Todos Iguais

26 Bianca e Felipe


Notas iniciais
Eu estou muito cheia de ideias para essa história, apesar de nem sempre conseguir parar para escrevê-la. O lado bom é que quando a minha inspiração está no ponto alto eu consigo escrever pelo menos um ou dois capítulo por dias. Sendo assim, tenho capítulos prontos e programados até o dia 17/10. Geralmente eu posto um dia sim e outro não. Mas eu posso ser mais rápida também se você comentarem sempre e me pedirem. Então aproveitem.

Naquela manhã de sexta-feira o Danilo me mandou uma mensagem de texto perguntando se eu gostaria de sair com ele depois da aula. Eu fiquei muito curiosa, claro. E mandei outra mensagem a ele, dizendo que por mim tudo bem, seria ótimo poder nos vê-l de novo. Mas a verdade é que víamos nos encontrando constantemente. Estava mais do que evidente de que estávamos tendo alguma coisa, mesmo que ainda indefinida.

Além de lindo, como um galã de Hollywood, o Danilo é fofo. Ele sempre foi assim: carinhoso, prestativo, cuidadoso, preocupado. Muitas vezes por dia me pego sorrindo à toa quando ele me surpreende com mensagens de texto românticas durante a aula, ou quando estou de bobeira em casa e com os meus amigos, quando acabo de acordar ou quando estou pronta para dormir. Daquelas bem clichês, que toda garota adoraria receber do namorado. Mesmo não sendo namorados. Porém, eu ainda gosto muito dele, como nos velhos tempos. Mas nem isso parece o bastante.

Algumas vezes ele aparece lá na porta do colégio, na hora da saída, sorrindo para mim encostado em seu carro com as mãos no bolso como se eu fosse a única garota no mundo. Mal sabe que ele que mais que a metade das garotas do colégio suspira ao vê-lo assim, tão encantador, ou quantas delas gostariam de poder dar uma única volta com ele em seu carro do ano.

Sempre que ele tem uma folga no trabalho, nós marcamos de ir ao shopping no final de semana. O melhor é que praticamente gostamos das mesmas coisas, então é sempre bom tê-lo por perto. Ou então, ele vai lá pra casa e ficamos assistindo um filme em meu quarto e trocando carinhos. Apenas como amigos coloridos. Danilo é sempre tão respeitador, ele nunca passa do limite. Ele sabe exatamente onde me beijar, onde me tocar, o que fazer ou dizer. Seriamos perfeitos juntos (novamente) se eu gostasse dele o tanto que ele parece gostar de mim.

Só eu sei o quanto isso parece injusto. Afinal, quantas garotas gostariam de estar no meu lugar? Muitas. Eu sei.

Eu só quero ver de que forma ele vai me surpreender hoje mais tarde. Enquanto isso, o dia parece passar vagarosamente. Algumas vezes eu tenho vontade de sair correndo do meio da aula e ligar para ele. Mas como isso não é possível, eu apenas aguardo ansiosamente pelo nosso encontro.

Às quatro da tarde, antes de sair, dou uma passadinha rápida no banheiro feminino, onde retoco a minha maquiagem, passo os dedos pelos cabelos lisos e sorrio. Mas algo em mim parece muito errado, impedindo-me de sair sem antes dar uma nova conferida em mim mesma. Não sei se é impressão minha ou eu acabei engordado nessas ultimas semanas. Nem mesmo as minhas novas roupas pretas são capazes de esconder ou disfarçar. Sinto-me péssima. E olha que hoje eu só comi um pãozinho light e tomei uma xícara de chá de camomila.

Será que o Danilo vai notar?

O toque histérico do meu celular interrompe as minhas paranoias. É o nome do Danilo que fica piscando na tela sem parar. Pego minha mochila, jogo no ombro e saio apressada pelos corredores quando resolvo atender.

— Eu já estou chegando. – digo, antes que ele possa dizer qualquer coisa. E desligo o celular. Volto a guarda-lo no bolso.

Praticamente corro em sua direção. Ele está no lugar de sempre: encostado no carro, com as mãos enfiadas dentro do bolso do jeans, um sorriso lindo no rosto, o cabelo claro muito bem arrumado e um perfume que dá pra sentir de longe. Quando paro em frente a ele, Danilo me envolve com seus braços para um rápido abraço e um beijo na bochecha. Depois ele abre a porta de seu carro branco pra mim e lá vamos nós.

— Por acaso eu posso saber para onde você vai me levar? – pergunto divertida, minutos depois de entrarmos no carro e ele dá a partida.

— Não. Você ainda não pode saber. – ele responde risonho. Danilo me olha com o canto do olho, totalmente concentrado na direção. — É surpresa. Eu realmente espero que você goste.

***

Como a Bianca pode gostar de um cara que não sai do pé dela?

Para todo lugar que eu olho lá está ele, se exibindo com o seu carro, sorrindo afetado, fazendo as garotas em volta suspirarem e os garotos desejarem ter a sua sorte. Danilo é o tipo de garoto que consegue tudo o que quer. Tudo mesmo. Não é só como o Rafael que nos tempos de solteiro (já que agora ele é um cara comprometido) poderia ter qualquer garota com um estalar de dedos. O Danilo vai muito além disso. Ele pode ter qualquer carro, uma mansão, viagens pelo mundo a fora e muitas garotas.

Eu até poderia gostar dele se ele não ficasse tão perto todo o tempo. Parece até que a Bianca não pode nem respirar por um momento. Ele está sempre ali, sufocando-a. Como isso pode ser saudável para um casal? E olha que pelo pouco que eu sei eles não estão nem namorando. O cara é um chato, com certeza. Chega a ser insuportavelmente irritante.

Se marcamos de todos irmos a uma festa assim como nos velhos tempos, ele também vai. Se sairmos para tomar um simples sorvete depois da aula, ele também está lá. Se eu estou em casa e resolvo descer para tomar um ar na área de lazer do prédio, ele também está lá com a Bianca, apertando-a, beijado-a e sabe-se lá mais o que. Se estivermos conversando durante o intervalo ou uma aula vaga, mesmo que ele não esteja exatamente lá, é como se estivesse. Já que a Bianca fica de tempos em tempos, olhando para o celular, esperando por um sinal de vida dele ou alheia a tudo que estamos fazendo, como quem não tem olhos para mais nada, além do seu príncipe encantado.

O garoto está em todo lugar. Não só fisicamente. Ele é como uma mosquinha que fica zunindo no nosso ouvido – ou só no meu ouvido – e pairando pelo ar onde quer que estejamos.

Eu já na aguento mais, de verdade. Eu só queria que ele sumisse, assim, de uma hora pra outra, da mesma forma que apareceu. Mas parece que não há nada no mundo que eu possa fazer para intervir. Até porque estou longe de ter uma mente diabólica, com planos mirabolantes como a Gabriela, por exemplo. Eu também não tenho um coração de pedra, capaz de fazer qualquer coisa para se livrar daquilo que de alguma forma me incomoda até mais do que eu mesmo gostaria de poder admitir.

Talvez eu esteja mesmo com ciúmes da Bianca. Ou apenas com ciúmes da Bianca com o Danilo. Mas é só ciúmes. Pois pelo que eu ainda sei, eu gosto mesmo é da Gabriela. Não é como se eu esperasse ou quisesse que ela, a Bianca, tivesse olhos para mais alguém. Não depois de tudo que ela me confessou. Sei que estou confuso e tudo isso soa um tanto egoísta, mas eu também ainda não sou capaz de controlar certos sentimentos.

Bem que eu gostaria.

Noite passada, por exemplo, eu fiquei pensando se seria mais sensato da minha parte tentar dizer isso a Bianca. Como se isso pudesse aliviar a pressão que sinto no peito sempre que a vejo com alguém. Por fim eu acabei desistindo, afinal eu não saberia nem por onde começar. E com que cara eu diria isso a ela? Não é como se fossemos mais do que amigos. Agora somos mais próximos, eu admito. Somos mais íntimos também. Mas não chega a tanto, não é mesmo? Não estou pronto para me abrir com ninguém.

Nem quando eu mesmo sou incapaz de entender tudo que se passa dentro da minha cabeça ou do meu coração.

Naquela sexta-feira fiquei uns quinze minutos a mais do horário para ajudar a professora de História levar seus materiais até a sala dos professores, ela que por sinal ficou bem agradecida. Foi só depois que eu vi a Bianca saindo as pressas do banheiro feminino. E sempre que eu a via saindo do banheiro, eu fico imaginando se ela estava colocando tudo para fora e isso me deixava cada vez mais preocupado com a sua doença. Sendo assim, eu também aumentei o passo, só para saber o que ela faria a seguir.

Foi quando eu vi segundos depois ela dando um abraço bem intimo no tal do Danilo, que resolveu novamente aparecer — o que já não é novidade para ninguém – e entrou em seu carro. Depois, desapareceu.

Voltei para casa me sentindo um lixo, por me preocupar tanto com alguém que parece muito mais do que bem. Aquela noite também estava sem condições alguma de sair do quarto para curtir para ir a uma festa, ou sei lá o que. Pra ser bem sincero, o nosso ritmo tem caindo bastante no ultimo mês. Muita coisa mudou e já não somos mais tão festeiros. Parece até que cada um resolveu seguir um caminho diferente.

Eu tomei um banho, troquei de roupa, jantei e passei o resto das horas seguintes deitado na minha cama, na parte de baixo do beliche, tentando terminar de ler a nova revista que eu tinha ganhado da Bianca de presente de aniversário dias atrás. Mas estava sendo impossível me concentrar, quando na verdade ficava me perguntando onde ela poderia estar agora.

Cansado de esperar a vida me surpreender com respostas eu resolvi levantar a bunda do colchão, calçar o chinelo e sair de casa. Entrei no elevador vazio e apertei o botão para subir, questionando-me internamente onde e quando foi que as coisas começaram a mudar dentro de mim.

Talvez eu soubesse bem a resposta, só estava com medo de admitir.

Receoso apertei a campainha do apartamento dela. Para minha surpresa não foi nem a empregada que veio me atender e sim a sua adorável prima, Maria Eduarda. Que por sinal estava usando um pijama bem ousado. Será que a aquela garota não tem noção nenhuma de bom senso?

— Felipe, que surpresa! – ela sorria. — Posso te ajudar?

— Acho que sim. – disse eu, sem jeito. — A Bianca tá aí?

Não sei porque mas ela não pareceu nenhum pouco surpresa com a minha pergunta. O que será que ela sabia que eu não sabia?

Fica a duvida no ar.

— Não. Ela ainda não chegou. Deve ter saído com o namoradinho de novo. – respondeu ela muito séria, parecia um tanto venenosa com seu tom de voz debochado. Mas não demorou muito para ela voltar a sorrir e começar a me avaliar com um sorriso duvidoso. — Porque, em?

Não gostei nada daquele olhar.

— Nada. Deixa pra lá.

Voltei para o tédio do meu quarto.

***

A noite estava bem agradável, o céu estrelado e o ar fresco. Primeiro o Danilo me levou a um restaurante fino no centro da cidade, onde comemos apenas saladas, grelhado e tomamos um copão de suco natural sem açúcar. Depois fomos ao cinema, onde eu dispensei a pipoca e o refrigerante, alegando estar cheia e satisfeita. Assistimos a uma boa comedia romântica, onde demos muita risada. Depois ele fez questão de me pagar um sorvete, eu tentei contornar a situação, não estava nenhum pouco a fim de ingerir mais alguma calorias aquela noite. Mas ele acabou me convencendo com seu sorriso torto e algumas palavras de carinho.

Por fim, às nove da noite Danilo me levou ao Parque da Independência, onde ficamos conversando enquanto caminhávamos de mãos dadas e o pessoal em volta se divertia em suas atividades esportivas. Ele me pegou de surpresa quando o assunto morreu e ele me conduziu todo misterioso para sentar-me em um banco perto de uma fonte de água, onde bem acima de nossas cabeças tinha um poste de luz que refletiam em seus olhos claros.

Danilo sentou-se também. Fiquei observando atentamente, bem curiosa, quando ele desajeitamento começou a tirar de dentro do bolso do jeans algo suspeito: uma caixinha azul-marinho aveludada, onde tinha um par de alianças de prata de compromisso. Pareciam bem valiosas.

— Eu sei que você sabe e sempre soube que eu gosto de você de um jeito que normalmente eu não gosto de mais ninguém. – ele segurou as minhas duas mãos, acalentando-as com o calor de seu corpo. — Sei que temos diferença de idades e planos diferentes para o futuro. Sei também que já se passou muito tempo desde a ultima vez que isso não deu muito certo, porque obrigatoriamente tivemos que nos separar. Mas eu só quero que você saiba que eu sempre senti a sua falta. Eu não acho que voltar a nos encontrar tenha sido uma mera coincidência do acaso. Você sempre foi para mim muito mais que uma amiga, Bianca. E dessa vez eu quero fazer isso dar certo, mesmo com todos os empecilhos.

Eu tremia e suava frio. Eu estava nervosa e surpresa. Sem saber o que pensar sobre isso, mas ainda assim ouvindo-o atentamente. Meu corpo parecia paralisado e meu coração parecia o único com vida, batendo muito forte. O mundo a nossa volta parecia estar rodando mais rápido. Minha boca também estava muito seca e meus olhos sobressaltos.

— Eu só preciso saber se você também sente o mesmo, antes de qualquer coisa. — ele continuou, sem fazer ideia do que se passava dentro de mim. — E se você quer tanto isso quanto eu. – ele aproximou seu rosto do meu, sorrindo genuinamente. — Bianca, você quer namorar comigo? Se você quiser, eu juro que vamos fazer de tudo para isso funcionar. Mas se você não quiser também, eu vou entender.

Parecia um sonho. Eu mal podia acreditar naquilo. Era tudo tão perfeito. Algo que toda garota desejou. Bem ali, na minha frente, o garoto dos sonhos estava se declarando, me pedindo em namoro, querendo concretizar o que estávamos tendo com direito a alianças. Ele planejou isso tudo, desde o começo. Escolheu o lugar ideal e as palavras certas. Por um lado eu estava muito feliz, me sentia honrada e quase sem palavras. Mas por outro lado eu sabia exatamente o que eu queria. E o que eu queria não era nada daquilo. O que eu queria estava muito longe daqui, muito longe de mim. Algo que talvez eu nunca chegasse a ter.

— Eu sinto muito, Danilo. – senti os olhos se encherem de lágrimas e meu coração apertado. Eu estava sendo tão ingrata tão mal agradecida e desajuizada. Desperdiçando algo valioso, algo que não se encontra em qualquer lugar. — Eu queria muito tentar. Eu queria muito sentir o mesmo, poder corresponder e dizer tudo que você gostaria de ouvir. Mas eu não posso. Não posso! Não quando meu coração pertence a outro.

Eu poderia simplesmente sair correndo dali, entrar no primeiro táxi que me aparecesse pela frente e cortar qualquer contato entre nós dois, para poupa-lo. Mas para mim o Danilo é especial e merece algumas explicações. Ele sempre foi meu amigo e sempre esteve ao meu lado. Mesmo que tenhamos nos separado por um longo tempo, ele voltou e parece que nunca deixou de estar aqui, comigo. E foi por isso que eu resolvi ser sincera e abrir meu coração. Errado seria se eu aceitasse me envolver novamente com ele mesmo já não sentindo mais o que eu sentia anos atrás.

As coisas mudam, não mudam? Elas sempre mudam, querendo ou não. Um dia eu fui louca por ele e até imaginei que viveríamos felizes para sempre. Só que não foi bem assim e nem chegou perto disso. Eu acredito também que em outros tempos ele gostava mais de mim. Éramos mais jovens, inexperientes, cheios de sonhos, desejos e expectativas. Claro que muitas dessas coisas ainda existem, mas agora já não somos mais criancinhas, que só têm tempo um para o outro. Somos adultos. Ele muito mais do que eu. Ele já tem uma vida independente e eu estou começando a ter a minha. Nem se quiséssemos seria a mesma coisa.

Eu tentei dizer isso a ele com todas as letras. Enquanto me ouvia ele parecia entender cada palavra que proferia de minha boca. Ele sempre foi compreensível. E eu sempre gostei muito disso nele, por isso não encontrei nenhuma dificuldade em ser realista, sincera e totalmente aberta.

— Você tem razão, Bianca. Eu entendo perfeitamente o que você quiser dizer. Mas algo em seus olhos me diz que não é só isso.

— É. – eu sorri para ele e depois suspirei profundamente. — Você está certo. Como eu disse: meu coração pertence a outro. Eu não poderia ser injusta com você. Eu gosto de outro. Parece pouco provável que um dia ficaremos juntos. Ou melhor, parece impossível. Mas sempre que eu olho pra ele eu sinto esperança. Porque isso é o que eu quero e essa esperança parece nunca acabar. Eu só espero que algum dia ele também me queira. Entende?

— Ele é um tolo por não enxergar isso. – ele sorriu lindamente, acariciando minha bochecha com o polegar. — Mas se você ainda tem esperança, sinal que você não pode e nem deve desistir. – ele me deu um beijo e de alguma forma eu sentir que aquele seria o ultimo. — Você merece o melhor dessa vida, Bianca. Você é maravilhosa. Nunca se esqueça disso. E se ele não perceber isso, outros perceberão. Só não demore tanto tempo para se convencer disso.

Eu o abracei, comovida com suas palavras.

— Obrigada por ser tão compreensível. – eu disse, ainda com o rosto enterrado em seu pescoço perfumado. Feliz por no fim te dado tudo certo e triste por estarmos nos despedindo mais uma vez. — Saiba que nunca, nunca mesmo eu poderia esquecer alguém como você.

***

É um sábado de sol e eu não poderia ficar trancando o dia inteiro em casa só porque acordei totalmente desanimado para a vida.

Passei pelas piscinas do condomínio e dei uma boa olhada em quem estava ali se divertindo só para ter a certeza de que ela não estava por ali. Segui até o jardim e sentei-me em uma parte mais isolada. Fechei os olhos com o rosto voltado para o sol, sentindo-o aquecer cada centímetro do meu corpo magro. Tentei manter a minha mente livre de qualquer pensamento que pudesse interferir esse meu momento zen.

Mesmo quando ouvi passos vagarosos se aproximando eu não me mexi. Afinal, poderia ser qualquer um. Apenas quando senti aquele perfume suavemente doce e aquela respiração calma foi que rapidamente abri os olhos e dei de cara com a única pessoa que eu queria ver naquele momento e a única que vinha ocupando meus pensamentos por tempo demais.

Bianca estava linda com um vestidinho branco de algodão, os cabelos loiros soltos caídos sobre os ombros, uma sapatilha azul bebê com um laço exagerado, as bochechas rosadas por conta do calor e os olhos verdes límpidos bem destacados pelo rímel que alonga os cílios.

Parece que alguém acabou desistindo do estilo mais alternativo.

— Oi. – fui o primeiro a dizer, sem conseguir conter o sorriso.

— Oi. – ela sorriu com os lábios cheios de gloss.

Sentei mais para o lado, para que ela pudesse sentar comigo. E foi exatamente o que ela fez, sem eu precisar pedir. O banco era pequeno o bastante para ela ficar bem pertinho de mim. Eu podia sentir o cheirinho do shampoo do cabelo dela e a pele macia dela encostada na minha.

— Você está linda. – me ouvi dizendo em voz alta, pegando-a de surpresa. Eu fiquei constrangido. Mas ela pareceu ainda mais, desviando o olhar e soltando uma risada graciosa.

— Ah, obrigada.

Tudo nela lembrava-me a doçura de um anjo.

— Que bom você está aqui. – eu olhava para ela, nervoso e ansioso com tudo que estava preso na minha garganta. Eu queria que as coisas fossem mais fáceis. — Eu passei a noite inteira pensando como eu poderia te dizer isso. Eu nem se quer consegui dormir. Também nem sei por onde começar, mas acho que você ter dito que gostava de mim acabou me afetando o bastante para me deixar confuso em relação a tudo isso.

Ela olhava para mim, sem esboçar nenhuma reação ao que eu dizia. Mas foi bom, eu me senti mais encorajado para continuar e dizer tudo de uma vez antes que desistisse e continuar me martirizando com isso.

— A verdade é que eu aturei por muito tempo, mas não consigo mais ver você com o Danilo. Parece muito errado. Eu não sei. – eu estava acelerando, falando muito depressa. — Não é como se eu tivesse algo contra ele, eu só acho muito desconfortável essa situação. Parece que vocês estão sempre juntos, fazem de tudo juntos e acabam não tendo espaço para nada ou ninguém. Eu nem sei por que, mas isso me incomoda. E muito.

Eu sou tolo? Sim, sou bastante. Ao menos estou sendo sincero com ela e principalmente comigo mesmo.

Para minha surpresa ela riu, interrompendo meu longo discurso. E eu não fui mais capaz de continuar aquela conversa. Mas não era uma risada debochada. Parecia mais que ela estava achando aquilo tudo muito divertido. De um jeito positivo. Se é que dá pra vocês me entenderem.

— Eu nunca pensei que fosse ouvir isso, não vindo de você. Mas preciso dizer que eu adorei saber que você... hum... sente algo em relação a mim, mesma que não seja exatamente o que eu gostaria. – ela riu novamente e eu sorri de um jeito muito bobo. – Foi bonitinho, Felipe. Mas você não precisa mais se preocupar. Eu e o Danilo... nós... meio que terminamos.

Meu peito explodiu de alegria ao ouvir aquilo. Acho que ela percebeu.

— Eu pensei que você gostasse dele. – eu disse, assim, meio como quem não quer nada. No intuito de que ela dissesse mais a respeito.

— E eu gosto. Só que não ia iria dar certo por muito tempo. Somos muito parecidos, apesar das diferenças de idade, mas ele já é um homem e eu ainda estou aprendendo a ser uma adulta. E também, eu gosto de você. Você sabe. Aquilo não era o que eu queria. – ela admitiu, sorrindo um pouco. Bianca pousou sua mão pequena sobre a minha. — Isso é o que eu quero.

Aquele momento pareceu o momento certo para agir. Não sei... Talvez eu devesse beija-la ou alguma coisa assim. Como se um gesto ou uma atitude pudessem dizer a ela o que palavras não eram capazes.

Mas algo ainda me impedia. E eu sabia exatamente o que era. Pois da mesma forma que ela não conseguiria ser injusta com o Danilo para se envolver inteiramente com ele quando no fundo gostava de mi,m eu também não poderia ser injusto com ela, me dar pela metade, quando uma parte de mim ainda gostava muito da Gabriela.

E de alguma forma eu sabia que ela aceitava isso, mesmo quando não podia entender. E era muito paciente, por sinal. Algo admirável.

Mas até quando ela teria paciência?

Eu tinha medo da resposta.

Eu não queria perde-la. Não agora. Mas também não queria prende-la, sem poder dar a ela o que ela queria. Nenhuma das opções parecia certa. Na verdade, tudo isso é muito mais complicado do que aparenta.

— E então, quer dar um mergulho? – ela sugeriu, mudando de assunto.

— Que tal se ficássemos aqui, apenas conversando? Para mim parece ótimo.

— Para mim também. – ela sorriu lindamente, mas infelizmente retirou sua mão da minha. — Desde que eu esteja com você.

***

Com o distanciamento dos últimos dias entre nós por conta do meu namorico com o Danilo eu e o Felipe tínhamos muito que conversar. O papo rendeu o dia inteirinho. Conversando sobre muitas coisas e nada ao mesmo tempo. Foi divertido. O tempo passou tão depressa que quando dei por mim já era noite e o céu estava repleto de estrelas.

— Nossa, eu estou morrendo de fome! – ele disse, sorrindo abertamente. Eu me remexi, desconfortável por ele tocar naquele assunto.

Acho que o Felipe percebeu. Seu sorriso foi substituído por preocupação. Ele é esperto e sabe muito mais sobre mim do que eu gostaria.

— Ah, desculpa. Eu esqueci que você... – ele começou todo sem graça. Mas eu não permitiria que algo tão pequeno estragasse isso que estávamos tendo agora, seja lá o que isso significasse.

— Tudo bem. – eu o interrompi, sorrindo. — Sem problemas. – levantei-me, ajeitando o vestido no corpo. — Então, vamos subir?

Ele assentiu e juntos entramos no prédio que estava bem movimentado como de costume para um sábado à noite.

Subimos de elevador muito calados. A verdade é que eu não queria dar um fim a aquela noite. Eu queria que ela se estendesse pelas próximas horas, até que ambos já não aguentássemos mais falar tanta besteira. Eu queria poder apreciar mais a sua companhia, ouvir a voz dele, sentir o olhar dele sobre mim como quem pode me desvendar e o som da sua risada sempre que eu dizia alguma bobagem. Mas ele estava mesmo faminto, por diversas vezes reclamou da barriga roncando. E eu não poderia impedi-lo de se alimentar, mesmo que eu estivesse sem um pingo de fome.

— Tem certeza de que não quer comer nada?

Sorri sem graça, antes de ele sair do elevador.

— Ah sim, obrigada.

— Então, tudo bem.

Ele iria sair sem nem se despedir ou dizer qualquer coisa. Eu estava um pouco... Decepcionada com essa atitude. Eu esperava que depois de hoje nós pudéssemos pelo menos dar alguns passos à frente, mas pelo visto ainda é cedo para isso. Eu tinha que ser paciente.

— Ah, Bianca? – ele me chamou, virando-se para mim novamente antes de enfim sair. — Eu gosto mais de você assim do jeito que você é. Você está linda, sem toda aquela maquiagem preta e as roupas largas.

Senti meu rosto enrubescer. Mas ele nem percebeu, pois foi embora.

Nem tive tempo de dizer que eu tinha voltado ao meu estilo normal porque finalmente havia me dado conta de que se fosse para o Felipe – ou qualquer outro garoto — gostar de mim que fosse por quem eu sou e não por uma farsa.

Notas finais
Eu adorei escrever esse capítulo. Foi bem fofo, não foi? Gostaram da atitude da Bianca? Ou vocês preferiam o Danilo ao Felipe? Pelo visto ela finalmente entendeu que não vale a pena mudar por um garoto e sim somente por si mesma. Aprovaram essa nova escolha dela?