Todas as Estrelas se Apagam
1 Todos suspensos
Está um clima agradavelmente nublado no campus da Academia Solari de Ferro, a maioria dos alunos estão sentados nos bancos ao redor da escola estudando para os exames que estão por vir, mas alguns optam por rever as matérias deitados no gramado aparado recentemente pelo velho zelador Yorick.
Mas, dentro da instituição uma grande bagunça acontece. Pelos corredores, uma aluna pequena de cabelos azulados guia o professor de química em direção ao ginásio. Não está acontecendo nenhum jogo, mas não é motivo para estar vazio. Quando o professor Ryze abre, ele se depara com uma cena inusitada, o faz lembrar de um quadro renascentista.
Nas arquibancadas, Vladimir e Neeko estão deitados. Vlad está fixado em algum jogo genérico em seu celular de última geração e caro, enquanto Neeko escreve sem parar no caderno do seu comparsa. Um pouco mais acima está Ahri, tirando sua milésima foto desde o último minuto com seu celular que combina com seu par de orelhas de raposa.
Não para por aí; ao lado da trave, encostados na parede, estão Rakan e Xayah, tentando dar amassos, porém, puxando Rakan está Sett, um atleta forte, tentando se levantar e batalhando contra Darius, outro atleta, mas do tipo clichê malvado de filmes escolares. Do outro lado, tentando alcançar os cabelos dos pombinhos, está Sarah. Ela tenta pegar seus dois pequenos animais que estão puxando as longas e pontudas orelhas de Xayah. Ninguém consegue explicar o que eles são, mas são muito agitados.
Ekko está no meio da briga também. Ele não segue o lado do bem ou do mal, mas ele quer que a briga acabe rápido, e ele está armado. Ekko mira com seu taco de beisebol bem na nuca de Darius, que está quase acertando um soco em cheio no rosto de Sett, que quase faz Rakan cair com o seu peso, por pouco fazendo Xayah cair também.
Mas o professor Ryze grita bem na hora.
— Já chega!
Todos param, olham para o educador e se assustam, principalmente Neeko que salta da arquibancada, apavorada.
— Ferrou.
Ele vai pisando forte no chão amadeirado do salão, cruzando a entrada até onde os estudantes estão. Sarah consegue alcançar seus bichinhos a tempo e os segura perto do ventre. Ryze arranca o bastão da mão de Ekko enquanto os outros se recompõem, depois puxa o caderno de Neeko, lê por dois segundos e olha furiosamente para Vladimir, mas sem se esquecer da sua colega. A garotinha que delatou o ocorrido correu assustada, com medo de ser vista, pois sabe que cairia para cima dela.
O professor caminha até o meio do salão e anuncia:
— Suspensos. Cada um de vocês, por uma semana. E o resto do semestre em detenção.
Xayah é a primeira a contestar.
— O quê? Mas por quê? Rakan e eu não estávamos fazendo nada, na verdade esses dois brutamontes que quase acabaram com a gente. Isso é patético. — Ela cruza os braços e bufa forte, fazendo sua franjinha de lado saltar.
— Patético, senhorita Xayah, é ficar os dois agarrados dentro da escola, um local para aprender, não namorar. Já disse várias vezes para deixarem isso para outro lugar.
Xayah revira os olhos enquanto Ryze mexe nos óculos. Ela está furiosa, Rakan prefere aceitar calado. Normalmente, Xayah é quem tem a voz no casal, ela quem tem atitude, mas Rakan tem a compaixão e a compreensão. Ryze olha para Sarah.
— E você, Sarah, quantas vezes eu já não falei para não trazer essas... — ele tentou pensar em alguma palavra que os descrevessem, mas eles não se pareciam com nada, a não ser ursos de pelúcia de algum desenho animado para crianças menores de cinco anos, — coisas estranhas para dentro da academia? Eu ficaria quieto se eles se comportassem, mas por onde andam causam destruição.
Sarah abre a boca por um segundo antes de se justificar.
— Mas professor Ryze, eu juro que não os trago. Eles me seguem, já tentei trancá-los, mas eles sempre dão um jeito de sair, são inteligentes e fortes. E eles têm nome, são Boki e Baki!
Sarah, por mais que seja uma aluna comportada e esperta, também não gosta de ficar calada e sempre responde quando lhe é conveniente. Seus animais, Boki e Baki são pequenas criaturas amareladas com três pequenas antenas laranjas, grossas e peludas, que mais parecem topetes. Para diferenciar, um tem uma cicatriz no meio da testa enquanto o outro usa um tapa-olho de alguma briga passada, Sarah prefere não dizer qual é qual. O professor continua com a bronca olhando para os três atletas.
— Por que estão brigando? Digo, por que atletas sempre estão brigando?
Sett estrala o pescoço e soca a mão de cada lado, depois aponta para Darius.
— Eu e meus garotos íamos usar o ginásio para treinar voleibol, temos jogo na sexta!
— Tinham jogo na sexta — Ryze corrige, de olhos fechados. Sett rosna.
— Que seja. Darius quis vir no mesmo horário que a gente e não deixou a gente treinar. Tive que dar um jeito nele.
Darius gargalha. Ele é alto e musculoso, não há quem olhe para ele e pense que seja um estudante do ensino médio. E não foge de brigas. Diferente de Darius, que tem as mesmas características, Sett prefere ser valentão com quem merece.
— Eu vim aqui primeiro! Não é só você e o seu time de maricas que tem prioridade nessa escola.
— Ei! — Rakan repreende. — Não use palavras sujas! Professor, vai deixar esse babaca usar termos pejorativos para ofender o adversário?
Ao seu lado, Xayah continua enfurecida. Sett reprime os lábios enquanto Darius gargalha mais uma vez.
— Me poupe do seu politicamente correto, passarinho.
Darius continua com as ofensas. Rakan e Xayah são diferentes, assim como Ahri e Neeko, são os vastayas. Mas cada um tem uma aparência diferente. O casalzinho tem a aparência de aves, enquanto Rakan tem orelhas curtas e deitadas para trás da cabeça, Xayah tem elas pontudas e apontando para cima. Ambos têm patas plumadas no lugar das pernas que lembram bastante as de águias.
Neeko é um caso curioso, de uma raça quase extinta, sua pele é magnifica, podendo mudar de cor como a de um camaleão, alguns dizem já ter visto ela se transformar em seus colegas de classe, mas não passaram de boatos. Ela também carrega uma grande e pesada cauda que parece ter vida própria, mas por ser desastrosa, se sente forçada a sentar na última cadeira da classe para não atrapalhar seus companheiros. Ela não se orgulha de ser vastaya, mas também não se importa — contanto que não atrapalhe seus amigos.
Ahri é a mais charmosa dentre todos os vastayas e todos os alunos da academia. Ela é vaidosa com a sua beleza, cabelos longos e hidratados, mas o que mais chama a atenção nela são as suas nove caudas peludas e volumosas. Ela também tem curtas e peludas orelhas caninas. Ela é conhecida como a Raposa Rosa dentro da escola inteira, Ahri é apenas apelido. Por mais que Neeko não seja muito popular, ela está sempre ao lado de Ahri, junto dos dois outros vastayas e de Sarah, o famoso grupo popular.
— Quieto, os dois — diz o professor, em seguida ergue um dedo para a fuça de Darius. — Mais uma ofensa, e eu te deixo de detenção para o resto da sua vida. É extremamente abominado o uso de discurso de ódio dentro e fora dessa instituição, que fique bem claro.
Darius revira os olhos. Ekko, calado, fica olhando para os cantos, com a intenção de passar despercebido pelo professor ranzinza, mas seu grande topete colorido chama a atenção de qualquer um.
— E você, seu grande tolo, onde estava com a cabeça quando estava tentando acertar a cabeça de seu colega com esse taco? Poderia ter causado sérios danos no seu colega e você, meu amigo, pode ter certeza de que estaria encrencado.
Ekko segura os braços para trás e abaixa a cabeça, pensando em dizer qualquer coisa que alguém comportado diria.
— Desculpa, professor Ryze, eu não estava pensando direito. Prometo que não irá se repetir.
— Que assim seja. Entregarei seu taco nas mãos de seus tutores, terei uma breve conversa com eles — Ryze anuncia, indo em direção aos três últimos na arquibancada. Neeko está roendo as unhas, enquanto Vladimir continua jogando no celular e Ahri tirando fotos. Ryze enfurece. — Basta!
Ele arranca os celulares das mãos de Vladimir e Ahri, que se assustam e argumentam contra a ação do professor. Mas ele ignora. Vlad vem de uma família rica e famosa na Cidade de Valoran. Pouco se sabe sobre ele, apenas que ele suborna os alunos para fazerem sua lição de casa, mas ele adora suco de frutas vermelhas.
— Vocês sabem muito bem que é explicitamente proibido o uso recreativo de celulares dentro desta instituição, não é a primeira vez que eu confisco os celulares de vocês dois e obviamente não é a primeira vez que eu os advirto.
Ahri contesta:
— Mas, mas eu ainda não achei a melhor selfie para postar!
— O que diabos é selfie? — Pergunta Vladimir, confuso.
— Saberia se tivesse um reflexo aceitavelmente apreciável para ter vontade de abrir a câmera, em vez de passar o dia todo perdendo tempo em jogos estúpidos e caros — responde Ahri, enquanto retoca o batom forte.
Vladimir se zanga.
— Ora sua...
— Já chega! — censura Ryze, furioso, e olha para Vlad. — Além de não tirar os olhos do celular, continua pagando aos estudantes para fazer seus trabalhos escolares. — Ele aponta para Neeko, que instantaneamente esconde a cabeça nos próprios braços, ficando enrubescida. — Estou bastante desapontado, Neeko, por aceitar tais trabalhos sujos. Mas temo que não irei retirar sua suspensão para que aprenda o que é errado. Vladimir, irei providenciar um novo trabalho com o dobro de páginas. E eu irei verificar pessoalmente letra por letra de cada estudante desta instituição para ter certeza de que não foi outra pessoa quem o escreveu. Os celulares serão confiscados, como o bastão de Ekko, e só serão entregues nas mãos dos pais.
Todos os alunos ficam desapontados e de cabeça baixa, com exceção de Xayah, que continua furiosa por achar bobagem sua suspensão. Ryze bate palmas duas vezes e fecha os olhos.
— Estão dispensados.
Todo os alunos suspensos já tinham ido embora, com exceção de Sett e Rakan. Os dois foram os últimos a saírem do banho e estão se trocando no vestiário vazio. O uniforme de Sett está todo amarrotado, mas nada que sua querida mãe não resolva com um ferro de passar roupa bem surrado e uma boa xícara de chá, ela já está acostumada com isso. Ele carrega uma cicatriz que ganhou aos quinze anos de idade da sua pior briga na sua última escola, bem em cima do nariz, do olho esquerdo ao direito.
Sett é bastante alto e musculoso, se entope de treinamento quando está em casa e sempre que pode nos intervalos da escola, ele gosta de estar em forma e saudável. Herdou os cabelos azulados e bagunçados do pai que nunca chegou a conhecê-lo, de sua mãe ele herdou uma característica especial que prefere guardar em segredo. Mesmo estando quente lá fora, ele prefere permanecer com seu gorro felpudo.
Ele fecha o armário e olha para Rakan, que escova seus longos e sedosos cabelos esverdeados. Beleza pessoal é o principal para Rakan. Ele nega ser narcisista, mas também fala que não é obrigado a aparecer descabelado em público, mesmo que só esteja indo até a padaria. Rakan também passa as mãos nas orelhas peculiares.
Sett continua olhando, gosta de vastayas. Ele percebe que o uniforme de Rakan está rasgado e lembra de que era ele quem estava puxando-o. Sett quer o compensar e se aproxima.
— Ei, Rakan, valeu por me defender do Darius lá na quadra.
Rakan o olha de cima a baixo e levanta uma sobrancelha.
— Não há de quê. Ele é um babaca.
Sett torce a boca.
— Desculpe pelo seu terno. Eu posso ajudar, se me empresar eu posso trazer ele remendado, mamis é boa nisso. — Sett tem orgulho de sua mãe e gosta de deixar explícito sempre que possível. Ela o criou sozinha sem ajuda de ninguém, apenas um ao outro. — É o mínimo que posso fazer, por favor.
Rakan não pensa muito. Vai ter preguiça de remendar e, de qualquer forma, foi ele quem destruiu, então ele que conserte. Rakan tira o uniforme externo, ficando apenas com a camisa branca e apertada de dentro. Sett consegue ver os braços magros, mas fortes do vastaya. Ele entrega o terno a Sett e ameaça ir embora, mas o musculoso o segura com uma pergunta.
— Qual é o seu lance com a Xayah?
Rakan encosta num armário e olha para o chão.
— A gente não namora, nem nada. Apenas somos muito próximos por sermos da mesma espécie. Você sabe, vastayas não se dão muito bem próximo de humanos por causa de todo o preconceito e intolerância, somos vistos como aberração. Mas Ahri nos acolheu e ensinou a nos aceitarmos do jeito que somos. Nós, na verdade, todos temos um segredinho.
O discurso encorajou Sett, às vezes ele lê alguns livros sobre autoaceitação que encontra pela biblioteca da escola, mas nunca terminou nenhum. Ele encosta no armário, olhando para Rakan. Ele está interessado, é curioso. Mas Rakan apenas ri e caminha para fora do vestiário.
— Todos temos uma criaturinha, igual os da Sarah — ele diz, por fim. — Traga meu uniforme amanhã, vou passar para pegar algumas anotações. Obrigado pelo seu favor.
Ele levanta o braço e se despede sem olhar para trás. Sett sorri de lado, coloca o terno de Rakan no ombro e segue seu caminho para casa.
Sett admira os vastaya da escola por se aceitarem como são do jeito que são, sem medo ou vergonha. Ele acha que jamais teria coragem de se assumir como alguém estranho, diferente.
Ao entrar em casa, ele beija os cabelos roxos de sua mãe e desliza sua mão grossa pelas orelhas dela, sentada na poltrona na sala de estar e tricotando. Ela está fazendo um pequeno gorro para seu filho, da cor dos cabelos dela.
— Sett, meu querido filho, me traz alguma notícia boa?
Ele se senta no sofá ao seu lado e boceja alto. Ele ainda segura o uniforme de Rakan, despercebido.
— Apenas ruins, mamis. Me meti em encrenca de novo, fui suspenso por uma semana e vou ficar em detenção. Sinto muito.
Ela para o tricô impetuosa e franze a testa para seu filho.
— Você puxou seu pai todinho. Foi uma benção ele ter partido.
Sett abaixa a cabeça. Não gosta de falar sobre seu pai, se sente muito decepcionado por ele ter ido embora antes mesmo de completar um ano de idade.
— Mas era muito corajoso — ela termina. — O que tem aí?
Sett entrega o terno de seu colega e se levanta.
— É de um amigo, mamis, ele é vastaya. Ele é legal, tem compaixão. Eu acabei rasgando durante a briga, mas foi sem querer... Você pode consertar, por favor?
Ela sorri, adora conceder os desejos de seu filho único. Ela segura e analisa o uniforme destroçado. É apenas um corte pequeno, mas desfiado.
— É claro, meu filho. — Ela segura seu braço por um momento. — Eu só não quero que se machuque, que se envolva em mais brigas.
Ele morde os lábios e pensa no seu pai.
Sett sobe para o seu quarto e a primeira coisa que ele faz é se olhar no espelho e tirar o gorro vermelho, que revelam pequenas e curiosas orelhas pontudas, da cor do seu cabelo. Ele torce a boca e range os dentes.
Sua mãe é vastaya, assim como seus colegas da escola. Ela possui uma longa e rebaixada orelha escurecida e uma cauda grande e felpuda. Diferente da maioria dos vastayas, ela se relacionou com um humano, Sett é um fruto dos dois, mas sente vergonha de deixar que os outros saibam. De ser visto como uma aberração, o mestiço. Ele já não tem muitos amigos na escola, isso acabaria com sua reputação. Em Solari, apenas o corpo docente sabe sobre seu segredo e ele pediu sigilo total quanto a isso, e cumpriram.
Sett se apoia na varanda do seu quarto e observa o céu escuro e estrelado. Por um segundo, uma estrela azulada e peculiar solta um brilho tão forte que Sett podia jurar que ela queria se comunicar com ele. Ele a observa por um bom tempo antes de sentir frio.
Um dia terei coragem de me assumir, ele pensa. Irei orgulhar a mamis.
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