To be good or to be evil
5 Jessie
Jessie estava cinco minutos atrasada e isso estava deixando ela louca. Ela era a pessoa mais racional, mais calma, mais compromissada e mais “mãe” do grupo. Ela dava conselhos, sempre pedia calma em situações extremas, sempre tentava ver o lado bom das coisas...
– Ô bestona, vai esquecer sua chave. – disse Kaique.
Jessie tinha paciência até com seu irmão Kaique, e isso sim era raro porque ele tinha um gênio impossível. Ele era mais do que o oposto a ela, já que além de não ter nenhuma das qualidades da irmã, ele só mostrava seus defeitos para todos os outros, exceto seu grupo de amigos.
– Me dá logo isso, Kaique! E tchau! Tô indo no shopping com as meninas, até mais tarde. – ela beijou o irmão na testa, como uma mãe faria, e ele esfregou a testa, e disse baixinho “para com isso, vai logo, tchau”.
– As meninas devem estar preocupadas. – falou Jessie para si mesma, enquanto fechava a porta.
O shopping era pertinho se Jessie fosse com seu carro, mas ela pensou “já estou atrasada mesmo, dane-se”.
Ainda bem que por coincidência a regata que Jessie usava hoje era aberta nas costas, ela abriu suas fantásticas asas prateadas e decidiu ir para o shopping voando. Ela chegaria bem mais rápido assim, com certeza.
Levantou vôo, era uma sensação maravilhosa, como sempre. A melhor sensação que ela poderia sentir. Ela se sentia liberta, feliz, capaz de fazer qualquer coisa.
Quando estava no ar, olhou para o lado e viu Kaique, sorrindo com o vento batendo em seu rosto.
– O que você ta fazendo aqui, garoto?
– Sei lá, decidi voar um pouco. Acho que a gente poderia ficar um tempinho juntos, maninha. – falou, piscando.
– Mas eu já estou atrasada... – ela ia insistir e ia voando rápido para o shopping. Mas não resistia ao pedido de seu irmão e decidiu se atrasar um tempinho a mais...
Tudo o que Kaique negava quando estava no chão, aparecia quando ele voava. Ele se fazia de garoto malvado, mas quando ele estava no ar não existia mais nada.. Só ele, Jessie e as nuvens. Era o momento preferido dos dois, pois ambos faziam algo que amavam... e juntos.
Eles conversaram um pouquinho e riram... Sempre trocavam abraços no ar, voavam de mãos dadas, quem visse de longe até se enganaria pensando que eles eram casal, mas simplesmente era um momento íntimo demais para compartilhar com alguém que não tivesse asas... E Jessie amava esse momento que era só dois, já que Kaique nunca se abria com ela.
– Você sabe que você poderia ser sempre assim né? Todo mundo ia gostar bem mais de você, ia fazer amizades mais fáceis e arranjar menos brigas...
– E qual seria a graça nisso? Hahaha. O meu jeito é a única coisa que dá graça nessa cidade... Você e todos daqui sabem disso, por isso arranjo tantas brigas. Não gosto de gente que não consegue lidar com meu brilho. – Jessie revirou os olhos. – Literalmente haha – Kaique virou e jogou o brilho de suas asas na cara da Jessie, que ficou cega por alguns segundos e depois riu e bateu nele.
– Ok, agora eu tenho que ir mesmo. Já estou super atrasada, as meninas devem estar loucas.
Kaique chegou perto e deu um beijo na testa de Jessie.
– Vai lá, vou voar mais um pouquinho. Até mais tarde. – ao dizer isso, saiu voando para o lado contrário.
.....
Jessie chegou ao shopping em 8 minutos, ou seja, com quase 25 minutos de atraso do combinado. Ao mesmo tempo em que ficou triste por seu vôo não ter sido tão longo quanto ela gostaria e por ter perdido o lindo momento com seu irmão, ficou desesperada por estar muito atrasada. Ela ficaria horas esperando alguém, mas odiava deixá-los esperando.
Jessie chegou voando à entrada principal do shopping e desceu ali mesmo. Ela queria deixar as asas soltas por mais tempo, mas não achava muito confortável ficar com asas abertas em lugares fechados.
Entrou no shopping, viu duas colegas de classe, uma vampira e uma raposa (ela não era literalmente uma raposa, mas tinha todos os sentidos do animal e podia tomar a forma de raposa quando quisesse), cumprimentou-as.
Apressou o passo e chegou à fonte central do shopping, o lugar dela e das amigas, sempre seu ponto de encontro. Todas já estavam lá, com olhares preocupados.
– Caramba Jessie, você nunca chega atrasada! Estávamos preocupadas. – disse Luisia.
– Eu sabia que vocês iam dizer isso hahaha eu me atrasei porque acabei me distraindo nas tarefas de casa e depois vim voando para chegar mais rápido.. Aí acabei voando um pouco mais com o Kaique.
– É engraçado quando você fala “vim voando” porque se estivéssemos em um mundo em que as pessoas não têm poderes, simplesmente achariam que você veio rápido hahaha – observou Mostich.
– Nem para me dar uma carona né Jess? – disse Veliria.
– Oi meninas! Desculpa o atrasoooo, pra variar. Eu estava correndo na mata e acabei perdendo um pouquinho o horário haha – falou Aluria.
Ok, nem todas estavam ali.
– Com a Aluria se atrasando a gente nem se preocupa mais... segue normal. – disse Penton e todas riram.
As amigas conversaram um pouco, sentadas na fonte e depois caminharam um pouco no shopping, mas decidiram não ficar muito tempo já que aquele tinha sido apenas o primeiro dia de aula.
Jessie estava se preparando para ir embora com as amigas quando o celular tocou. Era Lucas, seu namorado.
– Oi amor. – falou ele.
– Oi Lu.
– Onde você tá? Queria te ver, nem nos falamos muito hoje.
– Eu tô aqui no shopping com as meninas, mas elas já vão embora. Quer me encontrar aqui?
– Ok, eu te encontro ai, já to indo. Te amo! Beijos.
– Ok, se apresse porque não quero ir muito tarde para casa. Beijos.
Todas as meninas foram para casa, exceto Marcabeth (que era a que morava mais perto do shopping e decidiu ficar um pouco mais) e Jessie que esperava seu namorado chegar.
– Jess, eu ia esperar com você o Lucas chegar, mas já faz um tempinho e ele não chegou ainda.. Acho que eu vou indo, porque tenho umas coisas pra fazer, você fica de boa sozinha?
– Com certeza amiga. Não deixa suas tarefas se atrasarem não! Até amanhã, beijos.
Ao se despedir da amiga, Jessie decidiu colocar uma música e andar um pouco enquanto esperava o namorado. Colocou Problem da Ariana Grande para tocar e saiu andando, cantarolando. (ouçam, darlings!)
Enquanto olhava as mesmas lojas pela terceira vez, ela cantava e andava distraída. Dizia: “I got one less problem without ya” quando esbarrou em alguém. Não foi um esbarrão sensual como geralmente acontece nessas ocasiões do destino, mas um esbarrão doloroso.
– Opa, mas eu nem te conheço, como posso ser um problema para você? – falou o moço, segurando o braço onde ela tinha batido. Provavelmente o peso das suas asas tinha ido com tudo no menino, já que ela bateu com as costas nele.
Ela olhou para ele, já ia dar uns belos xingos, mas se controlou, afinal, ela era a controlada do grupo. Respirou de novo e finalmente olhou para ele.
Meudeusdocéu, como ele era lindo! Alguém a perdoe, mas ela nunca tinha visto alguém tão lindo antes. Ele tinha os olhos claros e aquela cara típica de bad boy. Tinha muitas tatuagens, algo que sempre atraiu muito Jessie mas ela nunca tinha dito em voz alta. Ela sentiu algo... diferente.
Na verdade o fato dela gostar de bad boys estava no seu íntimo, nem ela sabia disso. Ela era meiga e fofa, seu namorado era o completo oposto de bad boy, mas quando ela via um na rua... Seu coração batia um pouco mais forte.
– O esbarrão doeu em você como doeu em mim, moça? Tá tudo bem? Você parece meio sem reação. – falou ele.
– Não, não. Eu tô bem. Desculpa, acho que foi porque você bateu nas minhas costas, minhas asas devem ter pesado sobre você.
– Asas? Ah, então tá explicado! Sabia que uma garotinha como você não tinha como me machucar assim tão fácil. E você que bateu em mim né, eu estava aqui de boas na minha.
– Como é que é? Eu acabo com a tua raça em dois p, garoto! – isso foi o que veio a mente de Jessie. E se fosse qualquer uma das outras meninas, isso que ela teria falado. Mas como era a racional, ela só disse: — É, muito engraçado. Seu machismo tem muita graça. Desculpa, fui eu mesma.
– Opa, moça brava haha. Acabaria comigo né? Eu tô zuando com você. – ele piscou. – Como é seu nome, afinal?
– Eu sou a Jessie, prazer. E você quem é?
– Meu nome é Roberto e com certeza o prazer é todo meu. – Ele se aproximou e a beijou no rosto, ela chegou a tremer um pouquinho, mas disfarçou rapidamente. – Você é uma anja pelo que eu entendi, certo? Fica perfeitamente bem contigo, eu sempre imaginei que os anjos seriam lindos assim se eles existissem lá no céu.
O coração de Jessie acelerou como não fazia há tempos.
– Sim, sou uma anja rs – ela deu uma risadinha para disfarçar os elogios dele. Pensou em algo para mudar de assunto. – E você, qual criatura é?
– Ah, eu não sou nada. Apenas tenho poderes, não dá pra voar nem nada, como você. Mas eu sou telepata. – ele sorriu. E nossa, que sorriso lindo!
Mas peraí. Telepata. Como assim telepata? Quando a ficha caiu, Jessie entrou em desespero.
– Então você pode tipo o quê, ler mentes? A minha mente, de todos aqui? – ele estava lendo a mente dela desde o início, ele ouviu todos os pensamentos sobre a beleza dele, ele estava ouvindo isso aqui agora!
“Sim, posso ouvir sua mente. E também posso me comunicar com quem eu quiser.” – falou ele dentro da cabeça dela. – Mas não, não posso ler a mente de todos ao mesmo tempo, tenho que me concentrar.
– Caramba! Que loucura e que legal haha – Jessie não sabia mais como disfarçar.
O telefone tocou, ela deu um pulinho de susto. Era Lucas.
– Opa, eu preciso atender. Na verdade, eu preciso ir.. É meu namorado me ligando.
– Namorado? – ele arqueou uma sobrancelha. – Entendi.. Então tudo bem, foi um prazer, Jessie. – ele deu um beijo na bochecha dela, agora mais perto da boca.
– É, ta bom, até logo. Até a próxima – ela tremia um pouco.
– Com certeza a gente vai se ver de novo, anjinha. Eu te garanto. – ele piscou de novo, disse na mente dela “falou” e saiu andando, olhando algumas vezes para trás.
O celular tremeu de novo na mão de Jessie, ela voltou a realidade e atendeu. O que estava acontecendo com ela? Ela nunca perdia o controle!
– Oi Lu.
– Oi Jess, cadê você?
....
Depois de se encontrarem, eles voltaram para casa caminhando. Jessie falou que os levaria voando, mas ele insistiu em andar. Ela percebia que ele não gostava tanto de voar, não tanto quanto ela gostaria. Ele a convidou para nadar e ela aceitou, para deixá-lo feliz.
Quando chegaram na praia, ela entrou de roupa e tudo. Ele tirou a calça, estava com sua “sunga especial” de nadar que era um tipo de pano que mudava de forma para suas partes íntimas não ficarem de fora.
Eles entraram na água e a cauda dele apareceu. Ela sabia que ele não gostava de mostrar a cauda para ninguém, exceto para ela e Luisia. Ele tinha vergonha e sabia que os meninos caçoariam dele.
Jessie achava a cauda roxa simplesmente linda, esse era um dos motivos pelos quais ela continuava com ele: como ele mostrava seu lado mais verdadeiro quando estava com ela.
Eles nadavam de mãos dadas e Lucas a beijou. O beijo dele era a coisa mais doce que ela já tinha sentido na vida, a melhor sensação que poderia desejar. Eles mergulharam e ele foi guiando, ela “voando” dentro da água e ele nadando com sua linda cauda e eles se beijavam dentro da água mesmo, ao som de Who Says da Selena Gomez . (ouçam, darlings!), o celular de Jessie parecia adivinhar as músicas que a garota queria ouvir.
Jessie amava Lucas. Amava como ela não pensava ser possível amar alguém... E aqueles poucos minutos na praia com ele foram maravilhosos. O que ela não sabia era que à noite não era com ele que ela ia sonhar.
Fale com o autor