Todos Iguais
15 Gabriela
Notas iniciais

Eu sei que peguei pesado. Sei que fui estúpida. Até um tanto ridícula e exagerada. Sei que foi covardia e pura maldade. Mas eu sou assim. O que eu poderia fazer? As pessoas pelo menos precisam reconhecer que as coisas acontecem por minha causa. Se não fosse por mim nada disse teria graça, sentido ou animo. Tudo seria monótono, parado e tedioso até demais.
Eu necessito que as coisas aconteçam, seja para o bem ou seja para o mau. Eu detesto ficar parada vendo a vida passar por mim sem que eu nada possa fazer para torná-la um pouquinho mais interessante.
O que não é justo e certos são os meus próprios amigos ou as pessoas que se diziam minhas amigas começarem a me desprezar, me excluir, me descartar, me rejeitar e me ignorar só para me punir. Como se já não bastasse ser suspendida por uma semana do colégio e ainda ter que fazer serviços comunitários. Como ajudar na limpeza, na organização, os professores e funcionários em geral no que for preciso.
Sei que poderia ser pior, afinal eu poderia ter sido expulsa. Ainda tento entender porque a Bianca fez tanta questão de descartar essa opção. Mas também não sou do tipo que vai lá e agradece por ela ter me poupando disso. Afinal, eu não pedi nada pra ela. Eu aceitaria numa boa qualquer que fosse sua decisão, como estou aceitando agora o meu castigo.
Mas seu meus amigos querem assim, continuar fingindo que eu sou a pior pessoa desse mundo... Tudo bem. Eu também não sou do tipo de pessoa que vai implorar por compaixão. Isso nunca. Nem pensar. Vou continuar vivendo a minha vida como antes, sem depender de ninguém.
Essa semana longe do colégio tem sido uma das piores. Eu nunca pensei que sentiria tanta falta assim de um lugar, como tenho sentido do colégio. Como em casa não tem absolutamente nada pra fazer e se tem, como arrumar o quarto, arrumar a casa, lavar louça, varrer o chão... Bom, não é exatamente o que eu quero fazer. Para minha sorte eu passo horas e horas no colégio — de um jeito ou de outro — não estudando, mas pagando o meu castigo de certa forma.
E foi assim que eu tive a idéia de recompensar a Bianca por ter sido tão cruel com ela. Não que eu me arrependa, quero deixar isso claro. Mas coitadinha, peguei pesado. Admito. E não faz muito tempo que eu percebi que ela vive de olho no Felipe, mesmo contra a própria verdade.
Na cabecinha vazia dela deve ser quase um pecado se apaixonar por um nerd, logo ela que é garota mais popular do colégio. Por isso imagino que ela tente evitar sentir algo por ele, mas como todos sabem – até mesmo eu que nunca tive uma experiência assim – sentimentos não é algo que possamos controlar. E por mais que ela tente evitar, não é como se obtivesse sucesso nisso. Eu posso até ser má, mas não sou cega. Diferentemente da grade maioria eu percebi que ela sente-se fortemente atraída por ele ou até mais do que isso. Pode ser até que ela o ame e o deseje com todo seu coração.
E como eu sei que o cara é afim de mim, até porque ele mesmo praticamente já admitiu isso. Também nem precisava... O garoto se preocupada demais comigo, tentar se aproximar, fica ainda mais sem jeito quando estou por perto, faz um esforcinho para puxar conversa e de tanto me observar discretamente, ou não, posso até dizer que ele me conhece bem, melhor que ninguém. Como eu já disse: não sou cega. Qualquer um poderia perceber isso, o problema é que as pessoas se ocupam demais, perdendo seus tempos com coisas fúteis para perceber esses pequenos detalhes.
Mas como eu não gosto dele, tipo, gostar pra valer. Muito mais que um simples amigos... Achei que seria melhor mostrar isso pra ele, mas sem ferir seus sentimentos. Poxa, eu sou má. Mas não é pra tanto, não é mesmo? O Felipe é um garoto maravilhoso, todos sabem. Nem por um momento eu pensei em ser cruel com ele e dizer essas coisas na lata para magoá-lo.
Como em palavras eu não consigo dizer: “Obrigada, Bianca. Por me poupar de uma punição mais drástica”, eu achei que agir seria a minha forma de agradecer a ela. Dando-lhe um presentinho. Um presentinho do meu jeito. Só esperei o momento certo para agir, sem que fosse flagrado pelas câmeras dessa vez. Cometer a mesma burrice duas vezes nunca mais.
Na quarta-feira, no mesmo dia em que eu soube que ela voltaria para o colégio para fazer uma prova qualquer substitutiva e para minha sorte o Felipe estaria ajudado à mesma professora que aplicaria a prova, eu estava ajudando as “tias” da cantina com o lixo (e nossa, quanto lixo!). Naquele momento eu ainda não tinha pensando em um bom plano, em um bom presente. Então continuei meu trabalho normalmente.
Até que... Tive a idéia perfeita. A Bianca – mesmo intencionalmente – acabou me ajudando muito, já que pela janela eu vi que ela estava sofrendo para terminar aquela prova. O tempo foi passando, ela foi ficando desesperada, o Felipe continuou ocupado com alguns papeis, eu fique de tocaia depois que finalizei meu trabalho do dia e... O dia estava terminado. Deu quatro horas e maioria do pessoal do colégio saiu correndo, loucos para irem embora para suas casas. O colégio foi esvaziando e eu poderia agir melhor, sem ninguém por perto. Aproveitei o momento em que eles saíram da sala, peguei seus celulares, eles voltarem e eu tranquei a porta.
Foi fácil.
Deixei-os trancados ali, assustados, perdidos e inquietos, sem saber ao certo o que fazerem. Enquanto do lado de fora eu tentava não morrer de rir, por ser a pessoa mais genial da face da terra.
Por um momento eu pensei que eles iriam ser espertos, iriam aproveitar aquela oportunidade para se beijarem, tirarem a roupa, gemerem alto enquanto faziam confissões de amor... Sei lá. Qualquer coisa que alguém mais esperto — assim como eu ou o Rafael — faríamos naquele caso. Algo mais intenso e interessante. Mas acabei me decepcionando. Eles mal se falaram e não aconteceu absolutamente nada. Foi até broxante.
Eu iria deixá-los ali trancados naquela sala sozinhos até o outro dia e aí quando os encontrassem pensariam que foi um terrivel incidente. Mas aí fiquei de saco cheio daquele papo chato entre eles e aquela falta de emoção e destranquei a porta misteriosamente, devolvendo os celulares, deixando um bilhetinho anônimo nada suspeito e saí correndo para que eles não pudessem me ver.
No final das contas, mesmo sendo um plano maravilhosamente diabólico foi uma perda de tempo total.
Pelo menos hoje já é sexta-feira. Meu ultimo dia de castigo. E mais tarde, ao chegar da noite, vou sair com a galera e tudo voltará a ser como era antes. Ou pelo menos foi nisso que eu acreditei.
Por volta das nove da noite eu tomei meu segundo banho no dia. Vesti um jeans mais escuro, uma blusa branca mais fina de manga longa com a estampa de um gatinho vampiro e calcei meu All Star azul-marinho. Passei uma sombra preta, lápis de olho e rímel. Os cabelos escuros eu deixei soltos mesmo, de um jeito selvagem, com muito volume.
Pela manhã ouvi quando o Pedro, meu irmão, estava conversando com o Rafael pelo celular. Eles estavam combinando de se encontrar com os outros na inauguração de uma boate nova no Centro. Logo me empolguei. Há um bom tempo não saíamos para nos divertir tanto. Sabia que por lá encontraria a galera toda e a noite tinha tudo para ser inesquecível.
Antes de sair de casa vasculhei minha gaveta de meias, onde dentro de uma delas, uma mais antiga, eu peguei algumas notas de dinheiro que eu vinha guardando para momentos assim. Enfiei tudo de qualquer jeito, inclusive o celular, no bolso de trás do jeans e sai.
Paguei dez reais no ingresso para entrar na tal boate. Fiquei eufórica quando coloquei meus pés dentro daquele lugar imenso e fui recebida pelo calor da galera. A boate era composta por três ambientes diferentes, decorados de acordo com os gêneros musicais. O primeiro e também o maior deles estava tocando musica eletrônica, uma das minhas preferidas por sinal: Reload. Umas duzentas pessoas espremidas, pulavam e gritavam ao som da musica em meio às luzes fluorescentes.
Era algo contagiante, fazia meu coração bater depressa.
O segundo ambiente tocava musica pop internacional. Entrei ali só para ver se encontrava alguém conhecido e vi um grupo de garotas suadas dançando uma musica qualquer da Kesha com o Pitbull. Por fim, no terceiro ambiente tocava um rock mais leve, romântico e até mais suave. Onde os casais aproveitavam para ficarem abraçados.
Fazia quinze minutos que eu havia chegado e ainda não havia encontrado nenhum dos meus amigos. Sendo assim, fui até um dos bares e pedi uma bebida forte com gelo. Fiquei observando a movimentação por um tempo, até que a bebida pudesse fazer efeito e eu fosse dançar feito uma louca em meio a tantos desconhecidos.
Meia horas depois lá estava eu, pulando com os braços jogados para cima, suando e cantarolando de olhos fechados como se estivesse em um show. Já estava bem animada, o coração a mil e adrenalina percorrendo minhas veias. Eu já tinha virado uns seis copos de bebida alcoólica.
Meu sorriso cresceu ainda mais quando vi a minha turma entrando na boate, todos juntos, pareciam meio surpresos e desorientados. Corri até eles, dando cotoveladas em todos que estavam no meio do caminho e quando parei bem em frente a eles todos me olharam meio chocados.
Será que eu estava tão mal assim?
Soltei uma gargalhada.
— Vocês demoraram! – eu fui a primeira a dizer, aproveitando que estavam todos olhando diretamente para mim.
Bianca tomou a frente de todos e pegou a mão da Luiza.
— Você aqui? Era só o que me faltava. – ela bufou, revirando os olhos de um jeito totalmente irritante. — Vem Lu, vamos beber alguma coisa.
Nossa! Quanta frieza. Eu pensei que ela já havia superado a minha brincadeirinha, mas pelo visto agora é que ela não me suporta mesmo. O que não é um problema já que eu também não vou com a cara dela.
Mencionei voltar a abrir a boca para fazer um comentário engraçado, quando o Rafael me cortou, sendo mais rápido que eu.
— Olha só, Felipe! – ele observou, olhando através de mim como se não me enxergasse. — Só tem mina gata aqui essa noite.
Dito isso ele saiu de perto de nós, indo atrás de suas primeiras investidas da noite.
Pedro e Nati de mãos dadas foram os próximos a agirem, se direcionando para o terceiro ambiente, onde eles poderiam ficar mais a vontade e aproveitarem aquele momento juntinhos.
Por fim sobrou eu – horrorizada por ainda estar sendo maltratada pelos meus próprios amigos – e o Felipe muito quieto.
Olhei para ele como quem pergunta o que diabos acabou de acontecer ali. Era impressão minha ou novamente acabo de ser desprezada e excluída pelos meus próprios amigos? Felipe deu de ombros, parecendo dizer que sentia muito, mas que nada poderia fazer por mim e se afastou, deixando-me completamente sozinha e chateada.
Mas isso não durou muito tempo. Porque eu não faço o tipo que se lamenta ou fica chorando pelos cotovelos pelo leite derramado. Eu não iria permitir que eles, todos eles, arruinassem a minha noite. Não agora que estou livre do meu castigo. E também não é como se eu necessariamente precisasse deles para me divertir.
Fiquei zanzando a boate, indo de um ambiente para o outro, para ver se eu encontrava pessoas interessantes ou algo melhor para se fazer que não incluísse os meus antigos amigos. Até que me deparei com um pessoal que também era da minha turma no colégio e resolvi ficar com eles.
Entre os quatro – três garotos e uma garota – estava o Augusto Vieira, um ruivo gordinho que é uma gracinha, mas que coloca medo em qualquer pessoa. Pois muito pior que eu, ele é um cara barra pesada mesmo aos quinze anos. Inúmeras vezes ele já tentou me vender drogas, mesmo eu garantindo que me envolvo com muitas coisas erradas, exceto drogas.
— Você banca a durona, mas você é muito careta. – ele praticamente gritou isso no meu ouvido, por conta da musica alta.
Dei um soco de leve em seu braço, rindo do seu comentário.
— Você praticamente não sabe nada de mim. – digo, também gritando no seu ouvido. Ele sorri desafiadoramente.
— Pode até ser. – ele continua, torcendo os lábios. — Mas porque você não quer? Você tem medo? Cara, relaxa. Todo mundo usa e não acontece nada. Não precisa se preocupar. É coisa leve, Gabi.
Não é que eu me preocupasse com os efeitos, eu só não tinha interesse por drogas. E pronto. Mas isso era difícil para ele entender.
— Eu não sei se você percebeu, mas eu não sou todo mundo. – dou risada, fazendo-o rir também. — Mas quer saber? Quem sabe em outra hora, em outro momento. Agora eu estou tranquila.
Ele assente, parecendo entender. Sei que o Augusto é um garoto muito insistente, então me afasto na primeira oportunidade. Não quero ser grosseira com ele e nem nada disso. Eu só quero aproveitar essa noite, aproveitar a minha liberdade. Volto para a pista de dança.
Quando olho no celular vejo que são quase duas da manhã. Durante todo esse tempo poucas vezes eu vi o resto do pessoal. Vi a Natália e o meu irmão se beijando, sem se desgrudarem um só quer minuto. Vi a Luiza e a Bianca com outras garotas do colégio dançando musicas da Katy Perry e da Miley Cyrus. Vi o Felipe sentado no bar, bebendo e fumando. E vi também o Rafael pegando geral todas as garotas que passavam na frente deles.
Em nenhum momento um deles veio falar comigo, saber como eu estava ou oferecer uma bebida, um cigarro ou até mesmo me convidar para dançar. E isso estava me afetando mais do que eu gostaria de poder admitir. Como se eu fosse uma peça descartada do jogo. Ainda assim continuei agindo como se aquilo não me afetasse, tentando me divertir e me descontrair com os meus novos conhecidos.
— Ei, eu já volto. Vou ao banheiro. Esperem aqui. – gritei para que todos em volta pudessem me ouvir.
Eu não fazia ideia de onde era o banheiro, por isso fiquei andando de um lado para o outro, meio perdida. Quando enfim encontrei os banheiros me deparei com filas enormes. E vi que nem tudo era perfeito. Nem mesmo aquela boate que parecia incrível. Para piorar minha situação acabei esbarrando no Rafael que deixou o sorriso desaparecer do rosto quando se deu conta de que era eu, bem ali, na sua frente.
— Será que dá pra você sair da minha frente? – ele pediu, fuzilando-me com seus olhos claros. Ele estava incrivelmente bonito aquela noite com uma camiseta gola V branca, um jeans claro e Vans preto.
Ele estava bravo comigo, era evidente. E eu nem sabia bem por que.
— De repente todo mundo resolveu me dar um gelo hoje. – fiz uma careta, estava irritada com aquela situação. De saco cheio de tudo. — Já chega, né? Eu já recebi as minhas devidas punições pelo que eu fiz.
— Não, Gabriela. Você agiu mal. – ele continuou me olhando friamente, agora com o rosto bem próximo do meu para que eu pudesse ouvi-lo melhor. Ou talvez para me intimidar mais. — Não só com a Bianca, mas também com todos nós. Especialmente comigo! Você me fez fazer papel de mentiroso na frente de todo o colégio e eu ainda acabei apanhando por algo que eu não fiz. Tudo isso porque você foi covarde!
Nossa! Pegou pesado agora.
— Bem feito para você! – eu ri, tentando não aparentar o medo que eu estava dele me pegar pelo pescoço e me sufocar até eu perder as forças do meu corpo. — Mas, cara, fala sério! Já passou! Chega. Eu passei uma semana longe do colégio e ainda tendo que trabalhar de graça. Isso já não é punição suficiente? – era uma pergunta retórica. — Para com essa frescura, Rafael. Tudo bem que eu possa até feito você pagar por erros que você não cometeu, mas foi engraçado, não foi?
— Engraçado? – ele perguntou, cheio de sarcasmo. — Você só pode está brincando! Você realmente não sabe o verdadeiro significado da palavra amizade, não é? Amigos de verdade jamais fariam o que você fez uns com os outros! Foi covardia, foi cruel, foi errado. Nenhum castigo será punição suficiente para você. Se liga, garota! Você só pode ter problemas.
Ele riu sem humor.
Todos em volta estavam olhando para nós, curiosos e loucos para que saíssemos no tapa, rolando pelo chão. No fundo era exatamente o que eu queria fazer: partir pra cima dele – mesmo ele sendo duas vezes maior e mais forte – e ferir cada parte de seu rosto perfeito. Por outro lado eu jamais teria coragem de estragar a sua beleza invejável. Eu só queria que ele – mais que qualquer outro – pudessem me desculpar pelo que eu fiz.
Não foi totalmente de propósito.
— Me desculpa, Rafael. – poucas vezes em toda minha vida senti uma angustia tão grande no meio peito. Eu estava até com vontade de chorar, coisas que raramente acontece comigo. — Eu sinto muito!
Dei um passo à frente, para tentar abraça-lo. Ele ficou totalmente surpreso com a minha atitude, senti isso pela rigidez de sua musculatura ao toca-lo. Mas ele não retribuiu o meu carinho, enquanto eu fazia de tudo para não tentar chorar ali, diante dele e de todos.
Eu só queria que tudo aquilo fosse esquecido e que pudéssemos voltar a ser como éramos antes: todos amigos, todos juntos e unidos. Eu nunca pensei que isso pudesse ser tão importante para mim.
— Sai fora, Gabi. – ele me empurrou de leve, afastando-me dele.
Fiquei arrasada e sem reação, vendo-o se afastar quando todo o resto parecia zombar de mim por ter acabado de levar um fora do Rafael.
Ser rejeitada é algo que não posso aceitar facilmente, por isso, depois de ir ao banheiro, voltei a minha mais nova turma, bebi ainda mais e continuei me divertido como se tudo estivesse bem.
Acordei no outro dia, no sábado de manhã, sentindo-me tonta. Quando olhei para os lados a primeira coisa que percebi que é eu não estava no meu quarto, não estava na minha casa. Minha primeira reação de desespero foi ver se eu estava de roupa, porque eu não conseguia me lembrar de mais nada que havia acontecido após ter sido descartada friamente pelo Rafael, o único a quem eu ainda acreditava que poderia me desculpar.
Para o meu total alivio eu estava de roupa, mas estava em péssimas condições. Mal conseguia sentir o meu corpo. Nem se quer me olhei no espelho. Eu nem conhecia aquele lugar, aquele quarto ou aquela casa. Mas vi que eu não era a única ali. Além de mim tinha pelo menos mais dez adolescentes desmaiados, caídos pelos quatro cantos da casa.
Na volta para casa reparei que todos olhavam para mim por onde quer que eu passasse. Horrorizados e curiosos com a minha aparência que não era lá das melhores. Na certa meu cabelo estava pior do que normalmente é e minha maquiagem deveria estar borrada por todo o rosto. Além do cheiro de cigarro e cerveja impregnados na minha roupa.
Já se passava das duas da tarde e meus pais deveriam estar uma fera com o meu sumiço. Meu celular estava no modo silencioso e nem ousei a olhar quantas chamadas perdidas eu teria. Para não levantar ainda mais suspeitas e também para evitar maiores confusões, pulei o muro baixo e resolvi entrar pela porta dos fundos.
Surpreendi-me ao encontrar a casa totalmente silenciosa.
Cadê meu pai? A minha mãe? E o Pedro?
Cadê todo mundo, afinal?
Não sabia se aquilo era bom ou ruim.
Subi devagar as escadas, sentindo minha cabeça latejar. Naquele momento eu só queria um banho quente bem demorado, depois comeria alguma coisa e acabaria jogada no sofá pelas próximas horas. Eu estava um caco. Sentia-me péssima e horrível. Minha cabeça doía e meu corpo parecia estar ligado no automático.
Ao chegar ao ultimo degrau da escada ouvi o som de risadas. O que significava que alguém estava em casa e eu estava enganada. Eu não sabia se corria para o meu quarto para me esconder ou ia saber quem era a única alma viva naquele lugar além de mim.
Mas antes que eu pudesse pensar em agir uma das portas do corredor foi aberta. Mais precisamente a porta do quarto dos meus pais. E de lá saiu a minha mãe toda descabelada, enrolada em um lençol branco de cama e com um sorriso gigante no rosto. Atrás dela surgiu um homem — que não era o meu pai — completamente nu, também sorrindo bastante.
Quando notou a minha presença a minha mãe soltou um grito alto e agudo ao arregalar os olhos verdes, levando a mão até a boca.
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