Toda garota precisa de um melhor amigo
24 Capítulo 23
Notas iniciais
POV Luiz
Acordei às sete da manhã. De um sábado.
Havia algo errado.
Todos os despertadores estavam estritamente desligados para todo o final de semana, mas algo me despertou. Em um reflexo eu estava acordado, e com uma sensação estranha.
Lembrei-me de Anna. Da ordem que seu pai me dera na última ligação de Anna para casa.
“Acompanhe-a até o banco e tome conta dos gastos dessa menina, ou acabará tudo mais uma vez em sapatos. Conto com você, Luiz”.
Palavras de Alessandro Albertini.
E justamente hoje a desmiolada ia sacar o dinheiro que o pai depositou. Como uma pessoa conseguia gastar todo o dinheiro disponível pra o mês com coisas que ela realmente não precisava, eu não sabia.
Mas tinha outra coisa ainda pior me trazendo dor de cabeça.
Não entendia o que havia com Anna.
Passamos a noite anterior juntos, e depois do melhor sexo que já tivemos, ela simplesmente surtou.
Parecia avoada como sempre, mas com algo diferente nos olhos azuis. Algo além da curiosidade costumeira. Algo desesperador.
Se as mulheres ao menos nos dissessem de uma vez o que diabos elas tanto pensam, o mundo seria um lugar bem melhor.
Porque eu não entendia. E minhas habilidades de adivinhação não eram lá essas coisas.
Agora quase duas da tarde, eu precisava antes resolver o assunto dos gastos dela. Antes que a desajuizada partisse do caixa diretinho gastar tudo descontroladamente.
Peguei o celular pra ter notícias do seu estado físico e psicológico, que revezava bastante entre conturbado e louco de pedra, e esperei que a mentecapta me atendesse.
Após algumas chamadas, a ligação caiu em caixa postal.
Tentei novamente, e mesma coisa.
Uma última. Nada.
Peguei as chaves, carteira e saí.
POV Mari
De todas as situações que eu já imaginei acontecendo na minha vida, desde pessoas num cruzeiro de férias começando a se comunicar em uma língua alienígena como se fossem o próprio ET de Varginha, até Richard Gere me convidando pra viver na pele de Vivian Ward em Uma Linda Mulher com direito a uma máquina do tempo que o deixasse jovem novamente pra que pudéssemos dar uns amassos... Nunca, nunquinha mesmo eu pensei que passaria por isso.
O professor por quem eu arrastava um caminhão, completamente arriada os quatro pneus, e jurava nutrir por mim uma – nem que fosse pequena, bem pequenininha – atração, encontrava-se no maior clima de musical da Broadway, afinadíssimo com aquele que até então eu pensei ser meu amigo.
Cantavam em coro Otherside do RHCP, num tom que mataria Anthony Kiedis de vergonha, como se fossem os best bros de uma vida inteira.
— Porra, essa música é foda. – falou Robert após o fim da música, cheio de intimidades pra usar esse tipo de vocabulário.
Kauã concordou com a cabeça, com o olhar nostálgico.
— Ei, professor! – exclamou de repente. – Coloca aí Tell Me Baby.
Robert sorriu como se ambos estivessem pensando exatamente na mesma música.
E então aquele momento da minha vida se resumiu a dois caras mal prestando atenção em mim, enquanto cantarolavam you’re so lovely, are you lonely*, e eu só conseguia pensar em “sim, estou”.
*Você é tão adorável, está se sentindo solitária?
Com a cabeça encostada no vidro do carro, e o bocó número um disputando quem cantava Tell me baby de forma mais ridícula com o bocó número dois, comecei a refletir sobre quando eu havia passado a cometer pecados tão deploráveis a ponto de merecer tal castigo.
Tudo que eu queria, naquele momento, era estar morta.
Já estava levantando os braços para ver se Deus me puxava logo, quando Anthony Kiedis vem em pessoa mandar a vergonhosa desentoação daqueles dois pra bem longe da minha presença.
Ok. Ele não veio pessoalmente. Mas poderia.
E, outra vez, chega ao verso “tell me lover, are you lonely?”, onde Kiedis parece magicamente ler minha mente.
Sim, Kiedis. Por acaso estou no meio de dois maravilhosos deuses-gregos, caídos diretamente da minha fantástica Gatolândia, e ambos parecem dois patetas.
Portanto, cá estou eu, solitária. Enquanto os dois insistem inutilmente em alcançar as notas certas.
Naquele momento minha única atitude foi começar a calcular o orçamento pra mandar aqueles dois diretinho pra uma escola de música.
— Under the bridge agora, professor. – sugeriu pouco depois da brisa momentânea que ambos compartilharam.
Eu parecia mesmo estar sobrando ali.
— Boa! – Robert concordou, cutucando alguns botões do player.
“Sometimes I feel like I don't have a partner
Sometimes I feel like my only friend
Is the city I live in, the city of angels
Lonely as I am, together we cry”
Só podia ser uma brincadeira muito bem planejada por anos a fio do Todo-Poderoso. Não havia qualquer outra explicação.
Bem no momento em que comecei a calcular os danos caso abrisse a porta e me jogasse na sarjeta de uma vez, um som ecoando “vem na maldade com vontade chega encosta em mim” se sobressai sobre os dois desentoados e eu me dou conta que é meu celular tocando desesperado na bolsa. Era Luiz, talvez em um sinal da – finalmente – preocupação divina com a minha atual situação.
“Que seja algo que me livre daqui, que seja algo que me livre daqui...”
— Hum, alô?
— Mari... Preciso que você venha ao hospital agora.
Olhei para os dois bocós que me encaravam sem entender a súbita expressão que invadira meu rosto.
— Que aconteceu?!
— Liguei pra Ana e ela não me atendeu, fui atrás dela e a encontrei jogada na cozinha.
Fiquei atônita, acho que levemente amarela, provavelmente seria a próxima a desmaiar, até que Luiz gritou no meu ouvido e me passou o endereço de onde estavam.
— Quem era, ma bellle?— Kauê questionou preocupado.
— Precisamos ir ao hospital. Agora.
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