Todos Iguais

46 Gabriela e Rafael


Notas iniciais
Eu ia escrever esse capítulo narrado somente pela Gabriela, mas acabou que eu fiquei sem ideias e ele iria ficar muito curto e sem graça. Então eu resolvi acrescentar a narrativa do Rafael, mas não ficou exatamente como eu gostaria que ficasse. Eu tenho esse mania de achar que as coisas devem acontecer devagar e com calma. Tudo no seu tempo, o que pode ser um saco para alguns leitores. Mas não se preocupem, um dia as coisas acontecerão.

Hoje é dia 10 de outubro. Dia do meu aniversário.

Logo quando acordei fui escovar meus dentes e jogar água no rosto para espantar o sono. Depois voltei para o meu quarto para pentear os cabelos antes de ter que ir até o refeitório tomar meu café da manhã. E quando coloco meu pé dentro do cômodo o qual já estou habituada, sou surpreendida por um grupo de enfermeiras que começaram a cantar “parabéns pra você” e jogar confete em minha direção.

Durante meu café da manhã na área externa alguns dos meus novos colegas vieram me desejar parabéns e se juntaram a mim para a primeira refeição do nosso longo dia. Por volta do meio dia comecei a ficar muito chateada por nenhum dos meus familiares ou amigos terem me ligado ou aparecido para uma visitinha.

Mas também o que eu queria? A vida segue. Eles devem estar no colégio há essa hora, ocupados tendo aula ou matando aula. Acho que eles nem se quer sabem que hoje eu faço dezesseis anos. Bom, não é como se eu esperasse que todos se lembrassem. Mas o Pedro, o meu irmão, deveria ter me ligado, mandado uma cartinha ou deixado um recado. Sei lá.

Confesso que fiquei muito pra baixo pelo resto do dia. Andei por aí triste e nem ser que tive animo para fazer minhas atividades extras. Mas pelo menos ninguém ficou no meu pé, enchendo o saco. Só que trancada ali, por mais acostumada que eu já estivesse, eu não podia comemorar meu aniversário como achava que merecia.

Às quatro horas eu tomei um banho, vesti qualquer roupa e deitei-me em minha cama, sozinha em meu quarto. Por mais desconcentrada que me sentisse, eu achei que seria uma boa tentar passar o meu tempo lendo um livro — meu mais novo hábito — que eu tinha ganhado de uma das enfermeiras dias atrás.

E funcionou.

Só parei com a leitura quando ouvi uma batida na porta.

E quando eu a abri tive uma grande surpresa:

— Feliz aniversário, Gabi! – os cinco gritaram juntos.

O Pedro entrou primeiro, ele vestia um jeans preto e uma camiseta branca. Pedro me deu um abraço de urso, tirando-me do chão por um momento e depois encheu o meu rosto de beijos melados.

Acho que nunca senti tanta falta disso.

A Natália entrou mais atrás, segurando um bolo incrível, cheio de velinhas e muito bem decorado. Ela apenas beijou meu rosto, me deu um abraço de lado e sussurrou palavras carinhosas no meu ouvido.

A próxima pessoa que me agarrou foi a Bianca. Ela realmente espremeu todos os meus ossos. Em seguida, foi à vez do Felipe, que segurava um saco grande, como o do Papai Noel, só que não era vermelho. E por fim, foi à vez da Luiza que segurava alguns balões.

Detalhe: todos eles estavam com aqueles chapeuzinhos ridículos de festa.

Não tive tempo nem te agradecer ou falar direito com o pessoal, porque o Pedro foi logo me puxando para o meio do quarto. Todos começaram a sorrir muito e cantar aquela velha musiquinha pra mim de aniversário. Quando terminaram foi a minha vez de soprar às velinhas.

— Não se esqueça do pedido. – Bianca gritou, fazendo os outros rirem.

Então eu desejei poder sair logo daqui para estar mais com eles.

— Seus idiotas! – eu ri. — Eu pensei que vocês tivessem se esquecido.

Luiza amarrou os balões na cabeceira da minha cama. Felipe a ajudou a pegar os pratos e corpos coloridos em uma bolsinha que eu não tinha visto antes. Bianca ligou seu Ipod na tomada e selecionou uma boa playlist para tocar. O Pedro, muito desajeitadamente, cortou o bolo e a Nati o ajudou a servir. Eu fiquei apenas de fora, observando a tudo.

Acho que é a primeira vez que me sinto tão bem e feliz aqui desde que cheguei. E não é só porque hoje é meu aniversário não. Mas também porque é a primeira vez que todos aparecem para me visitar de uma só vez.

Mas peraí... Cadê o Rafael?

Quer saber? Não importa. Ele deve estar por aí passando seu tempo precioso com alguma garota. Hoje é o meu dia e eu não vou deixar que nada ou ninguém me aborreça por tão pouco.

Enquanto devoramos o bolo, todos sentados em minha pequena cama, conversamos sobre diversos assuntos. O melhor de tudo é que eu não me senti por fora em nenhum momento. Eles me incluíram em tudo. Foi como se eu nunca tivesse vindo para uma clínica de reabilitação.

Mais uma vez bateram na porta. Dessa vez era uma enfermeira não só para ver se estava tudo bem ali, mas como também para trazer os refrigerantes e salgados que o pessoal tinha deixado na cantina.

Depois da entrega ela se foi, deixando-nos a vontade mais uma vez.

Quando já estávamos todos satisfeitos, Bianca sugeriu que eu abrisse os presentes que eles tinham comprado para mim e que estavam no saco que o Felipe deixou no canto. Eu realmente achei que eles estavam exagerando um pouquinho... Eu não precisava de nenhum presente, só a presença de todos eles ali no dia de hoje já era o bastante para mim.

Mas vamos ser sinceros: receber presentes é sempre muito bom.

Peguei o saco, coloquei aos meus pés e voltei a me sentar. De lá de dentro tirei o primeiro embrulho. Era um aparelho de som portátil, daqueles todos moderninhos. Eu olhei direto para a Bianca, sabendo que ela era a única capaz de toda aquela extravagância. E o sorriso exagerado dela não me enganou.

— Eu até já salvei umas músicas que você gosta no cartão de memória, assim você poderá ouvir quando quiser. – disse ela, muito orgulhosa de si mesma. Eu não esperava por tudo aquilo, mas confesso que gostei bastante no final das contas. Era um presente incrível. E eu não tinha esse tipo de mordomia aqui na clínica.

Murmurei um “obrigado” tímido e voltei para o saco de presentes.

Tirei lá de dentro uma caixa com alguns CDs. Todos eles da Legião Urbana. Nem preciso dizer que eu era super fã da Legião, mas fazia um bom tempo que eu não os ouvia. E estava começando a sentir falta.

— Bom, isso aí foi eu que dei. – disse o Felipe, todo acanhado.

— Nossa... Eu amei! Obrigada, Fê. Você é demais!

A Natália me deu uma camiseta de uma das minhas bandas de rock mais pesado favoritas. Eu adorei também, claro. Estava mesmo precisando de umas roupinhas novas. As minhas estavam caidinhas. Já a Luiza optou por me dar uma caneca do South Park. E por fim, o Pedro, meu irmão, deu-me um ursinho de pelúcia marrom que usava All star vermelho. Uma graça!

Eu amei cada presente. Nenhum mais que o outro. Fiquei até um pouco emocionada com o carinho de todos, mas evitei chorar. Mas confesso que uma parte minha amoleceu completamente com o presente do meu irmão, o qual eu passaria todas as noites para lembrar o quanto eu me sentia especial esse dia.

***

Eu nunca fui muito bom com datas. Não costumava me lembrar nem do dia do meu aniversário e não estou exagerado não. Então é verdade. Eu não me lembrei de que hoje, justamente hoje, era o aniversário da Gabriela. Mas o Pedro estava lá para me lembrar e até comentou que a galera ia preparar uma festinha surpresa para ela lá na clínica.

Claro que ele só me convidou por educação, porque nós dois sabíamos que eu não era bem-vindo por lá. Por isso a galera nem comentou comigo nenhum detalhe da surpresa. Eu me senti péssimo. Não só por ter esquecido, mas também por ter sido excluído. E mais do que isso: por estar dando uma importância tão grande a isso.

A Gabriela não me quer por perto. Eu bem que tentei correr atrás e saber o porque. Mas ela não quis conversa. O que mais eu poderia fazer? Nada. Apenas esperar ela receber alta pra gente poder conversar feito duas pessoas civilizadas. E também, até porque quando ela sair de lá não terá como fugir de mim e não haverá ninguém que poderá me impedir.

— Bom, de qualquer forma, se você quiser ir... Está convidado. – comentou o Pedro aquela manhã quando voltávamos para a sala de aula após o termino do intervalo.

Eu não disse em voz alta, mas pensei assim: Porque eu iria? Pra chegar lá e não me deixarem entrar porque a Gabriela não permitiu? Não, obrigado. Não passo por essa humilhação de novo.

Aquela garota já não significa mais nada para mim. Quem ela pensa que é para me excluir dessa forma de sua vida como se eu fosse o principal culpado por tudo? Mas todos nós sabemos que não é bem. Por mais que eu tente odia-la e me manter longe, eu não consigo. E tudo isso porque eu não consigo conviver com essa duvida cruel: Porque me afastar? Eu acho que mereço uma explicação. E quando ela me dizer o porque olhando nos meus olhos e se sua justificativa for no mínimo plausível eu poderia deixa-la em paz pelo resto da vida.

Depois de mais um longo dia interminável no colégio eu fui pra casa, mas não conseguia tirar da minha cabeça a surpresa que meus amigos estavam fazendo para a Gabriela.

Cheguei a casa a mamãe estava aspirando o sofá. Eu me aproximei cautelosamente e a surpreendi com um beijo no rosto. Digamos assim que desde que tivemos aquela conversinha, na época que a Duda ameaçava contar histórias sobre a minha família pra todo mundo, eu esteja tentando melhorar minha relação com a minha mãe.

Em seguida subi para o meu quarto, fui direto tomar uma ducha fria para aliviar a tensão do dia. Mesmo sabendo que ficaria em casa pelas próximas horas até a hora de dormir, eu vesti um jeans e uma camiseta preta. Sem ter muito o que fazer fiquei de bobeira, fuçando meu celular a procura de algo interessante. Mas a única coisa que encontrei foi um monte de garota me chamando no WhatsApp.

Como já deu pra perceber eu não estava no clima para nada daquilo.

Quando olhei as horas no visor do meu celular foi que eu me apavorei e acabei pensando em reconsiderar o convite do Pedro. Eu precisava arriscar, precisava fazer alguma coisa ou aquilo me mataria de curiosidade, duvidas e incertezas. Sendo assim, calcei meu tênis a toda pressa e saí correndo de casa, deixando uma mãe intrigada para trás.

Cheguei à casa do Pedro o mais rápido que pude. Mas acabei me surpreendendo ao me deparar com o pai dele saindo de carro. Detalhe: a mãe do Pedro, a ex-mulher de seu pai, estava no banco do passageiro. Os dois estavam juntos. Será que eles tinham...? Ah, deixa pra lá. Eu tinha coisas mais importantes para resolver nesse momento.

— Rafael, o que você está fazendo aqui? – perguntou a dona Célia, com a sobrancelha levemente arqueada.

Eles pararam com o carro e eu me aproximei.

— Tô atrás do Pedro. Ele tá em casa?

— Não... Ele já saiu. – foi a vez do seu Marcos dizer. — Você não sabia? Ele e os amigos foram mais cedo ver a Gabi.

Então eles já tinham ido e eu fiquei para trás.

Tarde demais, Rafael. Não foi dessa vez.

— Você não quer vir com a gente? – Célia voltou a dizer, olhando-me cheia de expectativas. — Estamos indo para lá agora.

Não pensei duas vezes em abrir a porta de trás do carro e entrar.

Os pais do Pedro me conhecem desde pequeno. Eles não sabem absolutamente tudo sobre mim, até porque isso seria bem estranho. Mas eles me conhecem bem. Sempre me presenciaram em sua casa, pra cima e pra baixo com o meu melhor amigo. Eles estão acostumados a isso e eu a eles, pela convivência de todos esses anos. Que não foi exatamente intima, mas foi bacana e considerável.

A viagem de carro com eles não foi estranha e nem desconfortável. Apesar de eu estar com a cabeça no mundo da lua. Dona Célia foi educada ao perguntar sobre a minha mãe, o meu pai, como estavam às coisas lá em casa e no colégio. Aquele bate-papo todo me fez relaxar um pouco.

Em meia hora chegamos a clínica e me coração começou a bater em disparada por não saber o que viria a seguir.

***

Eu estava ajudando meus amigos a juntarem a bagunça da festinha surpresa para depois às enfermeiras não saírem falando coisas, quando uma delas voltou a bater na porta do meu quarto e colocou apenas a cabeça pra dentro para dizer:

— Gabriela, tem visita pra você.

Voltei-me para os meus amigos, um tanto surpresa. Meu coração estava agitado, cheio de expectativas. Será que era o Rafael? Só de pensar naquela possibilidade eu voltei a sorrir. Um sorriso que durou muito pouco, já que ele a entrada dele ali estava proibida. Então, essa opção foi logo descartada.

— Nós não sabemos de nada. – Bianca disse sorrindo, como quem lê meus pensamentos mais uma vez. — É melhor você ir lá ver.

Ela tinha toda razão.

Os deixei terminar o trabalho sozinhos e saí do quarto.

Andei devagar ate a sala de visitas, tentando conter minha ansiedade. Eu não queria criar muitas expectativas para não me decepcionar depois. Mas quando cheguei lá e me deparei com meus pais esperando por mim foi que todas aquelas sensações evaporaram de vez.

Primeiro abracei o papai. E depois a mamãe. E quando ia me afastando se seus braços calorosos já com os olhos bem abertos foi que eu vi uma figura bastante familiar, além das grandes janelas daquele cômodo, lá atrás, na área externa.

Era o Rafael. Eu tinha certeza que era! Ele estava sentando em uma das cadeiras onde eu costumo muito ficar quando o dia está ensolarado lá fora, apenas observando o jardim da clínica e perdida em meus próprios pensamentos. Ele parecia desolado, com os dois cotovelos apoiados nos joelhos e a cabeça apoiada nas mãos que bagunçavam seus fios desgrenhados.

Ele estava ali fora porque não era permitido entrar. Eu não queria que ele entrasse, deixei isso bem claro. Na verdade, nem ali, no meu jardim ele deveria estar. Seu lugar era lá fora, na rua. Mas na certa meus pais, que supostamente o haviam trazido para cá, ficaram com pena e deram um jeito de ele entrar e pelo menos poder esperar lá fora.

— Nós compramos algo para você. – disse minha mãe, tirando do meu transe. Por mais bonito que o Rafael estivesse lá fora, fui obrigada a desviar meus olhos dele para voltar-me para os meus pais.

Eles sim mereciam totalmente a minha atenção.

O que eles me deram foi uma cesta cheia de doces, chocolates e tudo mais que eu sentia tanta falta. Pois aqui eu basicamente vivia a base de uma dieta saudável, o que às vezes era um saco. Mas hoje como era o dia do meu aniversário eu poderia me dar ao luxo de comer guloseimas.

— Obrigada! Eu adorei. – disse eu, jogando-me em seus braços. Puxando os dois para um abraço triplo.

Como meu quarto estava cheio de gente, mamãe e papai me fizeram sentar por ali mesmo, na sala de visitas um tanto vazia, pra gente conversar. Eles queriam saber de tudo, mas principalmente se eu tinha gostado da surpresa que meus amigos e meu irmão preparam pra mim.

O estranho é que por mais vontade que eu tivesse de contar tudo a eles, eu não conseguia me concentrar totalmente naquele dialogo. Meus olhos se desviam na direção do Rafael e isso mexia comigo de uma forma muito estranha. E pior foi que quando eu resolvi olhar para ele pela milésima vez, ele também estava olhando para mim.

Mamãe percebendo aquilo – mulheres são muito espertas para esse tipo de coisa – deu-me um cutucão, me trazendo de volta.

— Você não quer ir lá fora falar com ele? – disse ela, parecendo preocupada comigo. — Eu acho que vocês desviam conversar.

Eu não sei bem porque ela achava que deveríamos conversar, se eu nem tinha chegado a comentar com ela antes que eu estava “brigada” com esse garoto e era assim que eu gostaria que as coisas permanecessem. Eu não sei se aquele dia tão especial tinha me deixado mais sensível, mas eu estava começando a pensar que talvez o Rafael merecesse alguma explicação do porque do meu silencio e da distancia.

Na verdade, ele não merecia coisa nenhuma. Mas eu sim merecia e foi por isso que me levantei. Estava determinada.

— Eu vou lá falar com ele. Mas não demoro muito.

***

Observo atentamente ela se aproximar um tanto receosa, como se estivesse se odiando por estar fazendo aquele grande sacrifício. E quando ela se sentou ao meu lado, calada e indecifrável, eu senti duas coisas.

1ª) Raiva. Eu queria muito estrangulá-la e perguntar por que ela estava fazendo aquilo comigo.

2ª) Alegria por ela estar ali. Ao meu lado. Finalmente. Parecendo melhor do que nunca.

O segundo sentimento acabou falando mais alto e eu deixei que toda aquela raiva evaporasse para bem longe para que eu pudesse aproveitar aquele precioso momento.

Gabriela e eu ficamos calados por longos segundos, apenas olhando um para o outro. Não que estivéssemos desconfortáveis, sem saber como agir. Bom, pelo menos eu não estava desconfortável, só não sabia como agir. Mas mais do que tudo eu queria contemplá-la, porque ela estava incrível e eu muito admirado e orgulhoso por tamanha evolução.

Seus cabelos castanho-avermelhados nunca estiveram tão brilhosos e bem cuidados, até penteados estavam. Sua pele branca parecia mais saudável e ela nem estava usando suas maquiagens fortes. Seus olhos – ainda não sabia se eram verdes ou azuis, ou até mesmo as duas cores – tinham um brilho diferencial. Era impressão minha ou ela tinha ganhado uns dois ou três quilos a mais? Não que isso fosse ruim. Muito pelo contrário.

Nós tínhamos muitos assuntos inacabados e inúmeros motivos para brigarmos e nos atacarmos, como sempre. Mas eu não queria nada daquilo, pelo menos não agora. Eu só queria senti-la mais perto, para ter certeza que aquilo era real e eu não estava alucinando ou coisa assim.

Foi por isso que muito ousadamente eu a puxei para um abraço. E por incrível que pareça ela retribuiu de uma forma muito carinhosa.

— Feliz aniversário, Gabi. – disse com a boca muito próxima de seu ouvido. Ela estremeceu e meu corpo se encheu de calor. — Desculpe, mas acho que fui único que não trouxe um presente.

Ela se afastou, soltando um risinho. E eu senti frio por ela não estar mais tão próxima de mim.

— Você é muito babaca mesmo, Rafael. – disse ela entre risos. — Desde quando eu te pedi alguma coisa? Nem aqui você deveria estar.

— Admite logo: eu sou um babaca que você não consegue mais viver sem. Não é verdade? – resolvi entrar na brincadeira também, rindo de leve e deixando aquelas estranhas sensações de lado.

— Vê se cresce, Rafael. – ela revirou os olhos, de um jeito bem engraçado e... Encantador. — Qual foi à parte do “eu não quero que você venha aqui me ver” você não entendeu?

Parece que já não estamos mais brincando. Ou nunca estivemos.

— Eu não ia vir. Mas eu precisava. – digo, sério. — Não só porque hoje é seu aniversário, mas também porque eu queria saber o porquê de você está me afastando assim. Só me diga e eu irei embora e nunca mais voltarei.

Ela me olhou de um jeito desafiador.

A aquela altura o céu já estava escurecendo e ganhado suas primeiras estrelas.

— Some daqui, babaca. Eu não vou te dizer coisa alguma.

E lá vamos nós.

Parece que eu e a Gabriela não conseguimos ficar em um mesmo ambiente por mais de dois minutos sem nos atacarmos.

Eu já esperava que ela não me respondesse exatamente a tudo que eu queria saber. Eu também já esperava pela parte em que ela se levantaria e me daria às costas. O que ela não esperava – sem sombra de duvidas – é que eu já estava preparado e a impediria, puxando-a pelo braço.

— Será que dá pra você me soltar? – perguntou ela, de cima. Eu odiava ficar me sentir por baixo, então me levantei também. E aí foi a minha vez de olhar por cima, já que era mais alto que ela.

— Será que dá pra gente conversar numa boa? – rebati, sorrindo de lado na tentativa de conversa-la que eu não estava ali só para brigar. Apesar de essa ser a intenção no começo.

Ela soltou um riso sarcástico.

— Conversar com você numa boa? Ah, com certeza. Como se isso fosse possível.

Fiquei mudo, sem uma resposta coerente para rebater. No fundo eu estava cansando daqueles nossos joguinhos. Eu realmente estava pronto para termos uma conversa séria. Coisa que parecia que não ia acontecer nem tão cedo. Não com ela relutante desse jeito.

Olhei-a profundamente dessa vez.

Não sei bem o que me deu na cabeça enquanto olhava nos olhos indecifráveis dela naquele instante, mas eu confesso que senti uma súbita vontade de beija-la... A força mesmo. Fazia um bom tempo que isso não acontecia e agora eu queria lembrar como era beija-la de novo. E também só assim ela se calaria.

— Quer saber? Eu nem deveria ter vindo aqui pra começo de conversa. – disse ela, puxando seu braço de mim. — Você é um estúpido e eu nem sei por que ainda acredito que poderia ser diferente. Agora, se me der licença eu vou voltar para a minha festa, junto dos meus amigos.

Notas finais
Esses dois são... Complicados. Mas quem aí queria que rolasse um beijo? Comentem! No próximo capítulo as coisas vão esquentar entre o Felipe e a Bianca. Aguardem.