Todos Iguais

19 Luiza e Bianca


Notas iniciais
Nesse capítulo teremos algumas surpresinhas.

Eu finalmente me dei conta de que não é certo ser um empecilho entre um casal. Eu não fui feita para ser a megera, a vilã, uma pedra no sapato. Quando enfim parei para pensar um pouco cheguei a conclusão de que não é a minha função interferir em um relacionamento. Não quando as duas pessoas – no caso a Natália e o Pedro – se gostam tanto. Não me parece justo atrapalhar aquilo que é tão bonito, evidente e contagioso entre dois. Até porque os dois, acima de qualquer coisa, são meus amigos e tudo que eu mais quero é a felicidade deles, estando juntos ou não.

E eu definitivamente não vou ser aquela pessoa que atrapalha algo assim sem sentir um pingo de peso na consciência.

Eu sempre gostei muito dos meus amigos. Sempre gostei de cada um deles de um jeito único e especial. Mas agora, que eu havia encontrado garotas da minha idade que também estavam passando por uma fase de aceitação, achei que eu finalmente tinha encontrado o meu lugar, onde eu pudesse ser eu mesma, onde eu pudesse ser livre e me sentir mais confortável. Onde tudo parecia certo e normal.

Foi durante a aula de ginástica, há duas semanas que eu conheci a Carol Mendes. Foi a primeira vez que tivemos a oportunidade de nos conhecer melhor. Eu pouco sabia sobre ela, mas assim que paramos para conversar foi se nos conhecêssemos há anos. Ela é simpática, espontânea e me faz sentir bem mesmo em meio as nossas conversas pra lá de esquisitas. Não demorou muito para ela me apresentar a sua namorada, a Jéssica Farias. E foi através das duas que eu conheci o restante das meninas, que são como eu: preferem ser relacionar com garotas a garotos.

Entre elas eu tive uma afinidade maior com a Aline Oliveira, mais conhecida por Aline. Ela é linda, por sinal. Pelo menos uns sete centímetros menores que eu. É magrinha e tem a pele de um bronzeado natural. Seus cabelos são castanhos claros com umas luzes loiras mais claras e seus olhos sempre contornados de lápis preto são amendoados.

Conhecer as garotas fez com que e automaticamente me afastasse dos meus amigos, mesmo que intencionalmente. Passamos a sair mais, a nos encontrar mais, a conversar mais e ficarmos mais próximas de um jeito que me faz sentir inteira e especial. Ao lado delas eu me sinto completa, eu me sinto liberta e mais aceitar de alguma forma. Tudo isso porque todas nós compartilhamos um só interesse.

Passei a noite passada inteirinha deitada na minha cama, encarando o teto, pensando a respeito dos meus sentimentos pela Natália. Eu sei que nada do que eu faça, ou quantas vezes eu tente me distanciar ou me livrar desse sentimento, não importa quantas outras garotas a mais eu conheça... Eu nunca deixarei de gostar dela. Mas eu também sempre gostei muito do Pedro – como amigo, claro. Ele é fofo, ele é adorável e tem passado por uma fase ruim com a família. Nunca antes eu achei que ele precisasse tanto da Nati como agora. E foi por isso que eu resolvi me afastar, dar liberdade a eles, mais espaço.

Mesmo que eu não vá deixar de gostar dela e deseja-la ao meu lado, não é como se eu fosse cretina o suficiente para separa-los de uma vez por todas. Acho que tudo tem seu tempo. E se for pra ser – talvez um dia, daqui alguns anos, eu não sei – vai acontecer. Não tem porque eu me preocupar com isso agora. E foi por isso que eu decidi me afastar definitivamente, decidi parar de bater na mesma tecla incansavelmente e tentei me convencer de que assim como o Pedro merece a Nati ou vice-versa, eu também mereço novas oportunidades. E me dei essa chance. Se não com a Natália, que seja com a Aline ou com qualquer outra garota do meu interesse.

Eu também mereço ser feliz.

E não será estragando um relacionamento tão puro e verdadeiro que eu serei feliz. Pelo contrário. Separa-los só tornaria isso ainda mais difícil, além de passar a ser a vilã da história. E eu, particularmente, nunca gostei das forças do mal. Sempre fui a favor dos mocinhos. Então, agora é a minha vez de ir atrás do meu final – ou recomeço – feliz.

***

Eu não poderia estar mais chateada com a Luiza em todos esses anos de amizade. Não que eu seja uma completa egoísta, mas é que em todo esse tempo, desde que nos conhecemos há alguns anos atrás, meio que nos tornamos inseparáveis. Como todas melhores amigas já tiveram sim inúmeras brigas e desentendimentos, mas nunca deixarmos de estar uma com a outra. E vê-la se afastar os poucos me deixa extremamente triste.

É sexta-feira e estamos no intervalo. Parece que depois da reaparição da Gabriela tudo voltou ao normal. E isso é um alivio e tanto. Eu nunca fui com a cara dela, mas também nunca lhe desejei o mal. E também me doía ver a maioria dos meus amigos preocupados, cabisbaixos e pensativos sem saber ao certo que havia acontecido com ela. Por isso me dispus a ajudar e a contribuir de todas as formas. Não os deixei nem por um momento e estive todo o tempo ali, desejando que aquilo passasse logo.

Agora ela está de volta e mais insuportável do que de costume. Mas eu acho nunca gostei tanto de ouvi-la falar asneiras sem parar. Fico feliz que ela esteja de volta e todos tenham voltado a sorrir.

Mas como se não bastasse a Gabriela nos deixar malucos de preocupação, os problemas parecem intermináveis. A Luiza está bem do meu lado, mas é como se não estivesse. Ela nunca esteve tão fissurada naquele maldito celular. Ela já não desgruda mais dele. Digitando freneticamente todo o tempo, sem parar nem por um segundo... conversando com as tais amiguinhas novas. Eu tenho quase certeza de que ela não ouviu nenhuma palavra do que eu disse desde que sentamos nessa mesa.

Não preciso nem dizer que estou com uma vontade de louca de dar um beliscão em seu braço para despertá-la. Mas isso seria muita maldade.

— Luiza? – murmuro em sua direção, enquanto a Gabriela continua a falar algumas bobagens fazendo os demais rirem. — Luiza! Cacete! – dessa vez eu grito, fazendo todos olharem para mim assustados, inclusive ela.

— Oi? – ela volta-se para mim com seus grandes olhos castanho-esverdeados iluminados pela luz do dia. — O que foi, Bianca?

— O que foi? – repeti com sarcasmo, soltando um riso sem humor. — Eu quem pergunto, minha filha! O que está havendo com você, em?

— Comigo? – ela franze as sobrancelhas, intrigada. — Comigo nada. – por sorte nesse momento os outros já não estão mias interessados na nossa briguinha interna. — Por quê?

— Luiza, pelo amor de Deus! – me irrito, por ela estar se fazendo de desentendida. — Com quem você está falando aí? – olho para o seu celular, me referindo ao mesmo.

— Com a Aline, Bianca. – ela revira os olhos, depois ri. — Com quem mais? – é uma pergunta retórica. Por isso é a minha vez de revirar os olhos, completamente sem paciência. — Estamos conversando sobre a festa de hoje.

Só de ouvir a palavra “festa” o Rafael se volta para nós com os olhos claros bem expressivos. É evidente que ele está morrendo de curiosidade.

— Festa? Que festa? – ele quer saber. Pra ser bem sincera faz um bom tempo que a gente não sai pra se divertir em “bando”.

— Você não ficou sabendo, Rafa? – Luiza rebate, agora olhando para ele. — A festa é de um garoto do terceiro ano. Parece que eles estão começando a querer a comemorar antecipadamente a formatura.

— Não, eu não fiquei sabendo dessa festa aí não. – disse o Rafael. Sua confissão era praticamente um milagre, já que ele era sempre o primeiro a saber das festas do colégio. — Mas quer saber? Não importa! Porque nós vamos assim mesmo. Combinado? – ele sorria largamente.

Não era nem uma pergunta, era quase um intimado.

***

É impressão minha ou a Bianca anda bem esquisita ultimamente?

O que me faz crer que talvez ela esteja com ciúmes de mim com o meu novo ciclo de amizade. A Bianca quando quer, sabe ser bem ciumenta com as coisas que ela considera “propriedades” sua. Acho que devemos ter uma conversinha bem séria. Afinal, ela precisa ser menos imatura e entender que ao lado das minhas novas amigas eu me sinto verdadeiramente melhor e querer felicidade uns dos outros é o que os amigos fazem, certo?

Teria a minha ultima aula do dia com a Natália. No início eu fiquei meio receosa, ainda não tinha certeza se meu plano de não interferir entre a vida dela e a do Pedro daria certo. Porque uma coisa é você falar e querer muito uma coisa, outra coisa é agir ou fazer com que ela aconteça. Mas ao entrar na sala de Música me dei conta de que tudo isso dependeria só de mim. Se eu não tentasse, isso nunca funcionaria.

Sentei-me próxima a ela. Depois do nosso ultimo incidente no almoxarifado, ao sermos flagrados pelo Pedro, pensei que ela me rejeitaria ou no mínimo se deslocaria e iria se sentar em outro lugar, bem longe de mim. Mas não foi o que aconteceu e eu relaxei, sorrindo um pouco. Ela sorriu de volta, de um jeito bem amigável.

Tentei prestar ao máximo de atenção na professora Milena a nossa frente, que hoje estava disposta a nos ensinar a tocar violino. Mas essa não foi uma tarefa fácil. Qualquer movimento da Natália ao meu lado tirava a concentração. Abri a mochila e de lá de dentro puxei a minha agenda, arranquei uma folha verde, peguei uma caneta e rapidamente, muito discretamente, escrevi algo e passei a folha para ela.

“Vamos dar uma trégua? Eu não quero mais afetar o seu namoro com o Pedro. Não sei se você será capaz de confiar em mim agora, não depois de tudo que eu fiz. Mas eu peço que me dê esse ultimo voto de confiança. Dessa vez vou me esforçar mais. Iremos ser apenas amigas. Só amigas. Tudo bem?”

Ela demorou a ler o meu bilhete bem mais tempo do que o esperado e quando finalmente resolveu escrever uma resposta e me repassar à folhinha eu prendi o ar por alguns segundos antes de ler o que ela escrevera.

“Tudo bem, Lu. Eu vou confiar mais em você dessa vez. Não quero perder a sua amizade. Vamos juntas fazer isso funcionar.”

***

Eu estava bem empolgada para ir a essa tal festa com meus amigos mesmo não sendo diretamente convidada. Não era como se fosse necessário um convite, não é mesmo? E também ninguém seria louco o bastante para me expulsar de lá. Mesmo fazendo um frio tremendo lá fora, eu optei por um look incrível: uma meia-calça escura, um vestido azul, um casaco preto e saltos também pretos. Deixei os cabelos loiros soltos, apenas amarrando com uma presilha em uma mecha na lateral da cabeça. Para finalizar fiz uma make bem forte porque eu realmente queria chamar a atenção e me divertir muito.

Como toda festa que estamos acostumados a frequentar, a casa parecia pequena pra tanta gente. E logo estaria destruída ou ainda mais lotada de adolescentes bêbados e cheios de hormônios. Segui o Rafael até a cozinha cumprimentando uma galera do colégio pelo caminho e na geladeira ele pegou cerveja e distribuiu entre nós, como se fosse de casa. A musica estava tão alta, que logo suspeitei que a polícia não demoraria muito para chegar ali.

Como já era de se esperar a Luiza ainda estava vidrada naquele celular que eu queria jogar longe. Na certa ela estava conversando com as novas amiguinhas que ela fazia questão de esfregar na minha cara. Bastou olhar para o lado por um momento, para avaliar a roupa da namorada do dono da casa, que a Luiza sumiu entre a multidão, sem nem avisar.

Bela amiga que eu tenho.

Em alguns segundos me vi completamente sozinha naquele lugar superlotado de pessoas. Na certa o Pedro levou a Natália para os fundos, para namorarem. Já que aqueles dois não se desgrudam, apesar de serem extremamente fofos. O Rafael foi sondar o ambiente, indo a sua caçada da noite. A Gabriela foi dançar. E o Felipe também sumiu.

Ao contrario do que eu imaginei aquela noite eu não estava chamando a atenção – como de costume – eu estava mais para a mulher invisível.

Após conseguir minha segunda bebida da noite me encostei-me ao balcão da cozinha, de braços cruzados por conta do frio que entrava pela janela mais próxima, apenas observando a movimentação.

— O que uma princesa como você faz aqui sozinha? – olhei para o lado, só para ter a certeza de que aquela voz pertencia ao cara mais pegador do terceiro ano. Quase empatando com o Rafael, do segundo.

O problema é que eu nem se quer lembrava o nome dele, apesar de já termos ficado uma vez perto do ginásio, lá no colégio, no ano passado.

Forcei um sorriso para ele, mesmo tendo detestado a tal cantada. Por um lado eu estava comovida, por alguém enfim ter me notado naquela maldita festa. Por outro lado desejava que ele se mandasse logo dali e fosse atrás de outra qualquer para se aproveitar naquela noite fria.

— Garota, eu adorei esse seu look! – aproximou-se uma garota desconhecida, mas muito bonita por sinal. Alta, longos cabelos pretos brilhosos que iam até a cintura e olhos verdes de gato de longos cílios. Além de ter um corpo esbelto, malhado e volumoso.

Ela pegou a minha mão, me arrastando para longe dali. Suspirei aliviada. Ela só parou de me puxar quando enfim encontramos um lugar mais vazio, onde poderíamos conversar sem precisar ficar gritando muito.

Não sei por que, mas eu logo simpatizei por ela, mesmo sem nunca antes tê-la visto. Na certa ela é bem mais velha, já com seus vinte e dois anos. Além de experiente e vivida. Pulamos a parte das apresentações e começamos a conversar sobre moda pelos próximos minutos.

Fiquei impressionado por ela saber de moda tanto quanto eu. Nunca antes pude conversar tão abertamente com alguém sobre isso. Nem mesmo com a Luiza, minha amiga. E quando eu falei que os meus pais trabalhavam no ramo, ela faltou me comer viva com os olhos sobressaltados.

O único problema é que ela gostava muito de me tocar, enquanto conversávamos. Como quem quer chamar a atenção todo o tempo ou que fica muito empolgada e acaba não percebendo as próprias atitudes.

Quando demos a primeira pausa em nossa conversa ela voltou a me puxar pela casa e me levou até uma mesa onde havia alguns aperitivos. Uma mesa quase vazia. Ela me ofereceu um doce, que não tive como recusar. Ela não era do tipo que aceita um “não” como resposta.

Acabei comendo mais do que deveria, por insistência dela. E fiquei com um super peso na consciência depois. Aproveitei a primeira distração dela com um rapaz barbudo e tatuado para correr dali. Tentei ultrapassar rapidamente a multidão e pelo caminho perguntei a algumas pessoas se elas sabiam onde fica o banheiro mais próximo.

O banheiro no térreo estava imundo, cheio de vomito e fedia o bastante para me causar náuseas. Resolvi arriscar e subi correndo para o andar seguinte, a procura de outro banheiro. No final do corredor encontrei uma porta aberta e lá estava o banheiro. Um banheiro bem maior que o anterior e bem mais limpinho também.

O problema é que nem deu tempo de fechar a portão e eu me debrucei sobre o vaso sanitário, vomitando tudo que havia comido.

— Bianca, o que você tá fazendo? – ao me recompor, olhei para trás e dei de cara com o Felipe parado na porta, olhando-me assustado.

***

Aline e eu fomos até os fundos do jardim, porque ela me alegou que queria me dizer algo muito importante. Antes mesmo de chegarmos lá, um lugar bem mais reservado e menos cheio, onde alguns casais davam alguns amassos, meu coração já estava a mil, cheio de ansiedade.

Assim que chegamos ao limite máximo do jardim, Aline pegou as minhas mãos frias para segurar e virou-se de frente para mim. Suas mãos pequenas estavam quentes e transmitiam uma onde de calor por todo meu corpo. Ficamos nos encarando por alguns segundos, nem muito longe e nem muito perto uma da outra. Ela sorria lindamente para mim.

Aline trajava um jeans de lavagem mais escura que ficavam extremamente justo em suas pernas, uma blusinha cor-de-rosa brilhosa por baixo de jaqueta de couro preta e saltos de um rosa mais escuro que faziam com que ela ficasse mais ou menos na minha altura. Seus cabelos claros estavam soltos e ondulados e os olhos bem delineados.

— E então? – criei coragem para dizer, sorrindo nervosamente.

— E então... – ela começou, sorrindo ainda mais. Ela parecia em conflito. Por um lado totalmente à vontade comigo, como desde que nos conhecemos. Por outro lado nervosa por estar prestes a dizer algo que me parecia bem importante. Eu estava morrendo de curiosidade. — Luiza, eu só queria que você soubesse que estou totalmente apaixonada por você.

Isso já era o que eu imaginava que ela diria, desde que nossas conversas no WhatsApp começaram a ficar mais sugestivas. Mas ouvi assim, ela dizer com todas as letras, mexeu o bastante comigo para me deixar ainda mais tensa e animada com o que estava por vir.

— E...? – sugeri, tentando fazer com que de alguma forma ela tivesse coragem de se abrir ainda mais comigo. Isso era importante pra mim, porque eu também estava começando a gostar muito dela.

— E, que, eu gostaria de saber – ela tentou novamente, agora rindo um pouco, mas logo voltando à compostura. Eu sorri mais, sentindo as bochechas arderem em brasa. — se você também sente o mesmo por mim, pois eu não quero mais perder tempo. Eu quero ficar com você, Luiza.

Não me aguentei e dei um passo em frente, diminuindo o espaço entre nós ao máximo que eu poderia. Quando enfim nossos corpos estavam bem colados, senti quando ela colocou as mãos na minha cintura. E eu levei as minhas até o seu rosto, acariciando suas bochechas rosadas com a ponta dos dedos antes de puxa-la de devagar para um beijo romântico.

Beijamo-nos tempo suficiente para tornar aquele momento único e especial. Senti um tremor nas pernas e umas ondas esquisitas dentro de mim. Sua boca era quente e seus lábios estavam úmidos, dando um sabor a mais em nosso beijo. Para olhar melhor para ela, mesmo meio envergonhada, voltei a dar um passo para trás, ainda com uma das mãos em seu rosto, contornando os lábios dela enquanto não conseguia parar de sorrir.

— É impressão minha ou você está querendo sugerir que...? – não tive coragem de terminar. E nós duas rimos. Duas patetas tentando dizer coisas que palavras não eram suficientes para expressar o que sentíamos.

— É isso mesmo que você está pensando, Luiza. – ela tomou as minhas mãos ainda sorrindo lindamente, entrelaçando suavemente nossos dedos. — Você quer namorar comigo?

A minha resposta não poderia ser outra:

— Sim, eu quero. – puxei-a para um abraço, sentindo o coração querer sair pela boca. Ela retribuiu, passando os braços em volta do meu corpo.

***

— Meu Deus, Felipe! – praticamente gritei, evitando olhar para ele. Recoberta de vergonha por ele ter presenciando aquela cena horrível. — Sai daqui! Esse é um momento só meu.

Tentei fechar a porta com o pé, mas ele foi mais rápido, segurando a porta com as mãos. Não só estava constrangida, como também brava por ele estar sendo tão inconveniente. Dando-me por vencida, fui até a pia e abri a torneira, para lavar a boca e as mãos. Ainda podia sentir o gosto horrível do vomito que eu praticamente acabei de forçar.

— Bianca, por favor, não me diga que aquilo é o que eu estou pensando. – ele quis saber, adentrando o banheiro e me deixando quase sufocada, sem espaço, sem ter para onde correr ou onde enfiar a cara.

Eu não estava só brava com ele estar ali, quando na verdade ele era a ultima pessoa no mundo que eu queria que me visse fazendo aquilo, mas também porque há alguns dias eu mal conseguia olhar na cara do Felipe, desde que ele praticamente cuspiu no meu rosto que é apaixonado pela Gabriela. Mesmo ela sendo o que chamamos de “garota errada.”.

A Gabriela não fazia esforço nenhum e todos, inclusive o Felipe, só tinham olhos para ela. Não sei nem porque demorei tanto tempo para perceber isso. Eu fazia de tudo para ser notado por ele, só por ele e ele nunca reparava em mim. Pensando melhor... Vai ver o problema é justamente esse. Talvez eu devesse agir como quem não me importa com nada, exatamente como ela faz. Ou sei lá. Talvez eu devesse ser uma retardada, algo do tipo e assim finalmente ele se daria conta de que eu existo.

— Isso não é da sua conta! – gritei, muito alterada. Ele me olhava com os olhos estreitos. — Agora sai daqui, por favor. Volta pra festa, vai. Vai lá baixo ver se a sua Gabizinha está dando em cima do primeiro que passa.

Ele riu alto, a risada transbordado ironia.

— Você não está com... ? – ele não completou a frase, voltando a ficar sério. Olhando para mim com uma careta esquisita que me dava até medo, mas que logo foi substituída por... Preocupação? Comigo? — Isso aqui é sério, Bianca. Não é sobre a Gabriela. É sobre você!

Então quer dizer que agora ele consegue me enxergar? Depois de todos esses meses, que eu feito uma babaca, fiquei olhando para ele sem nem disfarçar, praticamente implorando com os olhos que ele me notasse.

— Eu já disse: isso não é da sua conta! – digo, agora mais nervosa. Devolvo uma careta feia para ele e vou em sua direção, batendo forte meu ombro com o dele ao conseguir ultrapassa-lo rumo a saída do banheiro que de repente parecia pequeno demais para nós dias.

— Agora tudo faz sentido, claro! – ele estava me perseguindo? Maldito! Apressei o passo pelo corredor vazio, indo em direção as escadas logo em frente. — É por isso que você mal come, não é?

Alguém aí tem algum objeto, de preferência grande e pesado o suficiente para que eu consiga jogar nele?

Eu gostava mais do Felipe quando ele mal falava.

— Bianca, volta aqui. Eu estou falando com você!

Corri, descendo as escadas às pressas. Pulando alguns degraus até chegar lá em baixo, onde a galera continua dançando animadamente.

Com dificuldade consigo atravessar aquele mar de gente suada e bêbada, sem olhar nenhuma vez para trás. Na esperança de que o Felipe tenha me perdido de vista. Quando enfim encontro à saída acabo esbarrando forte em alguma muralha parada na minha frente. Solto um palavrão, perdendo o equilíbrio sobre os saltos. Mas antes que eu vá parar com tudo no chão sujo, mãos grandes e fortes me seguram pelo braço.

Ergui meus olhos – brava e ao mesmo tempo confusa – quando vejo na minha frente nada mais nada menos que o Danilo Matarazzo.

— Bianca, você aqui? – uma de sua sobrancelha loira escura está levemente arqueada. — Nossa, que surpresa!

Danilo está tão mais alto, tão mais forte, tão mais bonito e charmoso e extremamente sexy desde a última vez que nos vimos.

— Danilo! – praticamente pulo em seus braços, jogando meus braços em volta do seu pescoço. Ele retribuiu o carinho e sinto-o sorrir na minha orelha. Antes que eu desfaleça, me afasto e volto a olhar para ele. — Será que você poderia me levar para casa? Tipo, agora?

Danilo agora tem um carro. E que carro! Um dos modelos mais recentes de um Ford EcoSport 2.0 na cor branca. Não demora nem dez minutos e ele para o carro bem frente ao meu condomínio. Lugar que ele conhece bem dos velhos tempos. Antes que eu desça do carro ele segura meu braço, me fazendo voltar ao banco de couro. Sorrio sem graça, sentindo-me corar. Danilo pede meu novo numero e anota na agenda de seu Iphone. Depois ele deposita um beijinho demorado e delicado na minha bochecha.

Meu coração parece que vai parar a qualquer momento.

Subo o elevador do prédio com um sorriso bobo no rosto, pensando que sortuda eu sou por ter voltado a rever o Danilo justamente agora.

Quando abro a porta do meu apartamento tenho outra surpresa, mas essa não é nem de longe uma das melhores. Quase caio dura para trás ao me deparar com aquele sorriso diabólico parado bem no meio da minha sala de estar. Estou petrificada. Não posso acreditar no azar que consome a minha vida ultimamente.

O que mais poderia ser pior?

— Bianca, não vai cumprimentar a nossa hospede? – pergunta o meu pai, sorrindo para mim com a minha mãe do lado também sorridente.

Notas finais
Quem será a nova hospede? Vocês têm algum palpite? Eu garanto que ela terá um papel muito importante para essa trama. E o tal Danilo, o que acharam dele? De onde será que a Bianca o conhece? Ele será um personagem temporário. E a Luiza e a Aline, isso vai dar certo? Parece também que o Felipe acabou descobrindo o pequeno segredinho da Bianca. Comentem, não esqueçam. Vou falar mais sobre tudo isso nos próximos capítulos. Beijão!