Todos Iguais

20 Maria Eduarda


Notas iniciais
Depois de um pouquinho de mistério, aqui vai um capítulo que vai falar um pouco sobre a nova personagem. A Duda é bem importante para essa trama toda. Mas ainda não sei se vou ficar fazendo capítulos narrados por ela. Por enquanto é só esse mesmo. Vou dar mais importância aos outros sete personagens. Mas ela sempre estará por perto, vocês vão ver. São tantos personagens que não quero que isso fique muito confuso ou exagerado, então qualquer dúvida ou crítica a respeito podem dizer nos comentários. Opiniões são sempre bem-vindas!

Nada era mais satisfatório do que ver a carinha de espanto da minha querida prima Bianca quando me viu, em uma sexta-feira à noite, parada bem no meio da sua sala com todas as minhas malas. Não pude conter o meu sorriso, que não chegava nem perto da transmitir a felicidade que eu sentia naquele momento em poder finalmente estar na cidade grande.

— O que ela está fazendo aqui? – Bianca disparou na direção dos pais, como se tivesse enfim assimilado o que de fato acontecia ali. Agora ela já não estava mais espantada com a minha presença e sim furiosa.

Meu sorriso engrandeceu.

— Filha, não fala assim! – Isadora, minha única e adorável tia, repreendeu a filha. — A Duda vai morar aqui com a gente por uns tempos. Acho bom você se acostumar, Bianca.

— O quê? – Bianca praticamente gritou, assustando os pais. Ela alternava o olhar furioso entre eles e eu. — Não, isso só pode ser brincadeira! Eu não to acreditando. Por acaso isso é algum tipo de pegadinha?

Aquele me pareceu o momento perfeito para agir.

— Ah, Bianca, não seja tão tolinha. – eu sorri, soltando minhas coisas no chão para me aproximar dela. Não dei tempo para ela recuar e a abracei apertado. — Eu senti tanta a sua falta, prima. Que bom que a partir de agora seremos uma família mais unida. Eu estou tão feliz!

Em parte eu estava sendo sincera. Meu maior sonho era estar ali, na Capital. Por outro lado, assim como a Bianca, eu queria estar em qualquer outro lugar que não fosse sob o mesmo teto que ela. Eu até amo os meus tios. Porém, eu e Bianca – como todos puderem perceber – nunca nos demos bem. Nem mesmo quando éramos garotinhas.

Meu pai me deu duas opções: isso ou nada.

Cresci a vida toda presa no meio do mato na fazendo do meu pai, sem nenhuma referencia feminina por perto. Já que a minha mãe morreu quando eu era apenas um bebê. Tudo que eu sei que foi uma doença grave no fígado, já que meu pai se limita a falar sobre isso. Eu também nem insisto, por imaginar que ainda deva doer muito nele ter perdido o grande amor de sua vida. Sempre fui apenas eu e ele isolados do resto do mundo.

Meu pai, Eduardo Vasconcelos, é o irmão mais velho da minha tia – e também mãe da Bianca – Isadora. Não preciso nem dizer que os dois herdaram milhões de dinheiro quando o vovô morreu antes mesmo de eu nascer. Minha tia investiu toda a parte dela em na sua carreira com a moda ao lado do marido. Já o meu pai comprou uma fazendo no interior e por lá preferiu se isolar por todo esse tempo. Privando-me de todo o resto, sem nunca me dar alternativas a não ser aceitar a minha realidade.

Papai sempre acreditou que longe do mundo ele poderia me educar melhor, ensinar outros valores que não tivessem relacionados a luxuria, ao poder e todo esse tipo de coisa medíocre. Tudo isso graças a uma promessa que ele fez a minha mãe antes dela partir. Eu sou verdadeiramente grata por ele por muitas coisas. O único problema é que eu nunca gostei da vida no campo, mesmo morando em uma fazenda milionária.

Sempre detestei o mato pinicando a minha pele sensível e delicada, o som dos animais, o sol forte na minha cabeça, o calor intenso, os insetos me rodeando pra cima e para baixo e as aulas particulares em casa. E também sempre senti a falta de pessoas por perto, pessoas que não fosse o meu próprio pai e seus empregados. Sempre desejei ter amigos, receber visitas, conhecer pessoas, ver os prédios altos, ouvir o barulho dos carros nas avenidas, visitar museus e os grandes shoppings, ir a festas ou simplesmente ser normal, como qualquer outra garota da minha idade.

Quando eu era menorzinha, as coisas costumavam ser mais fáceis. Meu pai era a minha base, o meu super-herói. Constantemente recebíamos a visita dos meus únicos tios em período de férias e mesmo nunca nos dando muito bem, eu e a Bianca costumávamos correr pelo campo, montar a cavalo, brincar no riacho, subir em arvores ou brincar com nossas bonecas.

Mas quando ela ia embora, quando precisavam voltar para sua casa na Capital, eu me sentia extremamente injustiçada. Eu a invejava por ela poder sair daquele mundinho e viver a sua vida feliz em um lugar maior, cheio das coisas que eu sempre desejei ter ou conhecer. Para mim ela era como um pássaro livre, que poderia voltar e ir quando bem entendesse. Eu, por outro lado, também era livre, mas apenas dentro da minha gaiola.

Mesmo quando meus tios insistiam ao meu pai que me deixasse passar alguns dias na cidade grande, ele acabava os convencendo de que eu não estava preparada e que o meu lugar era ali, de baixo da asa dele, longe do mundo exterior, onde ele poderia me proteger sempre. Houve dias que eu odiei o meu pai por ele não me dar opções, enquanto eu tinha que fingir que adorava aquela vida que ele tinha escolhido para nós dois.

Passei dias sem falar ou olhar na cara dele.

Mas isso logo passava e eu continuava com a minha vida normalmente, na esperança de que um dia as coisas mudassem. Então, eu fui crescendo, as coisas foram evoluindo, então eu tive meu primeiro celular, a tevê a cabo, depois o meu primeiro computador e acesso a internet, mesmo que limitado. A pouca tecnologia que eu tinha era como uma janela para o mundo exterior. Onde eu poderia navegar sem restrições, pesquisando coisas do meu interesse, vendo coisas que eu não podia ver de perto e a minha vontade de sair dali ia aumentando constantemente.

E finalmente, na semana passada, eu fiz dezoito anos. Há muito tempo meu pai vinha me prometendo que assim que chegasse o momento certo eu teria direito a uma escolha. E eu a fiz, mesmo sabendo das consequências. Com a maior idade eu escolhi ser feliz na cidade grande, onde enfim eu poderia viver todos meus sonhos.

Foi muito triste ter que deixar o papai sozinho, mas ele prometeu que viria sempre que possível me visitar ou ligaria para saber das novidades. Ele também me fez prometer que iria me comportar e que nunca me esqueceria de todo os sacrifícios que ele fez para me ensinar os principais valores do mundo. Mesmo quando eu achava que ele estava sendo mal comigo.

E agora eu estou aqui, maravilhada com tudo a minha volta. Agradecida por meu pai ter entendido o meu lado e por meus tios terem me aceitando em seu apartamento de luxo até que eu terminasse meu ultimo ano do ensino médio, encontrasse um emprego e me estabelecesse sem precisar ficar dependendo sempre da ajuda do meu pai e dos outros.

— Quer saber? Eu desisto! – continuou a Bianca, afastando-se de mim com certa ignorância. — Vocês nunca se importaram comigo mesmo. Nem se quer se deram o trabalho de me perguntar o que eu acharia de tudo isso. Simplesmente foram jogando essa garota em qualquer canto.

Dito isso ela saiu batendo o pé, enquanto seus pais calmamente pediam para ela ter paciência e que voltasse para eles poderem explicar melhor essa história a ela. Mas ela não deu ouvidos e subiu as escadas praticamente correndo, bufando alto e lá em cima bateu a porta.

Bianca não havia mudado nada. Continuava a mesma patricinha de sempre, rodeada de mimos, cheia de privilegio e liberdade. Meus tios também não mudaram em nada desde a última vez que nos vimos. Continuam os mesmo patetas de sempre em relação à filha.

— Não liga para os desaforos da Bianca, Duda. – minha tia se aproximou como se sentisse muito, enquanto passava a mão delicadamente por meus cabelos loiros ondulados. — Você logo se acostuma.

Assenti, torcendo os lábios, fingindo estar chateada com a situação.

Se a Bianca acha que vou dar mole para ela, está muito enganada.

— Vá descansar, querida. Está ficando tarde! – dessa vez foi à vez do meu tio dizer alguma coisa ao se aproximar. — Lídia – supostamente a empregada, imaginei – irá te ajudar com as suas coisas.

A tal Lídia se aproximou com um meio sorriso e após o meu consentimento ela pegou algumas das minhas malas e levou até o andar superior, pedindo que eu a seguisse. Despedi-me dos meus tios e fui atrás da empregada, para conhecer meu mais novo aposento.

Pelo corredor passamos em frente a uma porta branca que eu supostamente imaginei ser o quarto da Bianca pelo barulho que estava fazendo do outro lado. No final do corredor Lídia abriu uma outra porta, me deixando passar primeiro e me deparei com um amplo cômodo com as paredes recobertas por um papel de parede floral em tons de azul claro e azul escuro, um closet, um banheiro, uma cama king size, dois criados-mudos, uma escrivaninha, um carpete aveludado, alguns pufes e almofadas, uma pequena tevê de led, uma penteadeira com espelho e um janelão.

Não poderia ser mais perfeito.

— Vou pegar o restante das coisas, senhorita. – disse Lídia prontamente, saindo do cômodo logo em seguida.

Joguei-me em minha nova cama, sentindo o cheirinho de amaciante vindo dos lençóis novos. Mesmo da cama, ao olhar pela janela, eu podia ver o brilho das luzes dos outros prédios em volta. Repleta de ansiedade levantei-me da cama e corri até a janela, para poder dar uma boa olhada na minha mais nova vista do alto daquele prédio.

Tudo parecia ainda melhor do que eu havia imaginado.

Lídia voltou com o restante das coisas, deixando-as no canto para não atrapalhar a minha circulação. Agradeci a ela com um sorriso, mas tive quase certeza de que ela não foi com a minha cara. Não me importei, afinal ela era apenas mais uma criada da casa. Assim que ela saiu tranquei a porta.

Estava agitada demais com a minha nova vida que mal havia começado que nem consegui pregar os olhos mesmo já se passando da meia-noite. Por isso aproveitei para desfazer a maioria das minhas malas e colocar as minhas coisas em seus novos devidos lugares.

Depois tomei um banho quente, coloquei meu pijama, prendi meus cabelos medianos em um coque alto e desabei sobre a cama. Agora apenas com as luzes dos abajures acessas. Virei-me de um lado por outro por longo minutos, louca para que o próximo dia começasse logo e eu pudesse sair por aí, para conhecer tudo que eu tinha em mente.

Não demorou muito para eu cair no sono.

Meu primeiro final de semana ali no meu mais novo lar foi bem tranquilo, apenas aproveitei para organizar o resto das minhas coisas, agora com a ajuda da empregada e depois fiz um pequeno tour pelo apartamento, me familiarizando com os ambientes.

A noite foi bem legal da parte dos meus tios me levarem para dar uma volta, já que eu precisava de roupas novas por conta do frio que estava fazendo naquele lugar. Se fosse depender da minha prima, eu estava muito ferrada. Ela que também se recusou a ir com a gente, dizendo que iria dormir na casa de uma amiga. Eu morria de inveja dela! Ah, como eu morria de vontade de sempre ter tido uma vida igualzinha a dela.

Garota sortuda.

Depois das compras pelo shopping enorme, fomos jantar em um restaurante fino e para finalizar a noite demos uma volta de carro pelos principais pontos da cidade já que estava chovendo lá fora. Enquanto admirava cada detalhe daquele lugar cheios de luzes e pessoas mesmo em meio a chuva, desejei fazer amigos imediatamente para poder ir conhecer melhor os lugares com as minhas próprias pernas.

Choveu o domingo inteirinho e fez bastante frio também. Perguntei-me se seria sempre assim, diferentemente do interior que geralmente é mais quente. Passei praticamente o dia inteiro no quarto, comendo pipoca e assistindo filmes na minha nova tevê. Quando meus tios chegaram em casa, perguntaram pela Bianca que ainda não tinha dado as caras e me deram um presente: um tablet de ultima geração. A noite eles pediram pizza e passamos um bom tempo conversando no aconchego da sala de estar.

Bianca voltou para casa por volta das onze e meia da noite, sem dar nenhuma explicação aos pais. Ela nos ignorou completamente, provavelmente ainda muito brava. E subiu para o seu quarto.

— Acho melhor você ir dormir, querida. – disse a minha tia ao se levantar do sofá. — Está ficando tarde e a amanhã você vai ter seu primeiro dia no colégio. A aula começa as oito. Mas não se preocupe, Marcel o motorista, levará vocês duas todas as manhãs.

Acordei às sete da manhã na segunda-feira, muito empolgada para o meu primeiro dia de aula em uma escola de verdade. Eu nunca, em todos meus dezoito anos, havia frequentado um colégio. Tomei um banho, vesti um jeans claro, uma blusinha branca e um casaco de lã preto. Para os pés optei por um Vans roxo. Passei uma maquiagem bem leve, deixei os cabelos soltos mesmo, cheios de ondas como eu gostava e peguei minha mochila com todo o meu material novo dentro.

Já na copa, no andar térreo, Lídia me serviu com café, pãezinhos frescos e algumas torradas com manteiga light.

Nada da Bianca por enquanto. Não que eu me importasse.

— Lídia, onde estão meus tios? – resolvi perguntar, entediada.

— Eles quase nunca estão em casa, senhorita. – ela sorriu torto, depois saiu, voltando aos seus serviços na cozinha.

Bianca desceu faltando dez minutos para as oito, nem se quer se deu ao luxo de me cumprimentar. Era como se para ela eu não existisse. Ela também não parou um minuto para comer alguma coisa. Por isso ela é tão magrinha, quase esquelética. Ao vê-la ir em direção a porta, levantei-me rapidamente, peguei minha mochila no sofá e joguei no ombro.

Ela ia mesmo sair sem me chamar?

Pelo visto nossa convivência iria ser muito difícil.

Assim que o carro parou em frente ao prédio do colégio, tive medo de descer e me perder naquele lugar desconhecido pelas próximas horas. Desci do carro com a Bianca e segui-a até os portões, nem muito perto nem muito longe para não contraria-la ainda mais. Assim que entramos no prédio do colégio percebi que ela era o centro das atenções. Coisa que eu estava disposto a mudar em alguns dias.

E na minha primeira distração ela desapareceu completamente, deixando-me sozinha e completamente perdida.

— Você deve ser a Maria Eduarda. – uma garota do meu tamanho se aproximou de mim, com um belo sorriso estampado no rosto. Ela tinha longos cabelos lisos castanhos e olhos esverdeados. — Acertei?

— Quase. – eu sorri de volta, ainda estranhando aquela repentina aproximação. — Prefiro que me chamem de Duda, é mais pratico. – ela soltou um risinho agradável e eu continuei sorrindo, aliviada por alguém estar sendo legal comigo. — E você, como se chama?

— Eu sou a Luiza. Melhor amiga da Bianca. – suspirei. Por um momento tinha acreditado que havia conquistado uma primeira amiga, mas agora eu já não tinha tanta certeza disso. — Mas não se preocupe, também estarei a sua disposição. Você não me parece tão ameaçadora quanto a Bianca fez parecer. Eu conheço ela há bastante tempo para saber que às vezes ela exagera um pouco. Sabe, coisas de amigas.

Ela soltou outro risinho e eu apenas assenti, mesmo não sabendo exatamente do que ela estava falando quando quis dizer “coisas de amigas” já que eu nunca tive um relacionamento intimo assim com ninguém.

Mas ali as coisas seriam diferentes, não era como se todos precisassem saber disso. Por isso não entrei em detalhe, mesmo tendo gostando dela o bastante para considera-la amigável. Luiza me guiou até a direção, onde sozinha eu fiquei por um tempo ouvindo algumas recomendações do diretor e depois me entregaram uma folha com todas as minhas aulas. Uma inspetora muito simpática por sinal, acabou me conduzindo até a primeira sala, no terceiro andar. Minha primeira aula do dia seria de Biologia.

Ser a novata poder ser bom e ruim. Para mim, por enquanto, estava sendo ótimo. Conheci muitas pessoas, tentei ser simpática ao máximo para causar uma boa impressão com todos e praticamente ninguém acreditou quando eu comentei que era a prima mais velha da Bianca, que como eu mesma deduzi é bem popular por aqui.

No intervalo fui convidada para ficar com um grupo de garotas que eu deduzi que me daria muito bem futuramente, por sermos mais ou menos parecidas. Durante todo o tempo fiquei observando a Bianca de longe, em uma mesa no meio do refeitório com seus amigos, entre eles a Luiza, que chegou até acenar para mim e eu sorri de volta.

De repente senti uma vontade grande de saber quantos segredos aqueles sete amigos compartilhavam e quais eram íntimos demais para eles não dizerem a ninguém. Por um momento achei que seria uma boa me dedicar a desvendar esses mistérios tão intrigantes. E só assim eu teria uma carta na manga que poderia usar a qualquer momento ao meu favor.

Mas para isso eu precisava pensar em uma boa forma de me aproximar deles sem levantar suspeitas e ficar cada vez mais íntima.

Na aula de Educação Física preferi ficar de fora apenas observando, ao explicar ao professor a minha situação. Já que eu nunca antes tinha ido ao colégio, então não era como se eu soubesse como aquilo funcionava na maior parte do tempo, mesmo já tendo assistindo inúmeros filmes a respeito.

Sentada na arquibancada fiquei de olho no jogo dos garotos, no lado oposto da quadra e me impressionei bastante pela maioria deles serem bem atraentes. Mas admito ter ficado levemente desapontada ao não ver um dos garotos que vi sentado na mesma mesa que a minha prima durante todo o intervalo. Ele é alto, magro, mas tem ombros largos, é bem branquinho, tem o cabelo bem pretinho e os olhos são de um verde bem expressivo.

Eu daria tudo naquele momento para descobrir o nome dele.

À tarde fui apresentada as minhas aulas complementares que eu mesma escolhi a dedo. Marcel veio nos pegar as quatro e dez parando o carro em frente ao colégio. Senti-me praticamente uma celebridade quando percebi que boa parte do pessoal ficou olhando para gente ao entrar no carro. Ou, mais precisamente para a Bianca. Coisa que mudaria logo, logo.

A minha quarta-feira foi bem melhor que os dias anteriores. Eu conheci novas pessoas durante as aulas e nos intervalos também. Já não tinha mais tanto medo de me perder, depois que algumas garotas me levaram para conhecer boa parte do colégio. Agora eu já conseguia andar por ali sozinha e tranquilamente, sem medo de não encontrar uma saída.

Já não me importava tanto com o fato da Bianca me ignorar todo o tempo, como se eu não fosse da família ou se não tivéssemos passado boa parte da nossa infância juntas, sujas de barro. Estava disposta a conquistar o meu espaço naquele colégio e fazer meu próprio ciclo de amigos.

Sentia que isso não estava assim tão distante de acontecer, já que boa parte da pessoal já me conhecia, sabia quem eu era e como me chamava, me cumprimentavam pelos corredores ou apenas acenavam simpaticamente, ficavam por perto para saber mais de mim ou me convidavam para fazermos a lição juntos em sala de aula quando necessário.

Em breve eu teria uma vida muito parecida ou até melhor do que a própria Bianca e assim que pudesse esfregaria isso na cara dela por ela estar sendo tão estúpida comigo, quando na verdade poderíamos ser uma dupla da pesada e pisar em cima de qualquer um que estivesse no nosso caminho.

— Como você consegue conviver com ela? – perguntou Tatiana Sampaio com uma careta engraçada. Tati é uma das minhas maiores companheiras na maioria das aulas que temos juntas.

Ela se referia a Bianca.

— Ela é tão cretina, tão arrogante, tão metida e tão insuportável. – ela continuou. E pela primeira vez desde que cheguei aqui me dei conta de que não sou a única a detesta-la. Pelo visto eu não estou sozinha nessa.

Ao invés de prestarmos atenção na explicação da professora de Português, nós conversamos, compartilhando opiniões parecidas sobre a Bianca no fundo da sala, alheias ao que acontecia a nossa volta.

Acho que eu nunca dei tanta risada em toda a minha vida.

— Maria Eduarda Vasconcelos – a professora Ester resolveu se pronunciar, com as mãos na cintura e parada em frente a nossa mesa com uma cara feia. — vejo que você mal chegou e já está causando problemas.

Metade da turma riu, olhando pra gente.

Mordi o lábio inferior para não rir também.

— E você Tatiana, parece que finalmente encontrou a parceira certa para atrapalhar as minhas aulas. – Ester completou, parecendo ainda mais brava do que antes ao perceber que não dávamos tanta importância a suas palavras. Até que para piorar a situação Tatiana riu, riu mesmo, bem alto, bem na frente dela, deixando-a puta da vida. — Vocês duas fora da minha sala agora! – ela gritou, apontando o dedo para a porta.

E lá fomos nós, aos risos e o rabinho entre as pernas.

— Meu Deus, Tati. Você quase matou a velha! – comentei. Mas pra quê? Tatiana praticamente rolou no chão de tanto rir da situação.

Agora expulsa das aulas passamos os próximos minutos sentadas ali no corredor, tentando não sermos pegas por algum inspetor, enquanto achávamos graça de qualquer coisa que dizíamos.

Acho que finalmente eu fiz uma amiga de verdade.

Minha ultima aula do dia foi de Natação. Acabei me empolgando demais e passei mais tempo na água do que os outros, perdendo completamente a hora. Quando dei por mim já se passava das quatro horas e eu nem ser quer ouvi o apito do professor. Corri para o vestiário, onde tomei um banho quente e vesti minha roupa seca de antes.

Peguei minha mochila no chão, joguei no ombro e enquanto corria pelos corredores rumo à saída do colégio, tentava tirar os nós dos meus cabelos ondulados passando os dedos entre os fios.

Eu precisava ser rápida ou Marcel iria embora com a Bianca já no carro sem nem me esperar. E eu não saberia como voltar pra casa sozinha.

Antes que eu pudesse enfim alcançar os portões sinto meu corpo se chocar ao colidir com outro corpo, mais alto e mais forte.

— Ora, ora. – o garoto a minha frente sorriu torto, avaliando-me de cima a baixo com seus olhos claros. Então me dei conta de que ele fazia parte do grupo de amigos da minha prima. Eu só não sabia o seu nome. Mas sabia que ele era bem conhecido e bem gato. — Vejo que finalmente me encontrei com a tão falada prima mais velha da Bia.

Não pude conter um sorriso, ainda mais sacana que o dele.

— Olá. Estava me procurando? – tentei fazer graça, e pelo visto funcionou, porque ao menos ele riu. — Prazer, eu sou a Duda.

Ele estendeu a mão grande na minha direção, eu a apertei com a minha, sentindo o calor do corpo dele. O garoto estava suado, como quem estava jogando ou correndo até então. O que não me era nenhum pouco nojento, pelo contrário, ele parecia ainda mais sexy assim, todo molhado.

— E você pode me chamar de Rafa, princesa.

Notas finais
Maria Eduarda foi apresentada. E aí, o que vocês têm a me dizer a respeito? Gostaram dela ou não? Qual será a importância dela na história? Me contem tudo! É sempre bom saber de vocês.