Notas iniciais
Apesar de fazer duas semanas que minha criatividade resolveu evaporar, eu tenho mais três capítulos prontos e vou postar sempre que puder. Espero que estejam gostando.

Fala sério, eu não estou exagerando só porque sou uma garotinha mimada, que não suporta ver as pessoas querendo tomar o meu espaço. Mas nada pode ser pior do que ter minha prima morando dentro da minha casa, estudando no meu colégio e tomando meus amigos pouco a pouco.

Eu ainda estou furiosa com os meus pais pela falta de compressão, eles nem se quer me avisaram que ela viria. Talvez eu pudesse me preparar antes de ela surgir do nada. Estou ainda mais furiosa com meus pais por eles estarem a tratando como nunca me trataram antes. Pode-se dizer que eles estão até mais presentes e isso não é por mim não e sim por ela.

Se a minha amizade com a Luiza já estava desabando, foi por água a baixo agora que ela começou a namorar a tal de Aline e só tem tempo e olhos para a tal namoradinha. E para piorar, quando eu fui procura-la no sábado a noite para conversar sobre a chegada da minha prima ela me deu completamente as costas, desacreditando nas minhas palavras.

Eu estava, mais do que nunca, sentindo falta da minha amiga.

Agora era como ela fosse uma completa estranha: ignorando minhas queixas, sem tempo para nossa amizade e trocando sorrisinhos com a minha prima como se já fossem bem íntimas. Logo a Luiza que costumava me aturar melhor do que ninguém, estar sempre ao meu lado, sendo a melhor das melhores amigas que já existiu no mundo.

Maria Eduarda chegou somente para atrapalhar ainda mais a vida que já não era das mais fáceis. Nós nunca nos demos bem, isso desde que éramos crianças. Nós tentamos, mas nunca foi completamente fácil apesar de sermos bem parecidas em alguns aspectos. Não que eu não quisesse ter uma prima que fosse minha melhor amiga, afinal, ela é a única. Ela também nunca fez nada contra mim – não diretamente – mas desde pequena eu via a maneira como ela me olhava, como se fosse capaz de roubar tudo de mim quando eu estivesse completamente indefesa.

E agora eu sei que ela está aqui, em São Paulo, longe de sua vida no interior cercada de mordomias, não é como se fosse só mais uma realização de seus maiores desejos. Ela com certeza quer ferrar comigo. Ela quer tirar tudo de mim pouco a pouco. Todas as vezes que eu olho para ela vejo a maldade em seu olhar, sinto calafrios com seu sorriso diabólicos e sinto uma vontade insana de arrancar fio por fio daquela cabeleira loira super bem hidratada, de cabelos muito bem cuidados e brilhosos.

Ela seria perfeita, como prima, como amiga, como irmã se não estivesse conspirado contra mim desde que me entendo por gente.

Sinto que o pior ainda está por vir. Ela não irá se contentar em ser apenas reconhecida pela grande maioria como prima da Bianca Vasconcelos, a mais popular do colégio. Ou morar na minha casa, tendo o quarto de hospedes adaptado para ela. Ou fingir-se de coitada na frente dos meus pais só para ter a compaixão deles, tornando-me uma megera.

Na certa ela fará de tudo para tirar tudo que é meu: meus pais, minhas coisas, meus amigos, minhas paixões, minha popularidade e muito que me pertence ou que apenas considere meu. Rebaixando-se ao máximo, escondendo-se atrás de uma mascara de falsidade e mentiras, só para ter o prazer de ver tudo e todos contra mim.

Só quero deixar bem claro para essa garota estúpida que se me derrubar é sua maior intenção no momento, saiba que eu não deixarei isso acontecer sem antes lutar com todas as minhas forças.

A grande maioria pode até achar que eu estou sendo exagerada, um tanto egoísta e mimada. Podem dizer que eu estou mentindo, que estou enganada, que estou vendo coisas onde não existe nada. Podem se virar todos contra mim — graças ao bom trabalho dela- mas eu sei reconhecer quando uma pessoa é mal. Mal de verdade. E Maria Eduarda é completamente má, sem noção, diabólica, pilantra e baixa.

É quinta-feira e para nossa sorte essa terceira aula é vaga. Enfim o sol resolveu dar as caras no céu, apesar do ventinho ainda estar bem gelado. A chuva fina deu uma trégua. Os próximos dias tendem a esquentarem mais. Eu mal posso esperar. Até porque ninguém merece essa friaca.

— Parece que você é a única que está pouco a vontade com a chegada da sua prima. – comentou o Felipe, ao sentar-se ao meu lado no banco.

Quando foi que ele deixou de ser tão calado?

A nossa frente, no pátio, a maioria da turma está reunida, em um meio círculo, conversando e rindo alto. Outra turma, também de horário vago, só que do terceiro ano não está muito longe. Entre eles está a minha adorável prima. Maria Eduarda e sua nova melhor amiga, Tatiana.

Eu não preciso nem dizer que nunca fui com a cara dessa Tatiana, por ela sempre ter deixado bem claro que nunca gostou de mim. Eu não consigo pensar em nada que eu tenha feito contra ela. Eu não costumo ser nenhum pouco malvada com as pessoas, pelo contrário. Mas algumas delas insistem em ficar de implicância comigo. Talvez isso chame-se inveja.

Já era de se esperar que não demoraria muito para a minha prima se unir as forças do mal desse colégio.

Maria Eduarda e Tatiana são as únicas garotas em meio a um grupo de garotos, entre eles está o Rafael, que nem é do terceiro ano e não está de horário vago, mas que adora matar aula sempre que possível. Principalmente para ficar babando as garotas mais soltinhas e exibidas desse colégio.

— Mas eu te entendo. – Felipe continua, olhando para o mesmo ponto que eu. Eu nem sei por que estou me torturando tanto com essa cena patética desse tipo de garota que faz qualquer coisa para chamar a atenção. — Você sempre foi filha única, sempre foi cercada de atenções de todos os tipos e agora, com a sua prima entrando com tudo na sua vida, você deve estar achando tudo muito errado e ruim.

Ele virou-se para mim com um meio sorriso estampado nos lábios bem desenhados e eu me virei para ele também completamente alucinada com o tamanho da sua beleza. Seu cabelo castanho-claro ou loiro escuro — eu ainda não sei — não estava com aquele típico topete que ele costuma usar diariamente. Hoje os fios estavam especialmente bagunçados, como se ele tivesse acabado de acordar. Muito fofo. Porém ainda úmidos. Seus olhos em uma tonalidade mais clara, cor de avelã, por conta da luz do dia.

Eu deveria estar morrendo de raiva dele ainda, por causa da sexta-feira passada, durante a festa, quando ele foi completamente impertinente comigo, querendo saber dos meus problemas alimentares. Ou por ele irritantemente gostar da Gabriela, mesmo ela nem de longe ser o melhor para ele. Mas eu simplesmente não consigo odiar esse garoto.

Primeiro que, ele tem sido um fofo comigo desde que ficamos trancados aqui no colégio depois da aula. Tem falado mais, tendo sorrido mais, tem me elogiado, tem puxado conversa e até se preocupado comigo e interferido na minha vida. É nítido que ele tem se esforçado bastante para ser mais intimo, mais próximo de mim. E eu ainda nem sei porque.

Segundo que, eu o amo. E não é nenhum pouco fácil ficar brava por muito tempo com alguém que a gente gosta muito. Por mais que a gente tente, essa tarefa é bem complicada. Qualquer sorrisinho dele já me faz derreter por inteira e eu acabo sempre esquecendo porque não deveria ser amigável como ele pelos menos por alguns dias, até que ele pelos menos venha se desculpar.

Para o meu total alivio ele não insistiu mais naquela conversa que mal chegou a acontecer naquela noite. Já que eu não estava preparada para responder a suas perguntas. Na verdade eu nem se algum dia estarei. Ele deve ter percebido isso, já que é sempre bem observador e preferiu fingir que aquela nossa pequeno desentendimento nunca aconteceu.

E isso é mais do que bom.

— Felipe, você não entende. – pisco ao desviar o olhar. Não deve ser nenhum pouco confortável para ele perceber que uma louca, assim feito eu, está olhando para ele mais tempo do que deveria.

— Talvez eu não entenda muitas coisas sobre você. – ele rebateu, ainda me olhando. Eu podia sentir meu rosto corar. Ainda tentando me adaptar com ideia de que já poderia nos considerar amigos. — Mas isso é culpa sua! Já que você nunca conversa abertamente comigo.

Não consigo não rir.

— Ah, então é assim agora? – volto a olhar para ele um tanto surpresa, sorrindo feito uma tonta. — Sinceridade total entre nós? – é uma pergunta retórica. Então ele apenas sorri mais, refletindo sobre minhas palavras. — Você realmente não faz ideia do quanto ainda estou tentando me acostumar com essa nossa repentina aproximação.

— Eu pensei que fosse o que você queria. – ele admitiu, revirando os olhos de um jeito bem bonitinho. Meu sorriso se estendeu.

— Sim, era o que eu queria. Você tem razão. Mas é bem estranho, admita. Pelo menos ainda. – como resposta ele ri, assentindo. — Mas já que estamos tendo um papo bem aberto, que tal antes de qualquer coisa você começar me dizendo por que você era tão calado antes?

Arrependo-me imediatamente por ter tocado no assunto. Já que sua expressão se fechou no mesmo instante. Ele abaixou os olhos, fitando agora os próprios dedos e sorriu torto, evidentemente desconfortável por eu estar sendo intrometida em um assunto que parece tão particular.

— Me desculpe. Olha, eu não queria...

— Não. – ele me interrompeu. — Tudo bem.

Por minha culpa quebrei todo o clima entre nós.

— Eu digo. Digo o que você quiser saber sobre mim. – ele volta a me olhar, sorrindo bem menos agora. — Mas antes você precisa me dizer o que eu quis saber no outro dia. Sobre o que você estava fazendo naquele banheiro, lembra? É justo, não é? Já que eu tinha perguntado primeiro.

Mordo o lábio com força.

Essa era a minha chance. Uma chance única de desvendar todos os mistérios do Felipe. Como ele mesmo havia dito: eu poderia perguntar qualquer sobre ele e acabar com tantos mistérios. Mas eu sou fraca. Eu não podia simplesmente falar algo sobre mim, que eu realmente me envergonho e não tenho nenhum controle, só para saber mais sobre ele.

Eu não tenho coragem suficiente pra isso.

— Não, isso não vai rolar. Sinto muito. – é a minha vez de ficar desconfortável, com uma vontade incontrolável de sair dali correndo e me esconder no primeiro buraco que me aparecer pela frente.

Sou surpreendida quando Felipe leva os dedos até o meu queixo, puxando-o delicadamente em sua direção, para que eu possa voltar a olhar dentro dos olhos dele e sentir minha barriga se contorcer por dentro.

— Por favor, Bianca. – ele sussurra docemente, como se tivéssemos compartilhando um segredo só nosso. Os olhos vidrados nos meus. — Eu posso te ajudar. Eu quero te ajudar. Apenas se abra comigo.

Senti meus olhos se encherem de água antes que eu pudesse me dar contada gravidade dessa situação.

O problema é que eu nunca tinha conversado sobre isso com ninguém. Nem mesmo com meus pais ou com a minha melhor amiga. É algo que eu me envergonho, é algo que eu não controlo, é algo que simplesmente acontece quando eu acho que exagerei na dose. É um problema, eu sei disso. É grave. Já li infinitas vezes a respeito nos livros da escola, em panfletos em hospitais e até mesmo na internet só por curiosidade. Sei que existe tratamento. Sei de tudo isso. Mas sei também que não posso aparecer com nenhum quilinho a mais de um dia para o outro. Isso acabaria comigo.

— Fala comigo. – ele sussurra novamente com o rosto mais próximo do meu, com uma voz sensualmente doce que me deu vontade de beija-lo naquele instante ao senti-lo tão perto, tão cuidadoso e preocupado.

Mas tudo que eu consegui fazer foi deixar uma lágrima escapar do meu olho direito e escorrer por minha bochecha gelada.

— Não. Por favor! – me afastei, assim que ele tocou meu rosto com a ponta do dedo para secar minha lágrima. — Não faz isso comigo, Felipe. Eu não posso! – meu corpo começou a tremer enquanto eu balançava a cabeça de um lado para o outro. Tensa e agora nervosa. — Não se meta nisso.

Ele suspirou forte, eu pude ouvir.

E foi aí que as próximas lágrimas começaram a surgir rapidamente.

— Bianca, ei. – ele se aproximou, ficando praticamente colado em mim no banco onde só existíamos nós dois. Olhei em volta, por sorte ninguém havia notado. Não em mim naquele estado vergonhoso. — Tudo bem, mas fica calma. – Felipe cobriu minhas mãos com as suas.

Como eu poderia ficar calma? Eu só conseguia chorar, tremer, morrer de vergonha e sentir a raiva querendo explodir dentro de mim.

Acho que o Felipe se deu conta disso quando carinhosamente passou um dos braços sobre meus ombros e me puxou para um meio abraço.

— Me desculpa. Eu não queria te deixar assim. – senti-me vulnerável quando ele tirou a outra mão sobre as minhas e levou até o meu rosto para conter minhas lágrimas. — Essa não era a minha intenção. Eu sinto muito! Só se acalma, está bem? Não chore mais. Por favor.

Precisei de alguns segundos para pode respirar fundo.

— Obrigada. – digo baixinho, passando o dorso da mão em meu rosto agora que consegui enfim conter as lágrimas. Mas elas parecem impossíveis e essa não é uma tarefa fácil. — Eu quem me desculpo por tudo.

— Não tem problema, ta? – ele tira o braço de mim, para poder segurar meu rosto com as duas mãos tentando me ajudar com as lágrimas que insistem em cair. — Eu te entendo perfeitamente

Seu hálito fresco vai de encontro ao meu rosto, fazendo meu coração dar uma cambalhota dentro do meu peito.

Ele estava tão pertinho. Tão diferente. E eu só queria beija-lo.

— Eu gosto de você, Felipe. – deixei escapar, perdidas em meus pensamentos mais insanos. Parei de olhar para a boca avermelhada dele e quando ergui o olhar vi o espanto em seus olhos. Então ele se afastou. — Eu gosto mesmo. Sou completamente louca por você.

Ele engoliu em seco, depois começou a gaguejar algo que eu não pude compreender. E para minha infelicidade ele parou de me tocar, endireitando-se sobre o banco, parecendo cada vez mais distante.

— Bianca, você não deveria... Eu gosto da Gabriela, lembra?

Deixei a tristeza de lado, dando espaço a fúria.

— E você acha que dá pra esquecer algo assim?

Ele arregalou os olhos na minha direção com a minha frieza.

— Eu penso nisso toda hora, Felipe. Desde aquele maldito dia em que você me disse isso. Você tem noção de como eu me senti naquele momento? Você tem noção de como me sinto agora? – ele não respondeu e eu nem esperava que isso acontecesse. Era mais um desabafo mesmo. — Eu realmente não entendo o que você vê nela e não vê em mim.

— Não é nada disso, Bianca. Olha, eu sinto muito mesmo. Não é algo que eu possa controlar. Quando eu olho para ela eu... Eu... Vejo coisas que ninguém mais pode ver. Ela é frágil, sensível. Eu sei que bem lá no fundo ela tem coisas boas para oferecer. Mas por alguma razão que eu ainda desconheço ela prefere bancar a durona. – ele continuou, sem me olhar. Como se não se desse conta do quanto suas palavras me perfuravam. — Ela é diferente, entende?

— Quer saber? Danem-se vocês dois! – levantei-me ao praticamente gritar e a chamar a atenção de boa parte do pessoal ali presente. — Eu posso ser bem melhor do que ela, Felipe. Eu sei que eu sou bem melhor.

Dito isso, saí dali bufando, rumo ao banheiro mais próximo. Mas não antes de perceber a minha prima rindo de mim ao cochichar algo para sua mais nova amiga. Lavei meu rosto, respirei fundo e estufei o peito.

Eu tinha um plano.

O Felipe iria se arrepender de ter ignorado completamente meus sentimentos por morrer de amores por uma garota que não está nem aí pra ele. Eu iria mostrar isso para ele. Não. Eu iria provar isso a ele.

O sinal bateu. Era hora do intervalo. Não senti um pingo de vergonha ao pegar minha bandeja com uma caixinha de leite e uma barra de cereal e me sentar com meus amigos na nossa mesa, isso incluindo o Felipe. Que se acha que eu iria ficar chorando escondida por aí acabou caindo do cavalo.

Desde que entrou no colégio Maria Eduarda não tira os olhos de mim e dos meus amigos, provavelmente pensando na melhor forma de nos atingir ao tentar desvendar nossos pontos mais fracos ou morrendo de inveja de eu ter amigos — amigos para todos os momentos — e ela não.

Não abaixaria a minha cabeça para ninguém. Nem mesmo para o meu grande amor, vulgo Felipe Medeiros. Nem para minha mais nova arqui-inimiga, vulto primina adorável, mais conhecida como Duda. Fiz questão de encara-la de volta todas as vezes que ela ficou de olho em mim.

— Se eu fosse vocês teriam cuidado com ela. – acabei soltando, fazendo todos os seis pares de olhos virarem-se para mim.

— O quê? – Rafael foi o primeiro a se manifestar, evidentemente curioso com o que eu acabo de dizer sobre a minha prima. — De quem diabos você está falando, Bia?

— Eu estou falando da Maria Eduarda. A minha prima. – dizer isso só deixei todos ainda mais espantados. A verdade é que eles não entendiam. Eles não a viam como eu. — É só um alerta. – dei de ombros.

Rafael e Gabriela gargalharam juntos, zombando de mim.

— Você está querendo dizer que – Gabriela resolveu a abrir a boca para dizer alguma estupidez, na certa. — de uma hora pra outra ela vai sacar um revolver da bolsa e atirar em todos nós?

— Olha – levantei-me, já sem paciente. De repente todos tiraram o dia para rir da minha cara. Era só o que faltava. — pensem o que quiserem. Eu avisei.

Peguei minha bandeja, sem mal tocar no leite e sai de cena.

O resto da tarde pareceu ter demorado uma eternidade para acabar, quando o que eu mais queria era sair logo dali. Mandei uma mensagem de texto para Marcel, o motorista, na primeira oportunidade. Dizendo que eu pegaria um táxi para o shopping depois da aula e que ele poderia vir somente para buscar a Duda. Isso, se ele quisesse. Se não estivesse afim, nem precisava. Ela que desse um jeito de voltar pra casa sozinha.

A melhor terapia de todos os tempos: fazer compras.

Gastei toda a minha pesada nas lojas novas que eu conheci naquele comecinho de noite. Onde comprei jeans mais escuros e descolados, alguns até rasgados e que pareciam pintados à mão. Abusei nas regatas grandes, blusinhas e vestidinhos de cores mais escuras e de modelos mais radicais. Até ousei comprar uma botinha de cano baixo bem estilo rock 'n' roll.

Meu plano era me transformar em uma nova Bianca.

Na loja de cosméticas comprei também umas sombras mais escuras, lápis de olho, mascara para alongar os cílios e delineador. A partir de agora minhas cores favoritas e predominantes seria o preto, branco, prata e o roxo. Nada de cor-de-rosa ou brilho por um bom tempo. E só assim o Felipe me enxergaria como ele gostaria de poder me ver.

Estava prestes a sair do shopping quando meu celular vibrou dentro da mochila. Já estava sendo complicado ter que carregar sozinha centenas de sacolas e para piorar meu celular havia se perdido em meio a tanta coisa nova que eu adquiri em algumas horas.

Um número desconhecido piscava na tela do meu Iphone.

— Fique bem aí onde você está. – disse a voz masculina do outro lado da linha. — Não se mova. Eu estou quase chegando aí.

Quê? Fiquei sem entender. Até que quase deixei o celular cair junto das milhares de sacolas quando fui surpreendida pelo Danilo, que surgiu, assim do nada, como se acabasse de brotar do chão.

— Você quer me matar de susto? – praticamente gritei, fazendo-o rir. A aquela altura muitos curiosos olhavam em nossa direção.

Ele ignorou completamente a minha pergunta, depositando um beijinho no meu rosto e me abraçando de leve.

— Eu seguro isso pra você. – ele praticamente tomou as sacolas das minhas mãos, sorrindo de um jeito que eu nunca poderia esquecer.

— O que você está fazendo aqui? – perguntei, enquanto caminhávamos sem rumo pelos extensos corredores do shopping. — é impressão minha ou você está me perseguindo?

Ele riu lindamente e eu não conseguia parar de olhar para ele com um sorriso bobo no canto dos lábios cheios de gloss.

— Até que isso não me parece uma má ideia. – ele rebateu sorrindo de leve, olhando-me com seus olhos azuis hipnotizantes que também parecia sorrir. — É sempre arriscado deixar uma garota linda como você perambular por aí em uma cidade grande e perigosa como São Paulo.

— Bobo! – eu tive que rir, um tanto constrangida por aquela química entre a gente não ter deixado de existir mesmo depois de tanto tempo.

Danilo e eu namoramos sério há dois anos. Eu estava na sétima série, só tinha quatorze anos e ele quase dezoito. Sempre foi tudo muito perfeito entre nós, sempre nos demos bem e gostávamos mesmo um do outro. Tudo sempre conspirou a nosso favor. Ele me respeitava, me presenteava, cuidava de mim, dedicava seu tempo a mim e eu a mesma coisa com ele.

Conhecemos-nos desde que eu tinha doze anos, seu pai era um dos investidores dos meus pais e eles sempre foram muito próximos, por isso passávamos a maior parte do tempo juntos até começarmos a nos envolver quando algo começou a crescer entre nós. Nossos pais, claro, nos apoiaram desde o começo, até diziam que algum dia iríamos nos casar e eu até acreditei nisso, pensando no nosso futuro juntos.

Ele sempre foi como um príncipe. Lindo por dentro e por fora.

Nós só nos separamos mesmo porque ele acabou sendo chamado para servir o exercito. Ele precisaria dedicar seu tempo a isso e até teria que se mudar para longe por tempo indeterminado. Acabamos terminando de forma bem amigável, sem rancor ou dor. Mais do que qualquer coisa éramos amigos e sabíamos praticamente tudo um do outro.

E agora vejam só, ele está de volta e até parece que nunca se foi. Porque pelo visto ele só mudou (para melhor) aparentemente, porque continua sendo o mesmo por dentro. Ele conhece cada pedaço de mim e isso é incrível, nem parece que se passaram dois anos.

— Que tal se a gente fosse comer alguma coisa? — ele sugeriu, percebendo o quão sem jeito eu estava.

— Comer? Ah, não. – me recompus, torcendo os lábios. — Tive uma ideia melhor. Eu quase me esqueci de uma coisa. Que tal sô fossemos até uma determinada loja e você me visse experimentar uma coisinha?

Mesmo intrigado, ele aceitou o meu convite. E lá fomos nós. Chegando na loja onde tocava uma musica bem conhecida do Guns N’ Roses, tivemos que enrolar o vendedor para que pudéssemos entrar no provador feminino juntos. Assim como eu, Danilo sempre foi muito bom para mentir com seu charme. Tirei minha jaqueta jeans e substitui pela preta de couro, a qual eu tinha planos em mente de comprar.

Danilo e eu dividíamos o mesmo cubículo pequeno. Mas ao contrário de mim ele estava sentado no pufe vermelho no canto, ainda segurando as minhas outras compras, enquanto me olhava através do espelho sorrindo afetado, o qual eu me exigia sem parar, olhando-me em todos os ângulos possíveis com a nova jaqueta no corpo.

— O que você acha? – perguntei, virando-me para ele.

— Perfeita como sempre. – foi tudo que ele respondeu.

Segundos depois Danilo levantou-se, deixando minhas coisas no chão mesmo e se aproximou o bastante de mim para ficarmos praticamente colados um no outro. Ele sempre foi bem mais alto do que eu, sendo assim tive que erguer meus olhos em sua direção, deparando-me com o sorriso insinuante que ele tinha nos lábios carnudos.

Eu adorava o fato de que a cor de mel de seus olhos fosse bem parecida com o tom claro de seus cabelos e da pele bronzeada.

Quase como se fossem um só.

Diferentemente de antes ele estava bem mais forte agora. A camiseta azul-marinho com os dois primeiros botões abertos estava praticamente grudada nos músculos bem definidos de seu corpo.

— Eu posso te beijar?

— Nem precisava perguntar.

Antes que ele pudesse sorrir com a minha resposta urgente, levantei a ponta dos pés, sentindo as mãos firmes dele envolverem minha cintura, ajudando-me nessa missão de ficar praticamente na sua altura. E por fim envolvi seus lábios com os meus, saboreando a carne macia e úmida de sua boca extremamente sexy e irresistível.

O calor do corpo dele trasbordou para o meu corpo.

Passei meus braços em volta do seu pescoço, para me apoiar melhor enquanto ele sugava e mordiscava meus lábios finos. Gemi baixinho de prazer quando a mão boba dele apertou a minha cintura. Nós sorrimos em meio ao nosso beijo caloroso e intenso no meio de um provador, após termos enganado os vendedores para termos essa pequena aventura.

Eu poderia ficar beijando ele por horas.

Mas fiquei desesperada com a possibilidade de sermos pegos no flagra e até mesmo expulsos da loja e ainda mais quando Danilo colocou a mão quente dentro da minha blusinha, tocando a minha barriga e eu me arrepiei inteira.

Ele é lindo, todos sabem. E pode ter qualquer uma, a qualquer momento, em qualquer lugar. Porque logo eu?

— Acho melhor irmos com calma. – pedi baixinho, afastando-me e pondo os pés de volta no chão.

Acabei levando a jaqueta de couro, ainda com dificuldades para respirar com o Danilo ao meu lado. Ele me levou para casa em seu carro e na hora de nos despedimos eu fui mais rápida e beijei sua bochecha.

Ele disse que ligaria de novo a qualquer hora para conversarmos melhor. Eu disse que aguardaria ansiosamente por isso.

Já em meu quarto, com as minhas compras sobre a cama, foi que senti o perfume cítrico dele impregnado em mim.

Tentei tira-lo da cabeça rapidamente, provando minhas novas coisas novamente só para ter certeza de que tinha acertado na escolha.

Na frente do espelho eu quase não pude me reconhecer quando me vi completamente diferente. Agora com um jeans rasgado, uma blusinha cinza com o desenho preto de um morcego em veludo, minhas novas botinhas de cano curto e meus olhos verdes destacados por sombra preta.

Eu mal podia esperar para ver a reação da galera quando eu aparecesse assim na manhã seguinte lá no colégio. Então pensei no Felipe. E se ele gostaria ou não no meu novo estilo.

Pensando bem eu estava muito parecida com a minha diva, de todos os tempos, da musica pop punk: Avril Lavigne.

Ah, quase me esqueci de um ultimo detalhe: o esmalte preto.

Notas finais
E aí, o que acharam dessa mudança radical de visual da Bianca?