Todos Iguais

45 Eduarda e Natália


Notas iniciais
Ufa, consegui terminar esse capítulo ontem mesmo.

Estávamos na pausa da aula de Natação, usando aqueles maiôs e toquinhas pretas ridículas, apenas esperando o resto das garotas da turma terminar o ciclo para podermos voltar para a água novamente e recomeçar o treino.

Foi quando fui tomar um pouco do meu Gatorade que eu vi o namoradinho da minha prima, o Felipe, passar por ali a caminho do ginásio. Provavelmente ele estava dando um jeito de matar a aula de Educação física por não ser bom em esportes tanto quanto os outros. E aquela me apareceu a oportunidade feita para agir.

Puxei a Tatiana pelo braço, ela resmungou um pouco, mas não me importava. Estava acostumada com esse jeito desligado dela.

— Você se lembra do plano que elaboramos ontem a tarde, não lembra? – perguntei, ela assentiu um pouco sorridente demais. — Olha só quem está ali. – apontei disfarçadamente na direção do nosso alvo. — Agora vai lá e faz tudo que a gente combinou. E vê se capricha, hein.

E ela foi, mexendo os quadris mais que o habitual. De um jeito ridiculamente engraçado. Por sorte não tinha mais ninguém ali, o resto do colégio estava ocupada tendo aula. Tatiana se aproximou cautelosamente do Felipe, o surpreendendo um pouco. E tentando a todo custo seduzi-lo com sua roupa de banho e seus cabelos longos e escuros e molhados.

Eu não perderia aquilo por nada e achei um jeito de me esconder em um lugar o mais próximo de onde eles estavam para ouvir tudo que ela poderia dizer a ele. Eu estava torcendo para que o nosso plano desse certo. Poderíamos esperar qualquer coisa vinda da Tati.

Mesmo de onde eu estava escondida, não pude ouvir exatamente o que ela estava dizendo para ele. Eles estavam há um pouco mais de dois metros de distancia de onde eu estava. Mas dali pude ver de um ângulo perfeito a maneira ridícula como ela tentava seduzi-lo: mexendo muito do cabelo, usando uma voizinha doce irritante e tocando nele sempre que podia, o que parecia estar deixando-o muito intrigado com tudo aquilo.

Claro que o bobinho do Felipe cairia nessa. Ele é só um nerd, isso não significa necessariamente que ele seja esperto em tudo. E acima de tudo ele é homem, igualzinho a todos os outros. Não pode ver uma garota bonita que se derrete todo. Eu estava tão na expectativa, observando aquela cena de longe, que acabei me esquecendo do principal: meu celular para registrar o momento, caso algo de muito interessante acontecesse ali.

Mas aí, quando eu achei que meu dia já estava ganho, algo muito estranho e frustrante aconteceu. Na certa Tatiana continuava falando bobagens sem sentido para ele, mas quando ergueu a mão para tocar o rosto dele, o Felipe praticamente atirou longe a mão boba dela. De um jeito que chegou a ser rude e complemente grotesco.

Ele parece ter percebido que foi um pouco grosseiro demais e desculpou-se com ela. Pelo menos isso foi eu consegui captar através da minha leitura labial. Segundos depois ele se foi, deixando a sozinha para trás com a maior cara de coitada do século. Não demorou muito para ela vir até mim, toda cabisbaixa, com o rabinho entre as pernas.

— Duda, esquece esse plano tosco. – disse ela, enfim voltando a me olhar nos olhos. — O Felipe é um fofo. Ele jamais deixaria a Bianca por qualquer outra garota. – e então ela abriu um sorriso. — Sabe o que ele me disse todo bonitinho? – revirei os olhos e esperei ela continuar, tentando imitar a voz dele: — “Você é linda e tudo mais, Tati. Mas eu amo a Bianca. Eu não posso, eu não quero e nem deveria ficar com você. Desculpe.”

Eca. Fala sério! Que garoto idiota.

A verdade é que eu já deveria ter esperado exatamente por isso vindo dele. Era obvio e muito claro pra todo mundo que eles estavam muito apaixonados. Minha priminha popular e o nerd acanhado. Lá em casa não era muito diferente. Eles passavam praticamente o dia todo juntos, fazendo de tudo um pouco, cheios de melação pra todo lado.

E foi por isso que eu pensei em estragar esse namorico e incluí a Tatiana nisso. Eu queria arruinar a relação dos dois, porque estava morrendo de inveja do relacionamento incrível que eles pareciam ter, apesar de um pouco exagerado, porém compreensível pra alguém que está perdidamente apaixonado. Que quis muito que ele caísse na lábia da Tatiana, se deixasse seduzir e trocasse minha prima por ela ou pela primeira que aparecesse.

Mas parece que isso não vai rolar, de jeito nenhum.

Só que eu, Maria Eduarda Vasconcelos, não vou desistir disso. E se a Tatiana não é boa o suficiente para seduzir um garoto bobo como o Felipe, eu sim seria capaz. Porque se tem uma coisa que eu acredito é que todo mundo tem um ponto fraco e eu descobriria a todo custo o ponto fraco do namoro desses dois.

*~*

— Eu quero que você venha a um lugar comigo. – disse Luiza toda animada, puxando-me pelo braço quando atravessamos os grandes portões, na saída do colégio.

Eu não tive muitas escolhas, já que estava sendo praticamente arrastada por minha própria namorada. O pessoal em volta olhavam abismados pra gente, como se a Luiza tivesse resolvido me agredir no meio de toda aquela gente.

Por mais que eu perguntasse a ela para onde estávamos indo, Luiza fazia questão de manter o silêncio. E aquilo estava me deixando muito incomodada. Eu não era muito fã de surpresas, mas uma parte minha, bem lá no fundo, adorava toda aquela expectativa. Pois eu sabia que qualquer coisa vinda dela seria incrivelmente adorável.

— Nós estamos indo para sua casa? – perguntei ainda mais curiosa, quando já estávamos bem próximas do prédio dela.

Luiza apenas sorriu para mim, de um jeito bem travesso.

Resolvi ser paciente e entrar no joguinho dela.

Subimos de elevador até o seu andar e a seguir entramos em seu apartamento, que por sinal estava vazio e silencioso. Nenhum sinal de seus pais. Luiza continuou me arrastando pelo corredor, até o seu quarto.

E quando ela abriu a porta bem cuidadosamente foi que de fato me surpreendi com tudo que via bem na minha frente.

O quarto lilás da Luiza estava iluminado apenas pela luz fraca que vinha dos dois abajures ao lado de sua cama. Pelo chão havia pétalas de rosas espalhadas por toda parte. Pude sentir um perfume suave que vinha de duas velas aromáticas sobre sua escrivaninha. E sobre a cama, cada letra bem cortada estava escrito com papel cartolina escura: Eu amo você, Nati. E mais ao lado uma caixinha aveludada muito pequena de cor preta, além de um buquê de flores.

— Luiza, o que significa isso? – perguntei com um sorriso, virando-me de frente para ela.

— Nós estamos juntas há um tempinho, mas ainda não tínhamos oficializado essa relação. Então eu achei que estava mais que na hora disto acontecer.

Ela largou a minha mão e se aproximou de sua cama. Primeiro me entregou o buquê e depois pegou a caixinha, de onde ela tirou um par de alianças de compromisso.

Muito cuidadosamente ela colocou uma das alianças em meu dedo e eu fiz o mesmo com ela, tremendo um pouquinho e sorrindo muito. Eu estava fortemente emocionada. Depois nos beijamos carinhosamente.

— Eu sei que já te disse isso uma centena de vezes, mas é sempre bom reforçar um pouquinho.... – ela soltou um risinho e eu tentei ao máximo conter as lágrimas. — Eu amo você, Natália. Você é tudo que eu sempre quis.

Por fim eu a abracei, deixando escapar uma lágrima.

*~*

Tive um dia péssimo no colégio.

Eu não tinha desistido do plano de tentar seduzir o Felipe, apesar da Tatiana te sido um fiasco quanto a isso. E também onde quer que eu estivesse naquela maldita escola, o pessoal estava comentando sobre o novo estilo pegador do Pedro, que agora mais do que nunca, andava pra cima e pra baixo com o Rafael como se fossem gêmeos siameses.

Não preciso nem dizer que eu estava terrivelmente decepcionada com o Pedro. Francamente eu esperava mais dele. Ele que sempre foi todo fofo, especial e diferenciado, agora estava agindo feito um canalha como a grande maioria. E isso estava acabando comigo. Porque no fundo eu ainda tinha esperança de conquista-lo, porque sabia que ele seria o único capaz de fazer meu coração amolecer. Mas agora eu não estava tão certa disso e nem dormi direito eu estava conseguindo.

Por horas e horas ficava rolando na cama, pensando naquele maldito garoto. Imaginando o que se passava da cabeça dele, onde ele estaria ou se estaria aprontando de novo com o cretino do Rafael. E também gostava de reviver na memória às vezes em que nos beijamos de uma forma tão inesperada e intensa. Todos esses pensamentos acabavam comigo. E com isso, eu estava me dando muito mal no colégio.

Hoje mesmo, depois do intervalo, veio uma inspetora me chamar na porta da sala de aula. Pensem só na humilhação. Ela foi me buscar para fazer uma visitinha ao diretor. O diretor fez todo aquele típico sermão dele, antes de dizer que eu estava entre o grupo de alunos que tiram tirado as notas mais baixas nas provas de semanas atrás.

Pra minha sorte eu já tinha dezoito anos, o que em parte significava que eu já era responsável por meus atos. Então eles nem poderiam ligar para o meu pai para dar essa triste noticia. Caso contrário, há essa hora eu já estaria longe daqui e todos meus sonhos seriam destruídos, pois meu pai me levaria de volta pra casa arrastada pelos cabelos.

Deixei tais pensamentos de lado quando vi bem a minha frente o que naquele momento mais parecia uma luz vinda dos céus. Era o Felipe, que assim como eu tinha acabado de chegar no prédio depois do colégio. Ele estava sozinho e naquele momento me perguntei onde estaria minha adorável priminha.

Bom, já que ela não estava por perto achei que seria um bom momento para entrar em ação. Então dei uma rápida corridinha e consegui alcança-lo antes de entrarmos juntos no elevador. Quando me viu ele logo ficou desconfortável – era sempre assim – o que eu achava bem fofo da parte dele. Sinal de que ele me temia, querendo ou não.

Aproveitei o espelho do elevador para dar uma ajeitada básica nos meus cabelos ondulados e loiros, só para fazer um charme. Depois peguei meu batom no bolso lateral da minha bolsa e o passei de leve nos lábios. Felipe fingia não olhar diretamente para mim, enquanto permanecia com os olhos grudados em sua revistinha. Mas eu sabia que ele estava sim olhando pra mim, eu não era uma garota que passava despercebido.

Éramos os únicos no elevador e eu também tinha muito pouco tempo até ele chegar ao seu andar, então era agora ou nunca. Suspirei forte e fiz a primeira coisa que veio em mente: fechei sua revistinha, o fazendo arregalar os olhos. Sorri de forma diabólica. Naquele momento eu me senti uma gata selvagem e ele um ratinho amedrontado e em perigo. Não tinha outra forma de atingir a minha prima sem ser direta e brusca com seu namoradinho, que assim de perto, era realmente muito bonito e tinha até certo encanto.

Depois de ter a atenção dele só para mim, eu o empurrei um pouquinho para trás, encurralando-o. E inclinei-me um pouco para beija-lo — eu não tinha tempo para conversas — mas naquele momento ele fez a ultima coisa que eu esperava, no exato momento em que o elevador parou: ele me empurrou.

— Você não pode fazer isso quando bem entender. – disse ele, parecendo muito bravo comigo. — Você não pode me usar para atingir a Bianca. Eu a amo e jamais estragaria tudo que nós temos por uma pessoa horrível como você. Então, pense duas vezes antes de tentar tirar proveito de mim outra vez.

E assim ele se foi, deixando-me sozinha no elevador que já estava subindo outra vez.

Eu até poderia ter ficado ofendida e chateada, caso ele fosse o grande amor da minha vida que tinha acabado de me rejeitar. Mas ele não significava nada para mim, além de um jeito fácil de magoar a minha priminha. Então eu saí do elevador e entrei em casa de cabeça erguida, como se nada daquilo tivesse acontecido.

Primeiro tomei um banho, vesti algo mais leve e confortável, joguei-me sobre a minha cama e liguei meu tablet. Fiquei fuçando minhas redes sociais até às sete e meia. Tatiana estava online no chat do Facebook e eu acabei contando a ela o “fora” que o Felipe tinha me dado. Ela, claro, riu da minha cara sem parar. Depois disso comecei a sentir muita fome e me despedi dela para ir comer alguma coisa lá na cozinha.

Antes, barrei com a minha prima, ainda lá em cima, no corredor dos quartos. Ela, pelo visto, tinha acabado de chegar. Eu ia passar por ela sem dizer nada, como normalmente faço. Mas então ela me agarrou pelo braço, apertando forte seus dedos em minha pele.

Olhei horrorizada para ela.

— O que você pensa que está fazendo? – perguntei, olhando pra ela e depois para a mão dela em mim.

— O que você pensa que está fazendo? – ela rebateu, os olhos grudado nos meus. — Você achou mesmo que o Felipe não ia me contar nada do que você e a sua amiguinha andam aprontado para o lado dele? Olha aqui sua vaca, dá próxima vez em que você voltar a se aproximar do meu namorado, eu juro que acabo com você.

Soltei uma alta risada, puxando meu braço.

— Você acha mesmo que eu tenho medo de você, Bianca?

Ela não me respondeu com palavras, mas sim com um tapa na minha cara. Sim, isso mesmo. Uma tapa na cara. Que inclusive, ardeu pra caramba! Eu não ia deixar barato. Obvio. Não sou idiota. E parti pra cima dela, cheia de fúria. Nós caímos no chão e rolamos ali mesmo, feito duas selvagens.

Puxamos o cabelo uma da outra, demos socos no ar, pontapés e tudo que era possível. Mas os gritos e todo o barulho que fizemos acabaram chamando a atenção dos empregados. Lídia foi a primeira a surgir, com Marcel ao lado. Ela puxou a Bianca pra longe e o Marcel me segurou.

— Meninas, parem já com isso! – pediu a empregada, bem assustada.

Antes de ser levada para dentro do seu quarto, toda descabelada e com o rosto vermelho, Bianca e eu trocamos olhares raivosos, como se disséssemos apenas com um olhar que aquela guerra tinha apenas começado.

*~*

Luiza e eu saímos da sala do cinema eufóricas. Tínhamos acabado de assistir Guardiões da Galáxia. Eu particularmente adorava aquela sensação, pois não importava se já tínhamos ido ao cinema centenas de vezes, todas as vezes que íamos assistir a um filme que tínhamos aguardado tanto tempo para ver, aquela sensação única sempre voltava a aparecer. Era algo muito semelhante ao amor que eu sentia por ela.

Durante o filme devoramos dois baldes grandes de pipoca com muita manteiga e bebemos refrigerante, mas aquilo não foi o bastante e logo em seguida fomos pedir algo no Burger King. Esperamos pelo menos dez minutos pelo pedido e assim que pegamos nossas bandejas nos dirigimos para a praça de alimentação, onde por sorte ou azar, acabamos sentando ao lado da mesa onde a Aline estava com seu atual namorado. O mesmo garoto alto e estranho da outra vez que a vimos.

Imediatamente suas palavras da ultima conversa que tivemos vieram a minha mente: “E não se preocupe: se eu voltar a ver vocês não vou bancar a bruxa má novamente.”. Posso dizer que ela acabou cumprindo o que disse e assim que nos viu, a primeira reação dela foi sorrir simpaticamente.

Luiza foi à única que ficou surpresa com aquilo, eu fiquei aliviada. Porque enfim a Aline tinha superado aquela história.

Como se nada daquilo tivesse acontecido, Luiza e eu começamos a comer nossos lanches e a conversar sobre o filme que tínhamos visto minutos antes. Ao lado vi que Aline e o namorado acabaram terminando primeiro e já estava indo embora, quando ela decidiu vir antes nos cumprimentar.

— Olá, meninas. Estão se divertindo? – ela abaixou-se para cumprimentar nós duas com beijinhos no rosto. — Eu estava aqui comentando com o Renato o quanto vocês formam um casal bonito. Bom, enfim. Não quero atrapalhar o passeio de vocês. Eu vou indo. – mais beijinhos, agora de despedida. — Espero voltar a ver vocês outras vezes.

Ela sorriu, agarrou a mão do namorado e se foi.

Luiza voltou-se para mim com os olhos arregalados.

— É sério isso? O que aconteceu com essa garota? Será que ela está doente? Foi só impressão minha ou foi mesmo real? Nada de ironia, sarcasmo ou alfinetadas?

— É, ela está mudada. Não foi só impressão sua. – dei uma ultima gole no meu refrigerante. — Vai ver ela enfim superou.

Luiza estreitou os olhos, olhando-me desconfiada. Nem sei porque, eu tentei soar o mais convincente possível.

— Por acaso você está me escondendo alguma coisa, Natália?

— Não! Claro que não! Que paranoia.

Desviei o olhar.

— Nem tente me enganar. Eu sei muito bem quando você está me escondendo alguma coisa. Acho bom você começar a falar ou eu vou ficar muito brava com você. E eu não estou brincando.

— Como se você não fosse ficar brava de qualquer forma: eu contando a verdade ou não. – revirei os olhos, contrariada.

Eu não tinha pra onde correr. Bom, achei que aquela era a hora da verdade. Eu bem que tentei deixar pra lá, mas a Luiza me conhece bem. E eu também não poderia e nem deveria esconder nada dela por muito tempo, afinal éramos namoradas. E mais do que isso: amigas.

Ela merece toda a verdade.

*~*

Tinha acabado de ser expulsa da aula de Geografia por ser sido pega no flagra escrevendo bilhetinhos para a burra da Tatiana.

Eu não estava nenhum pouco a fim de ir fazer uma visitinha ao diretor novamente, então ao invés de ficar perambulando por aí pelo colégio como se não tivesse nada de mais importante pra fazer, eu resolvi me isolar em uma parte menos movimentada, assim nenhum inspetor me encontraria.

O dia estava incrível, azul e ensolarado. Sentei-me um banco vazio, mais atrás de uma grande arvore, no jardim do colégio. Peguei meu celular, fones de ouvido e liguei minha playlist. Fechei os olhos e deixei a música me levar para longe, para um tempo em que as coisas eram bem mais fáceis pra mim, porque eu não tinha essa mania terrível de querer acabar com as pessoas, por melhores que elas fossem.

Abri meus olhos ao sentir uma estranha sensação de um ser importuno juntar-se a mim. Mas abri um grande sorriso quando olhei para o lado e deparei com os olhos verdes vivo do Pedro em mim.

Recompus-me, ajeitando minha postura e deixando meu celular de lado.

— O que você está fazendo aqui? – acabei soltando, sem pensar direito antes de abrir a boca. — Não venha me dizer que você está me querendo incluir na sua mais nova listinha de “Garotas que eu devo partir o coração”? – eu tinha o péssimo habito de estragar tudo. Sempre. Bastava abrir minha grande boca e pronto: preparam-se para a burrada. — Se bem que eu adoraria e me sentiria muito honrada em fazer parte disso.

Pedro soltou uma risada prazerosa, desviando olhar por um momento.

— Você não precisa fazer isso consigo mesma. – disse ele, naturalmente. Sem me incriminar dessa vez ou sem parecer que me detesta e quer me matar a qualquer momento.

Era engraçado, mas eu não conseguir não olhar para ele. Ele é lindo demais para eu desviar os olhos, por mais envergonhada que esteja comigo mesma. Eu adoro o preto reluzente dos cabelos dele em contraste com a pele pálida e os olhos extremamente verdes.

Acho que pela primeira vez em muito tempo estávamos “conversando” de uma maneira quase amigável. O que não durou muito, o que já era de se esperar vindo de mim. Porque sempre que o Pedro estava por perto, eu sentia aquela chama se acender dentro de mim. Algo difícil de controlar, por mais que eu não quisesse estragar as coisas entre nós.

Percebi que estávamos nos entreolhando por tempo demais. Ele sorrindo de maneira genuína para mim e eu olhando para ele e imaginando cada parte de seu corpo sem aquelas roupas. Sim, eu estava mesmo ficando maluca. Estava sentindo uma forte tensão sexual por esse garoto.

O que eu fiz a seguir foi mais por impulso que qualquer outra coisa. Tudo aconteceu em câmera lenta. Eu levei meus lábios até os dele, sentindo meu coração querer saltar pela boca. Eu nunca sentia isso por ninguém. Então a coisa estava começando a ficar mais grave do que parecia. E fechei meus olhos quando estava muito perto de beija-lo.

Queria me entregar inteiramente ao momento, como nas outras vezes.

Bastou o Pedro virar um pouquinho a cabeça, para os meus lábios irem de encontro ao canto de sua boca. Então nem cheguei a beija-lo de verdade, porque ele não quis. E qualquer um poderia me rejeitar, porque eu não me importava. Exceto o Pedro, que poderia muito bem ferir a minha alma se ele quisesse. Ele sim tinha esse poder em mãos.

— Porque...? – não consegui completar a perguntar, porque ele foi mais rápido e me calou com o dedo.

— A verdade é que eu gosto de você, Duda. Gosto de verdade. Gosto pra valer. Mas não posso fazer isso comigo... Você não é a pessoa certa pra mim. Eu mereço mais, eu mereço o melhor. Não podemos continuar com isso. Eu acho que estou me apaixonando por você e só quero evitar isso ao máximo. Não é certo. Nunca vai dá certo.

Aquelas palavras foram como um tiro no meu peito.

Confesso que tive vontade de me derramar em lágrimas ali mesmo, diante dos olhos dele. Só para ele saber que eu também tinha um coração, também tinha sentimentos e também era sensível. Mesmo que não parecesse. E tudo que eu queria era estar com ele. Estando com ele eu esqueceria de todo o resto. Eu seria uma pessoa boa e melhor.

— Eu sinto muito. – ele disse isso ao se levantar e beijar o alto da minha cabeça muito carinhosamente, só como o meu pai faria.

E depois se foi. Sumindo para sempre.

*~*

Luiza estava decepcionada comigo.

Eu tinha contado a ela cada detalhe da conversa que tive com a Aline, de quando resolvemos tudo que tínhamos para resolver. E ao invés de me apoiar ou me parabenizar por ter me colocado a frente daquilo para o nosso próprio bem, ela optou por ficar brava e se afastar, deixando-me um dia inteiro sem noticias sobre ela. E sempre que eu tentava me aproximar para a gente conversar e resolver aquilo, ela se levantava e ia embora, sem nem olhar para mim. Muito cruel e imatura.

Passei o dia inteirinho triste e cabisbaixa, tentando me dedicar ao máximo às aulas. Odiava ter que ficarmos assim brigadas, mas não era como se eu tivesse muitas escolhas. Eu queria muito estar em casa, deitada em mim cama, pensando na melhor solução de resolvermos aquilo, mesmo sabendo que eu não estava totalmente errada. Porque ao menos a Aline não estava mais nos atacando como antes. Só que eu não podia simplesmente jogar meu material na mochila e ir embora.

Eu tinha que encarar aquilo de frente.

Aproveitei a aula de Artes que tínhamos juntas mais tarde para tentar uma nova reaproximação. Eu jamais desistiria. Novamente ela não me deu bola e continuou emburrada, de cara amarrada como se eu fosse a pessoa mais cruel desse mundo por ter escondido esse pequeno detalhe dela. Eu, por outro lado, estava começando a me irritar com essa infantilidade dela e só esperei a aula terminar para puxa-la de lado para termos uma conversa bem séria.

— Eu só queria pedir desculpar, pela milésima vez, por não ter te contado isso antes. Mas você precisa parar com isso, Luiza. Você está me machucando e não sabe o quanto.

— Você deveria ter me contato que iria falar com ela. Você sabe que detesto mentiras, Nati. Sabe, eu me preocupo com você. E se ela tivesse reagido mal? E se ela não tivesse entendido as coisas? Se ela fizesse mal a você, eu juro que não sei o que eu seria capaz de fazer.

— Meu amor, tenha calma. – sorri, apertando forte sua mão. — Não aconteceu nada. Para de ser tão negativa! Pelo contrário, ocorreu tudo tão bem. Nós conversamos, fomos sinceras e diretas e por fim ficou tudo acertado. Não era isso que nós duas queríamos? Que nada e ninguém fosse capaz de nos atingir?

Ela assentiu, enfim parecendo entender o meu lado.

— Olha, se isso te fizer se sentir melhor, eu prometo que nunca mais irei agir sem antes consultar você. Não quero que a gente brigue por qualquer coisa, por mais inevitável seja impedir essas coisas. Mas se eu puder impedir, eu o farei. Eu amo você e só quero que a gente fique bem.

Após dizer isso eu a abracei e ela me abraçou de volta. Dentro daquele abraço cheio de amor e carinho eu enfim senti que as coisas tinham voltado ao normal. O novamente meu coração ficou tranquilo e em paz. Porque eu sabia que não importava o que estava por vir, o nosso amor sempre seria forte o bastante para nos ajudar a superar qualquer coisa.

Notas finais
Sentiram dózinha da Duda ou acharam que ela mereceu tudo que o Pedro disse?