Todos Iguais
14 Bianca
Notas iniciais

Precisei voltar para o colégio na quarta-feira para fazer uma prova substitutiva de História.
Desde sexta-feira passada eu não aparecia no colégio. Estava envergonhada, me sentia humilhada. Mas não tinha como fugir para sempre. Eu precisava voltar com a cabeça erguida, sempre forte, como se fosse feita de aço ou como se nada me abalasse. Quando na verdade eu me sentia horrível por dentro. Pelo menos eu ainda tinha meus amigos, com quem eu poderia contar em momentos assim, tão difíceis.
Se possível eu queria na ter que olhar nunca mais para a cara da Gabriela, aquela vaca cretina. Ainda assim eu tinha um coração sensível e peguei leve na punição dela. Aceitando que ela fosse apenas suspendida por uma semana, mas que pelo menos fizesse trabalhos comunitários no colégio durante esse período, para não ficar em casa apenas “descansando”. Claro que apesar dela ter pegado muito pesado comigo, ainda teria muito que agradecer por eu não ter permitido que ela fosse expulsa.
Eu não acho que eu seja a melhor pessoa para puni-la, apesar de toda raiva que eu sinto daquela garota dissimulada. Prefiro que a vida se encarregue de dar a ela o que ela realmente merece.
Eu já imaginava que o pessoal do colégio estaria bem divido quanto ao que aconteceu semana passada. De um lado muitos me apoiaram, me deram forças e sentiam compaixão por mim. Sem julgamentos. Por outro lado, alguns apoiavam a covardia da Gabriela, como se eu realmente tivesse merecido tal castigo por ter sido uma mentirosa.
Ignorei todos os maus comentários, as chacotas e as fofocas pelos corredores. Senti-me lisonjeada por ter ao lado a melhor amiga de todas: Luiza. Que esteve ao meu lado durante todos esses dias, dormindo lá em casa e fazendo de tudo possível para eu me sentir melhor. Mesmo que nem sempre ela tenha conseguido, mas pelo menos ela tentou e eu serei eternamente grata pelo companheirismo.
Se os papeis fossem invertidos eu teria feito o mesmo por ela.
Luiza me acompanhou até a sala onde eu teria a primeira aula do dia: Física. Ficamos do lado de fora, pois eu não queria entrar e ficar sozinha, vendo a galera olhar torto pra mim. Poucos minutos antes do sinal o Rafael apareceu, todo apressado e quase me derrubou no chão ao me abraçar com seus braços fortes, espremendo todo o meu corpo magro.
— Você ta melhor? – ele quis saber, segurando o meu rosto com suas grandes mãos. — Eu fiquei tão preocupado com o seu sumiço! Desculpa não aparecer. Eu achei que você precisava de um tempo. Mas que bom que você voltou! – ele me abraçou de novo, mais rápido dessa vez.
— Pega leve. – eu ri, pela primeira vez em dias. — Eu estou bem, na medida do possível. Não se preocupe. E sim, eu te entendo. Eu queria mesmo ficar sozinha. Estive péssima esses dias, não queria que você me visse naquele estado deplorável. Eu estava horrível!
Rafael sorriu lindamente, olhando-me fixamente.
— Você nunca está horrível, Bia.
O sinal tocou e tivemos todos que entrar em nossas respectivas salas.
Não preciso nem dizer que aquela foi à manhã mais longa da minha vida e a mais esquisita também. Estavam todos me olhando, comentando sobre mim, fazendo mil e uma perguntas e aquilo só me deixava ainda mais desconfortável. Afinal, eu queria esquecer aquilo tudo.
À tarde fiz aula de Zumba – uma dança que mistura vários ritmos — onde eu me permitia deixar a mente fechada para qualquer tipo de pensamento negativo e deixava meu corpo falar por si só. Depois fui para minha aula de Artes, onde teve mais parte teórica. E por fim tive que deixar a aula de Natação para procurar a professora de História.
Eu não era a única em classe que faria a prova substitutiva naquele finalzinho de tarde. Além de mim tinha pelo menos mais vinte alunos ali, de diferentes turmas e anos. E para a minha surpresa o Felipe estava lá também, ajudando a professora Adriana na correção de alguns trabalhos e provas.
Peguei minha prova e sentei-me em um dos únicos lugares vazios que sobrou: bem no meio da sala.
A professora pediu para esperássemos mais dez minutos até todos poderem chegar. E só depois iniciaríamos a prova, que duraria até as quatro horas. O horário de ir embora. O que era bom, pois teríamos mais de duas horas para fazer a prova. Eu bem que estudei esses dias que fiquei em casa, mas na hora sempre me dá aquele branco.
— Bom, já que ninguém mais chegou – Adriana disse, conferindo as horas no relógio de pulso. — podem começar.
Dito isso ela voltou para sua mesa, onde o Felipe estava sentando ao lado, parecendo bem ocupado enquanto dava uma olhada em uma pilha de papeis. Eu não saberia dizer porque exatamente ele estava fazendo aquilo. O que eu sabia é que a professora Adriana adora o Felipe e pede qualquer coisa pra ele. Felipe que é sempre bonzinho e ajuda sem reclamar.
Tento me concentrar em minha prova – que pra minha sorte é de alternativa — mas é difícil ler aqueles textos enormes quando bem na minha frente está o garoto mais lindo do planeta. Tá, pode até ser que eu esteja exagerando. Mas eu sou louca por ele.
São vinte perguntas, cada uma com cinco alternativas.
Em meia hora respondi as cinco primeiras.
E o Felipe continua lá, ajudando a professora, fazendo sabe-se lá o que, como se não tivesse me visto. Mas o pior de tudo é ele não ter falado nada comigo depois de tudo. Não que ele tivesse a obrigação, mas no mínimo eu esperava que ele fosse amigável comigo. Independentemente se eu fosse uma mentirosa ou não. A Gabi pegou pesado comigo. Eu queria que ele pelo menos tivesse se preocupado em saber se eu estava melhor agora.
Todas as vezes que ele me ignora é com uma nova facada no meu coração que não para de sangrar nem por um minuto.
O dia ainda nem terminou, digo a mim mesma. Talvez ele esteja esperando o momento certo para se aproximar e perguntar pelo menos como eu estou, como me sinto. É nisso que tento acreditar, quando na verdade deveria estar concentrada em minha prova e não nele.
Começo a me desesperar quando a maioria dos alunos começa a sair, ao finalizarem suas provas. Falta um pouco mais de meia hora para o fim do horário. E faltam sete questões para eu terminar. Seria fácil se eu não tivesse que ler textos enormes para responder cada uma delas.
Por fim eu e mais três alunos acabamos sobrando.
Um celular começa a tocar. Não é o meu, eu tenho certeza. Olho para os lados e vejo que os meus companheiros de prova também se perguntam com troca de olhares de quem é o celular que está tocando. E aí nos damos conta de que o toque não pertence a nenhum de nós e sim a professora.
— Me desculpem. – ela pede, envergonhada. Procurando desesperadamente pelo aparelho dentro da bolsa.
Quando ela o encontra sai praticamente correndo da sala com o aparelho em mãos. Um minuto depois ela volta muito aflita, recolhendo suas coisas sobre a mesa e enfiando tudo, de qualquer jeito, dentro da bolsa.
— Eu vou ter que sair. Meu filho... Ele sofreu um acidente. – diz ela como se nos devesse alguma explicação. — Felipe, posso contar com você? – ela pergunta e ele assente, meio confuso. — Fique de olho neles por mim, tudo bem? Amanhã eu pego com você essa papelada.
Por fim ela se volta para nós, ainda em prova.
— Comportem-se! – ela nos fuzila com um olhar duro e ao mesmo tempo triste, como se algo a corroesse por dentro. — O Felipe ficará de olho em vocês. Não abusem! Nada de cola, conversas e nem consultas. Terminem a prova antes das quatro. Vejo vocês amanhã... Ou não. Já nem sei mais.
E ela se vai, deixando para trás um Felipe muito perdido.
E enfim nossos olhares se cruzam e pela primeira vez sinto que ele me viu de verdade. Para minha surpresa ele sorri para mim. Um sorri meigo e discreto. Segundos depois volta para seus papeis, como se aquilo fosse a ultima coisa importante que ele tivesse que fazer na vida.
Passo tanto tempo repetindo aquele sorriso na minha imaginação que acabo perdendo o controle. Quando dou por mim faltam cinco minutos para as quatro e três perguntas para terminar a minha prova. Detalhe: eu sou a única que ainda não terminou a prova. O que quer dizer que eu e o Felipe estamos sozinhos naquela sala, o que me deixa ainda mais nervosa.
Mordo a tampa da minha caneta sem parar.
Estou tensa o bastante para ter um troço a qualquer momento.
— Bianca? – o Felipe se aproxima pela primeira vez. — Sinto muito, mas já são quatro horas. Você precisa entregar a prova.
— Não! – respondo rápido demais, olhando para ele desesperada. — Por favor, me dê só mais alguns minutos. Eu ainda preciso passar as questões para o gabarito. Por favor. É rapidinho.
Ele me olha por alguns segundos e coça a parte de trás da cabeça.
— Tudo bem. – ele suspira. — Só mais dez minutos.
Quase me levanto para abraçá-lo, mas aí me dou conta de que o tempo está passando e eu preciso ser rápida.
Felipe volta para a mesa da professora e começa a guardar as coisas dentro da sua mochila e de algumas pastas.
Termino a minha prova as quatro e quinze, podendo finalmente respirar tranquilamente. Felipe foi ainda mais solidário comigo, o que foi muito legal da parte dele. Porque eu sou tão burra que preciso mais de duas horas para fazer uma provinha tão simples. Ou... Nem tanto.
A aquela altura o colégio já está parcialmente vazio e silencioso, pois a grande maioria já foi embora. Pelos corredores tem um ou dois alunos fechando a porta das salas escuras e arrumadas que deixaram para trás.
— Você quer que eu te faça companhia até em casa? – ele pergunta após ter terminado de guardar todas suas coisas e as da professora.
Viro-me curiosa em sua direção com a mochila já no ombro, surpresa por ele ter sugerido tal coisa por vários motivos:
1º) Marcel sempre vem me deixar e buscar de carro.
2º) Felipe raramente fala comigo ou com qualquer outra pessoa.
3º) Ir com ele para casa significa que vou ter que ir andando, o que pra mim é totalmente desagradável. Mas que pela companhia dele vale a pena o sacrifício. Afinal, estar ao seu lado é tudo que eu mais quero agora.
4º) Isso quer dizer que... Ele se preocupa comigo?
— Eu adoraria.
— Eu vou no banheiro. Você me espera aqui?
Ficar sozinha ali é uma ideia que me apavora.
— Eu também vou! Vou ao banheiro.
Deixamos nossas coisas ali e seguimos lado a lado, calados, até o final do corredor onde ficam os banheiros. Antes de entrar no banheiro masculino Felipe se vira para mim e novamente ele me dá um meio sorriso. O que é quase um milagre. Dois sorrisos em um só dia. Depois ele some e eu resolvo voltar a respirar – pois por um momento tinha me esquecido de como se faz isso – e entro no banheiro feminino, para me olhar no espelho.
Quando voltamos à sala onde deixamos nossas coisas somos surpreendidos quando todas as luzes do colégio são apagadas, inclusive a daquela sala. Olhamos assustados um para o outro. O que é que está acontecendo ali? Pergunto-me. Por sorte o dia ainda está claro, a luz entra pelas janelas. Então nem tudo fica totalmente escuro.
— Acho melhor a gente ir. – ele sugere.
Quando estamos quase saindo da sala à porta é fechada na nossa cara com tudo, como se estivéssemos em um filme de terror. Solto um grito dando um passo pra trás, apavorada. Alguém nos trancou ali. Mas por quê?
Felipe vai até a porta em um ato heroico e coloca a mão na maçaneta, tentando destrancá-la. Coisa que não é possível, nem com sua força total. Estamos literalmente trancados ali. Estou cagando de medo.
— Trancaram a gente. – ele diz, virando-se pra mim.
— Mas e agora? – pergunto, aflita.
Como se tivéssemos a mesma ideia ao mesmo tempo, olhamos para as janelas que são cobertas por uma grande fina de metal. Todas elas. O que significa que é impossível passarmos por ali. Isso quer dizer que não há saídas.
É a minha vez de forçar a porta para tentar abri-la.
— Eu não consigo! – reclamo frustrada. Largo minha mochila cor-de-rosa sobre a mesa da professora. — Já sei! – solto um gritinho, como quem acaba de ter uma grande ideia. — Os celulares.
Começo a procurar pelo meu celular dentro da mochila, ficando cada vez mais desesperada por não conseguir encontrá-lo.
— Já sei.... – ele se aproxima, sorrindo um pouco. — Você não encontrou? Porque eu não encontrei o meu. Acho que pegaram!
— Mas quando? – paro para pensar por um momento. — Quando nós saímos para ir ao banheiro, claro. Alguém está tramando tudo isso.
Tentei pensar em quem poderia fazer uma crueldade dessas conosco.
Nenhum um nome me vem a mente.
— A porta está trancada, as luzes apagadas, as janelas lacradas, não há outras saídas e não temos como pedir ajuda. Pelo jeito – ele passou a mão pelo cabelo, tenso. — foi tudo muito bem calculado.
Ele tem razão.
Sem muitas opções sentei-me no chão, bem próximo do quadro negro desejando que alguém — um funcionário do colégio ou o próprio diretor – viesse nos salvar antes que o dia escurecesse.
Ficar trancada em uma sala com o Felipe sem saber de respostas era bom e ruim. Bom por estar com ele. Só nós dois pela primeira vez. Não havia como fugir. E ruim porque eu queria ir para minha casa, deitar na minha cama, usar o meu computador, viver a minha vida, falar com as minhas amigas... Não sei. As coisas de sempre.
Mas nada disso seria possível, então apenas esperamos. Eu na minha, sentada em um canto, pensando em um monte de coisa ao meu tempo e o Felipe sentando em uma das carteiras a minha frente, olhando para o nada, como se tivesse em busca de alguma solução.
O silencio entre nós era perturbador.
E pior, o céu lá fora já estava escurecendo. O tempo estava passando e ninguém aparecia para nos salvar, para nos ajudar, para nos tirar dali. Ninguém poderia imaginar que dois alunos estavam trancados no colégio, ninguém se preocupou em dar uma olhadinha nas salas e corredores antes de trancar os portões ou apagar as luzes, nenhum funcionário estava trabalhando como vigia ou segurança aquele horário. Onde é que todo mundo se meteu? Ninguém sentia a nossa falta? Logo estaríamos no escuro e tudo ficaria ainda mais aterrorizante, como em um filme de terror.
— Pelo visto vamos ter que esperar até amanhã. – concluiu o Felipe, levantando-se de onde ele estava e se aproximando de mim.
Ele se abaixou e sentou-se ao meu lado.
Nem muito perto nem muito longe.
— Você parece preocupada – ele observou, olhando-me. — Eu sei que a ideia de passar a noite aqui é horrível. Mas realmente não tem nada que a gente possa fazer além de esperar. Eu sinto muito. Seus pais vão ficar preocupados, não vão? Eu posso conversar com eles depois se você quiser...
— Não, sem problemas. – consigo sorrir. Felipe fica tão bonitinho preocupado comigo. Estou surpresa, é a primeira vez que isso acontece. — Meus pais nunca vão sentir a minha falta. Eles nem vão perceber que eu não voltei pra casa hoje. Mas obrigada por ser preocupar. Eu só estou mesma preocupada com a minha nota na prova. Acho que não fui muito bem.
— Não se preocupe. Eu dei uma olhada rápida na sua prova quando você me entregou e tenho certeza que você foi muito bem. – ele também sorriu e eu me apaixonei ainda mais por ele. — Pelo menos temos algo em comum: meus pais também nem vão sentir a minha falta. Então eu estou tranquilo.
Pela magoa refletidas em seus olhos eu tinha quase certeza de que ele não estava totalmente tranquilo. Como se, assim como eu, ele quisesse mais amor, mais atenção e carinhos vindo dos pais. Eu sabia que meus pais eram distantes de mim por causa do trabalho, da falta de tempo... Mas eu não sabia o porquê dos pais do Felipe agirem assim com ele, já que ele nunca se abriu com ninguém sobre isso ou sobre nada de sua vida.
Naquele momento eu resolvi não perguntar, apesar de toda a minha curiosidade. Ele parecia tão triste, magoado. Não me parecia certo tocar no assunto agora, quando ainda nem somos tão íntimos a esse ponto. O que eu sei é que ele é maravilhoso. Como filho deve ser melhor ainda. É uma pena que seus pais não possam enxergar isso.
Continuamos em silencio por um bom tempo. Tudo que eu podia ouvir era a respiração dele ao meu lado e o barulho da rua entrando pelas janelas da sala. Eu não fazia ideia de que horas eram. Afinal, estava sem meu celular e não tinha relógio. Mas pelos meus cálculos já se passavam das dezoito horas. A sala já estava escura e a única iluminação vinha de fora, do céu e de alguns postes de luz da rua, entrando pelas janelas.
Olhei para o Felipe quando ele colocou a mochila sobre as pernas esticadas no chão e abriu o zíper, retirando de lá de dentro um pacote pequeno de salgadinho, uma garrafinha com água pela metade, um Halls de hortelã intacto e três barrinhas de cereais.
— Estou morrendo de fome. – ele comentou sorrindo. Pela primeira vez em tanto tempo ele estava falando até mais do que eu. — Sei que não é muita coisa, mas eu creio que vamos sair daqui logo. Enquanto isso não acontece – ele virou-se para mim. — quer comer alguma coisa?
Comer alguma coisa era a ultima coisa que eu queria naquele momento, mas só pelo esforço dele, pela preocupação e cuidado comigo eu me senti na obrigação de aceitar.
— Obrigada. – aceitei uma barrinha de cereal de granola e ele ficou com a outra de chocolate. Depois bebi um pouco da sua água e continuei encolhida em um canto, calada. Sentindo-me muito estúpida.
— Eu não sou a melhor pessoa para puxar conversa – ele soltou uma risadinha que praticamente me obrigou a voltar a olhar para ele. E quando eu olhei para ele percebi que ele também estava me olhando de um jeito muito diferente de todas as outras vezes. — mas... Ei, você está tremendo de frio! – ele observou, mudando de expressão.
Com o chegar da noite o tempo realmente esfriou, mas eu nem havia me dado conta até ele perceber que eu tremia.
Felipe se aproximou rapidamente, surpreendendo-me. Agora ele estava praticamente colado a mim, sentado bem do meu lado enquanto tentava de maneira desajeitada tirar o moletom preto, que minutos depois ele colocou sobre os meus ombros.
Sorri timidamente, agradecida.
Eu estava cada vez mais encantada por ele. Porque no fundo eu sempre soube que ele era um completo cavalheiro. Ele só não sabia lidar muito bem com isso. Com tempo essas coisas melhoram. E estar ali, trancada em uma sala no colégio com ele pelo menos serviu para uma coisa: aproximar-nos, criando certa intimidade entre nós.
— O que você estava fazendo para a professora Adriana? – decidi perguntar para que pudéssemos conversar melhor, agora que estávamos mais próximos de certa forma. Não que fosse a única coisa que eu quisesse saber naquele momento, mas pelo menos queria começar devagar.
— Ah, eu estava ajudando ela a organizar algumas atividades do terceiro ano e também a corrigir algumas provas. – ele deu de ombros, como se aquilo fosse algo comum e normal. — Nada de mais.
Insisti na conversa, perguntando como era ser tão paparicado pela maioria dos professores. Ele riu, achando graça. E eu me dei conta de que adorava o som da risada e da voz dele. Com certeza ele deveria falar mais, sorrir mais e rir mais. Ele é lindo e adorável, em todos os sentidos.
Começamos então a conversar sobre coisas do colégio, que não era um dos melhores e mais interessantes assuntos, mas que ainda assim era um bom começo. Agora que estávamos mais entrosados e entretidos um no outro com perguntas e respostas, o tempo acabou passando mais rápido e só nos calamos mesmo quando ouvimos a porta ranger.
Foi como se alguém tivesse mexido nela.
Felipe foi o primeiro a se levantar e correr até ela, certificando-se de que ouvimos a mesma coisa. E antes mesmo de sua mão alcançar à maçaneta a porta se abriu misteriosamente. Entreolhamos-nos assustados. Alguém havia acabado de abrir a porta para nós. Mas correu a tempo de nós vermos quem poderia ter sido. Mas foi alguém, disso sim eu tenho certeza. Afinal, a porta estava trancada e não poderia ter sido aberta sozinha.
— Mas e os nossos celulares? — perguntei, pegando minha mochila.
Por um lado feliz por estar livre, podendo ir finalmente para casa. Mas por outro lado triste, pois estava me entendendo finalmente com o Felipe.
— Aqui estão eles! – ele abaixou-se, pegando os dois aparelhos que estavam um do lado do outro em frente à porta agora aberta.
— E tem um bilhete. – abaixei-me também ao seu lado, pegando a folha e percebendo o cuidado da pessoa que o deixou ali para não ser identificada. Colado diversas letras diferenciadas de revistas ao invés de escrever a mão. — “Um dia vocês vão me agradecer por isso”.
Alguém escreveu. Mas quem pelo amor de Deus?
Só podia ser brincadeira.
— Vamos embora! Deixa isso pra lá. Nós nunca vamos descobrir quem fez isso com a gente. – Felipe pegou a minha mão, com pressa para sair daquele lugar assustador.
Quando enfim conseguimos atravessar os portões do colégio foi quando me dei conta de que apesar das grades e muros serem altos, qualquer um que quisesse poderia entrar ali para fazer o que bem entendesse: roubar, aprontar, se esconder... Nem todos os lugares tinham câmeras de segurança, bastava ser cauteloso e pronto.
Dez e meia nós entramos no prédio onde nós dois moramos e pegamos o mesmo o elevador. A aquela altura o Felipe já não segurava mais a minha mão. Dando-me uma sensação esquisita de insegurança. Como ele mora alguns andares abaixo do meu, o elevador parou antes para ele poder descer.
— Então é isso. – Felipe virou-se de frente para mim com as mãos dentro do jeans. — Boa noite, Bianca.
Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa eu o abracei forte, por impulso. Pegando-o desprevenido. Foi um abraço rápido. Senti o Felipe tão assustado e desconfortável que fiquei completamente sem jeito pela minha própria atitude. Não era exatamente o que eu tinha em mente.
Simplesmente aconteceu.
Minutos depois entrei em meu quarto, com um sorriso bobo estampado no rosto. Larguei minhas coisas na cadeira e comecei a me despir, para tomar um banho antes de dormir. Quando ia tirar a blusa me dei conta de que eu não havia devolvido o moletom do Felipe. Ele ainda estava comigo, protegendo-me, abrigando-me. Era como se ele ainda estivesse ali comigo, com um o cheirinho do seu perfume impregnado por toda parte.
Desisti do banho, colocando apenas a calça do meu pijama.
Apaguei as luzes do meu quarto e corri até a minha cama, deitando-me e me cobrindo com pressa. Fechei os olhos e continue sorrindo, imaginando a sorte que eu tinha em ter algo do Felipe comigo.
Será que ele acharia ruim eu entregar seu moletom só amanha ou depois? Afinal, já é tarde. Eu não quero ser um incomodo. Essa noite – felizmente para mim ou infelizmente para ele – seu moletom ficará comigo. Não consigo nem imaginar o que de melhor poderia me acontecer nesse momento.
Ou melhor... Eu sei sim.
Eu trocaria qualquer moletom pela presença dele, aqui, comigo, bem pertinho de mim. E só assim tudo seria perfeito, quando finalmente pudéssemos ficar juntos, sem interrupções.
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