Todos Iguais
30 Felipe
Notas iniciais

Acordei naquele sábado por volta das três da tarde. Ao abrir os olhos tive um pequeno sobressalto ao me dar conta que eu captei no sofá da sala. Isso seria preocupante, se eu não tivesse acabado de me lembrar que meus pais foram viajar ontem à tarde depois que chegaram do trabalho para passar o final de semana na casa dos meus tios-avós no litoral.
Eu não fiz muita questão de ir, claro. Mas eles também não me convidaram e eu nem esperava que convidassem. Seria bom ficar — ainda mais — sozinho.
Abri os olhos com dificuldade, sentindo o corpo cansado. Dormir no sofá nem sempre é algo bom. A luz do céu nublado entrava pelo janelão da sala e iluminava praticamente todo o cômodo. Lembrei-me que chovera muito noite passada. Mas nem isso impediu de nos reunirmos como nos velhos tempos para irmos a uma festa no centro da cidade.
Sentei-me no sofá, sentindo minha cabeça latejar. Eu estava com muita ressaca, pois bebi mais do que estou acostumado noite passada. Fazia muito tempo em que não me divertia tanto. Exceto pelo dia do meu próprio aniversário, aquela fora a melhor festa que eu já presenciei. Estavam todos muito animados, unidos, sorrindo, brindando e dançando. Não era como se estivéssemos transtornados de problemas pessoais ou obrigações.
Noite passada éramos apenas mais um grupo de amigos adolescentes que queriam aproveitar ao máximo aquele noite de festança.
Eu acho que nunca vi a Bianca tão bêbada como ontem. Foi bem engraçado. Ela estava bem solta, rindo a toa, não parava quieta um só quer momento, ela só queria dançar e arrastava qualquer um para lhe fazer companhia. Ela estava elétrica, tagarela e muito animada. Vê-la tão feliz daquele jeito me deixou feliz por ela também.
Eu, claro, não tive nem como fugir dela. Bianca me seguiu por todo lado até me convencer a dançar com ela e sempre que o meu copo de bebida esvaziava ela logo dava um jeito de me arrumar outra dose.
Foi assim por longas horas, até mais ou menos às quatro e meia da manhã, quando a festa começou a esvaziar e a bebida acabar de vez. De repente seu bom humor mudou completamente e ela começou a chorar e falar um montão de bobagens que eu – que também não estava muito bem – não consegui entender. Ainda assim me senti na obrigação de ampará-la e a arrastei para longe dali apoiando seu corpo nos meus braços.
Aproveitando que moramos no mesmo prédio e eu parecia o único ali disponível para ajuda-la, já que a Luiza que também mora aqui foi embora da festa muito cedo, eu a trouxe para casa sã e salva. Durante todo o trajeto até aqui ela oscilava entre risadas histéricas e um chororô sem fim.
Eu teria ficado preocupado com o estado dela, se não estivesse tão mal quanto ela. Também me sentindo um bobão que seria capaz de flutuar no espaço. Com motivos de sobra para comemorar. Como por exemplo: ter o apartamento só pra mim durante o final de semana inteiro e não ter que precisar aturar os meus pais desaprovando tudo que eu fazia.
Outro motivo louvável também era a minha amizade com a Bianca, que vinha crescendo cada vez mais. Ela se tornou uma das minhas melhores companhias em toda essa primeira semana de férias, a qual eu ainda não tinha muitos planos para os próximos dias. Em alguns dias ficávamos até tarde conversando pelo WhatsApp, em outros dias aproveitávamos o sol lá fora para descer até a área de lazer do prédio ou caminhávamos por aí pelo fim de tarde, sem um rumo especifico, apenas conversando como dois amigos que acabam de descobrir que têm muito mais em comum do que imaginavam.
As cinco da manhã conseguimos chegar ao prédio mesmo de baixo da chuva que nem estava tão forte assim e foi aí que ela resolveu abrir o berreiro, capaz de acordar todos os vizinhos de uma só vez. Enquanto eu morria de rir com a cena e ao mesmo tempo tentava carrega-la pelo elevador a cima. Bianca dizia que seus pais não poderiam vê-la naquele estado ou ela estaria morta. Depois ela dizia em lágrimas que não queria ficar sozinha, correndo o risco de sua prima entrar em seu quarto e mata-la a qualquer instante. Ela dizia muitas coisas assim, que para mim não fazia nenhum sentido e eram até um tanto engraçadas. E para acalma-la eu disse a primeira coisa que me veio à cabeça naquele momento insano.
— Ah, então dorme lá em casa.
— O quê?
Ela praticamente gritou tentando se colocar em pé sobre aqueles saltos altos do tipo agulha. Ela olhava para mim com uma careta muito engraçada. A maquiagem estava praticamente toda borrada, o vestido preto brilhoso amassado e os cabelos soltos bagunçados de um jeito bem selvagem, deixando-a extremamente sexy.
— Mas e os seus pais?
— Ah, tranquilo. Eles não vão estar em casa.
Para minha surpresa ela aceitou a minha sugestão. E lá fomos nós.
Eu nem sei se era porque eu estava nervoso com a ideia de ela dormir ali pela primeira vez – não que eu esperasse por mais vezes – ou porque eu também estava bêbado, mas eu não conseguia enfiar a chave no buraco da porta. Enquanto isso, Bianca morria de rir ao meu lado, encostada a parede, tentando tirar as sandálias de salto alto.
Ao finalmente conseguir abrir a porta, fui o primeiro a entrar, para ligar as luzes da sala. Mas antes que eu pudesse fazer isso virei-me rapidamente para trás quando ouvi um baque alto. Bianca tinha acabado de cair com tudo no chão ao tropeçar do tapete da minha mãe.
Primeiro acendi as luzes, depois corri para ajuda-la a se levantar, enquanto tentávamos não rir tanto, ou acabaríamos acordando do todo mundo do prédio. Depois tranquei a porta e quando me voltei para ela novamente, Bianca tinha sumido completamente.
Eu a encontrei no banheiro, o qual ela tinha encontrado sozinha. Ela estava vomitando. Dessa vez eu sabia que ela não tinha forçado nada, pois nem comida tinha naquela festa. Ela estava mesmo é colocando toda a bebida pra fora, de tão mal que ela estava. Eu a ajudei, mesmo ela praticamente implorando para eu sair dali, pois ela se sentia horrorosa. Mas eu não a deixaria nunca, não enquanto ela estivesse mal daquele jeito.
— Fique aí, que vou pegar uma roupa e uma toalha pra você.
Dei um tempo para ela se trocar. Cinco minutos depois Bianca deixou o banheiro, vestido uma blusa antiga minha e com os cabelos molhados soltos. Tentei não ficar olhando muito para ela, já que como somos mais ou menos da mesma altura, a blusa só cobria em parte seu corpo esguio.
Depois eu a conduzi de volta para o sofá, a essa altura ela já estava sem os saltos altos. Fui até a cozinha e peguei uma garrafinha de água gelada para ela, mas quando voltei, ela já estava completamente apagada.
Eu a carreguei até o quarto. Ela era tão leve quanto uma pena. E a depositei cuidadosamente sobre a minha cama. Percebi naquele momento que ela ainda estava acordada, pelo menos em parte. E sorria para mim de um jeito muito meigo. Eu sorri de volta para ela, achando graça naquilo e só depois que eu me afastei para pegar um cobertor limpo para ela foi que eu me dei conta do quanto era bom tê-la tão próxima a mim.
— Ei, seu tarado. – ela disse com um sorriso de lado, porém os olhos ainda fechados. — Nem ouse a se aproveitar de mim.
Eu ri, pois nem por um momento tinha cogitado aquela possibilidade.
Ignorei as brincadeirinhas dela e a cobri para deixa-la mais comportável. Apaguei as luzes do quarto e encostei a porta cuidadosamente. Depois me arrastei até o sofá e ali eu capotei.
Ao lembrar-me vagamente de alguns acontecimentos da noite interior e da madrugada foi que me dei conta de que a Bianca ainda estava ali, dormindo no meu quarto e foi por isso que eu acabei no sofá.
Corri até ela, rezando para que nada de mal lhe tivesse acontecido depois que adormeci. Ao entrar no meu quarto vi que ela ainda estava dormindo tranquilamente, toda encolhida sobre a minha cama.
Suspirei aliviado.
Tentando não fazer muito barulho dentro do meu guarda-roupa peguei roupas limpas e secas, já que a que eu tinha no corpo ainda estava molhada pela chuva, e uma toalha. No banheiro eu tomei uma ducha morna bem demorada e relaxei, sentindo-me bem melhor ao sair de lá.
Na cozinha, já com roupas secas, tomei um remédio para aliviar a dor de cabeça e a ressaca e depois tentei preparar o café da manhã.
— Bom dia!
Quase dei um pulo ao ouvir aquela voz. Quando me virei para trás foi que eu vi a Bianca encostada do batente da porta com os olhos verdes límpidos direcionados a mim, ainda usando a minha camiseta cinza do Batman e um sorriso grandiosos estampado no rosto angelical.
— Oi. Bom dia. Dormiu bem?
— Eu não durmo tão bem assim há décadas.
Nós rimos.
Tentei terminar o café e Bianca sentou-se com os braços apoiados na bancada, observando-me. Ela estava tão linda, tão natural, sem nada de maquiagem ou com suas roupas e sapatos caros, os olhos um pouco inchados de sono e naquele momento eu me dei conta do quanto seria ótimo poder acordar todas as manhãs e vê-la daquela forma.
— Quer café? – acabei perguntando, enquanto me servia. — Tem torradas também, cereais e alguns biscoitos.
— Hum, não, obrigada. – ela sorriu sem jeito e foi aí eu percebi a burrada. A questão é que eu nunca iria me acostumar com a falta de apetite dela, aquilo me incomodava um pouco. — Vou aceitar só o café mesmo.
Peguei uma xícara para ela.
— Sem açúcar, por favor.
— Ah, não. Nem pensar! Dá um tempo, né? Só por hoje, pelo menos. – ignorei o pedido dela e adicionei ao seu café o mesmo tanto de açúcar que coloquei no meu. — Que tal você comer um pouquinho? Bianca, você não come nada há horas! Eu sei, nem tente me enganar. – eu sorri, em parte tentando parecer extrovertido para não irrita-la e em parte bravo por ela ter essas paranoias quanto ao próprio corpo. Cara, ela é perfeita!
No armário eu peguei o saco de pão de forma, na geladeira catei o pote de Nutella que já estava pela metade e alguns frios que estavam por lá também e coloquei tudo sobre a bancada junto as nossas xícaras de café.
Tomamos um café da manhã reforçado. Após as minhas insistências Bianca resolveu ceder e ingeriu uma boa quantia de besteiras. Ela parecia muito a vontade e estava até descontraída, não ficou irritada comigo nem por um momento. E eu de fato preferia que fosse assim. Mas no fundo torcia para que ela não chegasse em casa mais tarde e se arrependesse do que fez, forçando o vomito por ficar com a consciência pesada.
Até lá eu poderia usar minhas próprias táticas, a distraindo até que ela fosse capaz de esquecer que comeu pelo menos quatro fatias de pães, uma xícara de café com açúcar e dividiu um Danone comigo.
Após darmos um jeito na bagunça que fizemos sobre a bancada da cozinha – não que eu fizesse questão, porém ela insistiu – fomos até o sofá da sala, onde eu liguei a televisão e procurei algo para assistirmos, já que eu não tinha nenhum plano em mente melhor do que isso.
— Eu preciso ir, Fê. – Bianca anunciou, tendo minha total atenção agora. Deixei o controle de lado e me virei para ela.
— Fala de novo. – pedi, sorrindo feito um idiota.
— O quê? – ela também sorriu e as bochechas rapidamente ganharam uma coloração mais rosada. — Fê? É... isso?
— É. É isso. – eu ri, desviando o olhar. O que diabos estava acontecendo comigo? — Poucas pessoas me chamam assim, mas quando ouço vindo de você soa diferente, sabe? É bobo, eu sei.
— Ora – ela riu também, dando uma cotovelada de leve na minha costela. — se você gosta tanto assim que eu te chame de Fê, porque não pediu antes?
— Eu não sei. – eu ri novamente, sentindo-me um babaca. Foi a vez das minhas bochechas arderem de vergonha.
— Então... – ela levantou-se, tomando cuidado para não mostrar demais, já que a minha camiseta cabia perfeitamente nela. — eu tenho mesmo que ir.
— Ah. – eu voltei a olhar para ela, agora mais sério. — Eu pensei que você fosse ficar para o almoço.
— Felipe Medeiros, você está tentando me engordar, é isso? – ela perguntou com um olhar desafiador e um sorriso brincalhão. — E mesmo que eu fosse ficar... Por acaso você faria o almoço hoje?
Ah é, quase me esqueci desse detalhe. Eu não sei fazer nada na cozinha que seja algo extraordinário. Eu acabaria a decepcionando.
— Eu podia pedir alguma coisa pra gente. – sugeri, pois um lado de mim queria muito convencê-la ficar. Eu não queria ficar sozinho naquele apartamento solitário em um sábado nublado. — Que tal comida japonesa?
Bianca colocou o dedo no queixo, pensativa. Como se estivesse avaliando a minha proposta. Até que ela voltou a me olhar, sorrindo.
— Certo. O.K. Você me convenceu, mas... Eu ainda tenho que ir pra casa. Eu preciso tomar um banho, estou fedendo a cerveja e a tabaco. – ela fez uma careta de nojo e eu ri. — E se meus pais estiverem por lá, o que é pouco provável, eu ainda lhes devo uma boa explicação por ter dormido fora.
Ela tinha razão. Ela recolheu suas coisas e então eu a deixei ir. Depois que fiquei sozinho em casa, aproveitei para colocar em um canal qualquer daqueles mais infantis e fiquei assistindo desenho animado pelos próximos minutos.
Uma hora depois alguém toca a campainha. Só poderia ser a Bianca e só de pensar nessa possibilidade meu coração disparou. Levantei-me em um pulo e corri para abrir a porta. Eu estava certo. Era ela. Agora usando um jeans skinny verde bem clarinho acentuado a cor de seus olhos e uma regata preta de alças finas, por cima uma jaquetinha jeans e nos pés sapatilhas também pretas.
Seus cabelos pareciam recém-lavados e estavam totalmente soltos, com os fios claros caindo sobre os ombros. Ela estava levemente maquiada, deu pra perceber. E eu nem precisava estar muito próximo para sentir o cheiro adocicado de seu perfume.
Dei um espaço para ela entrar e voltei a trancar a porta.
Ouvi quando começou a chover lá fora.
— Bom, eu vou pedir o nosso almoço. – peguei o telefone sobre a mesinha do lado do sofá, enquanto ela se acomodava no mesmo, já retirando a jaqueta e sapatilhas, como se fosse de casa e eu fui até a varanda para fazer a ligação.
Quando voltei a sala me acomodei ao lado dela.
— Ah, eu quase me esqueci de dizer: seu apartamento é incrível. – disse ela e eu me surpreendi. A decoração do apartamento não era lá grande coisa, nada que se comparasse a luxuria do seu lá na cobertura.
Meus pais gostavam de tons mais amadeirados e coisas rústicas.
— Quer que eu te mostre melhor os cômodos?
— Eu adoraria.
E lá fomos nós dar um pequeno tour pela minha casa, que era composto apenas por uma sala com a qual ela já estava familiarizada, a cozinha onde estivemos hoje mais cedo, uma área de serviço bem pequena, um corredor onde se encontrava um escritório que era pouco utilizado por meus pais, o banheiro, o quarto deles que eu nem me atrevi a abrir a porta e por fim o quarto onde ela dormiu que pertencia a mim e ao meu irmão.
— Eu não pude deixar de notar que... Você tem um irmão. – ela comentou quando nos demoramos mais no meu quarto.
— Eu tinha... Na verdade. Ele morreu. – acabei admitindo, evitando o contato de seus olhos curiosos.
Sentei-me na parte de baixo da beliche fitando meus próprios pés, um tanto encabulado. Enquanto ela olhava mais de perto cada detalhe do meu quarto: os móveis, os objetos, os pertences pessoais.
— Eu sinto muito. Eu não sabia. – ela disse quase em um sussurro e eu voltei a olhar para ela. Bianca torceu os lábios, parecia bem desconfortável por ter tocado no assunto. Mas eu não a culpava.
Pra ser bem sincero eu já estava esperando por aquilo. Uma hora ou outra iria acontecer, uma hora ou outra alguém acabaria descobrindo, uma hora ou outra eu teria que falar sobre aquilo com alguém. E que esse alguém fosse ela, já que eu me senti estranhamente à vontade e bem ao seu lado.
— E como ele era? Como se chamava? – ela perguntou, sentando-se ao meu lado. Nossos braços se tocaram. Ela estava quente e agradável. Apesar da minha inquietação, eu não consegui tirar os meus olhos dos dela, que estavam em um tom de verde tão translúcido e reluzente.
— Ele se chamava Guilherme. Era meu irmão mais velho. E ele era, tipo, a melhor pessoa do mundo, pelo menos pra mim. – eu sorri ao dizer, com algumas lembranças dele se formando em minha mente.
Não pude evitar sentir as lágrimas se formarem em meus olhos.
Suspirei fundo. Ainda sentindo a dor que era ter que tocar naquele assunto, por isso o evitei por tanto tempo. Mas naquele momento eu já não tinha mais para onde fugir. Na verdade eu nem queria fugir ou evitar. Eu queria compartilhar aquilo com ela. Eu queria que ela soubesse.
Eu confiava nela.
— Nós éramos muito unidos, muito próximos, muito íntimos. Fazíamos de tudo juntos, desde estudar a jogar videogame depois que terminasse as tarefas mais importantes do dia. Também tínhamos nossos desentendimentos, afinal nem sempre fomos tão parecidos assim, tínhamos lá nossas diferenças e desentendimentos. E às vezes realmente saímos no tapa, mas logo nos entendíamos e caímos na risada. – dei uma pequena pausa, limpando uma lágrima muito insistente no canto do olho direito. — Era bom. Bom demais tê-lo ao meu lado.
Nada do que eu pudesse dizer a ela seria capaz de expressar o tamanho do amor que eu ainda sentia pelo meu irmão. Ou o tamanho da dor que eu sentia por sentir a falta dele quase todo o tempo. Mas algo no meu interior me dizia que ela era capaz de entender, mesmo em poucas palavras. Algo dentro de mim sabia que ela, melhor do que qualquer um sabia tudo que se passava dentro de mim, e isso não era só agora.
Então eu resolvi responder a pergunta que eu sabia que ela queria fazer.
— Tudo aconteceu em um dia perfeitamente normal. – comecei dizendo, com a voz embargada e sem qualquer controle sobre as minhas lágrimas. — Estávamos de férias, tínhamos acabado de começar um novo ano e estávamos passando aquelas ultimas semanas do mês na casa dos meus tios-avós, no litoral. Era um dia ensolarado, porém estava chovendo lá fora. Eu estava muito entediado dentro de casa, enquanto os adultos tagarelavam sem parar sobre coisas que eu não conseguia compreender. Eu insistia a todo tempo para que saíssemos lá fora, eu e ele, para jogar bola, não sei, fazer qualquer coisa. Sim, estava chovendo. Mas isso não me importava.
Tentei controlar o choro, dando uma pequena pausa. Mas isso se tornou impossível, pois as lembranças daquele dia jorravam na minha mente com muita força.
— Mamãe já estava muito brava comigo, pois ela não queria me deixar sair de jeito nenhum. Para os adultos a chuva sempre foi um problema, mas para uma criança, que só querer brincar, a chuva é só... A chuva. Até que o meu irmão, que estava jogando um joguinho bobo no celular resolveu fazer alguma coisa. Ele sempre foi meu herói favorito. Ele pegou a bola, colocou de baixo do braço e me chamou pra jogar lá fora. Não preciso nem dizer que a minha mãe ficou uma fera, mas ela nunca pegou no pé dele por nada, o Guilherme sempre foi o preferido de todos. Ele sempre foi o melhor em tudo e o melhor para todos. Inclusive para mim, que praticamente o idolatrava.
Solucei e foi nesse momento em que a Bianca pousou sua mão pequena e calorosa sobre a mim, confortando-me. Mal sabia ela que aquele simples gesto fez algo se acender dentro de mim.
— Mesmo de baixo da chuva ficamos jogando bola na rua que era sempre muito tranquila. Quase não havia movimentação de veículos ou pessoas. Ficamos completamente encharcados e ainda sim só tínhamos motivos para rir ou sorrir. Foi divertindo. – eu sorri, lembrando-me do sorriso e do incentivo do meu irmão. — A mamãe nos observava da janela, contrariada. Mas também não fez nada a respeito, apenas ficou ali, observando a gente se divertir de baixo daquele espetáculo da natureza. Até que tudo mudou, em um piscar de olhos. Eu dei um chute forte na bola e ela rolou para o outro lado da rua, onde havia um terreno abandonado. Eu ia até lá busca-la, mas então meu irmão me impediu, pois ele sempre zelava pela minha proteção. E lá foi ele, salvar a nossa partida. Só que enquanto atravessa à rua ele não viu que vinha um veículo em alta velocidade em sua direção. Ninguém viu, ninguém esperava por aquilo, não tinha necessidade de alguém dirigir tão rápido em uma rua quase deserta. O asfalto molhado só dificultou as coisas e o carro não freou a tempo e acertou o meu irmão em cheio. Foi tudo muito rápido a partir de então. Eu gritei com muita força, mais do que achei ser capaz de conseguir. E em câmera lente eu vi o corpo do meu irmão se arremessado com o forte impacto. Ele morreu na hora e desde então meus pais parecem me culpar por sua morte, já que por minha insistência nós fomos jogar na rua, mesmo na chuva.
— Meu Deus! Eu sinto muito, muito mesmo por tudo, Felipe. – ao olhar para a Bianca eu vi que ela estava sendo verdadeira. Seus olhos também estavam marejados e ela parecia angustiada. — Mas você sabe que nada disso foi culpa culpa sua, não sabe? Você o amava, ele te amava, ele te protegia, ele te divertia, ele fazia de tudo por você. É uma pena que ele tenha sido vitima de uma tragédia como essa, mas podia ter sido você. No fundo, ele foi o herói que você sempre admirou.
Ouvi-la dizer essas coisas só fez com que eu desabasse de vez, soluçando alto feito um bebê chorão. Eu não resisti e a abracei, enterrando meu rosto na curva do pescoço dela. E fiquei ali, por um bom tempo, chorando o que eu não chorava há muito tempo desde a infinidade de dias que passei de luto pela morte do meu irmão. Sem saber ao certo se eu fui o culpado ou não. Ou se ele fez tudo àquilo para me salvar, pois como eu mesmo disse antes, ele sempre foi meu herói preferido.
— Agora eu entendo porque você sempre foi muito calado e quieto. – disse ela, olhando-me nos olhos quando enfim consegui me acalmar. — Você passou por coisas piores que qualquer um de nós e ainda assim conseguiu sobreviver a tudo isso e tornou-se um garoto admirável. Seu irmão teria muito orgulho de você, Felipe. – cuidadosamente ela passou os polegares nas maçãs do meu rosto, enxugando minhas ultimas lágrimas.
Pode ser que ela esteja dizendo tudo isso só porque gosta muito de mim, mas realmente, tudo que eu mais quero desde a perda do meu irmão, foi torna-me alguém digno de sua admiração. Da mesma forma que eu sempre senti por ele. Algo muito parecido com orgulho.
Talvez eu não seja o mais sofredor ou a pessoa que já passou por mais dificuldades na vida. Pode ser que eu esteja longe disso. Pode ser que nunca ninguém seja capaz de sentir o que eu senti ou sinto agora. Talvez nunca ninguém saiba um terço do que eu realmente passei nos últimos anos. Mas admito que a Bianca, nesse momento, chegou muito perto disso.
O que ela não sabe e que eu não conseguiria dizer é que por muito tempo eu permaneci mudo, porque eu realmente perdi a fala por ter gritado demais no dia em que perdi a pessoa que eu mais amava. E a minha voz e minha vontade de falar e me expor só voltou mesmo quando ela disse que gostava de mim, pois eu, de um jeito ou de outro, acabei descobrindo que vale a pena arriscar por certas coisas.
Pensando em tudo isso, sem saber ao certo no que focar, a única coisa coerente e precisa que passou pela minha cabeça naquele instante foi de que eu queria, eu precisava, eu desejava beija-la e poder enfim saber o sabor dos lábios dela. E mesmo sem raciocinar direito, sem nenhum controle sobre o meu corpo, mas com esse pensamento martelando na minha cabeça, foi exatamente o que fiz, aproximando nossos rostos e selando nos lábios enfim.
O sabor salgado das lágrimas que rolaram por meu rosto mistura-se ao sabor doce que tinha os lábios dela. Seus lábios são pequenos, suaves, delicados e se encaixam perfeitamente os meus de um jeito que nenhum se encaixou antes. Fechei meus olhos e passei a desfrutar cada precioso segundo daquele momento mágico. Toquei o rosto dela com cuidado, sabendo que ela era tão frágil quanto eu — ou ainda mais — e a puxei para mais perto, até que nossos corpos estivessem totalmente unidos.
Tudo que eu podia ouvir naquele momento era a chuva aumentando seu ritmo lá fora, misturando-se as nossas respirações descompensadas. Meu coração batia forte dentro do peito. E quando nossas línguas se entrelaçaram eu senti uma espécie de corrente elétrica percorrer minhas veias.
Eu queria que aquele momento durasse muito, durasse para sempre. Eu queria ir mais além, eu queria senti-la cada vez mais, queria que nos tornássemos um só, eu queria que ela estivesse gostando daquilo tanto quanto eu, apesar de repentino e assustador. Afinal, o que eu sentia agora não se comparava a nada que eu já senti antes. Era grandioso, intenso, violento, ardente, profundo e árduo.
E saber do melhor? A Gabriela parecia já não existir mais dentro de mim.
Tivemos que nos afastar quando ouvi o interfone tocar. O nosso almoço estava esperando por nós lá em baixo na recepção do prédio.
Fale com o autor