Na manhã seguinte, todos tentaram viver normalmente. Estava combinado que eles iriam para a faculdade e depois da aula investigariam a Base. O difícil é que eles nem sabiam por onde começar.

Mostich escolheu sua saia rodada rosa com uma blusinha decotada e decidiu passar no centro antes da aula. Quando caminhava pelas lojas, encontrou Joaquim. Ela se escondeu atrás de uma parede mas um segundo depois continuou andando, porque percebeu que era uma besteira se esconder de alguém que provavelmente nem lembraria dela.

Ela caminhou e parou na vitrine da loja dele, para observá-lo. Quando ela olhou para dentro notou que ele não estava mais lá. Discreta como só ela, mexeu o pescoço virando para todos os lados à procura dele e decidiu entrar na loja, quando estava com um pé já dentro, ele surgiu como se fosse mágica (e era, já que ele usou um feitiço) e disse “posso ajudar?” atrás de Mostich. Ela levou um susto tão grande que foi segurar na porta e acabou esbarrando em uns porta-joias que a loja vendia. Usando seus poderes telecinéticos, facilmente Joaquim parou o objeto no ar e o devolveu a seu local original.

— Cuidado, esses são os mais caros da loja. – ele comentou rindo.

— Garoto, vê se não me mata do coração! Você está aqui para atender ou matar os clientes? – ela gritou, brava.

— Desculpa moça, não quis te assustar. Acho que você estava concentrada demais em alguma coisa. – ela corou.

— Olha Joaquim, eu estava observando os presentes da loja, talvez eu vá comprar alguma cois...

— Joaquim? Como você sabe meu nome?

Ops. Que vacilo, como ela tinha deixado escapar algo assim?

— Eu... eu te conheço d- de...

— Sei, você é a garota do colar pro namorado. E ai, vocês ainda estão juntos? – Nossa. Ele lembrava dela. Socorro, o coração de Mostich batia mais forte. Ela apenas ficou olhando para ele, por vários segundos. – Hum... Oi? Vocês estão juntos?

— Hãn... sim. É.. – Mostich nem tinha ouvido a pergunta direito. Estava feliz demais por ele se lembrar dela, mesmo que tivesse sido tanto tempo atrás. Então ela repentinamente se lembrou de Penton beijando ele na festa que elas deram e segurou sua mão com força de tanta raiva, quase a fazendo sangrar.

— Hãn... Tudo bem? Você parece meio... desligada?

— Desculpa, é que... Você me faz ficar assim. – Mostich optou pela vibe da direta. Fala sério, ficar babando e gaguejando nunca foi muito a dela. Ela já tava de olho nesse mano há muito tempo, então sejamos sinceras... por que não tentar? Em sua mente só tocava a músiquinha “eu sou de ninguém, eu sou de todo mundo e todo mundo é meu também” ...

— Sério? – Joaquim demonstrou interesse.

— Sim, para falar a verdade eu sei seu nome porque desde aquele dia que eu comprei o colar eu tenho uma queda bem grande por você.

Joaquim corou por um instante, mas ele não parecia se abalar fácil. Mesmo sabendo que ela namorava, ele parecia não se importar.

— Então... O que você gostaria de fazer a respeito dessa queda? – ele se aproximou dela.

— Quer saber? Que se dane. – Mostich disse e pulou para cima dele. Literalmente pulou, Joaquim quase caiu com o peso repentino, porém ficou firme e forte e os dois se beijaram. Ele a puxou para debaixo da mesa do atendente e os dois ficaram se beijando ali, para que ninguém (por exemplo o boy dela) os visse ali.

— Cara, eu queria fazer isso há muito tempo. – disse Mostich. – Eu sou a Mostich, afinal.

— Você é cheia de surpresas, Mostich. – Eles se beijaram de novo. E de novo. Até que eventualmente entrou um cliente na loja e Mostich teve que sair pelos fundos. Os dois se beijaram pela última vez e se despediram. Afinal, será que eles iriam se beijar de novo?

Mostich encostou na parede do lado de fora e suspirou. Ao menos uma coisa boa para alegrar essa semana.

...

Veliria decidiu ir para a facul sozinha. Nada de Júnior hoje, ela estava cansada.

Ela já tinha passado muito nervoso essa semana, ninguém merece. Já não bastava aquele tal de Jhonatan estranho ter escolhido ela e o Miguelzinho só porque os dois eram Meio-Termos, ainda tinha todo aquele lance com a Jessie e etc. Ela estava preocupadíssima com os amigos.

Júnior queria que os dois se encontrassem para ir para a escola juntos mas nem ia rolar. Hoje Veliria estava com humor de Má e ela definitivamente não queria fazer o Júnior pagar pela sua raiva. Ela estava caminhando na rua tão entretida em seus pensamentos que quando virou a rua esbarrou com tudo em alguma coisa e caiu de bunda no chão. De início ela só se preocupava com a dor no raiz, pois tinha batido forte. Depois ela decidiu olhar em que tinha batido e também se xingava mentalmente por ser tão desastrada. Ela olhou pra frente, ainda caída no chão, mas não havia nada... só a rua. Nem um poste, nem uma parede, nem uma pessoa. Ué? Ela esbarrou no vento?

Então ela ouviu uma risada.

Automaticamente ela usou seus poderes para se transformar em vampira e usou sua velocidade e força sobre-humana para atacar quem estava na sua frente. Será que era alguém da Base atrás dela? Sentindo o cheiro e ouvindo os batimentos cardíacos ela foi na direção certa e agarrou o pescoço do indivíduo.

Automaticamente o sujeito voltou à sua forma normal e para surpresa dela e de todos, era Rafael!! O garoto estava quase morrendo sufocado com a força que Veliria o segurava.

— Você TÁ LOUCO, menino????? – ela gritou, soltando ele com força no chão. – Onde já se viu fazer piadinha desse tipo? Tá querendo me matar de susto? Você podia ter morrido! – ela até respirava acelerado, com o susto.

— Nossa, não sabia que você era dessas valentonas hein – ela falou tossindo. – Era só uma brincadeirinha.

— Muito idiota por sinal. Pra variar, você só faz idiotice. – Parece que Veliria tinha achado a pessoa certa para descontar seu mau humor.

— Uou, estamos bravos hoje né? Sua mechinha amarela deve estar pendendo pros vermelhos hoje hein, rs. Tudo bem porque eu prefiro as mais bravinhas mesmo.

— Você não tem que preferir nada, garoto. Olha bem pra mim e veja se eu tô afim de agradar algum macho. – Veliria abaixou e pegou sua bolsa que estava caída no chão. Começou a caminhar em direção à faculdade mas ele veio atrás.

— Olha só Veliria, calma... Eu só queria fazer uma graça pra te animar, você sabe como é.. Hoje eu tô num clima bom e tal..

— Já eu, muito pelo contrário.

— Ok, eu sei o que pode te animar ainda mais. – Rafael parou e a puxou para junto de si. Por um instante Veliria se deixou levar e o beijou de volta. Ela pensou na crush que tinha por ele no passado e o quanto tinha esperado por esse momento. Lembrou do rosto dele e pensou no quanto o achava bonito. Mas então Júnior veio na sua cabeça, todo carinhoso. Com aquele cabelo bagunçado e o sorriso lindo que ela amava, a aguentando até nos seus dias ruins. Todos esses pensamentos passaram na cabeça dela em milésimos de segundo. Ela empurrou Rafael com força e deu um tapa forte nele.

— Nunca mais beije uma garota à força. Muito menos uma garota que namora. Muito menos eu. Eu tô de boa de você, viu Rafael. Se você não quiser mais aparecer na minha frente por um bom tempo eu ficaria até feliz com isso.

Ela seguiu andando e ele a olhava, inconformado. Ele realmente não entendia essa garota.

...

As garotas se encontraram na faculdade. Elas comentaram as ideias para o plano de ataque, mas ninguém tinha algo muito importante a acrescentar. Todas estavam com medo, isso sim. Todos eles no geral, não só as meninas. Era bem difícil manter as aparências.

Cada uma se separou e foi para a sua aula. Depois das aulas eles se uniriam para pensar em algo.

...

Na Base.

Ravena caminhava com seu salto alto, sua saia e seu terninho social pela Base. Sua roupa inteiramente lilás (como de todos ali) combinava bem com as paredes marrons, que davam a impressão do subterrâneo. Mas eles não estavam no subterrâneo, na verdade estavam bem, bem no alto.

Ela tinha uma reunião com os chefes, de novo aquela mesa chata da diretoria. Ontem ela e Antônio tinham lidado com os problemas causados por Jhonatan e aquela pirralha Jessie e agora tudo ia sobrar para eles, para variar. Ninguém nunca queria se responsabilizar.

Ela ainda tinha 15 minutos até a reunião, por isso decidiu passar na sala de comando e coletar mais informações.

— Os Objetos estão agindo estranho desde ontem?

— Não senhora. Desde que estiveram juntos na casa de um deles, agiram normalmente.

— Ainda bem.

Ela saiu da sala e se encontrou com Antônio.

— Ah, você mesmo!

— Oi Ravena. Estava indo coletar informação dos Objetos.

— Eu já fui. Então, parece que estão todos agindo normalmente desde ontem, até foram para a faculdade. De duas uma: ou chegamos a tempo e Jhonatan não conseguiu contar nada para Jessie, ou do pouco que ela viu e não entendeu, eles não acreditaram nela quando contou. Infelizmente Jhonatan tinha desligado os microfones do local invadido, então nunca teremos certeza do que ele contou à ela.

— Certeza que ela não sabe de nada. Nenhum deles sabem, eles agem querendo demonstrar força mas notamos que eles estão perdidinho. Mais uma dificuldade e eles entram em colapso.

— Concordo. Que tal nós sermos essa última dificuldade?

— Eu estava esperando você dizer isso.

Os dois riram e se encaminharam para a sala da reunião.

...

— Papai, papai! – gritava um menininho que vinha de encontro e pulava no colo de Jhonatan.

— Filho? Você está aqui?

— Sim papai, onde mais eu estaria? – O garoto corria pelas ruas cheias de gente, pelo parque lotado de crianças de 5 anos como ele... Quantas crianças! Ele ria e o sol estava forte e lindo.

Uma lágrima caiu dos olhos de Jhonatan.

Com um baque e um frio terrível, Jhonatan acordou do seu belo sonho. Jogaram um balde de água em sua cara. Ele estava tendo um sonho ótimo, como não tinha há tempo. Um sonho do passado, antes de tudo ser destruído... Um sonho com seu filho, com crianças..

— Acordou, Bela Adormecida? – gritou um homem que Jhonatan não enxergava muito bem. Ainda estava zonzo.

Sua pele marrom clara estava branca, pálida. Já tinham feito vários tipos de tortura psicológica com ele de ontem para hoje, já tinham implantado diversos pesadelos e visões do passado. E além disso tudo, ele não havia comido nem dormido. Por isso estava tão acabado.

Ele estava amarrado em uma cadeira, tremendo. A sala em que estava era escura e pequena, com 2 mulheres e 1 homem lá dentro de seguranças, aparentemente prontos para enforca-lo a qualquer momento. Um pouco acima da altura do seu ombro, perto da saída, havia uma grande janela preta em que não dava para enxergar o que tinha dentro.

Ravena entrou na sala acompanhada de Antônio e uma moçinha mais jovem. Jhonatan a reconhecia mais não lembrava de onde.

— Está bem, meu querido? Parece que sua noite não foi muito boa. – comentou Ravena sentando-se à frente dele.

— Foi ótima, tive lindos sonhos. – respondeu Jhonatan sarcástico.

— Então, temos novidades. – disse Antônio, também sentando-se. – E iremos acabar com sua curiosidade desde que você nos conte o que disse para seus pirralhos favoritos.

— Nada. Infelizmente dois seres humanos insuportáveis sempre chegam rápido nos lugares onde não deveriam estar.

— Gozado, não é? Nós apenas fazemos bem nosso trabalho, bem diferente de você. – respondeu Ravena, sorridente.

A moça que os acompanhava parecia um tanto quanto inquieta. Os olhos vermelhos... Ele lembrou dela!!!

Era Joshe, a vampira. Seu irmão gêmeo Joaquim tinha morrido no dia da Escolha. (sim galeres, a mesma do Prólogo) Desde que seu irmão morreu, Joshe tinha enlouquecido e saído pela cidade atacando várias pessoas, mordendo e matando alguns. Isso só durou dois dias, já que a Base fez de tudo para ocultar e prendê-la, antes que a notícia se espalhasse. Para eliminar maiores problemas, quando ela matou apenas um dos irmãos gêmeos (como vocês se lembram, todos na cidade têm irmãos gêmeos), a Base matou o outro para não terem do que falar. “Os dois foram embora”, foi a notícia que correu apenas para os vizinhos mais próximos.

Sim, era assim que a Base resolvia seus problemas. Silenciosa e mortiferamente. Quando Joshe foi presa, eles deram a ela duas opções: ser morte ou ajuda-los na pesquisa. Já que ela havia vivido anos na cidade, teria um olhar diferenciado sobre as situações. Com medo do que eles poderiam fazer com ela, ela aceitou o trabalho.

Desde então ela trabalhava como auxiliar na área de Pesquisar com o Cérebro, ajudando os doutores quando não entendiam certas atitudes dos jovens poderosos da cidade.

Mas a raiva de Joshe não tinha passado ainda. Tinha se escondido, mas ela estava lá, prontinha para atacar a Base em qualquer momento. Por conta do medo que ela tinha, raramente falava e ficava apenas sorrateira no canto. O que ela poderia fazer para, sozinha, atacar uma sociedade tão grande que controlava o mundo atualmente?

Jhonatan se lembrou de tudo isso (menos dos detalhes da raiva dela contra a Base, etc, pois isso ela não revelou para ninguém), já que ele trabalhava na área do Conhecimento de Pessoas, então sabia tudo de todos.

— Agora vocês estão pegando até os antigos cidadãos da cidade, perdidos e com medo, e recrutando eles para o trabalho duro? – Disse Jhonatan apontando para Joshe com a cabeça. – Ela é só uma criança. Todos eles são.

— Minha filha também era, Jhonatan. O seu também. – comentou Antônio. – Todos nós tínhamos uma criança que amávamos no mundo antigo. Agora não dá mais para amar ninguém ou agir como se amor resolvesse algo.

— Você também não pensa assim, Jhonatan. O que está tentando fazer, convencer alguém? Não tem ninguém aqui que você possa enganar. – disse Ravena. – Os seus protegidos nem lembram mais da sua existência.

— Eu já fiz muita merda na minha vida mas pelo menos percebi à tempo. Também dá tempo para vocês... Vocês tem que me ajudar. Eu tenho que impedir o Governador...

Ravena riu.

— Você não pode! Ninguém pode impedi-lo de fazer nada. Essa é a vantagem de ser dono do mundo.

— Mas ele não é!!!!! Só porque ele teve recursos para se aproveitar da nossa situação sem governo e instalar os centros de pesquisas não quer dizer que ele comprou o mundo.

— Negar o que está feito não vai mudar os fatos. – falou Antônio, chamando uma das guardas com a cabeça e fazendo um sinal.

A guarda caminhou até a cadeira de Jhonatan e lhe deu um soco na barriga e outro no rosto.

— Em respeito ao passado, por termos trabalhado juntos, você tem uma chance. Te daremos mais um dia para pensar à respeito. Contar tudo, se arrepender, pedir desculpas, implorar, você sabe o processo... – falou Ravena, olhando para suas unhas.

— Eu pensaria bem se fosse você. – Disse Antônio levantando-se da cadeira e batendo nos ombros de Jhonatan. – Você sabe muito bem o que o Governador faz com traidores. – ele sorriu, parecia estar se divertindo bastante com a situação.

Jhonatan fez uma expressão de puro desespero, já que ele sabia que não havia mais salvação pra ele. Ele encontrou os olhos de Joshe, que parecia entendê-lo. Jhonatan rezou pela primeira vez depois de anos.