To be good or to be evil
6 Luisia
– Ahhhhhhh. – Luisia se espreguiçava. – Nossa Senhora, que preguiça! Não queria levantar dessa cama nunca.
– O dia está lindooooo, irmãzinha! – Lucas entrou cantarolando no quarto.
Luisia cobriu novamente a cabeça com o cobertor, Lucas pulou na cama e deu vários beijos nela, na cabeça e na bochecha e fez cócegas na sua barriga. Os dois começaram uma briga de travesseiros e acabaram deitados na cama, rindo.
O quarto inteiro de Luisia era verde, como a maioria das coisas dela. Verde era sua cor preferida, mas era mais como uma obsessão. Lucas e as meninas achavam que tinha a ver com o fato da cauda dela ser verde, mas ninguém tinha certeza, nem ela mesma.
Luisia era uma garota inconstante. A mais bipolar do grupo. Ela tinha dias em que era maravilhosa, ajudava todas, ria o tempo todo, trazia graça ao grupo. Mas tinha momentos que pensava apenas em si mesma e dava um show por qualquer coisinha.
Seu irmão conseguia animá-la como ninguém. Com ele ela quase nunca tinha dias ruins.
Os dois tinham um laço muito forte. A união que eles tinham quando nadavam... Luisia e Lucas entrelaçavam os dedos e nadavam como se não houvesse mais nada no mundo, era a melhor sensação que eles poderiam sentir. As caudas dos dois brilhavam e eles poderiam cantar...
Quer dizer, Lucas poderia cantar. Ele tinha uma voz linda, fazia qualquer um relaxar apenas com um cantarolar.
Já Luisia... Ah, ela era um caso raro entre a lenda das sereias. Geralmente toda sereia canta bem, é um dos maiores orgulhos deles. E Luisia cantava quando tinha 15, 16 anos... Depois disso a voz dela foi se perdendo cada dia mais e mais. Parecia que algo se alimentava da sua música interior... Isso doeu demais nela. Para uma sereia, perder a voz é como perder a visão para os seres humanos normais.
Por sorte ela não ficou muda, só foi deixando de cantar com o tempo... Mas isso doeu mais nela do que se ela tivesse perdido uma orelha ou um olho.
Eles sempre diziam que suas partes mais importantes eram a boca e as pernas.
Com o tempo Luisia se acostumou a não cantar, mas pelo fato de sempre ouvirem Lucas cantando, às vezes suas amigas diziam algo como “tem cantado muito?” para ela, o que só a magoava muito mais.
Luisia sabia que tinha um mistério por trás disso, pois não era normal uma sereia tão nova não conseguir mais cantar. E às vezes ela tentava. Uma vez por semana, Lucas tentava auxiliá-la enquanto nadavam, mas até agora isso não trazia resultado nenhum.
Suas amigas sentiam falta da sua voz musical. Mas ela sentia muito mais.
...
Lucas colocou o café na mesa, o pão de Luisia já estava pronto.
Luisia levantou as sobrancelhas e olhou ao redor, estranhando.
– Que que é, hein? Você com certeza tá querendo alguma coisa para fazer meu café da manhã assim, sem reclamar. Sua namorada ta querendo dormir aqui e você quer que eu saia, é? Não vai rolar, essa é minha casa tamb...
– Luisia, shhhh. Sem estresse. Eu só tive um ótimo dia ontem e quero que hoje seja bom também. – Ele suspirou, sorrindo, com o olhar perdido. – Pode ser ou tá difícil?
– Tá né, se você ta dizendo.
Comeram juntos e tiveram um ótimo café da manhã. Depois foram para a escola.
...
Luisia entrou na sala, infelizmente ela fazia essa aula sozinha. Pegou seu celular (que era verde) e começou a conversar no grupo com as amigas, enquanto a professora não chegava. As meninas faziam piadas e zuavam e Luisia ria baixinho no seu canto.
“Sério que eles nos deixam em salas separadas na faculdade, mas deixam o wifi ligado?” enviou Veliria. “Hello, óbvio que a gente vai conversar por aqui a aula toda e não vai prestar atenção, então na verdade eles que são os culpados pela nossa falta de atenção.” Todas mandaram risadas e emoticons concordando e batendo palmas.
Realmente, nessa aula Luisia raramente prestava atenção. Ela gostava muito da sua professora, pois ela sentia que o poder dela se relacionava com água ou o mar (no entanto ela não sabia bem o que era), mas Luisia sempre perdia o foco quando estava sozinha, então essa aula nem rolava pra ela.
A professora entrou na sala e Luisia deixou o celular em cima da mesa, daqui a pouco ela pretendia pegar de novo.
– Oi queridos, como foram as férias? – alguns alunos responderam, os que estavam mais próximos dela. Uma menina disse “vários nadas”, alguns balançaram a cabeça e Luisia falou baixinho “com muita água.”
A professora, que se chamava Rosa e tinha um pouco mais de 24 anos, sendo a pessoa mais velha que Luisia conhecia.
– Você nadou muito, Luisia? Parece que eu ouvi você citando algo sobre água. Eu também nadei bastante.
“Cacete, como ela ouviu?”
– É... Sim, professora. Gosto bastante de água, vocês devem imaginar porque rs – todos deram risinhos de concordância. A professora manteve a mesma expressão, seria um sorriso falso?
– Ok, então vamos começar a aula. Hoje falaremos de anatomia.
– Opa, disso eu manjo! – gritou um menino lá no fundo e todos riram, inclusive Luisia.
– Ricardo, você quer vir aqui dar aula?
Todos viraram para trás para encarar o menino. Quando Luisia viu, teve até que piscar umas três vezes. Ela se lembrava dele em algumas aulas com ela, antes das férias, mas ele era completamente irrelevante. Agora ele estava sensacional! “O que mudou?” ela pensou.
Ele tinha deixado o cabelo crescer... E isso era algo que atraía muito Luisia. O cabelo grande e loiro combinado com os lindos olhos claros... meu Deus!
Luisia percebeu que estava encarando demais e voltou a olhar para frente, enquanto ele respondia:
– Não professora, vou deixar seu trabalho para você mesmo.. – disse com um sorrisinho.
– Nós vamos fazer um trabalho em grupo. Como nosso amigo Ricardo aparenta saber muito da matéria, ele e sua dupla serão os primeiros a apresentar. – Todos os demais deram graças a Deus e ele já foi se aproximando de um amigo para formar sua dupla, fazendo um toque com as mãos. – Não não, eu não disse que você escolheria a dupla. – ele olhou para a professora, meio transtornado. – Nenhum de vocês escolherá, eu estou com a minha prancheta aqui com a minha lista de duplas. Começando por você Ricardo... e Luisia. – Luisia congelou, enquanto isso a professora falava o resto das duplas e o pessoal se levantava e sentava perto dos seus parceiros.
Ricardo levantou-se e veio na direção de Luisia, puxou uma cadeira e sentou com ela.
– E ai gatinha. – piscou. – Quer dizer.. Sereia. Hahaha
– E ai. – Luisia decidiu pensar apenas no trabalho e caso ele tentasse graçinhas, se fazer de difícil, pois ele parecia bem mulherengo. – Eu não manjo muito dessa matéria não, já aviso.
– Eu acabei de falar que eu manjo, então relaxa.
– Eu pensei que fosse brincadeira. Você sempre tem suas piadinhas, às vezes não sei quando é sério. – Luisia tentava lembrar qual criatura ele era, mas não conseguia.
– Sua beleza é séria.
Luisia que tinha acabado de pegar sua garrafa para beber água e tinha descido ela nesse instante, teve um mini espasmo e esbarrou na garrafa aberta. Ricardo esticou o braço mais longe do que um humano conseguiria e pegou a garrafa antes dela cair no chão.
– Uou, você é tipo um homem elástico então?
– É o que dizem.
Luisia viu que seria uma manhã longa. Mas pelo menos ela teria esses lindos olhos azuis para olhar.
...
Era difícil trabalhar com Ricardo, ele ficava com graçinhas o tempo todo, indiretas sem nem hesitar. Ele era aquele típico “atira para todos os lados”.
– Mas então, você já namorou?
A pergunta pegou Luisia de surpresa.
– Hm... Não. Nunca tive nada muito sério com ninguém, não sou de me envolver muito com as pessoas. – ela ficou meio vermelha. – Você já deve ter tido umas 5 namoradas, com certeza..
– Na verdade só uma. Haha.
– Sério? – por essa ela não esperava.
– Sim... Eu namorei uma menina a minha vida inteira (desde os 15 anos rs), e terminamos no final do semestre passado, antes das férias.
– Nossa... Mas eu nunca soube que você namorava.
– Nós não saíamos falando para todo mundo. Na verdade todos aqui da faculdade acham que eu sou o maior pegador da escola, só porque eu fico de graçinha pra cima de todo mundo. Mas eu sempre tive só ela na minha vida... Ela tinha o poder de ser invisível (peguem essa referência, haha!) e parece que foi isso o que ela fez mesmo, sumiu.
Luisia nunca tinha visto ele assim, tão aberto, tão disposto a conversas.
– Eu... Sinto muito. Mas a vida segue e você com certeza vai achar alguém.
– Na verdade eu não estou ligando muito para isso agora, eu tô de boa de namorar haha mas olha, vou te falar, é bem mais engraçado jogar as graçinhas pra cima das meninas sabendo que talvez poderia dar certo, né não? Hahaha
– É... – Luisia não sabia por que, mas ficou meio incomodada com esse comentário.
– Ok, eu vou começar a responder as perguntas aqui então, Lu..
...
Tocou o sinal do intervalo e Luisia saiu rapidinho. Chegou ao ponto de encontro dela e das meninas primeiro que todas e sentou-se.
– Eita menina, cê ta rápida hoje hein? Sempre chego primeiro. – Mostich comentou.
– Eu tava com pressa, Mo. Minha primeira aula foi muito chata... Anatomia é sempre chato já que eu não manjo muito e nem presto muita atenção, mas pelo menos hoje tive lindos olhos azuis de um gatinho para eu olhar.
– Eu ouvi gatinho? – falou Marcabeth, chegando. – É daqui da faculdade? Será que eu já peguei?
– Para de ser puta amiga, pelamordeDeus. Nem na faculdade ela se controla... Se não bastasse ser bêbada.. – Aluria falou, séria. As outras meninas riram alto, Marcabeth inicialmente ficou séria, mas depois caiu na gargalhada também.
– Mas sério, quem é o boy? Conta tudoo. – falou Penton.
– Vocês não vão acreditar! É o Ricardo. Provavelmente alguma de vocês tem aula com ele também, é um loirinho de olhos claros. Ele tinha o cabelo mais ou menos curto no semestre passado, mas agora ta grande. M-a-r-a-v-i-l-h-o-s-o, migas!
Elas começaram a comentar sobre o novo crush de Luisia, mas o tempo foi pouco e o sinal tocou.
...
Luisia entrou na segunda aula, e quem estava nessa turma? Douglas! Ela adorava como o destino adorava caçoar dela.
A situação dela com Douglas era complicada... Eles já tinham se pegado umas duas ou três vezes, inclusive da última vez que saíram (quando ela tentou cantar pra ele, não conseguiu, e estava envergonhada até hoje), mas as meninas não sabiam disso. Ela já tinha contado para Aluria em uma festa, já que ela era irmã dele e merecia saber, mas aquele dia ela teve uma transformação tão pesada que não lembrava de nada.
Ela não sabia se Douglas tinha contado para os meninos, mas imaginava que não.
O pior é que como ela ficou até em cima da hora conversando com as meninas, ela não conseguiu fugir dele e correr pro outro lado da sala. Só tinham dois lugares na sala vazios, e os dois eram próximos a ele.
Ela pegou um que era a duas fileiras de distância, mas não adiantou porque ele mudou de lugar e veio pra perto dela, no que sobrava. Quando ele chegou perto, ela percebeu que ele estava ouvindo These Four Words do The Maine (ouçam, mores!) a música deles.. A música que eles ouviram quando deram o primeiro beijo. Luisia estremeceu com a lembrança.
– Ei, como você tá? – Douglas era uma pessoa interessante. Dependendo da fase da lua ou sei lá do quê, talvez de Deus, o humor dele mudava. Às vezes era carinhoso e corria atrás (raramente), mas geralmente o orgulho e a raiva falavam mais alto.
– Eu estou bem e você? Faz tempo que não nos vemos. – Luisia não sabia e nem queria puxar assunto com ele.
– Hm, na verdade não. Nos vimos um dia antes das aulas voltarem, na casa da Jessie.
– Verdade.
– Eu estive pensando em você... A última vez que a gente se viu... Foi bom. E a gente poderia fazer de novo.
Sabem o que eu falei sobre Luisia ser impulsiva e bipolar? Nesse momento ela só pensou “foda-se”, que era a frase que melhor representava sua vida.
– Você quer saber de uma coisa? – ela fez uma cara tão determinada que assustou Douglas, pois foi muito de repente.
– Hm... quero?
– Eu vou sair. Agora. Vou pro banheiro, me encontra lá fora. Espera um pouquinho pra ninguém perceber.
Ao falar isso, ela pegou o celular e saiu, fingindo que ia falar no telefone, deixando um atônito Douglas na sala. Depois de 4 minutos, ele chegou no banheiro.
– Eu cansei de esperar minha voz voltar para ter minha chance com você.
Douglas ainda estava de fone de ouvido, começou a tocar Part of Me, da Katy Perry (ouçam, mores!) , essa sim era a música dela. Douglas pegou um dos fones e colocou no ouvido dela, e em seguido aproveitou para beijá-la. Ela o agarrou mais forte do que ele esperava, e foram tantos beijos, tão intensos, que os olhos de Douglas ficaram amarelos por um segundo e ele pensou que ia perder o controle. Mas Luisia colocou as mãos nas costas dele e o acalmou.
Os beijos foram longos e duradouros como nunca tinham sido, pois Luisia sentia que seriam os últimos em muito tempo. Como ela podia cogitar a possibilidade de achar aquele outro Zé Ninguém bonito? Era desse menino que ela estava agora que ela gostava. Ou não...
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