Todos Iguais
53 Luiza e Gabriela
Notas iniciais

Eu já estava me afastando mais do grupo por causa dessa minha nova dedicação aos estudos, isso graças aos meus pais. E agora que eu terminei com a Natália não vejo porque estar tanto entre eles, já que eu não suporto mais ter que olhar para a cara de traidora dela.
O que eu sinto por ela não mudou. Eu continuo a ama-la de mesma forma, ou até ainda mais que antes. O problema é que eu estou vivendo uma fase muito difícil da minha vida, correndo atrás de todo o prejuízo, se não eu perco todo o ano e meus pais me matariam com certeza. Nós já estávamos mesmo um pouco afastadas com esse meu castigo. Mas eu não posso aceitar que ela tenha aproveitado isso para se aproximar ainda mais do Pedro e beija-lo como se eu não tivesse tanta importância mais.
Eu já ficava com o pé pra trás com a amizade tão intimas que eles tinham mesmo depois de terem terminado. Eu não conseguia acreditar que ser tão amiga do ex-namorado pudesse funcionar. Nunca antes tinha conhecido alguém que tivesse se tornado praticamente a melhor amiga do ex. E pelo visto eu estava certa... Essas coisas não existem. Porque ter um relacionamento muitas vezes não significa que necessariamente você deixou de sentir alguma coisa por aquela pessoa que um dia foi tão especial.
Pelo menos agora que eu não tenho mais um compromisso com ninguém, eu posso me entregar verdadeiramente aos estudos e recuperar minhas notas. No final das contas, meus pais venceram e com isso conseguiram exatamente o que eles queriam: ter a filhinha preciosa deles de volta como nos velhos tempos.
Parece que com o término do meu relacionamento com a Natália, algumas coisas enfim fizeram sentido. Agora eu conseguia entender que meus pais não faziam aquilo por mal... Eles só queriam o meu melhor, que eu me desse bem, que eu fosse dedicada, me esforçasse mais, para compensar de alguma forma todos os sacrifícios que eles fizeram por mim.
Ao entender isso, eu comecei a me dedicar mais. Deixei de ir a festas com meus amigos, de sair pra tomar sorvete ou comer um hambúrguer, nada de cinema ou compras, parei de ver televisão ou assistir as minhas séries, deixei de lado o salão de beleza e as minhas noites do pijama com a minha melhor amiga, deixei que confiscassem meu celular e o meu acesso a internet e meti a cara nos livros e apostilas. Literalmente mergulhei de cabeça.
E se tem uma coisa boa nisso tudo – além de recuperar minhas notas nessa ultima etapa do ano – é que eu não tenho mais tanto tempo para ficar me lamento porque eu e a Natália não demos certo desde o inicio. Bom, pelo menos nós tentamos e até conseguimos chegar longe demais. Muitas vezes eu surpreendi com a força do nosso amor... Mas tudo tem um ponto fraco. E o nosso é, sempre foi e sempre será o Pedro. Enquanto a Natália não se decidir entre quem ela ama mais... Nós não poderemos continuar com isso, nem agora – que eu definitivamente não posso porque tenho coisas mais importantes para pensar – e nem nunca, mesmo quando tudo isso passar e eu poder respirar aliviada por ter passado de ano.
***
Nessa ultima semana, desde o meu pequeno surto, passei por uma terapia mais intensa. Com esse novo tratamento posso dizer que já estou bem melhor e com as forças recuperadas.
Em muitas das minhas longas conversas com o médico e as enfermeiras que acompanham meu tratamento mais de perto, acabei me convencendo de que eles estavam certos e cobertos de razão. Era normal que eu tivesse medo do mundo lá fora, era normal que eu surtasse por causa disso. Se eu não sentisse medo de me deixar levar outras tantas vezes, significava que eu não estava preparada para sair daqui.
Para o que eu tenho não há cura e sim um tratamento pelo resto da vida.
Afinal, é esse meu medo que me move. É esse medo que me impulsiona e dá coragem de tentar ir mais além. É o medo que me faz pensar sobre tantas coisas sobre as quais ainda não tive coragem. É esse medo que eu quero perder ao arriscar viver uma vida da qual eu espero tanto poder viver do lado de fora desde que entrei na reabilitação.
Não são todos os dias que estamos bem, com um sorriso no rosto e preparados para mais um dia de vida. Quem nunca passou por isso, não é mesmo? O que eu não poderia permitir é que esses dias não tão bons quantos outros faça de mim uma pessoa covarde, fria, que está todo o tempo amedrontada, que deixa de viver por medo de não conseguir.
O que todos nós precisamos é de motivação, inspiração e isso eu tenho de sobra. Por exemplo, a minha família e amigos. Eu quero estar com eles. E logo. Mesmo que isso signifique ir lá pra fora, onde o mundo nem sempre está preparado para receber essa nova Gabriela.
Hoje estou feliz. Acordei me sentindo um pouco infeliz, um pouco cansada disso tudo. Mas a tarde, um pouco depois do almoço, meus pais vieram me visitar. Os dois. Ficamos um bom tempo lá fora, conversando. E sabe o que eles me disseram que mudaram o meu dia? Que eu era forte e capaz. Que agora eu era motivo de orgulho para eles. Que eu era boa em sobreviver mesmo quando nem tudo estava bom pra mim. E o mais importante: que eles me amavam pelo o que eu sou.
Tem coisa melhor que ouvir isso dos seus pais?
A resposta é: não. Não tem. E isso por mais simples e clichê que possa parecer, de fato mudou o meu dia e me fez ter mais forças para encarar essa realidade tão dura e cruel. Mesmo sabendo que eu teria sim momentos ainda mais difíceis, mas que também eu não era a única que sofria. E que exista pessoas bem piores por aí, passando por situações mais difíceis.
— E você não precisa se preocupar, Gabriela. – disse meu médico, sempre tão bom comigo. — Aquilo tudo já passou... Você está ótima agora. E se amanhã você voltar a se sentir mal, pense no longo caminho que você já percorreu até chegar aqui. Você é uma vitoriosa!
— Obrigada, doutor. – sorri meio sem graça, passando uma mecha do cabelo escuro para trás da orelha. — Mas e quanto a minha alta? Eu ainda tenho previsão para sair daqui no mês que vem?
— Se tudo ocorrer bem, sim. Você sairá um pouco antes do natal. Mas se alguma coisa der errada pelo caminho, não se preocupe. Você já está ótima e não vai demorar muito para se ver livre de nós.
Demos um risinho.
— Será que eu poderia te pedir um favor? – eu pedi, muito educadamente.
Ele assentiu.
— Claro. O que você deseja?
— Eu queria receber uma visita de uma pessoa...
Aquela noite, a qual tive um terrível pesadelo após o meu surto, não foi a única que eu acordei e chamei pelo Rafael como se ele pudesse me escutar. Aconteceram várias outras vezes que me fizeram pensar se eu não deveria ser menos cabeça dura com ele e permitir que ele entrasse para me visitar, para que de uma vez por todas pudéssemos resolver nossas diferenças. Sem brigas dessa vez.
— Olha, não te prometo nada. Mas tentaremos entrar em contato com ele e ver qual é a resposta que ele nos dá.
Levantei-me, confiante. Pronta para ir embora.
— Obrigada mais uma vez, doutor. Ficarei esperando por notícias. – sorri para eles e saí de sua sala.
Fui para o meu quarto. Onde me joguei na cama naquele finalzinho de noite e pensei por horas e horas se o Rafael estaria disposto a me perdoar por tudo tanto quanto eu estava disposta a perdoa-lo e dar mais uma chance para nós dois. Agora que eu estava mais motivado do que nunca.
***
Ver a Natália todos os dias no colégio já estava me tirando do sério. Eu tentava ao máximo ficar o mais longe possível dela, para não dar a chance para que ela se aproximasse e tentasse pedir desculpas pelo que fez pela milésima vez. Já que eu estava mais que convencida de que não a perdoaria nem tão cedo, ainda mais agora que era tudo tão recente.
Meu coração estava muito ferido.
Quando infelizmente tínhamos alguma aula juntas eu fazia questão de ir sentar do outro lado da sala e tentava de todas as formas não ficar olhando para ela. Mas sempre que isso fatalmente acontecia... Dava-me um aperto no coração quando eu via que ela estava me olhando com aquela carinha de cachorrinho abandonado.
Todo término de namoro é difícil, ainda mais quando duas pessoas se amam tanto e não conseguem ficar juntas por nada no mundo. Não posso dizer que sou a pessoa mais insensível do mundo e não esteja sofrendo também. Porque sim, eu estou. Talvez menos do que ela, que tem um peso enorme na consciência.
Às vezes quando eu estava tentando me concentrar na leitura de algum livro, no silencio total do meu quarto, não é que a desgraçada aparecia de repente da minha mente só para me assombrar?
Não estava sendo nada fácil, mas pelo menos eu ainda estava intacta. Firme e forte. Sem me deixar abalar por qualquer coisa. Evitava ficar relembrando certos momentos, evitava ouvir determinadas musicas, evitava ficar sem ter o que fazer, evitava ficar procurando por ela com os olhos, evitava ficar por perto, evitava olhar para nossas coisas e evitava muito fortemente chorar ou eu desabaria. Disso não tenho duvida.
— Eu sinto muito por tudo, amiga. – disse a Bianca, com a mão sobre a minha. Um gesto amigável e confortável. — Vocês eram tão lindas juntas! Nem consigo acreditar que não deu certo e teve que acabar assim...
— Está tudo bem, Bia. – forcei um sorriso, sentindo uma pontada no estomago. — Não era pra ser... Mas não quero mais falar sobre isso.
— O.K. Eu entendo. – ela também deu um sorriso, um pouco fraco. — Mas você sabe que gosto muito das duas. Claro que de você há muito mais tempo. Somos como carne e unha. Mas não posso deixar de ser amiga de nenhuma das duas.
— Eu sei, eu sei. Não tem problema. Você pode continuar sendo amiga dela. Eu não vou achar ruim. Mas só não peça que eu fique no mesmo ambiente que ela. Porque isso sim eu não posso aceitar.
Suspirei.
— Mas vamos deixar isso pra lá... Eu sei que você entende. Agora me conta mais de você e do Felipe... Como vão as coisas?
Bianca desviou o olhar, parecendo um pouco incomodada por eu ter tocado no assunto.
Fazia um tempinho já que eu tinha notado que ela e o Felipe estavam meio distantes. Sem ficar trocando beijinhos e carinho todo o tempo. Algo de ruim certamente tinha acontecido entre eles. Eu só ainda não sabia o que era.
Nesse momento estamos no intervalo. Só nós duas em uma mesa mais isolada no canto. O único momento do dia em que podemos conversar, já que ainda estou de castiga. Enquanto isso, o resto do grupo está na mesa habitual, que costumávamos compartilhar todas às manhãs para o almoço.
— Estamos tendo uns problemas... – disse ela, parecendo triste. Foi a minha vez de apertar a mão dela com carinho.
Com isso, Bianca sentiu-se a vontade para compartilhar comigo os problemas de seu relacionamento com o Felipe. Mas nem deu tempo de ela terminar, pois o sinal para o fim do intervalo tinha acabado de tocar.
Fomos juntas para a sala após deixar nossas bandejas no lugar certo.
Infelizmente não teríamos a próxima aula juntas para continuarmos aquela conversinha trocando bilhetinho sem que a professora percebesse. Agora eu teria aula de Química, junto com a Natália.
Para o meu total desagrado, ela foi uma das ultimas a entrar em sala de aula. Fiquei me perguntando o porquê de ela ter demorado tanto. Será que ela e o Pedro estavam...? Ah, deixa pra lá. Pensar nesse tipo de coisa só me deixa ainda mais triste e brava.
Eu estava sentada na segunda bancada do laboratório, para poder prestar mais a atenção em uma das aulas que eu tinha nota ruim. Eu estava sentada entre dois garotos. Um gordinho e outro mais bonitinho. A Natália sentou-se ao lado do gordinho, bem perto de mim. Porque ali foi o único lugar que tinha sobrado para ela por ter chegado atrasada.
Tentei não olhar para ela naquele instante.
Conforme o professora dava procedência a aula, percebi pelo canto do olho que a Natália ficava olhando para mim todo o tempo. Aquilo fez com eu ficasse ainda mais furiosa com ela, pronta para xinga-la ali mesmo, diante de todo mundo. Mas aí me ocorreu uma ideia muito melhor: provoca-la.
— Ei, qual é o seu nome mesmo? – me inclinei para mais perto do garoto bonitinho ao meu lado para não atrapalhar a aula.
— Paulo. – o garoto apesar de surpreso com a minha atitude, pelo menos foi educado comigo. — Por quê?
— Ah... Hum... Paulo – pousei a minha mão sobre o braço dele e ali fiz uma pequena e rápida carícia ali. — será que você poderia me emprestar as anotações da aula passada? Eu estou meio perdida. – menti.
Soltei um risinho.
— Ah... Claro. – ele sorriu, mostrando suas covinhas. — Espera só um minuto. Vou pega-las na mochila. – ele abaixou-se.
Aproveitei aquela deixa para olhar para a Natália e vendo a expressão dela de ciúmes com um misto de indignação me senti muito vitoriosa.
Se ela podia... Porque eu não?
Paulo voltou-se para mim, entregando-me suas folhas.
— Obrigada, Paulo. Já, já te devolvo.
***
Esperei por pelo menos dois dias, ansiosa e desesperada. Mas não obtive nenhuma resposta. E toda aquela espera só me deixava ainda mais tensa, com medo que o Rafael não quisesse mais olhar para minha cara depois de tudo que eu fiz para ele. Mas ele simplesmente não podia fazer isso comigo, não agora que eu precisava desesperadamente dele.
Nem saí do quarto aquele dia, na esperança que alguma enfermeira entrasse a qualquer momento em meu quarto e dissesse que eu tinha uma vista lá fora me esperando. Assim eu teria um tempo rápido para dar um tapa na minha aparência desastrosa.
Despertei-me de tais pensamentos quando bateram na porta naquele instante. Meu coração deu um pulo para fora do peito, cheio de expectativas que eu não conseguia controlar. Olhei pela janela para o céu e vi eu já estava escuro lá fora. Nada da presença das estrelas ou da lua no céu.
Corri até a porta feito uma desesperada e a abri cuidadosamente.
Não era uma enfermeira ou um médico. Era ele. Muito melhor que tudo isso.
Diferentemente do eu pensei que aconteceria quando aquele momento chegasse, eu fiquei paralisada, um tanto sem reação. Ele ainda do lado de fora também me olhava, com um sorriso torto típico dele.
— E aí, será que eu posso enfim entrar e conhecer seus aposentos? – ele perguntou, brincalhão.
E eu voltei de volta pra realidade.
— Ah... Hum... Entra. – dei espaço. Ele passou por mim, deixando para trás um toque suave de seu perfume masculino.
Fechei a porta.
— Fiquei feliz quando me ligaram e me perguntaram quando eu poderia vir te ver. – disse ele ainda sorrindo, sentando-se em minha cama sem eu nem ter convidado. Ousado... Como sempre. — A principio pensei em não vir, como uma forma de te punir por me tratado como lixo nesses últimos meses. Mas depois eu pensei... Eu posso ser melhor do que isso.
Eu ri, nervosa.
— Que bom que você me deu uma chance. – eu finalmente me movi, aproximando-me com cautela de minha cama.
— Mas então... Porque você me chamou aqui? – perguntou ele, parecendo um pouco impaciente. — Você sabe que nunca fui muito fã de enrolação. Porque não diz logo de uma vez?
Ouvir aquilo foi como... Um tiro.
Eu comecei a tremer, me desesperar e sentir falta de ar.
Lágrimas se formaram em meus olhos.
— Eu pensei muito em você ultimamente. E só queria conversar...
Não consegui prosseguir, as minhas emoções estavam muito alteradas. Eu comecei a chorar pra valer e me sentir muito tola por isso. Também muito envergonha, tentei esconder o rosto com as mãos.
Eu pensei que estava preparada para isso, mas a verdade é que eu não estava nem um pouco preparada para falar tudo que eu sentia.
A presença dele me fazia perder totalmente o foco.
— Porque não deixamos essa conversa pra depois? – ele se levantou, veio até mim e tirou minhas mãos do meu rosto molhado.
Em meio a todo aquele tormento, consegui ao menos sorrir por ter gostado muito da à proximidade dele.
— E o que você sugere? – pergunto, tentando limpar as lágrimas. Enquanto ele pousa as duas mãos na lateral do meu corpo frágil.
— Primeiro, eu sugiro que você pare de chorar.... Eu não mereço isso, Gabi. – ele continuava sorrindo daquela forma e eu quis quebrar a cara dele. Como ele conseguia ser tão irresistível quando tudo que eu queria era conter minhas emoções? — Segundo, eu quero isso – ele alcançou meus lábios com os dele — Eu senti tanta falta disso.
Foi como se o chão sumisse de baixo dos meus pés.
Isso porque ele me pegou pelos braços, puxando-me para mais perto e automaticamente me levantando por eu ser mais baixa. Eu o agarrei pelo pescoço, inclinando a cabeça para encaixar melhor nossas bocas. Foi um beijo que sugou o pouco ar que eu ainda tinha. E pior: fez com que eu não soubesse mais o que sentir.
Tristeza ou desejo? Raiva ou paixão? Confusão ou excitação?
Rafael colocou uma mão em cada nádega minha, me dando impulso para saltar e enroscar minhas pernas em volta de sua cintura. Isso sem deixar de nos beijar nem por um momento. Como se nos beijar fosse a ultima coisa que tinha que fazem em nossas vidas. Com o meu peso – que não é lá essas coisas – ele trombou para trás e juntos caímos em minha cama.
Eu por cima e ele por baixo.
Tirei minha blusinha com toda agilidade, enquanto o Rafael me olhava com seus olhos claros intensos e cheios de desejo.
Eu ri antes de voltar a sugar seus lábios, sentindo o gostinho maravilhoso de menta.
Tínhamos uma grande urgência em nossas caricias e beijos. Não sabíamos quanto tempo teríamos para aquilo. Por isso fazíamos de tudo ao mesmo tempo. E também fazia tanto tempo que não ficávamos tão colados, com nossas peles quentes em contato, que eu nem sabia dizer qual tinha sido a ultima vez.
— Tira a roupa. – eu pedi, com voz rouca enquanto mordiscava a orelha dele.
— O quê? – ele gemeu, depois riu. — Tem certeza que podemos fazer isso aqui? E agora?
— Faz logo o que eu estou mandando, Rafael. – fiz uma cara feia para ele, o que o fez rir de novo. — Vai logo. Anda!
Ele tirou a camiseta. E o admirei por um segundo – meu Deus ele continuava tão gostoso quanto eu me lembrava! — antes de deslizar a ponta de minhas unhas já crescidas em toda extensão de seu peito.
A porta se abriu antes de continuarmos com aquilo mais profundamente.
Ouvimos um grito estridente.
— Meu Deus! O que é isso? – era uma enfermeira, prestes a arrancar os cabelos da própria cabeça. — Parem já com essa safadeza. Isso é um horror!
Rafael e eu nos entreolhamos com toda aquela histeria e caímos na risada.
Bom, não tínhamos tido a conversa que eu tive em mente.
Mas era assim que funcionávamos.
E isso nunca mudaria.
***
Estava indo tranquilamente para minha próxima aula quando subitamente me puxaram para uma salinha escura. O material que eu tinha em mãos foi parar todo no chão. E ali ficou.
— O que pensa que está fazendo? – uma voz perguntou. Quando acederam a luz foi que eu vi que era a Natália.
Muito, mais muito furiosa.
— Você ficou louca? – perguntei, horrorizada. Olhei em volta e vi que ali era um pequeno deposito empoeirado do colégio. — Eu não quero conversar com você e muito menos te devo explicações.
— Você não pode fazer isso comigo, Luiza! – ela aumentou o tom de voz, visivelmente desequilibrada. — Não pode me ignorar como se eu fosse invisível.
Eu ri, sem humor.
— E não foi exatamente o que você fez comigo? – rebati. — Beijou o primeiro que passou só porque eu não podia te dar a mesma atenção de antes. Como se eu tivesse tido escolhas!
— Você não sabe o que diz! Não foi assim que aconteceu. Quantas vezes vou ter que te dizer que não foi de propósito e nem intencional? Foi um acidente! Você precisa acreditar em mim!
— Pois não acredito! Eu já estava mesmo de saco cheio de você grudada no Pedro sempre que ele tinha problemas. Ele não é mais uma criança, Natália. Ele sabe se resolver sozinho! Você não precisa estar em todas, como se fosse algum tipo de super heroína.
— Você não entende! – ela passou a mão pelos cabelos curtos, nervosamente. — Nós somos amigos... Apenas bons amigos. Isso desde o inicio. Eu me preocupo com as pessoas e gosto de ajudar quando posso. Você não pode me julgar por ser assim... Eu pensei que você gostasse...
Ela abaixou o olhar por um momento.
— Já entendi... Sabe o que falta em você, em nós? Confiança. Era isso que faltava! Você nunca vai acreditar totalmente em mim porque nós nos beijamos muitas vezes quando eu ainda namorava o Pedro. Eu o traí! E isso faz você pensar que eu faria a mesma coisa com você. Mesmo deixando tudo para trás para ficar com você. Porque eu te amava! Por que... Eu te amo.
E mais uma vez ela começou a chorar.
E não. Eu não podia vê-la naquele estado.
Ainda mais depois de tudo o que ela disse.
— E você ainda acha bonitinho ficar brincando assim com os sentimentos dos outros só para me causar ciúmes? – ela continuou, chorando intensamente. — Porque se é isso que você pensa... Sim. Funcionou. E sempre funcionará. Porque eu sempre amarei você e me importarei com você e esperarei por você... Até que possa me perdoar e...
Saí daquele lugar. E a deixei falando sozinha.
Era demais para eu ouvir tantas barbaridades.
Eu não queria ter uma recaída quando estava indo tão bem.
Meu foco agora era outro.
A Natália poderia esperar.
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