Notas iniciais
Preparem em os coraçõezinhos. Eu finalmente revelarei nesse capítulo qual é o segredo do misteriosos e-mail que o Felipe recebeu há pouco tempo atrás. Já adianto que pode ser algo tanto quanto bom quanto ruim. Coloquem-se no lugar dos dois, da Bianca e do Felipe.

Ainda estou muito chocado pela forma como a Bianca encarou os meus pais.

Era só mais um dia normal. Eu estava dando uma geral no meu quarto, juntando tudo que iria jogar fora em um grande saco de lixo quando eu subitamente ouvi a voz dela.

Ela tinha aparecido ali sem nem avisar!

Mas eu não fiquei com raiva, porque ainda não sou trouxa a esse ponto. Pensei em ir correndo até ela na tentativa de salvá-la das garras dos meus pais que já estavam em casa àquela hora, mas parei pelo caminho quando eu a ouvi conversando com a minha mãe.

— Como você pode não ama-lo? O Felipe é a melhor pessoa que já conheci. Ele mudou completamente a minha vida. E não digo essas coisas só porque estou absurdamente apaixonada por ele... Digo isso porque eu sim tenho a capacidade de enxergar o melhor que ele pode ser, diferentemente de vocês, que só sabem maltrata-lo. Quando tudo que ele merece é respeito, amor e carinho.

Minha mãe deu uma risada sarcástica.

— Você não sabe nada, garota. Você está cega de amor! E está apaixonada pela pessoa errada. O Felipe não tem nada a te oferecer. Ele é um imprestável, responsável pela morte do próprio irmão. Ele nunca estará a sua altura. Você já é grandinha o bastante para não ficar acreditando em contos de fadas.

— Você é um monstro, senhora! – seu tom de voz se alterou. Ela parecia muito brava, daquele jeito que ela sempre fica quando está prestes a voar no pescoço de alguém. — O que aconteceu com o Guilherme foi um acidente. Você é adulta aqui, já deveria ter aprendido que fatalidades acontecem até mesmo com as melhores pessoas. Não é justo que você culpe o único filho que ainda tem por isso!

Pausa.

— Agora eu sei o porquê de ele ter horror a esse lugar. – Bianca voltou a dizer. — Ele não merece os pais que tem. Tudo aqui é negativo, assombroso e me causa ânsia. Mas querem saber de uma coisa? Agora ele tem a mim. E não deixarei que nada no mundo o aborreça. Aceitem vocês ou não, eu o amo e virei aqui quantas vezes por necessárias para ver o meu namorado.

Ela falava sério. Bianca não temia os meus pais. Ela estava os rebatendo de frente, como eu nunca fiz antes. E eu tive um orgulho enorme dela naquele momento! Eu não me sentia mais perdido ou sozinho nessa casa, agora eu tinha uma pessoa que estava ao meu lado nas horas boas e difíceis. Ainda me pergunto como demorei tanto tempo para perceber isso. Para perceber que era ela a pessoa certa pra mim.

Depois daquele dia, Bianca passou a frequentar mais a minha casa. Estando meus pais presentes ou não. Ela tocava a campainha até eles ou eu abrir a porta, os cumprimentava de longe mais por educação e juntos íamos para o meu quarto. Meus pais não diziam nada, permaneciam imóveis como se tivessem medo de como ela poderia agir caso eles tentassem nos impedir.

Eu tinha a melhor namorada de todas.

— Posso dormir aqui hoje? – perguntou ela, nessa sexta-feira.

— Seus pais não vão achar ruim?

— Eles não vão saber. Eu inventei uma pequena mentirinha.

Ela riu.

— Você não deveria mentir para eles, Bianca.

— Não foi nada de mais. Eles gostam muito de você. Mas jamais entenderiam se eu pedisse para dormir aqui na sua casa. Eles não sabem que a gente não faz nada ainda. Você sabe... Os pais sempre pensam ou esperam o pior de seus filhos. Impressionante!

Foi a minha vez de rir.

— Mas e o seus pais, será que eles vão achar ruim?

— E porque isso importa? – eu rebati.

— Ah, não sei. – ela deu de ombros e fez uma careta. — Às vezes eu queria muito me entender com eles, sabe? Ser uma “nora” melhor. Mas não posso suportar que eles te tratem assim. Isso acaba comigo!

Eu a puxei para um abraço.

— Está tudo bem. Você não precisa se preocupar com isso. – digo, com a boca próxima a sua orelha. — Agora que eu tenho você, isso já não me importa tanto. Eu não preciso de nada que venha deles. Só estou aqui ainda porque sou menor de idade. Mas quando isso passar, eu quero me livrar daqui e viver pra sempre junto de você.

Beijei sua bochecha.

— Só eu e você, é tudo que me importa.

Beijamo-nos suavemente.

Mais tarde, depois de termos jogado e conversado o bastante, eu dei uma camiseta minha para ela usar como pijama. Apaguei as luzes, fechei a janela e nos deitamos juntos, na parte debaixo do beliche. Cobri nossos corpos com o edredom que eu tinha desde que era só um garotinho. Beijei seus cabelos, puxei-a para mais perto e fechei meus olhos. Pronto para ter em uma maravilhosa noite de sono dormindo de conchinha com a minha namorada.

Despertei-me cedo demais. Quando vi as horas no celular, vi que ainda eram oito da manhã de um sábado. Cuidadosamente saí da cama, tentando não acordar a Bianca que ainda dormia tranquilamente como um anjo. Na cozinha, aproveitando que meus pais ainda também não tinham acordado, preparei um café da manhã especial para levar até a cama.

Leite. Café. Frutas. E pão integral com frios.

— Bom dia, meu amor. – a cutuquei. Ela abriu os olhos vagarosamente. — Dormiu bem?

Beijei a ponta de seu nariz, o que já era um costume.

— Dormi maravilhosamente bem, sentindo o seu cheirinho pertinho de mim, suas mãos no meu corpo e sua respiração em meu pescoço. – ela sorriu tentando se sentar sobre o colchão. — Fez tudo isso pra mim?

Ela olhou para bandeja que eu deixei de lado.

— Sim, você gostou?

Ela fez biquinho e inclinou a cabeça pra cima, para que eu pudesse dar um beijo nela.

— Você é sempre assim... Tão perfeito?

— Só pra você.

Sorri sem graça.

Tomamos nosso café da manhã no quarto. Enquanto Bianca colocava suas roupas de volta, eu fui escovar os dentes e tomar um banho. Vesti um jeans escuro e uma camiseta preta do Capitão America. Calcei meu All Star velho e passei os dedos pelos cabelos, dando aquela ajeitada básica.

Bianca se aproximou com sorriso adorável, enlaçando-me pelo pescoço. Ela se ergueu na ponta dos pés, beijou meus lábios docemente e depois fungou no meu pescoço, me fazendo sentir cócegas.

— Vamos?

Ela assentiu, entrelaçando nossos dedos.

Passamos pela sala, em direção a porta. Meus pais enfim levantaram-se e estavam preparando o café da manhã para eles. Eu não disse nada, eu nunca dava satisfações quando saia de casa. Mas a Bianca fez questão de lhes dar um "olá! e desejar um ótimo dia para eles.

Não preciso nem dizer que eles não deram a mínima atenção.

Subimos para o seu apartamento. Ao entrarmos, dei de caras com seus pais já bem apresentáveis, mesmo tão cedo. Eles tinham acabado de tomar café da manhã. Cumprimentei-os e me juntei a eles no sofá, para a Bianca subir e se arrumar também.

Nós fomos ao shopping logo depois. O motorista, o Marcel, nos levou de carro. O shopping estava cheio. Bianca me guiou por todo caminho. Comprar roupas novas para o jantar de mais tarde tinha sido ideia dela. Como se não ela não tivesse um closet cheinho de roupas que usou uma única vez em toda a vida.

Ela entrou em pelo menos quatro lojas. Olhou tudo em volta e saiu, reclamando da falta de gosto do lugar. Coisa de mulher. A quinta loja a animou mais um pouquinho. A vendedora também era uma mulher jovem, muito simpática e animada que levou a minha namorada até uma arara de vestidos de festas. Bianca deu gritinhos de entusiasmo.

E eu estava de lado, apenas a observando se divertir. Como se estivesse em um filme da Barbie ou coisa parecida.

Passamos praticamente o dia inteiro ali. Mais de três horas para a Bianca escolher um vestido. Não que eu tivesse coisa mais importante pra fazer... Mas ficar de canto, sentado, apenas dizendo se eu tinha ou não gostado dos modelos – e quase sempre eu gostava apesar de ela não acreditar – era de fato muito exaustivo.

Sem contar todas as vezes que me peguei olhando os preços altíssimos dos vestidos que a Bianca experimentava. A coisa mais importante para ela era o modelo, o corte e a cor. Nada mais importava. O preço ela nem se quer olhava. Podia pagar por qualquer um. Enquanto eu tinha o dinheiro contado para comprar uma unica camisa.

Aquele realmente não era o meu mundo. Mas dentro dele tinha uma coisa que me pertencia: a Bianca. E nada disso iria me fazer mudar de ideia.

Fiquei admirado quando uma das vendedoras elegantemente bem vestida e maquiada me serviu com água, suco, refrigerante ou champanhe. Eu aceitei o suco. E um pouco depois ela também me ofereceu uns biscoitinhos bem refinados.

As lojas que eu costumo frequentar nunca servem nada.

Quando eu já tinha terminado de comer meu pequeno lanchinho, eu disse a Bianca que iria a alguma outra loja escolher uma coisa para mim, para que depois pudéssemos comer alguma coisa. Não sei. Qualquer coisa que ela quisesse fazer após decidir o que levar para vestir.

Na primeira loja que entrei, apesar de estar bem movimentada, gostei de cara de uns cardigan que eu vi próximos a entrada. Entre eles optei por um cinza básico que estava dentro do meu orçamento.

Diferentemente da Bianca, a primeira coisa que eu olhava quando ia comprar uma roupa era o preço. Eu não era como ela e talvez nunca seria. Eu vim de uma origem humilde, onde as pessoas ganham razoavelmente bem, mas nunca o bastante. Meus pais me dão uma mesada boa todos os meses, mas se eu não me organizar, ela vai para o saco rapidamente. Na verdade, eu sou muito agradecido por isso. Porque pelo menos eu ganho uma e mesmo que na seja grande coisa ajuda em muita coisa.

Até hoje eu me pergunto por que meus pais ainda se dão ao luxo de me bancar, mesmo sendo tão cruéis comigo. Admira-me eles ainda não terem me enxotado para fora de casa ou no mínimo ter cortado minhas despesas para que eu arrumasse um emprego qualquer e me sustentasse.

Bianca me encontrou quando eu já estava saindo da loja onde estava. Ela segurava duas grandes sacolas com o nome da loja que eu a tinha deixado a poucos minutos.

— Adivinha? – ela sorria, deslumbrada. — Eu resolvi ficar com os dois. O dourado e o vermelho. Não conseguia me decidir!

Eu ri, pegando suas sacolas para segurar.

— Mas e você – ela me olhou por um rápido momento. Estávamos andando rumo a praça de alimentação. — o que comprou?

Quando achamos uma mesa pequena para nós, eu mostrei a ela o meu mais novo cardigan. Pelo menos ela gostou e não ficou falando – feito uma namorada chata – que eu deveria ter comprado algo de marca melhor ou coisas do tipo. Eu ficaria muito chateado se ela dissesse algo parecido com isso, além de muito bravo por ela ter que optar em tudo.

Decidimos dividir uma batata recheada com estrogonofe de carne antes de voltar para casa.

Novamente tomei um banho já em casa. Vesti uma camiseta branca por baixo do meu novo cardigan cinza e voltei a colocar meu jeans escuro de antes. Meu All Star também era indispensável. E pra finalizar, dei uma arrumada considerada em meus cabelos revoltos.

Pelo que ouvi a Bianca e os pais dela dizerem, esse jantar seria muito fino entre um pessoal da empresa deles. Mas eu tentei relaxar e não pensar muito nisso. Eu queria me sentir a vontade e normal. Só que foi muito difícil me controlar quando a noite chegamos ao tal restaurante escolhido pela família Vasconcelos.

Nada do que eu tenha imaginado chegava aos pés daquele lugar que estava bem ali diante dos meus olhos. As paredes eram de um amarelo clarinho, as mesas redondas com grossas toalhas brancas, cheias de taças, talheres e jarros de orquídeas amarelas. As cadeiras eram grandes e pareciam muito confortáveis, além de terem um lindo design. O teto era coberto por lâmpadas e bem no meio tinha um grande lustre de cristal que era praticamente do meu tamanho.

Aquele lugar tinha cheiro de riqueza.

Os garçons eram todos arrumadinhos, nos fundos tinham um bar elegante e em uma das laterais a cozinha. Tinha também algumas paredes de vidro, voltadas para um jardim externo. Apesar de ser um lugar grande e espaçoso, ainda estava muito pouco movimentado quando chegamos.

Bianca estava ao meu lado usando um vestido dourado super brilhoso e um par de rasteirinhas com pedras. No alto da cabeça ela tinha uma tiara que combinava com a roupa. No braço algumas pulseiras e no pescoço o colar que eu tinha dado a ela com o meu nome. Seus cabelos estavam ondulados nas pontas e ela estava muito bem maquiada.

Sua mãe mais a frente, de braço dado com seu pai, também estava muito elegante em um vestido preto e longo. Sempre que eu olhava para ela conseguia ver a Bianca, quando estiver com a mesma idade. O que não me parece ruim, já que sua mãe é tão linda quanto ela, com seus cabelos claros, o corpo magro, a pele alva e os olhos cintilantes.

Seu pai trajava um terno azul-marinho e sapatos pretos. O cabelo castanho estava muito bem penteado para trás e os olhos verdes – a quem a filha havia herdado – em destaque.

Sentamos em uma mesa onde já estavam presentes mais três pessoas. Dois homens também de terno e uma mulher morena. Todos os três também pareciam muito ricos, mas também muito simpáticos. Sorriam, apertaram a minha mão e foram cordiais. Não me olharam feio, não repararam minhas vestes simples e nem me ignoraram como se eu fosse invisível.

Posso dizer que passei a maior parte do meu tempo calado, ouvindo a tudo que eles conversavam. Sobre suas famílias, o trabalho, investimentos, sociedade, problemas no casamento, dificuldades com os filhos e sobre o futuro. Eu realmente era um peixe fora d’água ali. Mas eu sentia que tinha pelo menos algo em comum com eles: eu sonhava alto, eu queria ir mais além, eu queria realizar meus sonhos, queria ter uma família perfeita mesmo sabendo que nem sempre era possível ter tudo que eu queria.

Bianca não tinha saído do meu lado nem por um momento. E também não largava a minha mão por nada. Aquilo era reconfortante. Senti-la ao meu lado me impulsionava, me fazia relaxar, me fazia querer cometer sacrifícios e ir até onde eu pudesse por ela. Nós não tínhamos conversado desde que chegamos e quando parei para olhar para ela atenta a tudo, as coisas em volta ficaram em silencio. Como se eu tivesse pausado as cenas não tão importantes assim do nosso filme.

Ela estava feliz, empolgada, animada e radiante. Mesmo que com tudo isso não estivesse prestando a atenção diretamente em mim, assim como eu estava prestando atenção nela. Mas pelo menos ela estava muito melhor que antes. Comendo mais, sorrindo bastante, suspirando com o ar de sonhadora, e dizendo coisas inteligentes. Não pude deixar de perceber que quando o assunto era o futuro da empresa de moda de seus pais, ela dava um pulinho e apertava a minha mão com mais força.

E pela primeira vez em muito tempo eu pensei em nosso futuro juntos. É claro que queríamos ficar juntos de qualquer jeito. Mas nunca antes tínhamos conversado o que faríamos até esse momento chegar. Qual caminho iriam percorrer. Por exemplo: que faculdade optaríamos por fazer, onde pretendíamos trabalhar, morar... Esse tipo de coisa. Ou será que ela não pensava em nada disso? E eu, no que eu pensava? O que exatamente eu queria? Sim, parecia muito cedo para pensar nisso, mas acho que essas coisas são fundamentais para um casal, afinal todas as pessoas que sem amam têm planos e expectativas. E muitas vezes nós acabamos percebendo tarde demais que não sonhamos as mesmas coisas e que um futuro juntos é muito incerto.

Pelo menos de uma coisa eu sei: eu quero sair da casa dos meus pais e viver longe deles a minha própria vida.

Confesso que começar a pensar nessas coisas me deixou um tanto assustado com a possibilidade de não darmos certos no futuro. E se isso fosse só um momento, enquanto ainda éramos jovens e sem muitas responsabilidades? E se quando tudo isso fosse deixado para trás e tivéssemos que viver uma nova etapa de nossas vidas nós percebêssemos que vivermos um futuro juntos parecia fácil na teoria, mas na realidade as coisas eram bem piores e duras.

— Fê? Felipe? – Bianca deu-me um cutucão, fazendo os outros rirem com a minha reação de espanto. Eu voltei a realidade, lembrando-me de onde eu estava e o que fazia aqui. — Ei, acorda.

Ela riu.

— Porque você estava me olhando assim? – ela perguntou em um sussurro, inclinando-se mais perto de mim para que só nós dois pudéssemos ouvir.

— Desculpa... Eu só estava perdido enquanto admirava você. – menti, forçando um sorriso que pela expressão dela deve ter soado bem convincente.

— Ai, seu bobo. – ela pareceu com envergonha com tudo que eu disse. — Vamos lá fora um pouquinho? Respirar um pouco de ar puro.

Fiquei confuso por um momento.

— Eu pensei que você estivesse se divertindo aqui

— Sim, e eu estou. Mas também estou louca para te beijar agora. Então será que dá pra gente sair logo daqui?

Foi a minha vez de rir.

Peguei sua mão e a puxei até onde eu achava que era a porta que dava para o jardim do restaurante. Procuramos por um canto mais reservado, longe dos olhares de todos. E em poucos segundos começamos a nos agarrar como se nada no mundo fosse mais importante do que ter nossas bocas coladas uma na outra.

Mais uma vez a Bianca mentiu para os pais, dizendo que ia dormir na casa da Luiza quando na verdade ela vinha dormir na minha.

Para nossa alegria, quando entramos em meu humilde apartamento, a primeira coisa que nós vimos foi um bilhetinho dos meus pais em cima da mesinha de canto. Onde a mamãe dizia:

“Felipe, cuide da casa. Pelo menos pra isso você deve servir. Nós fomos para o funeral de uma prima do sei pai que faleceu essa tarde. Você não a conhece, então não teria porque vir conosco e imagino que você também nem iria querer. Voltaremos amanhã a noite. Caso você sinta fome, sabe onde encontrar dinheiro para pedir alguma coisa.”

Eu quase tropecei no tapete da sala quando a Bianca me puxou para o sofá, beijando-me enlouquecedoramente. O bilhete caiu no chão. Ela ria, tentando me agarrar. Dei-me conta naquele instante que ela havia abusado do champanhe durante o jantar. Não que ela não fosse de me atacar, mas ela estava rindo por tudo. E isso apesar de ser engraçado, era também bastante preocupante.

Eu não queria que ela acordasse com uma ressaca brava no dia seguinte.

— Opa. – arregalei os olhos quando ela tentou arrancar a minha camiseta antes mesmo do cardigan. — Bianca, o que deu em você, hein?

— Nada, ué. – ela riu. — Algum problema? – eu balancei a cabeça. — Então porque você não tira logo essa roupa?

— O quê? Não! – eu tentei me afastar, mas ela me puxou de volta. — Eu não quero fazer isso com você assim... Bêbada.

— Ei! Eu não tô bêbada! – ela se fez de ofendida. — Eu só estou embriaga de amor por você, desde o dia em que te conheci.

Eu sorri ainda mais quando ela começou a lamber meu pescoço.

— Nós não precisamos fazer isso, Bia. – digo, apesar de já estar bastante excitado com todas suas provocações. — Eu posso esperar...

Gemi quando ela sugou a pele sensível do meu pescoço.

— Mas eu quero! – protestou ela, fazendo beicinho antes de voltar a me provocar pelo pescoço. Que certamente era a parte mais sensível do meu corpo. Eu me arrepiava por qualquer coisinha ali.

— Mas eu... Eu... – digo, todo nervoso. Gaguejando e suando. — Ai meu Deus – eu ri, quando ela mordeu bem... Ali. — Bia... Eu quero... Eu...

— Eu quero sentir isso com você, Fê. – ela sussurrou de maneira sensual do meu ouvido, mordiscando meu lóbulo.

Suspirei fundo, já de olhos fechados.

— Tá bom... Me dá logo essa boca gostosa, vai. – puxei-a pela nuca para beija-la de maneira intensa.

Desabotoei o resto dos botões do meu cardigan. O que era para ser simples acabou levando uma meia hora mais ou menos. Eu estava nervoso, tremendo um pouco e isso não estava ajudando muito. Depois puxei a camiseta pela cabeça e quando estava pronto para voltar a beijá-la para continuarmos o que tínhamos começado... Bianca tinha apagado de vez.

Vê-la dormindo tão tranquilamente foi o bastante para conter o meu fogo.

Eu a peguei pelos braços cuidadosamente e a levei até o meu quarto. Ela protestou um pouquinho, mas continuou dormindo com um sorriso meigo nos lábios. Tirei suas sandálias e joguei de lado. Coloquei a no cantinho da minha cama. Também coloquei o meu pijama, tranquei as portas, apaguei as luzes e deitei-me com ela.

Antes de fechar meus olhos eu beijei a testa dela.

Quando acordei na manhã seguinte a Bianca já estava acordada, sentada, com uma mão pousada sobre mim e me olhando.

Além de já ter ido ao banheiro, limpado o borrado da maquiagem, jogado uma água na cara, penteado os cabelos e ter usado minha escova de dente. E ter ligado meu computador e colocado Avril Lavigne para tocar em um volume razoavelmente baixo.

— Bom dia, linda.

— Bom dia, meu amor.

Levantei-me, me espreguicei e corri para o banheiro para escovar os dentes, tomar um banho, vesti algo mais apresentável que meu pijama de super-heróis de décadas passadas e preparar o café da manhã pra gente. Enquanto isso Bianca ficou no meu quarto, fuçando meu computador ou vendo pela milésima vez algum videoclipe de sua cantora favorita.

Quando voltei para o meu quarto passando a toalha nos meus cabelos molhados, descalço e já bem vestido, me surpreendi ao ver a Bianca sentada em frente ao meu computador com uma carinha de choro com um misto de raiva.

— Porque você não me contou? – ela disparou antes que eu perguntasse o que tinha acontecido. — Porque você não me contou que pretendia fazer faculdade no exterior.

Quê?

Levei um tempo para entender o que ela queria dizer com aquilo.

Então me lembrei do e-mail que tinha chegado pra mim há muito tempo e que eu ainda não tinha aberto para ler. Lembrei-me da minha desesperadora vontade de sair logo de casa, um pouco antes de entrar no primeiro ano do ensino médio, e ir morar do outro lado do mundo. Qualquer lugar longe dos meus pais. Naquela época, quando eu vivia sozinho e triste pela morte do meu irmão, era difícil suportar meus pais pisando em mim e me culpando por tudo. Não era tão fácil quanto agora, agora que eu tenho amigos e uma namorada incrível.

Lembrei-me da minha dedicação total aos estudos no primeiro ano. Das muitas pesquisas que fiz e das minhas conversas com a professora de História. A mesma que ainda dá aula pra gente hoje e que tinha sugerido que eu me inscrevesse nos vestibulares online para concorrer uma vaga em uma faculdade fora do país, onde ela mesma havia estudado por tantos anos.

Acabei me inscrevendo sem colocar muita fé que algum dia seria capaz de passar e ir embora daqui de uma vez por todas. Afinal, eu nunca tinha conhecido uma pessoa no Brasil todo que tivesse sido capaz de passar em uma das melhores universidades do mundo. A professora Adriana acabou me convencendo de que era sim possível, apesar de incomum no osso país. E por fim eu acabei tentando. Fiz provas e provas, mas nunca conferi meus resultados.

Aquilo já não tinha tanta importância agora. Eu estava vivendo uma nova fase da minha vida. Eu já não era solitário. Tinha amigos, uma rotina, uma vida, compromissos e obrigações. E o fundamental: uma pessoa que eu aprendi amar mais do qualquer outra que já existiu.

Corri até o meu computador, onde o e-mail de uma das universidades que me inscrevi estava aberto. O mesmo que não li e que a Bianca tinha acabado de ler. Em inglês eles diziam que eu tinha... Sido aprovado com um excelente desempenho. E que eu mandasse a resposta, caso tivesse interessado, até fevereiro do ano que vem.

Fechei aquilo imediatamente.

Voltei-me para a Bianca.

Uma parte de minha estava surpresa, não acreditava que eu tinha mesmo conseguido. Outra parte de mim estava destruída, porque agora eu já não sabia mais o que fazer com aquela informação. Ela tinha bagunçado toda a minha vida em poucos segundos. Em outros tempos eu teria pulado de alegria e chorado de felicidade, mas agora eram outros tempos.

— Bianca, eu sinto muito... Eu posso explicar...

Mas ela não me deu uma chance de contar o meu lado. Ela simplesmente saiu correndo do meu quarto, da minha casa. Chorando. E ainda bateu forte a porta.

Eu pensei em ir atrás dela, mesmo sabendo que ela estava tão confusa com tudo aquilo quanto eu. Mas acabei desistindo e desabei sobre a minha cama, sentindo-me um tanto zonzo.

Eu não podia acreditar que aquilo era mesmo real.

Eu passei. Eu passei!

Mas... E agora?

Notas finais
E aí, gente... O que vocês acharam de tudo isso? Qual será o futuro de um dos nossos casais preferidos? Espero os comentários de vocês.