o professor pediu que me retirasse da sala e jogasse uma água para aliviar a tensão.
— Ei. – alguém me chamou no final do corredor, um pouco antes que eu entrasse do banheiro. — Maria Eduarda!
Me virei para trás. Era o Pedro que vinha correndo em minha direção.
— Você pode conversar agora? – disse ele um pouco ofegante, quando enfim parou diante de mim.
— Claro! Pode falar. – não consegui conter um sorriso, já me sentindo muito vitoriosa por ele ter me procurado.
— Eu só queria me desculpar por ter sido duro demais com você hoje mais cedo. Mas que... Nada mudou. Eu continuo a dizer que nunca daremos certo. Então... Não. Não podemos ficar juntos, nem mesmo às escondidas. Não seria bom para você e nem para mim. Essa é minha resposta.
Nossa. Obrigada por ter vindo até aqui só para dizer isso. Foi bastante útil pra mim.
Mas não foi nada daquilo que eu disse.
— Você não tem como saber disso sem nunca termos tentado! – eu estourei, brava. — Eu sei... Eu sou uma megera fria e calculista e muitas vezes perco a noção dos meus atos. Mas quem é você para me julgar dessa forma? Lembrando que aqui, entre nós, você foi o único que destruiu o relacionamento de uma pessoa. E não eu!
Ops... Falei demais.
Ele ficou chocado demais com o que eu disse. Eu juro que não foi intencional ou de propósito. Eu não queria esfregar nada na cara dele, ainda mais depois de ele ter despedaçado meu coração com tão pouco.
— É, você tem razão. Eu não estou no direito de te julgar. – ele abaixou a cabeça. E por minha causa! Senti-me terrivelmente pior.
— Pedro, não, olha... Não foi isso que eu quis dizer... Tudo que eu quero é uma chance. Eu amo você! – digo, desesperadamente. — Eu posso tentar ser uma pessoa melhor, se é isso que você quer. Eu faria qualquer coisa por você. Basta você me dar uma chance e eu não desperdiçarei por nada nesse mundo.
Antes que eu pudesse me desabar em lágrimas mais uma vez, Pedro voltou a olhar para mim com os olhos verdes cheios de compaixão. Acho que ele finalmente acreditou em mim.
Ele deu um passo pra frente, diminuindo a distancia entre nós e eu parei de respirar, compenetrada em seus movimentos sutis. Primeiro ele beijou o canto da minha boca e eu fechei os olhos. Suavemente ele foi roçando seus lábios nos meus, até eu não me aguentar mais e abrir a minha boca e me entregar para ele. De novo e de novo. Incansavelmente.
— Eu te darei uma chance. – ele sussurrou, ainda com os lábios próximos aos meus e a mão na minha nuca. — Mas só uma chance. Se isso não der certo, nós não tentaremos de novo nunca mais. Certo?
Assenti. E dessa vez meus olhos se encheram de lágrimas de emoção.
Eu o puxei dessa vez, implorando com o resto das minhas forças para que ele continuasse a me beijar e fizesse o mundo a nossa volta desaparecer por completo.
— Ei, vocês dois! Parem já com isso ou serão suspensos! — gritou um inspetor.
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