Todos Iguais

27 Gabriela e Eduarda


Notas iniciais
Eu optei por colocar somente Eduarda no título para não ficar aquela coisa maior do que já é. Mas não fica difícil adivinhar que é a nossa grande Maria Eduarda ou simplesmente Duda.

Não há um sequer dia que eu não pense em usar drogas. A última coisa que eu queria era me tornar dependente de algo que pode me destruir pouco a pouco. Mas pelo menos elas me ajudam a esquecer por algumas horas todas as dificuldades que eu tenho que enfrentar no dia-a-dia.

Eu sei que esse não é o melhor caminho para me livrar das coisas que eu não quero sentir ou ver, mas foi o jeito mais fácil que eu consegui. Pois quando não temos muitas opções, escolhemos o jeito menos complicado para prosseguir. No fundo eu só queria que nada disso fosse tão doloroso. E que a vida fosse simples o bastante para eu não precisar ir atrás da minha própria destruição para poder ficar em paz por um tempo só meu.

Nas ruas, em becos escuros e barzinhos decadentes, são os lugares onde eu passo mais tempo agora. Eu não gosto nem de pensar que vai chegar um momento que eu terei que voltar para casa, deixar meu cigarro e meu copo de cerveja de lado e ter que olhar para casa da traidora da minha mãe, do coitado do meu pai e do meu irmão tentando fazer de tudo para seu namoro com a Natália dê certo.

Se antes de tudo isso acontecer meu animo para acordar cedo para o colégio era quase inexistentes, hoje em dia ele desapareceu completamente. Já que eu sei que por lá vou ver o Rafael fingindo gostar do namoro ridículo com a novata caipira.

Essa garota, tal de Maria Eduarda, veio do interior para a cidade somente para sugar o pouquinho de felicidade que eu ainda tinha de viver.

Sentir fez de mim uma pessoa fraca, que recorre às drogas para alterar meu estado de espírito. Eu costumava ser melhor, mais esperta, mais durona e até mais forte. Lidava melhor com meus problemas familiares, com as dificuldades no colégio e tentava me divertir com meus amigos.

Eu costumava enxergar a minha vida em preto e branco com algumas saídas. Hoje tudo que vejo é apenas a escuridão de um quartinho pequeno e sufocador sem janelas ou portas.

Um dia eu acreditei que era forte o bastante para nunca chegar a sentir nada que pudesse me enfraquecer. Eu passei muito tempo da minha vida trabalhando nisso, em torno da minha estrutura física e emocional. E deu certo, por muitos anos. Mas agora, olha só pra mim. Eu estou no fundo do poço e praticamente caidinha de amores pelo garoto mais imbecil desse mundo, que nunca se quer deu a mínima para mim.

No fundo eu sempre achei o Rafael muito parecido comigo: durão, que não dá a mínima para ninguém, mas que no fundo está sempre ali para ajudar e defender a quem mais precisa. Tudo isso sem nunca abalar sua camada protetora. E agora que ele está namorado aquela lá eu não tenho duvidas: ele é tão frágil, tão fraco e sensível quanto eu. Quanto qualquer um.

Eu não sei se devo culpar ele por boa parte da pessoa horrível — muito mais que antes – que me tornei agora com o consumo excessivo de drogas que no início parecia inofensivas e que não causavam nenhum tipo de efeito sobre mim. Ou se devo culpar a minha mãe, por ter nos enganado descaradamente por tanto tempo. Ou se devo culpar somente a mim mesma por ter que admitir coisas que eu nunca quis enxergar ou expor.

— Ei, me dá licença. – grito, completamente bêbada. Tentando atravessar aquele mar de gente suada movendo-se ao som da musica alta. E olha que não faz nem duas horas que a festa começou.

Quando enfim consigo sair lá pra fora daquela boate apertada e fedorenta, retiro do bolso do meu jeans meu ultimo cigarro. Pego meu isqueiro também e tento acender meu cigarro, com as mãos tremendo e a visão um tanto turva, essa tarefa simples ficou bem complicada.

— Meu Deus, Gabriela! – Felipe aparece do além, vindo das sombras que me perseguem. — Para com isso por um instante!

Ele dá uma tapa na minha mão, fazendo meu cigarro cair no chão e pisa sobre ele com seus sapatos velhos e sujos.

Vendo assim, até parece que ele não fuma também.

Observo aquela cena sem nenhum tipo de reação. No fundo eu estou fervendo de raiva. Quanta ousadia! Mas meu cérebro parece está funcionando diferente do meu corpo há um bom tempo. Não é mais como se eu conseguisse expressar o que me corroí por dentro, por isso não me movo, sentindo-me suando frio e tudo em volta girar um pouco.

Eu já não tenho mais controle sobre mim mesma.

— Gabi, você está bem? – sinto que o Felipe tenta me segurar, mas eu não consigo ver. Por um momento parece que eu fui teletransportada dali contra minha própria vontade e trancada em uma salinha escura e que está em movimento. Isso seria possível? — Quanto tempo faz que você não toma um banho?

Na minha cabeça as palavras se formam, prontas para respondê-lo, mas minha boca não se move, ela nem sequer se abre.

Acho que vou chorar.

— Gabi, se você continuar assim eu não posso ficar mantendo aquele nosso segredinho. Você tem que parar com isso! – ele me sacode, tentando me despertar. — Você tem que voltar ao normal ou eu vou ter que contar tudo para o seu irmão ou para os seus pais.

Mas onde é que fica o botão para voltar ao que eu era antes? Porque até agora eu não achei. E eu posso garantir que procurei por ele feito uma louca.

***

— Eu não sei se você se lembra, mas há alguns dias atrás você quase arruinou tudo com essa sua estupidez! – olhei feio para Tatiana, que às vezes era burrinha demais para o meu gosto.

É domingo à noite e enquanto todo o resto está em uma festa qualquer por aí, nós estamos em uma missão secreta no meu quarto.

Tatiana está estirada na minha cama, lendo uma das minhas revistas de moda que ganhei dos meus tios, ela não dá a mínima para o que eu digo. Enquanto isso estou sentada na minha escrivaninha, com o meu tablet em mãos e colocando a cabeça pra funcionar por nós duas.

Nos últimos dias tenho tentando arquitetar um plano que faça com que eu esteja sempre um passo a frente das pessoas que algum dia eu poderia prejudicar caso eu me sinta ameaçada de alguma forma. Além de estar tentando me adaptar a minha mais nova vida aqui em São Paulo.

Eu ainda não tenho muitos amigos. Não daqueles que posso conversar sobre qualquer coisa, ou ligar pela madrugada para pedir ajuda, ou que deixam qualquer coisa para estar ao meu lado ou daqueles que me decifram com apenas um olhar. Na verdade, estou muito longe disso. É difícil confiar em qualquer um quando passei tanto tempo escondida no meio do mato com o mínimo de contato com o mundo exterior. Mas posso dizer que conquistei uma grande companheira: Tatiana Sampaio.

Ela pode até ser meio lerda às vezes, mas temos um jeito muito parecido de ver as coisas. Foi por isso que nos aproximamos tão rapidamente e hoje pode-se dizer que estamos muito perto de sermos como a Bianca e seus amigos, por exemplo. Tão unidas e fortes quanto eles todos.

— Não fale como se a culpa fosse totalmente minha! – ela rosnou, deixando a minha revista de lado e suspirando alto. — Você não foi nada inteligente quando decidiu que iríamos vigiar a vida da Natália bem na frente da casa dela! É claro que o Pedro iria aparecer qualquer momento. Como eu poderia adivinhar que ele iria aparecer justamente naquele momento?

É, admito. Eu tenho um pouco de culpa nesse caso. Eu elaborei praticamente todo o plano, mas acabei me esquecendo do mais importante: o amor do Pedro pela Ruiva. Por não ter pensando nos pequenos detalhes, nosso plano quase escorreu pelo ralo.

— É, foi um erro da minha parte também. Mas não esqueça que nós não somos profissionais. Não somos como aqueles vilões dos filmes que usam máscaras, roupas pretas, luvas e botas para não deixarem rastros ou pistas. Isso aqui é a vida real e temos que ter mais cuidado.

— É, você tem razão. – ela riu, provavelmente refletindo sobre o que acabo de dizer. — Mas às vezes você realmente me faz sentir como uma vilã dos filmes. – reviro os olhos e ela logo para de rir, mudando de assunto. — Mas e aí – ela me olhava com seus expressivos olhos castanho-escuros e parte da franja negra caindo no rosto. — quem será o próximo da lista?

É, eu tenho um lista.

Primeiro eu investiguei a vida do Rafael. Ele se acha muito esperto, percebi isso logo no primeiro momento em que o conheci. Mas a verdade é que ele é bem tolinho quando se trata de garotas bonitas. E eu claro, investi no seu ponto fraco: garotas. Joguei todo meu charme e fingi está jogando o joguinho dele e por fim consegui descobrir rapidamente o que tanto ele escondia. Afinal, todos nós temos segredos, não é mesmo?

Agora eu já tinha o Rafael em mãos. E também já defini um foco. Na verdade são dois, até porque não dá pra sair por ai destruindo tudo sem motivos. Bom, o meu primeiro foco será destruir o grupinho da Bianca. E o segundo, porém mais importante, era conquistar o Pedro.

Não sei bem porque, mas desde que olhei para ele pela primeira vez senti uma coisa estranha, um sentimento de empatia. Algo que eu não sei como lidar, mas é como uma forte ligação, como se eu o conhecesse de muito tempo atrás, até mesmo de outras vidas. Quando eu olho nos olhos dele sinto que ele é o único que pode me compreender, me aceitar, me satisfazer, acalmar o meu coração e me deixar em perfeita sintonia. Quando ele está por perto eu mal consigo me conter. Eu quero toca-lo, senti-lo, abraça-lo e muito mais.

Acho que estou me apaixonando por ele.

O resto pouco me importa.

E foi por isso que eu passei a investir na Natália. Já que ela é uma das pessoas mais próximas do Pedro. Eu quero descarta-la. Mas antes eu precisava ter alguma vantagem sobre ela. E assim eu e a Tati passamos a investiga-la secretamente nos últimos três dias. Seguindo-a pelo colégio, observando-a, tentando ler suas expressões e desvendar seus mistérios.

Não foi difícil descobrir que ela é caidinha por uma de suas amigas mais próximas, a Luiza. Basta ver a maneira como elas se olham ou como agem quando estão lado a lado. É um sentimento notável. Qualquer um poderia ver que elas têm uma forte química, mesmo que não sejam capazes de admitir para o resto do mundo. É algo entre elas.

No fundo eu sinto pena do Pedro. É basicamente como se ele estivesse sendo enganado ou traído pela pessoa que mais ama. Mas isso é realmente necessário e importante. Assim, ele poderá ficar livre para mim antes mesmo do esperado. Porque agora eu sei como jogar contra a Ruiva e sua namorada secreta. Eu não vejo a hora em que tudo começará a dar certo para mim.

— Boa pergunta. Mas ainda estou em duvida. – desviei o olhar, pensando por um momento. — Minha priminha tem andado muito alegrinha nos últimos dias. Que tal se ela for à próxima? – voltei a olhar para Tatiana, tendo a atenção dela só para mim. — Você não acha que ela é muito magrinha? Com certeza isso não é só por causa das dietas e exercícios físicos. Ela realmente não come nada, você tem que ver. E ela não parece muito caidinha pelo tal nerdzinho do grupo? Às vezes eu me pergunto se eles não estão tendo alguma coisa que o resto ainda não saiba.

Dei uma pausa, pensando em todas as evidencias.

— Ela realmente precisa ser a próxima investigada.

***

Felipe me fez sentar no meio fio em um ponto mais distante do pessoal que estava curtindo a festa do lado de fora da boate. Ele me fez mil e uma perguntas de como eu me sentia ou no que eu havia me metido. Eu não pude responder a nada, ainda muito perdida em relação a tudo isso. Apenas abaixei a cabeça e fiquei muda, encarando meu tênis. Depois ele partiu para as ameaças, alegando não poder mais esconder esse meu segredo e dizendo que iria contar ao Pedro para que ele pudesse me ajudar.

Acho que vou vomitar, eu pensei.

E no momento em que voltei a erguer minha cabeça, tentando sufocar a sensação de mal estar que me corroía por dentro, foi quando meus olhos se depararam com o cretino do Rafael. Que por sorte ou para o meu total azar estava sozinho aquela noite, sem a namoradinha caipira por perto.

O que era praticamente um milagre desde que eles começaram a namorar. Parece que pior do que antes, ela não desgruda mais do pé dele. E claro que o cretino não iria deixar essa noite livre passar despercebida. E lá estava ele, com os braços em volta da cintura de uma garota de cabelo curto cor-de-rosa que aparentemente estava numa situação pior que a minha.

Os dois riram alto enquanto tropeçavam pelo caminho.

Eu ainda estava tentando me decidir se eu queria que ele me visse ou que simplesmente fosse embora ali com aquela garota um tanto exótica para trair a caipira de um jeito que só ela merecia. O Rafael nunca teve jeito, porque agora seria diferente? Ele realmente não presta. Viu só? E só aparecer a primeira oportunidade – esteja ele namorando ou não – para agarrar a primeira que passa pela frente.

Ai droga, enquanto estou pensando nas merdas que ele faz com a própria vida, ele acabou de me flagrar olhando na direção dele. O sorriso largo que ele tinha estampado no rosto rapidamente desaparece, dando espaço a uma careta de preocupação quando me vê naquele estado.

O Felipe pelo jeito também percebeu o mesmo que eu.

Rafael cochicha algo no ouvido da garota ao lado e ela também para de sorrir do mesmo instante. Acho que ele vai vir aqui. Acho não. Tenho certeza! Ele até tirou a mão da cintura da garota. Eu realmente preciso agir. Por sorte o Felipe está ali e a presença dele nunca foi tão favorável.

E o puxo pela nuca fazendo com que ele volte a olhar para mim. Ele parece surpreso, arregalando os olhos. Mas antes que ele possa dizer qualquer coisa e me impedir disso, eu aproximo meu rosto do dele e colo nossos lábios em um beijo desajeitado e sem emoção.

Será que o Rafael tá vendo essa cena?

— Gabi... não. – para minha surpresa Felipe dá fim ao nosso beijo antes mesmo do esperado. — O que você tá fazendo...?

Finalmente o Rafael se aproxima e para bem na nossa frente, em pé, com um sorriso debochado.

— Ai meu Deus! – Felipe alterna o olhar entre mim e o Rafael. — Eu entendi tudo agora. Você está me usando! – ele passa a me fuzilar com os olhos claros repletos de fúria. — Você está querendo fazer ciúmes para... Ele. Não é isso? – Felipe se levanta e encara um Rafael muito confuso por alguns segundos. — Como eu sou idiota! – ele passa os dedos nervosamente pelos cabelos curtos e balança a cabeça negativamente de um lado para o outro. — Eu preciso sair daqui.

E então ele se vai, desaparecendo completamente entre a multidão na porta de entrada da boate e voltando lá para dentro.

— Ciúmes? Pra mim? Que história é essa, Gabriela? – Rafael pergunta entre risos e eu me lembro de que ele ainda está ali.

Esse infeliz maldito!

— Você tá drogada, não tá? — ele para de rir e olha para mim friamente, como meu pai faria caso me visse assim. — Depois sou quem estrago tudo sempre. – ele revira os olhos e suspira, antes de apertar forte seus longos dedos em volta do meu braço fino e me arrastar para longe dali como um homem das cavernas faria. — Vamos para casa! Por hoje chega.

Quatro coisas que eu não esperava para essa noite:

1º) Perder ainda mais o controle sobre mim mesma.

2º) Ter que beijar o coitado Felipe novamente para provocar o Rafael.

3º) Pensar que por um momento o Rafael iria se importar com isso.

4º) Ser arrastada de volta para casa por esse ogro .

***

Essa é a ultima semana de aula antes das tão esperadas férias de Julho. Hoje, mesmo sendo uma segunda-feira de manhã, eu realmente acordei inspirada, preparada para qualquer coisa. Desliguei o despertador do celular calmamente, tomei um banho quente e me vesti. Optando por um jeans claro, uma blusinha de mangas curtas rosa bebê com umas frases em inglês em letras garrafais na cor preta e por cima um colete também preto para combinar. Para os pés meu All Star preto básico de cano curto.

Não exagerei na make e preferi o cabelo solto mesmo.

Peguei minha mochila, desci para o café da manhã, comi meu cereal e tomei um copo de leite e saí para esperar a Bianca no carro. Não trocamos uma palavra durante todo o trajeto, como de costume. Descemos juntas, mas seguimos por caminhos diferentes pelo colégio. Encontrei-me com Tatiana no banheiro, onde ela retocava sua maquiagem em frente ao espelho.

Em seguida, fomos para a primeira aula do dia: Espanhol.

Passei o intervalo inteirinho de olho na minha prima, só para ver se eu descobria qualquer coisinha suspeita sobre ela. Mas foi tudo muito normal, como sempre. Ela mal tocou na comida, tagarelou sem parar com os amigos, riu algumas vezes e trocou alguns olharem intrigantes com o tal Felipe.

Pelo menos tinha o lado bom de tudo isso: O Pedro estava sempre entre eles, sorrindo lindamente e tirando a franja dos olhos.

Quando o sinal deu fim ao intervalo cada um foi para sua respectiva sala de aula.

A professora de Artes precisou sair mais cedo para ir a uma consulta medica e por isso tive a penúltima aula vaga. Toda a turma foi para o pátio central para matar o tédio. Já eu apostei em ir até a quadra, para dar uma espionada no Rafael. Deixei-o muito soltinho nesse final de semana e algo me dizia que ele poderia não estar se comportando bem. Eu precisava mantê-lo na linha ou nada do que eu queria daria certo.

Como eu sabia que ele adorava cabular aula na quadra, não foi muito difícil encontra-lo assistindo o jogo de basquete dos garotos do terceiro ano escondido atrás das arquibancadas.

— Oi, gatinho. – me aproximei devagar, surpreendendo-o por trás e depositando um beijinho no seu pescoço. — Como foi seu final de semana?

— Ótimo, claro. – ele se virou para mim, nada satisfeito com a minha aparição repentina. — Porque você não estava lá.

— Olha como você fala comigo, Rafael. – coloquei as mãos na cintura, bancando a durona. Eu adorava saborear o gostinho da vitoria. — Eu exijo mais respeito, viu? Eu sou a sua namorada agora.

Ele riu cheio de sarcasmo.

— Fala sério, Duda. – ele me encarou de volta. — Afinal, porque eu? Porque não qualquer outro? Você nem gosta de mim!

— Você é importante pra mim. – passei os dedos maliciosamente por seu peito, mesmo por cima da camiseta branca. — Você nem imagina o quanto. E enquanto eu achar que você vai servir para mim, é assim que as coisas vão funcionar. Ou você já sabe. Seus segredinhos serão...

— Já entendi. – ele interrompeu, com a voz dura. Rafael tirou meus dedos dele bruscamente. Eu tive que rir. — Você não precisa ficar repetindo isso toda a hora. Eu já sei, tá legal? Já que sei do que você é capaz.

— Se você se comportar, eu prometo pegar leve com você. Caso contrário, eu serei bem cruel. Tudo o que eu preciso agora é que você me ajude a destruir a reputação da Bianca e a conquistar o Pedro.

— O quê? – ele praticamente gritou. Por sorte estavam todos ocupados demais por ali para notarem a gente escondido. — Conquistar o Pedro? Você só pode está brincando! Ele nunca irá gostar de você, Duda. O Pedro é louco pela Natália. E caramba! Ele e a Bianca são meus amigos... Eu não posso...

— Pode sim. E é o que você vai fazer, Rafael. – digo, soando ainda mais fria e durona. Olhei bem no fundo dos olhos esverdeados dele. — Você vai me ajudar nessa e ponto. Não interesse se eles são seus amigos ou se ele é louco pela Natália. É isso mesmo que você vai me ajudar a mudar.

Rafael suspirou forte, contrariado. E balançou a cabeça negativamente, antes de me deixar ali, falando sozinha.

Pelo visto eu estava com sorte. Enquanto eu esperava o Marcel na calçada depois do fim da aula, sinto quando alguém esbarra forte em mim. Viro-me para trás brava, pronta para falar um monte de palavrões quando vejo que é nada mais nada menos que o Pedro Noronha.

Eu não sabia dizer se era só coisa da minha cabeça ou ele estava mais bonito a cada dia. Hoje em especial ele usava um jeans preto, uma camiseta branca e por cima um camisão xadrez em tons de azul marinho e branco. Para os pés um Vans preto básico, os cabelos irresistivelmente bagunçados e os olhos verdes iluminados pela pouca luz do fim de tarde.

Eu não poderia simplesmente ficar esperando por uma atitude dele, até porque ele poderia nunca agir. Ou pelo momento certo, porque esse parecia muito distante de acontecer. Eu quem deveria agir se quisesse que as coisas evoluíssem entre nós e aquele pareceu o momento ideal já que estávamos praticamente sozinhos ali no meio da calçada.

— Oh, me desculpe. – fui a primeira a dizer, sentindo um leve rubor tomar minhas bochechas. — Eu sou mesmo uma desastrada.

Tudo em relação ao Pedro era verdadeiro. E é por isso que eu gostava dele cada vez mais. Eu não precisava forçar nada ou fingir. As coisas entre nós simplesmente aconteciam. Elas fluíam naturalmente.

— Eu quem peço desculpas. – ele sorrio, meio torto. — Eu estava com pressa e acabei não olhando para frente.

— Não tem problema. – rebati, sorrindo também. Dei um passo à frente, diminuindo a distancia entre nós. Senti que ele ficou meio tenso, mas também não recuou. Perfeito. — Acho que você pode me compensar de outro jeito. Ou se preferir eu posso dar um jeito nisso por você.

Sussurrei essa ultima frase e ele pareceu horrorizado.

— Olha, acho que você está confundido as coisas...

Não esperei que ele terminasse e avancei em sua direção. Como éramos praticamente da mesma altura foi tudo mais fácil. Rapidamente meus lábios estavam colados dos dele. Os lábios dele eram macios e quentes e tinha um gostinho doce que fez meu coração dar pulinhos dentro do peito.

Eu não sabia muito bem o que fazer a seguir. Onde por as mãos, se deveria abrir a boca, explorar com a língua... Era como se fosse o meu primeiro beijo. Eu particularmente sentia como se fosse o primeiro. Já que nenhum outro antes teve um efeito tão especial em mim. Bom, pelo menos meus olhos se fecharam automaticamente e antes que eu tivesse tempo de pensar no que fazer a seguir, minhas mãos subiram até o seu rosto.

Ele estava completamente tenso e paralisado. Deu pra sentir isso muito bem. Não sei se isso era um bom ou mal sinal. Mas eu também não iria desistir. Eu sonhei com aquele momento muitas vezes e faria o possível para ser perfeito e inesquecível. O Pedro me pertencia. Eu sentia que sim. Mas ele ainda não sabia e eu precisava mostrar isso a ele.

— Você ficou maluca? – ele praticamente gritou, afastando-se de mim como se eu tivesse acabado de dar um choque nele. — Eu tenho namorada, você esqueceu? E você também, por sinal. E que é o meu melhor amigo. – ele me fuzilava com os olhos verdes agora raivosos. Encolhi-me por dentro. Não era exatamente isso que eu esperava vindo dele. — Não ouse a se aproximar de mim novamente! Você só pode ser maluca, garota.

E ele saiu bufando, sem nem olhar para trás uma única vez.

Permaneci ali, parada no meio da calçado, no mesmo local onde ele me deixou. Sentia-me envergonhada, humilhada e descartada. Quem se importava se ele tinha namorada? Eu não. E que se dane o Rafael, ele é só um brinquedinho para mim. O Pedro poderia ter pegado mais leve. Não sei. Não precisava ter olhada para mim como se eu fosse uma... Estúpida.

E agora, será que eu estraguei tudo?

***

Eu não esperava que o meu irmão chegasse tão cedo hoje. Eu pensei que ele iria tentar – incansavelmente – se resolver com a Natália. Porque pelo visto eles estavam com sérios problemas, que mais pareciam intermináveis. Eu sempre soube que relacionamentos são complicados. Por isso nunca tive um e sempre os evitei. Mas agora, só agora, eu me dei conta de que eles são piores do que eu imaginei.

Antes de o Pedro chegar só estava eu e a mamãe em casa. Se é que eu ainda posso chama-la assim. Quando entrei eu só pensava na minha adorável cama lá em cima esperando por mim, não imaginava que ela não tivesse ido trabalhar justamente hoje. O papai, como sempre, está no trabalho nesse momento e só chega mais tarde. Talvez ela não tenha ido trabalhar para aproveitar a casa vazia com os amantes dela.

Pensar nessas coisas só me deixava ainda com mais ódio dela.

Assim que entrei e a vi limpando a cozinha como se fosse à mãe mais prestativa e cuidadosa desse mundo eu pensei seriamente em dar a ré e sair por aí, vagar pela cidade, até encontrar um lugar onde eu pudesse ter paz sem precisar ficar olhando para a cara de traidora dela. Mas não é como se pudesse evita-la para sempre. Por isso resolvi prosseguir.

Quando ela me ouviu subir as escadas batendo forte o pé no chão, ela se deu conta de que eu havia chegado e disse “Oi filha, chegou cedo. Que milagre!”. Em seguida soltou uma risadinha muito sem graça que não me agradou em nada. Eu apenas continuei subindo em direção ao meu quarto como se nada daquilo fosse comigo.

Mas não acabou por aí. Porque só deu tempo de eu tomar um banho, colocar algo mais leve para vestir e ficar de bobeira trancafiada no meu quarto fazendo as coisas que eu gosto para ela bater na porta e começar a encher o saco com aquelas perguntas ridículas de "A mãe do ano".

— Filha, você não quer comer?

Ignorei, fingindo não escuta-la.

— Filha, tem certeza de que não está com fome?

Novamente fingi que não era comigo.

O lado bom é que ela não era nem louca de entrar ali no único lugar no mundo que não era permitida a entrada de pessoas não autorizadas.

— Gabi, você está bem querida?

Ela continuou, do outro lado da porta.

Eu estava começando a perder a paciência.

— Filha, eu fiz frango ao molho de mostarda. Eu sei que você ama.

É, eu estava faminta. Mas não iria dar o braço a torcer. Ela não iria conseguir me comprar com o meu prato preferido e nem com nada nesse mundo.

— E como foi a aula hoje?

O.K. Ela venceu. Eu já não aguentava mais o som da voz dela.

— Será que dá pra você parar com isso? – gritei, abrindo a porta furiosamente. Mamãe me olhou assustada, os olhos arregalados com a minha atitude selvagem. — Chega! Não venha tentar me persuadir. O que você fez é imperdoável. Eu não quero mais te ouvir, eu não quero mais te ver.

Pronto. Era só o que me faltava. Ela vai chorar, é isso mesmo?

Não, ela não só ia chorar, como também começou a gritar comigo feito uma louca desesperada. Pedindo perdão, desculpas, dizendo sentir muito, ou o quanto estava envergonhada ou o quanto gostaria de poder voltar no tempo e concertas as coisas, fazer tudo diferente e ser uma mãe melhor.

— Posso saber o que está acontecendo aqui? – o Pedro chegou. Viva! Pedro é com certeza o meu herói. Pelo menos não era o papai.

Desde que contei ao Pedro sobre a mamãe ele também tem agido bem estranho com ela. Tem a evitando tanto quanto eu, mal tem olhado na cara dela e eles mal trocam duas palavras. Ela deve suspeitar que ele saiba de tudo por mim, já que sempre somos muito próximos e unidos. Mas ele nunca chegou a condena-la diretamente ou julga-la. Não como eu.

Ele é o lado bom dessa família. O lado que entende tudo, o lado que se coloca no lugar de todos, o lado sensível, o lado compressível.

Ele é maravilhoso.

— Pedro, ela é o problema. – eu me juntei a ele. Por um lado nervosa com essa situação, por outro lado prestes desabar em lagrimas. Pedro sentiu a minha fraqueza e passou seus braços em volta do meu corpo magro. — Ela não pode mais continuar aqui, Pedro. Ela tem que sair. Eu já não aguento mais ter que fingir que não tem nada de errado entre nós. O papai precisa saber da verdade hoje mesmo. Eu não aguento mais!

Pedro suspirou.

A mamãe abaixou a cabeça, enxugando as lágrimas.

— Mãe, a Gabi está certa. Não podemos mais continuar com isso. O papai tem que saber. Eu sinto muito. Mas do jeito que tá, não dá pra continuar. Olha só pra gente. Isso aqui tá um caos. Nós não somos mais uma família perfeita e feliz. Temos que encarar nossos problemas e tentar soluciona-los da melhor maneira possível para todos.

Pedro me soltou e foi até a mamãe, fazendo-a olhar em seus olhos.

Eu adorava a habilidade dele de deixar os seus próprios problemas particulares de lado para solucionar todo o resto. Como se ele sempre estivesse disposto a salvar o mundo. E não duvidasse disso.

— Eu amo você, mãe. Mas você errou e agora terá que arcar com as consequências. Quando o papai chegar, vamos sentar na sala e conversar abertamente sobre isso. Todos juntos. Não importa se vai doer nele, mais do que já está doendo em mim, em nós. Você tem que ir embora dessa casa. Será o melhor para todos. Você, o papai, eu e a Gabi merecemos ser felizes, mesmo que não seja do modo convencional.

Acho que ela entendeu tudo que ele quis dizer e assentiu, silenciosamente, terminando de limpar as lagrimas.

Mamãe nos lançou um ultimo olhar antes de sair de cena cabisbaixa. Um olhar tão doloroso. Os olhos ainda com lágrimas e vermelhos pelo choro. Um olhar que partiu meu coração.

Sim, um dia serei capaz perdoa-la por tudo. Mas esse dia não seria agora e nem hoje. Ela realmente ter que ir embora. Nem precisa ser para tão longe. E só assim as coisas poderão ser melhores. Ou nem tanto.

Notas finais
Vocês acham que a Gabi tá pegando pesado com a mãe? E o Pedro nisso tudo, além de ter que lidar com a louca da Duda e os problemas com a Nati, tem também que dar uma de "O homem da casa". Ele não é maravilhoso? E a Duda, não é maluca? Vocês estão gostando dela ou querem matá-la? Comentem! Eu quero saber de tudo isso e muito mais. Beijos!