Todas as Estrelas se Apagam
2 Anotações e boatos
São oito em ponto quando Sett chega na Academia Solari de Ferro, gosta de pontualidade e se irrita quando não respeitam a hora marcada, mas sempre acaba desculpando. Ele carrega o terno de Rakan novo em folha, limpo e passado, no ombro. Enquanto caminha pelo gramado verde da escola, ele passa por vários estudantes. As aulas só vão começar em meia hora, mas já está quase todo mundo aqui. Ele passa por um grupo de garotas que falavam sobre constelações, que o faz lembrar da estrela brilhante que ele viu ontem à noite. Ele recua a cabeça e se aconchega no gorro roxo que sua mãe lhe fez.
Ele entra e vê logo Xayah conversando com algumas garotas, de costas. Xayah é extremamente linda aos olhos de Sett. Seu terno é apertado no seu torso e sua saia é dobrada duas vezes, por mais que a diretora já tenha a repreendido por isso. Mas ela disse que não quer ficar parecendo uma velha e acaba voltando a fazer sem que a diretora veja.
Ela tem cabelos rosas não tão longos com mechas azuis espalhadas pelos fios. A cor é totalmente natural, assim como os cabelos esverdeados de Rakan, e combina com suas orelhas. Ela não gosta quando falam que é artificial e arruma briga fácil. O que mais chama atenção no seu cabelo é a pequena franja que ocupa apenas metade da sua testa. Sett acha peculiar e atraente, mas tem vergonha de dizer.
Ele chega por trás e cutuca ela.
— Ei, Xayah, você viu o Rakan?
Ela olha para trás e faz um sinal para as outras garotas saírem. Ela levanta os braços e balança a cabeça.
— No meu bolso ele não está.
Ela dá de costas e entra em uma sala apertada, procurando por algo. Sett a segue.
— Não seja grossa, apenas quero devolver o terno dele. Também queria ver ele, conversar um pouco. Gosto dele.
Xayah olha para ele e solta uma risadinha.
— Gosta dele?
Sett torce a boca e olha para baixo.
— Está me fazendo parecer um idiota. Ele é legal, quero ser amigo dele.
Xayah ri.
— Fofo... Achei! — Ela pega uma pequena joia brilhante e esverdeada e a guarda no bolso do uniforme. Sett não conseguiu ver muito, mas parecia ter o formato de uma estrela, igual as que se vê no céu, mas com duas extremidades opostas alongadas. — Espera só até eu por as mãos naqueles ursinhos amarelos da Sarah...
Depois, ela olha para Sett e bate um dedo no rosto algumas vezes.
— É, para falar a verdade, acho que o Rakan falou um pouco sobre você ontem à noite. Mas eu não estava prestando atenção, ele só falava sobre músculos e músculos, mas eu queria assistir a minha série favorita que ficou em hiatos por, o quê, uns seis meses? Então eu disse, sim, claro, ele é totalmente gostoso.
Sett enrubesce.
— Você me acha gostoso?
Xayah sente uma pequena vontade de rir, mas acaba imaginando uma cena ainda melhor. Ela encosta na parede e estica a perna até a porta, empurrando-a.
— Eu acho.
Sett pensa que ela está dando uma chance a ele de mostrar o que pode fazer, mas não tem certeza se ela é a pessoa certa para ele. Mas, por ela ser vastaya, ele se sente bastante atraído. Sett encosta na perna esticada de Xayah e sobe até sua cocha, conforme ele se aproxima dela.
— O que o Rakan falou sobre meus músculos?
Xayah sabe que Rakan não é tão vulgar com palavras, mas não quer dizer que ela não possa brincar um pouco com seu colega. Sett está ofegante, mas Xayah só está se divertindo.
— Ele falou que são enormes, ele disse que quer tocar seus ombros desnudos e sentir o quão firme deve ser — ela diz enquanto faz a mesma coisa. Os músculos rígidos de Sett se contraem ao toque, mas ele não recua. — Ele fala que quer ser levantado por você e ser levado até a cama e lá fazer mais coisas.
Rakan jamais diria tal coisa, mas Sett não precisa saber.
Sett cheira o cabelo de Xayah antes de perguntar:
— O que é isso que você guardou?
Ele tenta beijar ela em seguida, mas é repreendido por um dedo muito forte para uma garota do ensino médio. Ela sorri, bate na mão dele e abaixa a perna. Ela arruma a saia e a abaixa um pouco, lembrando que pode ver a diretora a qualquer momento.
— É um segredinho nosso. Temos vários segredos, eu, Rakan e as garotas.
Sett cruza os braços por ser dispensado, mas também por conta dos segredos. Sett detesta segredos. Ele também se detesta por ter que esconder um. Mas talvez seja por um bem maior.
— Fala um, por exemplo. — Ele olha para baixo e lembra de sua mãe, no quanto ela ficaria orgulhosa quando ele se assumisse como meio vastaya.
Xayah abre a porta e sai.
— Todos nós temos bichinhos diferentes do normal.
— Ah, Rakan me falou isso ontem — diz Sett, lembrando do charmoso vastaya. Ele realmente falou aquelas coisas sobre mim?
Xayah revira os olhos.
— Ele disse? Ele não deveria falar tanto, aquele linguarudo. Nunca se controla. — Ela bufa e arranca o paletó do ombro de Sett. — Não se preocupa, eu entrego isso para ele. Se eu fosse você eu não ficaria aí por muito tempo, esse é o armário do zelador Yorick e ele detesta que entrem sem permissão.
Sett finalmente entende por que estava sentindo um cheiro de gente velha e cera de ouvido, o zelador parece que nunca toma banho. Mas ele não pode julgar as pessoas.
Sett demora um pouco para sair do armário, pois não quer que os outros vejam sua grande animação por ter feito contato com uma garota e de todas as coisas que ela disse. Mas também não quer levar um soco do Yorick, por isso ele se apressa e vai para o campus da academia. Ele vê de longe no campo aberto o resto das líderes de torcida. Xayah não pode participar do treino essa semana, por estar suspensa, por isso apenas assiste na arquibancada. Rakan chega depois e admira o seu terno em perfeito estado. As outras garotas não estão por perto.
Faltam cinco minutos antes do primeiro sinal tocar, mas antes ele chega no grupo de garotas que viu mais cedo e chama a atenção de Janna. Ela o ajudou quando ele chegou na escola e agora Sett acha que precisa da ajuda dela para tudo.
— Ei, Janna, podemos conversar?
Ela olha para ele e se levanta. Janna é alta e magra, o uniforme da escola fica bem nela, mas ela não se sente confortável lotada de roupas pesadas, gosta de se sentir leve. Ela tem o cabelo mais lindo da escola inteira. Longo e volumoso, um rabo de cavalo amarrado bem no couro da cabeça, enquanto duas mechas onduladas ficam soltas cobrindo seu perfil. Seu cabelo é completamente roxo, brilhante. Sett nunca perguntou, mas uma vez a viu com uma lata de tinta de cabelo no armário dela.
O vento faz o cabelo de Janna subir, como mágica, mas cai logo em seguida.
— Claro — ela responde.
— Será que você pode passar lá em casa quando sair da escola? — Ele olha para baixo, envergonhado. — Tomei suspensão durante a semana toda, preciso dessas anotações para as provas que estão chegando.
Ela concorda, balançando a cabeça. Sett gosta da Janna, mas detesta seu hábito de conversar olhando nos olhos, petrificada e sem demonstrar feição. O assusta, o faz pensar que ela é uma boneca de pano conduzido por uma criança imaginária.
— Eu chego lá às dezesseis horas.
Ela mostra os dentes e volta a se sentar no chão perto de suas amigas. Janna é a mais velha, está no quarto ano. Mesmo assim ela anda com garotas do primeiro e terceiro ano. Elas devem ter algo em comum que as juntem. As constelações, quem sabe?
O sinal toca e os alunos começam a caminhar para dentro da instituição. Sett fica parado no gramado, esperando a chance de ver Rakan para conversar, ele quer aproximar a amizade. Ele ainda está com as palavras de Xayah na cabeça. Ele falou mesmo aquilo sobre mim? Sett pensa, mas em nenhum momento Rakan passa por ele, e ele se sente cabisbaixo. Em vez disso, outro aluno chama sua atenção. É Draven, irmão mais novo de Darius. Ele é do seu time de voleibol, seu favorito. Draven não é escroto como seu irmão, Sett confia nele.
— Ei, Sett. Qual foi? Ouvi dizer que você foi suspenso. A gente precisa de você para os jogos que estão por vir.
Sett se sente atolado. Provas, jogos, suspensão, segredos. Por que ele teve de se meter naquela briga?
Draven é alto, sorridente e forte, mas não tão musculoso como seu irmão. Sua pele é totalmente bronzeada, ele gosta de se sentir bonito e atraente — mas nem todos pensam que ele é. Seu ponto mais forte é o seu penteado, Sett ouviu dizer que ele gasta quase um pote de gel fixador para deixá-lo apontado para cima. Por mais que seu cabelo seja chamativo, ele é mais conhecido por ter um par de sobrancelhas pontudas, como o vilão de um desenho animado.
— É, cara. O babaca do seu irmão veio tirar onda no ginásio. Ele nem está em nenhum time. A gente acabou brigando e o professor Ryze suspendeu todo mundo que estava lá. Pelo menos você e os garotos não estavam lá, ia sobrar para vocês também, talvez. Vou esperar a aula de treino para convencer a treinadora a me deixar participar. Caso contrário, eu fico só olhando.
— Tranquilo, a gente se fala depois.
Sett atravessa a pequena estrada de terra e se senta na última cadeira da arquibancada do campo aberto da escola. Lá de cima ele consegue ver toda a floresta que rodeia a academia, escura e densa. Ela é longe da civilização, quase que escondida, se não fosse todos os panfletos espalhados pela Cidade de Valoran e ser bastante conhecida.
Ele está sozinho, as líderes de torcida se foram para suas aulas. Tudo está silencioso, o Sol está por trás das nuvens escuras e pesadas, pode chover a qualquer momento. Mas Sett gosta desse momento de paz, de ouvir o som da natureza e sentir o ar puro.
Ele puxa uma foto de sua mãe do bolso de seu paletó, é uma foto bem antiga. Era a noite de formatura, ela tinha a idade de seu filho. Ela olha para baixo e suas longas orelhas se comportam como prendedor de cabelo na sua nuca. Ela também tinha vergonha de se assumir vastaya, mas tudo ficou mais fácil quando ela conheceu o pai de Sett, que a ajudou e a orientou que viver escondida é um retrocesso na sua própria causa. Mas Sett ainda tem receio, e sem seu pai por perto é um medo ainda maior.
Depois da aula de treino, Sett volta para casa cabisbaixo. A treinadora realmente não pôde deixá-lo jogar, uma vez que estava suspenso. Mas ela queria. Sett não viu Xayah ou Rakan pelo resto do dia, e não parava de pensar neles. Ele quer ser amigo deles — e do grupo popular da escola.
Sett se encolhe no seu uniforme e puxa o gorro roxo para baixo quando começa a chover. Por mais que o dia esteja frio, a chuva está quente. Ele sente o calor, quer tirar a roupa pesada, e as gotas estão tão quentes que dói quando encostam em seu rosto. A chuva engrossa bastante e ele apressa os passos para chegar em casa. Que diabos de chuva quente é essa?
Quando chega, ele corre para seu quarto, tira sua roupa completamente e entra no chuveiro. Ele se sente aliviado e refrescado quando os pingos gelados se espalham pelo seu corpo.
Seus pensamentos se voltam para quando ele estava com Xayah no quartinho do zelador. Ele lembra de sua coxa grossa e cintura fina, seus lábios cobertos de gloss. Sett também pensa sobre as palavras que ela afirma Rakan ter dito sobre ele. Sobre seus músculos, seu corpo.
Ele pega sabão e fecha os olhos enquanto imagina os dois em sua cama, esperando por Sett, chamando para se juntar a eles. Ele pressiona os dedos nas suas orelhas curtas e peludas no alto de sua cabeça e imagina que é Xayah o puxando para a cama. Ele desce as mãos, cruzando-as no seu peitoral e esfregando-o lentamente, fantasiando os toques que Rakan deseja, segundo o relato de Xayah.
No momento que ele está descendo mais ainda as mãos, suas orelhas se voltam na direção da porta do seu banheiro.
— Sett! — sua mãe o interrompe, gritando no seu quarto. — Já falei para não deixar as roupas jogadas no chão! E molhadas, pelo visto, vão feder a chulé amanhã. Vou pôr para lavar.
Sett olha para baixo — para um lugar específico — e seus pensamentos abominam sua mãe por um momento por ter interrompido seu momento íntimo sozinho. O clima já era. Momentaneamente ele sai do banheiro e veste roupas leves e aconchegantes para se proteger do frio, por mais que a chuva esteja bem calorosa.
Ele se olha no espelho ao lado da cômoda e encara suas orelhas. Sua mãe o costumava chamar de Cachorrinho, porque elas lembram bastante as de um cachorro animado. Elas têm a cor das orelhas de sua mãe, violetas, diferente do seu cabelo que é azul escuro.
O som da campainha toca pela casa e Sett corre para a janela para ver quem é. Janna olha para os lados enquanto segura um pequeno guarda-chuva em cima da sua cabeça. Por mais que a chuva esteja forte e o guarda-chuva seja pequeno, parece que a água não encosta nela, como se um escudo a protegesse.
Rapidamente, Sett veste seu gorro roxo, desce as escadas e abre a porta para Janna entrar. Ela fecha seu guarda-chuva e o coloca no cantinho da parede, perto da entrada. Ela passa as mãos na saia e abre espaço para um bichinho entrar também.
— Eu trouxe meu gato, se não se importar — ela diz. O gato se esfrega nas pernas de Sett, que coça a cabeça, envergonhado.
— Não tem problema, eu acho — ele responde. — Minha mãe adora gatos.
Sett não tira os olhos do gato de Janna. Para ele, isso não é um gato nem a pau. Ele é branco, exceto suas orelhas e cauda desnecessariamente grandes, que são da cor do cabelo de sua dona. Um chifre amarelado, pequeno e peludo chama atenção bem no meio de sua testa, seus olhos são bastantes separados, fazendo Sett lembrar de um alienígena — el chupacabras. Sett se estremece.
— O nome dele é Zéfiro, ele não morde.
— Claro — Sett responde confiante, mas ainda com receio.
Eles sobem as escadas e o gato pula na cama de Sett, ronronando. Janna tira de sua bolsa o seu caderno e dá para Sett. Ele se deita perto de Zéfiro e começa a copiar todas as anotações que Janna fez hoje na aula de geometria. Zéfiro finge estar dormindo, Sett sabe disso. Consegue ouvir seus pensamentos malignos.
Janna se acomoda na escrivaninha de seu colega e tira um pequeno livro de poesia da sua bolsa. A mãe de Sett interrompe e entra no quarto, com uma bandeja. Ela sorri ao ver Janna, acha ser uma boa influência para Sett, que está no caminho errado, assim como seu pai estava.
— Vi que chegou alguém. Trouxe chocolate quente, está um frio lá fora!
Janna segura a bandeja e agradece.
— Deve estar uma delícia, senhora Mãe do Sett.
— Nada disso, me chame apenas de Mãe — ela ri e deixa o quarto.
Sett enrubesce, levanta e fecha a porta.
— Que vergonha! Por favor, não chame minha mãe de Mãe, isso não é aquele filme sobre a bíblia.
Janna levanta o dedo mindinho enquanto bebe um gole da bebida quente.
— Relaxa um pouco. Sua mãe é legal.
Sett recolhe uma xícara e se senta na cama, deixando as anotações um pouco de lado. Ele quer conversar.
— Você está na escola há muito tempo, Janna. Deve saber algo sobre Xayah, Rakan e a turminha de populares.
Na verdade, Sett não se importa com os outros, mas tem curiosidade sobre o casal da sua mesma espécie. Quase mesma espécie — Sett é mestiço. Quer saber tudo sobre eles e qual o segredo deles. Todos no grupo são vastaya, menos Sarah. Sarah é diferente, mas também guarda um segredo. Ela deixa explícito mostrando Baki e Boki em público dia sim, dia não.
Janna fecha os olhos. Janna pode saber demais, Janna pode saber de nada. Xayah e Rakan, ambos falaram sobre todos terem animais de estimação peculiares, Baki e Boki, da Sarah, são bem peculiares. Zéfiro também não parece nada com um gato, apesar de ronronar.
— Eu ouvi dizer que todos têm bichinhos...
— Não — interrompe Sett. Ele está cansado dessa mesma resposta. — Eu sei que eles guardam outro segredo, devem formar um culto ocultista, ou algo do tipo. Seu gato também é bem peculiar.
Janna ri
— Sim, Zéfiro é bem peculiar, não sei explicar ele. Ele é diferente, assim como eu.
Ela move uma de suas mechas para trás, revelando uma longa e pontuda orelha. Mas Janna não é vastaya, ela é diferente. Não é novidade para Sett, na Academia Solari de Ferro e ao redor do mundo todo existem pessoas diferentes. Existem os humanos, existem os vastayas e existem vários outros. Janna é uma dessas espécies diferentes e únicas. Sett a compara com um elfo, por mais que isso seja apenas ficção. Mas muitas coisas que parecem ficção existem.
Janna bebe outro gole.
— Eles são um grupo de amigos bem próximos, eu os observo de longe. Sarah é a única humana e ela demonstra total respeito aos seus colegas e os defende quando é preciso. Ahri é a líder, todo grupo precisa de um líder para comandar, mas tem outros que discordam, que é o caso da Xayah. Ela detesta receber ordens, mas adora mandar no seu namoradinho, Rakan. Neeko é a mais inocente, eu não sei o que ela faz no meio deles, o mundo está uma loucura.
Sett ouve tudo enquanto beberica seu chocolate quente, já nem se importando com o encarar do gato. Xayah se aproveita da ingenuidade de Rakan? Sett pensa, mas logo descarta, ela parece se importar bastante com ele, por mais que seja durona. Mas pelas coisas que ela falou no quartinho do zelador, Sett também descarta a opção de ela ser durona. Ela é assanhada.
Ele balança a cabeça, não quer ter pensamentos impuros perto de sua amiga. Ele lembra da joia que Xayah procurava no armário do zelador Yorick e estala o dedo.
— Hoje eu vi a Xayah com uma joia, era verde e brilhava. Mas era diferente, não parecia ser de nenhum colar, era apenas uma pedra pontiaguda, bonita.
Janna levanta o dedo.
— Ah! — Ela procura pela sua bolsa e tira uma joia roxa e brilhante, parece um pouco a que Sett viu mais cedo. — Se parecia com isso?
Sett se aproxima e gargalha.
— Sim! Exatamente assim! Mas a dela era um pouquinho diferente. Tinha apenas quatro pontas, a sua tem cinco. O que é isso?
Janna estreme e guarda sua joia logo em seguida, se arrependendo de ter mostrado para seu parceiro. Ela se esqueceu que também a guardava em segredo. Ela bebe outro gole e pensa em uma resposta rápido.
— É uma gema colecionável de um desenho animado bastante famoso. Existem diversas gemas e você pode obtê-las na banca de jornal mais próxima.
Sett esfrega seu queixo, ainda pensativo. É só isso que Janna tem a dizer? Ele gosta de puxar assunto, então se lembra do brilho que viu na noite anterior. O brilho que tocou sua alma.
— Eu te ouvi conversando com suas amigas sobre constelações mais cedo — ele diz. — Ontem eu vi uma estrela específica. Ela, por um momento, soltou um brilho tão forte que me chamou a atenção. Como se fosse um pedido de socorro. O que pode ter sido?
— Deve ter sido a primeira estrela — ela responde. Por mais que seja pura, Janna começa a se xingar mentalmente por ter revelado outro de seu segredos para Sett. Ela é facilmente convencida a falar o que não deve.
— Primeira estrela?
Janna grasna.
— ... a primeira estrela que eu vi no céu noturno e escuro, no dia em que minha doce e linda mãe se foi. Eu era tão nova, hoje vivo no mundo sozinha.
Janna suspira mentalmente. Uma porta leva a outra. Sett não precisa saber que é mentira.
— Nossa, que droga Janna. Eu não sabia. Sei bem como é isso, meu pai foi embora antes mesmo de eu nascer. Ele não está morto, mas eu desejaria que sim.
— Não fale isso! — Janna o repreende, levantando um dedo. — Desejar a morte das pessoas é completamente errado.
Sett abaixa a cabeça e se levanta da cama.
— Desculpe, Janna. Foi a emoção. — Ele hesita por um momento, então decide falar. — Eu preciso te mostrar uma coisa, Janna. Você é minha pessoa de confiança, queria que soubesse.
Com muito nervosismo, Sett tira o gorro roxo de sua cabeça, expirando e mostrando suas fabulosas orelhas vastaya. Ele torce a boca e olha para baixo após ver a reação de Janna, boquiaberta. Ela se levanta e contempla seu amigo de perto.
— Minha nossa, Sett. Você é um vastaya!
— Metade vastaya — ele a corrige. — Minha mãe se apaixonou por um humano. Eu sempre tive vergonha de me assumir, as pessoas olhariam feio para mim.
Janna agarra seu braço, apertando-o.
— Claro que não, as pessoas não são mais assim. Os tempos mudaram, cada pessoa no mundo é especial. Eu aceitei minhas orelhas desde que me entendo como gente. Não tenha medo de mostrar as suas.
As palavras de Janna são fortes e penetrantes, Sett se sente tocado, seu coração bate mais forte. Ele se aproxima de Janna e, no calor do momento, tenta beijá-la. Mas ela recua e dá um tapa fraco no seu rosto, empurrando-o.
— Hum, eu vou fingir que isso não aconteceu. Fico muito feliz que tenha se aberto para mim e espero que você tenha coragem de se aceitar e mostrar para todos que você tem orelhas diferentes e fofas. Agora, volte a fazer as anotações.
Janna se senta e volta a beber o chocolate quente, já não tão quente, e folhear as páginas do seu livro, já não tão interessantes. Sett enrubesce e volta para a cama depois de devolver sua xícara para a bandeja.
— Certo, foi mal. Foi o impulso.
Ela não responde.
Por mais que Sett tenha ficado envergonhado no último momento, ele se sente inspirado e pronto para falar a verdade. Falar para todos que ele é vastaya. Sett se sente pronto para orgulhar sua mãe, de mostrar para todos quem realmente é.
Mas ele não se importa tanto com todos os outros, ele só se importa de se assumir para uma pessoa em específico, alguém que não sai de seus pensamentos ultimamente. Porém, no fundo, ele sabe que Rakan vai aceitá-lo.
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